O advento da pandemia do coronavírus e das medidas de restrição da circulação provocou o imediato fechamento dos presídios para pesquisadores/as.
Pela primeira vez, a dificuldade para pesquisar no cárcere não veio por nenhuma demanda burocrática da administração penitenciária, mas por algo externo que afetou o país e o mundo, pondo a população carcerária em uma situação delicada com o risco iminente do aumento da taxa de mortalidade no sistema, que já era alarmante.No Rio de Janeiro, a taxa de mortalidade é cinco vezes maior que a média nacional, além da taxa no estado estar em franco aumento: de 36 a cada 10.000 presos em 2014, para 52 a cada 10.000 em 2017, segundo dados da Fiocruz68. 83% dessas mortes não são relacionadas à violência física, mas decorrem de doenças que poderiam ser diagnosticadas e tratadas. As mortes causadas por doenças infecciosas são três vezes mais frequentes na população carcerária do Rio de Janeiro do que na população geral do estado, e as pessoas presas têm risco cerca de nove vezes superior ao da população geral de morrer por tuberculose69.
Dessa forma, a interrupção dos contatos externos com a população carcerária (exceto agentes penitenciários e outros/as funcionários/as, a despeito dos afastamentos por conta de comorbidades) operou como medida protetiva de garantia da vida, ainda que não tenha evitado que mortes decorrentes do coronavírus tenham ocorrido nas prisões cariocas.
Tal situação forçou que a pesquisa sobre a paternidade no sistema prisional sofresse mudanças em sua condução. Após muitos meses de incerteza com a espera da autorização da SEAP para realização da etapa de campo da pesquisa e poucas idas às unidades prisionais de Gericinó, narradas anteriormente, a pandemia selou a
68 Ver <http://informe.ensp.fiocruz.br/noticias/45983>. Acesso em: 01 abr. 2021.
69 Ver <https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-inedito-analisa-causas-de-obito-no-sistema- penitenciario-do-rj> Acesso em: 03 abr. 2021.
impossibilidade de realizar mais entrevistas e atividades em grupo com os internos do sistema prisional carioca, como inicialmente planejado.
No entanto, sendo o método da pesquisa a cartografia, não se pode dizer que a interrupção das visitas à prisão configura um problema. Isso porque a perspectiva cartográfica propõe justamente uma reversão nas metodologias tradicionais de pesquisa científica: não mais um caminho para alcançar metas pré-determinadas; o que a pesquisa cartográfica visa é o próprio caminhar que, no caminho, vai traçando a cada momento suas metas (PASSOS & BARROS, 2015), que se renovam. Dessa forma, o que está em jogo não é a adequação ou não do andamento da pesquisa ao que foi inicialmente planejado, mas os processos que são acionados no decorrer do ato de pesquisar, fazendo com que seus objetivos variem conforme o jogo de forças e intensidades que emerge no percurso da pesquisa. Isso faz com que a cartografia não seja um método de pesquisa neutro ou desinteressado com relação às condições e atravessamentos da pesquisa, acionando a implicação do pesquisador frente às linhas que compõem a realidade, sobre as quais o ato de pesquisar produz também efeitos e, nesse sentido, pode-se dizer que toda pesquisa é uma pesquisa- intervenção.
Defender que toda pesquisa é intervenção exige do cartógrafo um mergulho no plano da experiência, lá onde conhecer e fazer se tornam inseparáveis, impedindo qualquer pretensão à neutralidade ou mesmo suposição de um sujeito e de um objeto cognoscentes prévios à relação que os liga. Lançados num plano implicacional, os termos da relação de produção de conhecimento, mais do que articulados, aí se constituem. Conhecer é, portanto, fazer, criar uma realidade de si e do mundo, o que tem conseqüências políticas. Quando já não nos contentamos com a mera representação do objeto, quando apostamos que todo conhecimento é uma transformação da realidade, o processo de pesquisar ganha uma complexidade que nos obriga a forçar os limites de nossos procedimentos metodológicos.O método, assim, reverte seu sentido, dando primado ao caminho que vai sendo traçado sem determinações ou prescrições de antemão dadas. Restam sempre pistas metodológicas e a direção ético-política que avalia os efeitos da experiência (do conhecer, do pesquisar, do clinicar, etc.) para daí extrair os desvios necessários ao processo de criação (PASSOS & BARROS, 2015, pp. 30-31).
O caráter processual da pesquisa cartográfica diz respeito à sua ruptura com o método da ciência moderna: não se visa isolar o objeto de suas articulações históricas e de suas conexões com o mundo. O objetivo da cartografia é traçar a rede de forças à qual o objeto ou o fenômeno abordado se encontra conectado, evidenciando suas modulações e seu movimento permanente (BARROS &
KASTRUP, 2015). O cartógrafo não busca a “explicação final” daquilo que é seu objeto. Segundo Rolnik (2011, p. 66), “entender”, “para cartógrafo, não tem nada a ver
com explicar e muito menos com revelar. Para ele não há nada em cima – céus da transcendência –, nem embaixo – brumas da essência. O que há em cima, embaixo e por todos os lados são intensidades buscando expressão”. Fomos a elas.
No entanto, se é verdade que o pesquisador/a não dá a palavra final sobre o fenômeno estudado, tampouco pode-se dizer que ele/a se exime de se posicionar. A pesquisa é sempre o resultado de uma implicação, de um encontro entre mundos objetivos e subjetivos onde há a co-criação de discursos sobre as afetações dos sujeitos envolvidos na pesquisa. No contato com instituições atravessadas por situações de violências e torturas, como as prisões, o compromisso ético-político da pesquisa cartográfica evoca a necessidade de abordar aquilo que, para os sujeitos que habitam a prisão desde diferentes lugares (pessoas presas, funcionários/as, pesquisadores/as), é da ordem do infame, do abjeto ou do intolerável. Não se pode deixar de nomear aquilo que aniquila a vida de populações vulneráveis, perpetuando desigualdades estruturais que envolvem aspectos de classe, raça e de gênero.
A pandemia do coronavírus, portanto, possui uma intensidade e uma magnitude que não pode ser ignorada pela pesquisa. Ela intensifica o caráter desumanizador e massacrante das prisões brasileiras, como discutiremos a seguir, e nos leva a buscar novos caminhos para a pesquisa, num cenário de uma catástrofe sanitária, política e institucional, agravada de forma dramática pela condução do governo Bolsonaro das ações frente à pandemia. Suas políticas nesse período podem ser vistas como uma verdadeira estratégia institucional de propagação do coronavírus e sabotagem sistemática das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) de controle da pandemia70, atrasando a aquisição de vacinas e levando o país à posição de epicentro mundial do COVID-19 e suas mutações decorrentes do total descontrole da transmissão comunitária do vírus.
Uma das medidas mais eficazes e recomendadas de contenção da transmissão do coronavírus é o isolamento social. Tendo condições de permanecer em casa, pude continuar desenvolvendo a pesquisa totalmente isolado em casa, convivendo apenas com minha família. No lugar de análises cartográficas a partir do encontro presencial com as prisões e seus habitantes, intensifiquei nesse período a pesquisa documental sobre as prisões, especialmente a partir do atravessamento da pandemia. A rotina de aulas, encontros na UERJ e o princípio das idas ao campo foi
70 Ver <https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma- estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html>. Acesso em: 03 abr. 2021.
substituída pela monotonia das leituras, escritas e reuniões online em casa. A quebra da rotina e a impossibilidade de realizar encontros presenciais com colegas e amigos/as provocou sentimentos compartilhados pelo tecido social de angústia, solidão e tristeza.
Nesse período dramático, ficaram evidentes as linhas duras da vulnerabilidade física e afetiva a que estão expostos grandes setores da população e, em especial, a população privada de liberdade. A população pobre, por um lado, que, com pouco ou nenhum auxílio governamental para poder se manter em segurança em casa se viu exposta à necessidade de trabalhar (como se houvesse um) normalmente – muitas vezes embarcando em transportes públicos superlotados – e com isso ficou mais exposta à infecção pela COVID-19. Por outro, de forma mais dramática, a população prisional ficou impossibilitada de ter qualquer contato com seus familiares71 e o mundo externo, aumentando a precariedade das condições de vida no cárcere e os sentimentos de angústia, medo e desamparo. Suas famílias, que mesmo antes da pandemia poderiam ter dificuldades de acessar informações sobre seus parentes presos, viram-se completamente impossibilitadas de saber sobre o estado de saúde deles, como discutiremos mais à frente.
Um exemplo disso foi o caso das cartas feitas por presidiários de São Paulo despedindo-se de suas famílias, frente à perspectiva de uma possível infecção e morte provocada pelo COVID-19 e pela sistemática insalubridade e desassistência à saúde no cárcere. Para muitos presidiários, nesse período, a morte se tornou mais que um medo, mas uma possibilidade cada vez mais próxima e real.
Estou apavorado com o que pode vir. Eu quero que você saiba que você foi a melhor mulher do mundo. Em tão pouco tempo me fez muito feliz e realizado, até aqui só me deu orgulho. Me sinto o homem mais feliz do mundo.
Te amo e obrigado por tudo o que você fez por mim. Por ter me dado uma oportunidade de ter um filho com você. Você é uma mulher maravilhosa. Até as suas brigas estão fazendo falta. Te amo, te amo. Espero que você nunca se esqueça de mim. Porque aonde eu estiver nunca vou te esquecer.72
71 Já foi abordado no capítulo 2 que as condições das pessoas presas são sempre piores quando não é possível receber visitas – que, nas palavras de Samuel Lourenço Filho, configura os
“caidinhos”, que, por não receberem visitas, dependem da solidariedade dos companheiros de cela para não ficarem reféns da precariedade de alimentação e itens diversos oferecidos (ou não) pela administração penitenciária. No entanto, com a pandemia, isso se intensificou pela
impossibilidade de qualquer visita, e mesmo que fosse permitido enviar itens através dos correios, ou levar presencialmente à custódia, a situação tanto afetiva quanto material no interior das prisões se tornou mais difícil.
72 Ver <https://noticiapreta.com.br/com-medo-de-morrerem-infectados-pelo-coronavirus-privados-de- liberdade-enviam-cartas-de-despedida-a-familiares/> . Acesso em: 03 abr. 2021.
E, mais que uma sensação subjetiva causada pelo completo isolamento do mundo externo, as mortes por coronavírus no sistema prisional foram e são uma realidade cruel. O ambiente das celas, superlotado e com pouca ventilação, propício a infecções de doenças respiratórias, transformou as prisões brasileiras em um ambiente privilegiado para a transmissão do novo coronavírus. Se a tortura e o massacre silencioso já habitavam o cotidiano do cárcere, o advento da pandemia operou um incremento da produção de corpos que adoecem, definham e morrem no sistema prisional. Mortes naturalizadas através da decisão política de desumanizar pessoas presas e produzir precariedade e desassistência nos espaços de privação de liberdade.