biográficos e a experiência da história do tempo presente são exemplos da ressignificação do acontecimento inserido na complexa trama de experiências sociais que valorizam os sujeitos em seu tempo presente de ação.
As articulações entre a experiência temporal e a operação narrativa recolocam o presente como lugar das tensões entre experiência e expectativa. O acontecimento é ressignificado como o lugar da ação e redimensionado à escala dos indivíduos, porém não se limitando a ele, mas aberto ao diálogo com os contextos históricos do qual se constrói.
Estado, praticando o método científico apropriado das ciências da natureza como caminho para alcançar o passado e assim descrevê-lo da maneira pela qual se processou.
A geração seguinte de historiadores circunscrita no grupo francês dos Annales criticou de maneira veemente a maneira pela qual os metódicos dispunham da narrativa, negando-a enquanto parte do processo de construção do conhecimento do historiador. O termo “história- narrativa” foi utilizado para constranger um projeto de escrita a ser combatido, de uma pretensa cientificidade (FEBVRE, 1989; FURET, s/d). O remédio contra a moléstia do
“acontecimento único e singular”, que aproximava a história das novelas ficcionais pela densidade narrativa porque valorizava o acontecimento em seus detalhes pormenores, seria a injeção de problemas e hipóteses, relacionando as categorias temporais presente-passado, para alcançar a legitimidade científica. O combate era também contra uma forma narrativa que tinha como ponto de partida a busca pelas origens que levavam a “confundir uma filiação a uma explicação” (BLOCH, 2001, p. 34). O “ídolo das origens” deveria assim ser substituído pela colocação de hipóteses, já que não bastava seguir rigorosamente o método proposto para validar cientificamente a escrita. Para manter à vista a cientificidade como fator de legitimidade da história, determinava-se uma nova maneira de se produzir história: a
“história-problema” (FURET, s/d).
Os modelos demográficos e quantitativos da história econômica que seguiram em alta nos anos 1950, como também a história das mentalidades, em que ambas se inscreviam numa longa duração como modelo estrutural de alcance científico foi abalado pela transformação do mundo ocidental a partir dos anos 1960 com repercussões na década posterior, revelando esgotamento da história sociocultural francesa. Três pontos são considerados (AVELAR e GONÇALVES, 2015, p. 66).
O primeiro chamou atenção pelos crimes cometidos contra a humanidade no contexto do pós II Guerra onde se constatou factualmente os genocídios de povos e as abordagens tradicionais de representações não deram conta das experiências traumáticas. Reclamava-se por reconhecimento e reparações através do “dever de memória”, como uma obrigação ética.
Aliou-se a necessidade do povo alemão, pela necessidade de reconstrução identitária, colocar- se distante do nazismo, reclamando pelo julgamento e condenação dos responsáveis. Não procuravam recalcar o acontecido, mas trazer à memória como maneira de diferenciar os sujeitos responsáveis pelo acontecimento e o corpo da população.
O segundo ponto é de interesse acadêmico, em que os modelos estruturalistas e socioeconômicos que dominavam as explicações foram desprezados, a partir dos anos 1970 por uma aproximação mais antropológica e cultural das ciências humanas aos chamados
cultural studies. As transformações que se desenrolavam no mundo levaram a uma fragmentação e relativização das ciências em seus paradigmas, acentuando os discursos de representações culturais que valorizavam as construções sobre a memória social que por sua vez influenciavam a construções das identidades de grupos.
Por fim, o terceiro ponto é de matriz etnocêntrica, recaindo sobre os processos de descolonização da África e da Ásia, em que os povos reclamaram por novas narrativas que distanciavam daquelas impostas pelos colonizadores. Assim como os países que sofreram regimes ditatoriais na América Latina e caminharam para romper com as narrativas oficiais que buscavam autolegitimação.
Procurando afastar-se das explicações disponíveis e das teorias que as sustentavam, eclodiram movimentos que investiram em novas narrativas diante da necessidade de contar a sua história e assim construírem suas identidades sociais e coletivas. A disciplina, posta como fundamental para as construções identitárias, foi questionada em seus regimes de verdade, já que as formas modernas de procedimentos da narrativa não davam conta das novas experiências que emergiam.
A “guinada subjetiva” apresentou-se como caminho a possibilitar os sujeitos imersos em eventos traumáticos e ausentes de outras possibilidades de investigação de memórias a elaborarem seus discursos autocentrados, ao passo em que questionava a proliferação de relatos autobiográficos e biográficos promovidos pela mídia que banalizaram o testemunho (SARLO, 2007).
Um conjunto de transformações se processou tendo como resultado a renovação historiográfica que ocasionou redimensionamento científico da disciplina. A narrativa, enquanto elemento epistemológico da escrita da história foi mobilizada enquanto problemática para o estatuto de verdade do historiador, em sua confrontação com a subjetividade e experiências dos sujeitos.
Daí surge a noção de giro linguístico empregada para designar a crescente importância da linguagem para a escrita histórica (AVELAR e GONÇALVES, 2015). Apesar de não se comportar como um movimento ou um conjunto de ideias consensuais, o termo remete a capacidade de questionar a objetividade científica da história, reconhecendo o papel da linguagem na formação das subjetividades contemporâneas, através de novas formas de conceber o sujeito. As formações discursivas influenciaram na centralização do sujeito falante, situado no interior de práticas discursivas, valorizando sua ação e experiência.
A experiência microhistórica foi exemplar neste contexto de renovação, ao redimensionar o sujeito a partir de redefinições de escalas de observação, em que as ações e
experiências foram propostas em uma nova narrativa, tempo e espaço de intervenção na realidade
cujo traço distintivo foi apresentar a experiência como a base de um novo conhecimento que se localiza não mais nos discursos textualmente mediados, mas nas realidades da vida cotidiana e nas condições corporais e materiais da existência.
Deste ponto de vista, a cultura aparece menos como uma estrutura de signos, do que como um campo em que atuam agentes com distintas estratégias, racionalidades e competências, num exercício constante de construção e reconstrução do mundo. Tal reformulação da noção de cultura, pensada agora de modo processual e performático, proporciona ao historiador outro conjunto de referências para a reflexão sobre as relações entre experiência e linguagem (AVELAR e GONÇALVES, 2015, p. 73).
As novas referências da pesquisa histórica recaíram também no tempo do acontecimento, como escala temporal que trouxe de volta a dimensão humana, redefinindo o acontecimento como uma situação entre as possíveis, aberta as outras potencialidades e não encerrada em sua fixidez. O que se valoriza são as práticas, entendidas como interseção entre o discurso e a iniciativa individual, que trazem a indeterminação do futuro, o horizonte de expectativas que delas determinarão os sujeitos em seu campo limitado de ação, introduzindo as incertezas no devir.
A leitura histórica do acontecimento não é mais redutível ao acontecimento estudado, mas observado em seu rastro, situado numa cadeia eventiva. Todo discurso sobre um acontecimento transmite, conota uma série de acontecimentos anteriores, o que dá à trama discursiva que os reata numa inserção na intriga toda a sua importância (DOSSE, 2012, p. 168).
Seguindo a renovação historiográfica, a história do tempo presente se apresentou como uma experiência que tem a possibilidade de oferecer respostas do lugar do historiador, ou seja, através das regras que configuram a prática historiográfica, diante da demanda contemporânea da informação, em que o regime temporal presentista exerce pressão sobre a possibilidade analítica histórica.
Esta prática ressiginifica a relação temporal entre o historiador e seu objeto, já que não é posto apenas como observador, mas participante numa relação vivenciada com seu objeto, mantendo, desta maneira, uma unidade temporal pesquisador-objeto (LAGROU, 2007, p. 35).
Isto não significa encerrar-se em seus imediatismos, mas trazer a problematização da relação prática entre o presente e a última ruptura datada, que não necessariamente se remete ao tempo próximo.
Pieter Langrou, analisando o atual contexto da história do tempo presente, chamou atenção para a posição que a história se encontra entre dois paradigmas contraditórios:
preservação e emancipação. O primeiro parte da ideia de perda e esquecimento, frente a
iminência de desaparecimento das marcas do passado, o presente é carregado fortemente pela questão ética do “dever de memória”. O segundo vale-se da “invasão” do passado sobre o presente, trazendo uma problemática de avaliações e escolhas que recorrem as capacidades de tomadas de iniciativas, devendo ao historiador “arrancar, relativizar ou aniquilar a autoridade absoluta de argumentos históricos, de discursos nostálgicos e ‘de identidade’” (LAGROU, 2007, p. 42).
A reflexão do tempo presente no ensino de história enriquece as maneiras de concepção sobre as formas de produção do passado, que se encontram em constante tensão com os objetos de estudo do presente, principalmente nas demandas sociais pelos discursos de reconhecimento de identidade (que procuram serem compartilhados e reconhecidos ao contrário dos discursos ideológicos que buscam o convencimento), o que faz da memória parte integrante da prática crítica, isto é, diferenciando-se das mídias e mais consciente dos usos do passado.
A memória integra a preocupação do tempo presente assim como integra as demais práticas historiográficas. A criticidade com relação à evocação do passado é necessária para torna-lo significativo, entendendo que, tanto pela ausência como a impregnação de passados no presente, há demandas por explicações elaboradas do lugar ocupado pela prática social do professor e historiador.
Assumindo o ensino de história como objeto de pesquisa, as relações entre tempo e narrativa tornam-se produtivas para refletir sobre as práticas de veiculação de história nas salas de aulas, relacionadas a outros regimes de produção do passado: história acadêmica e história de uso massivo, esta última refletida nas mobilizações de recursos materiais pelos professores. Procuramos compreender como as articulações entre os diferentes regimes de produção do passado ocorrem, como também se estabelecem as relações entre narrativas identitárias, manipulações temporais e conteúdos escolares, que afetam as práticas da história escolar.