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2.4 Neutralidade de rede

2.4.2 Neutralidade de rede no Brasil

A discussão sobre a neutralidade de rede no Brasil tem como marco histórico a aprovação do Marco Civil da Internet, oficialmente chamado de Lei nº 12.965/2014 (BRASIL, 2014), uma forma de regularizar o uso da internet no Brasil por meio da

previsão de princípios, garantias, direitos e deveres para quem usa a rede, bem como da determinação de diretrizes para a atuação do Estado. Posteriormente regulamentado pelo Decreto nº 8.771/2016 (BRASIL, 2016), que trata, entre outros pontos, das hipóteses em que a discriminação de pacotes de dados na internet e a degradação de tráfego são permitidas.

Depois de um longo e profundo debate com diversas modalidades de participação da sociedade, foi aprovada pelo Congresso Nacional, sancionada e publicada pela presidência no Diário Oficial da União, a Lei nº 12.965/14 (BRASIL, 2014), que entrou em vigor no país no dia 23 de junho de 2014. Conforme afirmam Garcia e Silva e Marques (2019, p. 6), “representa a consagração de um rol de princípios e normas a partir dos quais se estruturam as relações em torno da rede mundial de computadores no Brasil.”

Tendo como referência os dez princípios para governança e uso da internet elaborados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.BR, 2009), entre os principais eixos temáticos adotados pelo Marco Civil da Internet, estão a privacidade, a neutralidade de rede e a inimputabilidade da rede. Tais princípios devem garantir os direitos e liberdades democráticas de internautas frente a ações abusivas de governos e empresas prestadoras de serviços (BEZERRA; WALTZ, 2014).

No Marco Civil da Internet, tais princípios estão elencados em Brasil (2014, p. 1) no Artigo 3º e em Brasil (2014, p. 3) no Artigo 18º:

Art. 3º A disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princí- pios:

I - garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição Federal;

II - proteção da privacidade;

III - proteção dos dados pessoais, na forma da lei;

IV - preservação e garantia da neutralidade de rede;

V - preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas;

VI - responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei;

VII - preservação da natureza participativa da rede;

VIII - liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que não conflitem com os demais princípios estabelecidos nesta Lei.

Parágrafo único. Os princípios expressos nesta Lei não excluem outros previstos no ordenamento jurídico pátrio relacionados à matéria ou nos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.

[. . . ]

Art. 18. O provedor de conexão à internet não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros.

Presente desde o início do debate sobre o Marco Civil da Internet, o tema neutrali- dade de rede ainda hoje suscita calorosas discussões sobre a compatibilização desse conceito com o estabelecimento de modelos comerciais por provedores de conexão (PEREIRA NETO et al., 2019).

Os contornos da neutralidade de rede são definidos pelo Marco Civil da Internet em seu Artigo 9º:

Art. 9º O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação.

§ 1º A discriminação ou degradação do tráfego será regulamentada nos termos das atribuições privativas do Presidente da República previstas no inciso IV do art. 84 da Constituição Federal, para a fiel execução desta Lei, ouvidos o Comitê Gestor da Internet e a Agência Nacional de Telecomunicações, e somente poderá decorrer de:

I - requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplicações; e

II - priorização de serviços de emergência.

§ 2º Na hipótese de discriminação ou degradação do tráfego prevista no

§ 1º , o responsável mencionado no caput deve:

I - abster-se de causar dano aos usuários, na forma do art. 927 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil;

II - agir com proporcionalidade, transparência e isonomia;

III - informar previamente de modo transparente, claro e suficientemente descritivo aos seus usuários sobre as práticas de gerenciamento e mitigação de tráfego adotadas, inclusive as relacionadas à segurança da rede; e IV - oferecer serviços em condições comerciais não discriminatórias e abster-se de praticar condutas anticoncorrenciais.

§ 3º Na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados, respeitado o disposto neste artigo. (BRASIL, 2014, p. 2).

A neutralidade foi considerada um princípio do uso da internet no Brasil, estando os provedores de conexão obrigados a tratar de forma isonômica os dados que transitam por suas redes. Conforme previsto, as possíveis exceções a esse comando deveriam ser regulamentadas por decreto presidencial, ouvidos a ANATEL e o GGI.br (FORGIONI;

MIURA, 2015).

Publicado em 11 de maio de 2016, o Decreto nº 8.771/2016 regulamentou as hipóteses admitidas de discriminação de pacotes de dados na internet e de degradação de tráfego.

Art. 5º Os requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada de serviços e aplicações devem ser observados pelo responsável de atividades de transmissão, de comutação ou de roteamento, no âmbito de sua respectiva rede, e têm como objetivo manter sua estabilidade, segurança, integridade e funcionalidade.

§ 1º Os requisitos técnicos indispensáveis apontados no caput são aqueles decorrentes de:

I - tratamento de questões de segurança de redes, tais como restrição ao envio de mensagens em massa ( spam ) e controle de ataques de negação de serviço; e

II - tratamento de situações excepcionais de congestionamento de redes, tais como rotas alternativas em casos de interrupções da rota principal e em situações de emergência.

[. . . ]

Art. 8º A degradação ou a discriminação decorrente da priorização de serviços de emergência somente poderá decorrer de:

I - comunicações destinadas aos prestadores dos serviços de emergência, ou comunicação entre eles, conforme previsto na regulamentação da Agência Nacional de Telecomunicações - Anatel; ou

II - comunicações necessárias para informar a população em situações de risco de desastre, de emergência ou de estado de calamidade pública.

Parágrafo único. A transmissão de dados nos casos elencados neste artigo será gratuita. (BRASIL, 2016, p. 2)

O Decreto nº 8.771 reitera o exposto no Artigo 9º da Lei nº 12.965, de 2014, garantindo a preservação do caráter público e irrestrito do acesso à internet. Enfatiza que a discriminação ou a degradação de tráfego são medidas excepcionais, visto que somente poderão decorrer de requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada de serviços e aplicações, ou da priorização de serviços de emergência. Além disso, o Decreto nº 8.771 elucida que ficam vedadas as condutas unilaterais ou os acordos entre o responsável pela transmissão, pela comutação ou pelo roteamento e os provedores de aplicação. E, ainda, o Decreto nº 8.771 ressalta que as ofertas comerciais e os modelos de cobrança de acesso à internet devem preservar uma internet única, de natureza aberta, plural e diversa, compreendida como um meio para a promoção do desenvolvimento humano, econômico, social e cultural, contribuindo para a construção de uma sociedade inclusiva não discriminatória (BRASIL, 2016).

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