2. ESTADO E MERCADO EM POLÍTICAS DE SAÚDE: UMA VISÃO SOBRE O
2.1 O Estado e suas reinvenções em face ao mercado
2.1.1 Necessidades e contestações da Modernidade
O advento do mundo moderno está associado a sociedades agrárias que, cada vez mais expansivas comercialmente, produziram uma relativa imobilidade territorial e a necessidade de organização militar. No âmbito político, a concentração progressiva do poder político num território circunscrito, sustentado pela ideia de nação, pela substituição do uso da hereditariedade como fonte do poder e pela noção da impessoalidade do comando trouxe uma grande novidade: os Estados modernos (HAY E LISTER, 2006; BRAUDEL; 1987).
Em um momento inicial, ainda no século XV, o Estado foi entendido como solução para o que Maquiavel considerou uma tendência à desordem, divisões internas, oriundas da ação de homens naturalmente oportunistas e movidos pelas paixões. O Estado seria o corpo político necessário, submetido a um governo e às leis, para o exercício do poder político. Nesse sentido, ele atuaria como instância controladora dos choques de interesses societários antagônicos, para a segurança dos próprios homens. Isso não significaria uma solução definitiva do conflito social, uma vez que as leis são frutos de um infinito conflito de desejos contraditórios. Todavia, esperava-se que o Estado bem liderado fosse capaz de promover uma transformação do domínio privado em público e o estabelecimento da ordenação social e da liberdade (BIGNOTTO, 2005).
Entre os séculos XVII e XVIII, as condições de trocas, inicialmente características de uma economia de mercado, tornaram-se progressivamente mais desiguais, com a formação de longas cadeias de comércio que romperam as relações diretas entre o produtor e o destinatário e que possibilitaram o surgimento do comerciante, atravessador que conhecia as condições de mercado nas duas extremidades, podendo, dessa forma, estipular vantagens.
Também ocorreu o surgimento da burguesia como nova classe social. Esse contexto favorecia o não cumprimento de regras e dificultava a fiscalização (BRAUDEL, 1987), quando esperava-se que os Estados desempenhassem o papel de unificação de um mercado interno, com forte intervenção na economia, com barreiras tarifárias e medidas de apoio à exportação em um tipo de capitalismo que foi caracterizado por Bresser-Pereira (2011) como comercial.
Nesse período, o Estado foi percebido como uma artificialidade por autores contratualistas – especialmente Hobbes, Locke, Rousseau – preocupados em explicar as origens do Estado e justificar a melhor forma de governo, cada qual em uma perspectiva própria, bem como entender o papel do Estado em relação à propriedade privada (SMITH,
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1985). Hobbes e Locke consideraram a propriedade privada um direito natural. Porém, enquanto o primeiro achava que a alienação do privado ao corpo político seria o que garantiria a paz entre os homens, inversamente, Locke defendia que a razão principal da existência do Estado é a garantia desse direito, que, além de natural, é inviolável e legítimo. Nesse caso, o Estado seria preciso, pois o principal inconveniente do “estado de natureza” advém da incapacidade de os homens aplicarem as leis imparcialmente, dado o risco de os homens renunciarem à razão na hora da punição e violarem as leis que ordenam a paz. Em contrapartida, Rousseau explicou a importância do Estado em termos republicanos, colocando no centro de suas reflexões o problema da desigualdade entre os homens e da legitimidade da associação. Para ele, a propriedade privada é a razão da corrupção dos homens e de suas liberdades naturais. Portanto, mesmo que não abolida a propriedade privada, é essencial se criarem as condições para o exercício público da vontade em um governo do povo. Essas ideias, em alguma medida, influenciam concepções do Estado e suas funções até os dias atuais.
A partir do século XIX, o mundo da mercadoria ou da troca tornou-se rigorosamente hierarquizado e especializado, caracterizado pela divisão do trabalho, ainda mais agudizada pelo salto tecnológico, por mudanças nos padrões monetários, por empreendimentos industriais e pela expansão do comércio entre nações. Essas mudanças, impulsionadas pela incessante busca do aumento dos lucros, acentuaram a acumulação do capital nas mãos de poucos e as desigualdades, uma vez que a maior parte da população vivia em condições insalubres e indignas (BENDIX, 1979; BRAUDEL, 1987; POLANYI, 2013). O Estado, que no período mercantil havia mostrado bastante vitalidade em suas intervenções, agora se mostrava indefinido em termos teóricos e práticos, o que se evidencia nos debates entre as duas grandes utopias que caracterizam a modernidade: o liberalismo e o marxismo1.
Em forte oposição ao absolutismo nasceram diferentes proposições que alicerçaram o Estado moderno, liberal e democrático. O pensamento centrado nas liberdades pessoais (relacionadas à religião, imprensa, opinião, propriedade) tornou-se uma das principais fontes de justificação para um mercado alargado e um Estado limitado. Ainda que com preocupações e contribuições diferentes, autores como Hegel, Montesquieu e Kant
1 Aqui se faz referência a Reis (1997), quando afirma que a modernidade se constitui, sobretudo, como utopia (p.13). Essa frase se explica pela sua preocupação em se afastar do rótulo “modernidade”, que pode simplificar o olhar sobre processos extremamente contraditórios, tensos, e até mesmo violentos, com oscilações que fazem tudo poder parecer reversível, inclusive os valores e sonhos mais otimistas. Para o autor, a modernidade se caracteriza, sobretudo, por extrapolar direções de futuro que pareciam dadas.
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jamais arriscariam imaginar a liberdade sem a legalidade produzida pelo Estado. Ou seja, o Estado liberal de direitos, que rapidamente se tornou um modelo ideal para a Europa e os Estados Unidos da América no século XIX, e logo depois para vários outros países do mundo, possuía uma clara opção pela valorização e garantia da dimensão privada em relação à coisa pública. Porém, paradoxalmente, é a institucionalização de um poder político que torna capaz a garantia dessa primazia, inclusive nos assuntos econômicos (BOBBIO, 1984).
No campo econômico, o liberalismo mostrou-se menos convencido quanto à necessidade do Estado. Os ortodoxos liberais eram veementes em suas críticas à política mercantilista adotada pelos governos. Autores como Smith e Ricardo argumentam, por seu turno, que o crescimento econômico, a divisão do trabalho, a concorrência e a acumulação do capital são benéficos para a sociedade, portanto o mercado seria o melhor meio de promover o melhor ordenamento social. Isso se daria quando o trabalho encontrasse o seu preço no mercado; o dinheiro se sujeitasse a um mecanismo automático de ajuste; e os bens fossem livres para fluir de país a país, sem empecilhos ou privilégios. Portanto, os Estados eram indesejáveis em relação à intervenção nos assuntos da produção e do comércio (BRAUDEL, 1987).
Na prática, há indícios de que os princípios do liberalismo econômico teriam sucumbido sem as leis e sem uma burocracia capaz de executar tarefas que assegurassem alguma retaguarda, tanto para a indústria, quanto para os trabalhadores. Nas palavras de Polanyi (2013, p.172), “o caminho para o mercado livre estava aberto através do incremento de um intervencionismo contínuo, controlado e organizado de forma centralizada”. Isto é, os liberais viveram o dilema de dar precedência ao privado e à emancipação do mercado em relação ao Estado, o que não deixa de significar uma neutralização da política, e, ao mesmo tempo, se depararam com a necessidade de uma autoridade política que lhes desse legalidade, e, mais do que isso, legitimasse e criasse políticas que protegessem o capitalismo (REIS, 1997).
Apesar dos paradoxos, o Estado liberal, claramente guiado por ideias iluministas e de direitos civis e políticos inalienáveis, assumia o papel de guardião das leis e do mercado, as quais, não ao acaso, eram ditadas pela burguesia detentora dos meios de produção, em razão de um sufrágio restrito.
Defronte às graves consequências de um capitalismo sedento por lucro a qualquer custo, o tema da igualdade foi retomado com contornos novos e com vigor capaz de inserir não apenas uma nova teoria econômica e social, mas também uma original utopia para a
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época – o marxismo. Este indicou a impossibilidade de uma liberdade real, de liquidação das desigualdades e do estabelecimento de justiça em uma sociedade baseada na propriedade privada e no reforço da competição individual, afiançada pelo pensamento liberal. Ao invés de constituir o melhor ordenador da vida social, o mercado foi entendido como “o mecanismo pelo qual as desigualdades se reproduzem e aqueles menos favorecidos se veem compelidos a sujeitar-se à disciplina do capital” (REIS, 1997, p. 47), ou seja, em busca da sobrevivência, o homem continua escravo pelo trabalho. Para a preservação dessa submissão, nada é mais oportuno do que a função coercitiva do Estado, moldado pelas condições materiais e relações de produção das sociedades em cada condição histórica, e que havia se tornado “senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa” (MARX e ENGELS, 1998, p.42).
Por essa perspectiva, como as condições e relações do capitalismo geram, inevitavelmente, contradições e estrutura de classes antagônicas, em que uma classe domina a outra, a burguesia precisa de uma instância de poder externa que se oponha a qualquer mudança na dinâmica social para a manutenção do domínio já estabelecido.
Consequentemente, a luta entre as classes é o núcleo da política, e o Estado é uma ferramenta de dominação. Diante de cenários injustos, o horizonte deveria ser de superação da divisão social e de emancipação do homem, possível pelo continuado progresso das forças produtivas e pelo estabelecimento de sociedades baseadas na reciprocidade e solidariedade coletiva, nas quais o Estado tornar-se-ia completamente desnecessário (CARNOY, 1986).
Apesar de guiada por esse núcleo de ideias, a denominada esquerda, que se constituiu como força política orientada pelo marxismo, muitas vezes viu-se colocada diante da escolha entre reforma e revolução. Enquanto os partidos e os movimentos da esquerda revolucionária buscavam a mudança social ao derrubar o Estado capitalista, alterando os direitos básicos de propriedade, por outra via, a esquerda reformista preferiu a disputa democrática eleitoral e o desenvolvimento de políticas de bem-estar dentro dos parâmetros das relações de propriedade capitalistas (CAMERON, 2009). De uma forma ou de outra, nem nas experiências comunistas, nem no fortalecimento da socialdemocracia como alternativa mediadora entre interesses dos capitalistas e dos trabalhadores, observou-se um Estado frágil, à beira de inexistir.
Historicamente, a força estatal mostrou-se, de modos diversos, como elemento central para imprimir modelos de organização da sociedade. Para desgosto dos paradigmas que determinaram um lugar achatado ou mesmo dispensável para ele, uma autoridade política