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4.2 Atenção Básica à Saúde e suas práticas de cuidado no contexto da pandemia de Covid-

4.2.1 Notas sobre o conceito de cuidado em saúde

Com o objetivo de ancorar teoricamente as nossas discussões sobre o processo de cuidado na ABS no município de Iranduba durante os dois primeiros anos da pandemia de Covid-19, realizaremos uma breve discussão sobre o conceito de cuidado em saúde no Brasil, apresentando o arcabouço teórico que fundamenta as análises e as reflexões desta pesquisa. O conceito de cuidado em saúde aparece na literatura científica de forma multifacetada, polissêmica e marcada por uma pluralidade de discursos. Trata-se de um assunto que circula de modo transversal e transdisciplinar aos estudos sobre processos saúde-doença e é apreendido em múltiplos níveis de existência, dado que opera distintos níveis de realidade (ALMEIDA FILHO, 1997; 2000b).

Na área da saúde coletiva, mais precisamente, as concepções sobre o cuidado em saúde se constroem a partir de três dimensões: a técnico-científica, a subjetivo-relacional e a sócio- política (CRUZ, 2009). Para pensarmos o cuidado em saúde, devemos considerar, portanto, não apenas as questões relativas aos procedimentos técnicos e burocráticos da cura de uma enfermidade, mas também “uma complexa trama de atos, de procedimentos, de fluxos, de rotinas, de saberes, num processo dialético de complementação, mas também de disputa”

(CECÍLIO; MERHY, 2003, p. 2), de modo que “o cuidado no campo da saúde é sua própria razão de ser. É o meio e o fim das ações desenvolvidas pelos profissionais que atuam no campo”

(SILVA et al., 2013, p. 287). Dessa forma, “o que nos dá identidade de trabalhadores de saúde é o fato de que, de um modo ou de outro, nosso trabalho resulta em cuidado” (CECILIO;

LACAZ, 2012, p. 8).

Afirma Cruz (2009), que neste campo de atuação profissional, o cuidado é produzido no encontro entre as pessoas, especialmente entre as que buscam cuidados e aquelas instituídas no ofício de cuidar. Essas confluências são atravessadas por tecnologias, saberes, técnicas, normas, sistemas, culturas, afetos e subjetividades. De caráter assimétrico, os encontros acontecem porque o agente que precisa de cuidados se coloca – e/ou é colocado – sob a responsabilidade daquele que deve cuidar. Assim, o cuidado em saúde é um acontecimento permeado por um conjunto articulado de ações, eticamente, comprometidas, “perpassado pelos

valores de solidariedade, equidade, justiça, cidadania, liberdade, emancipação, autonomia, alteridade, respeito à diferença, e democracia” (PAIM, 2006, p. 134).

Para Ayres (2009), o cuidado é um construto filosófico e uma atitude prática produzido nas mais diversas ações terapêuticas. Ou seja, trata-se de uma interação entre duas ou mais pessoas com o objetivo de estabelecer uma cura, um bem-estar. O cuidado assim, longe de ser um conjunto de procedimentos e técnicas voltadas para o reestabelecimento da saúde, é o entrelaçamento de uma compreensão filosófica e prática da realidade mediada por saberes específicos. Neste sentido, ressaltam Zoboli (2007) e Moreira e Franco (2016): o ato de cuidar é o encontro entre quem cuida e quem é cuidado, no sentido de acompanhar e fomentar a saúde e o bem-estar. Assim, envolvendo preocupação e responsabilidade com o outro, o cuidado implica em ações éticas e interativas que vão para além das normativas e tecnicidades, sempre levando em consideração as singularidades e as subjetividades.

Segundo destacam Melo et al. (2018), o cuidado em saúde é compreendido enquanto uma prática social. Ele não é um valor em si. Isso significa que as práticas de cuidado não podem ser definidas a priori, mas sim em ato, no encontro. Ou seja, determinadas práticas de cuidado tem a possibilidade de produzir efeitos nefastos, ao passo que outra podem contribuir com a defesa de valores que defendemos e acreditamos. É nesse sentido que concordamos com os autores, pois acreditamos em um cuidado em saúde para além de atos prescritivos. E mais:

o modo de cuidado baseado na potência de vida das pessoas baseia-se na perspectiva de que é importante valorizar e reforçar a capacidade de se viver e de se produzir (novos) sentidos para a vida individual e coletiva.

Nesse sentido, o cuidado em saúde é uma ação e, para existir, deve ser praticado. Daí a importância de se pensar nos processos de trabalho em saúde. No sistema público brasileiro, o cuidado em saúde pressupõe um trabalho multiprofissional e coletivo que supere o corporativismo e as ações hiperdirecionadas, visando à compreensão e à resposta às demandas de saúde trazidas pelas/pelos usuárias/usuários.

Para isso, os processos de trabalho devem considerar as múltiplas e heterogêneas formas de cuidar das diversas áreas de conhecimento, bem como respeitar os saberes e as práticas advindas das vivências e experiências das/dos usuárias/usuários. É no encontro entre as/os trabalhadoras/trabalhadores e entre as/os trabalhadoras/trabalhadores e as/os usuárias/usuários que a prática de cuidado em saúde acontece, sempre perpassada pelos modos de sentir, representar e vivenciar as necessidades, de forma que o processo de trabalho em saúde está intimamente interligado com cuidado em saúde (MERHY, 2013).

Faz-se importante destacar que a expressão ‘processo de trabalho em saúde’ se refere a uma dimensão microscópica do trabalho em saúde, consistindo na prática cotidiana de produção e consumo de serviços de saúde por meio das/dos trabalhadoras/trabalhadores. Assim, uma vez que os serviços se organizam visando atender às demandas ou até mesmo a identificar novas necessidades e criar processos de trabalho mais convenientes de acordo com a ocasião, fica nítida a relação direta entre o trabalho e as necessidades humanas (PEDUZZI; SCHRAIBER, 2009).

Nesse sentido, (re)afirmamos que os processos de trabalho em saúde pressupõem o trabalho vivo em ato. E segundo destaca Merhy (2002), apesar de a lógica capitalista de distanciamento, objetividade e neutralidade entre pensar e agir estar muito presente no campo da saúde, especialmente durante a formação profissional, ela acaba se dissolvendo nas práticas cotidianas. Isso porque, como já apontado, o trabalho nessa área acontece em um ‘encontro’

dotado de tecnologias, técnicas e saberes, mas também de culturas, imprevistos, subjetividades e improvisos, que trazem vida ao ato de cuidar.

Para Faria e Araújo (2010), o trabalho em saúde pressupõe interação entre as pessoas e é dependente das potencialidades instituintes dos encontros realizados nos serviços de saúde.

Por isso o consideramos um lugar privilegiado para a construção de novos saberes e de sujeitos protagonistas, favorecendo o intercâmbio entre as/os trabalhadoras/trabalhadores e a comunidade. Isso, entretanto, provoca um tensionamento, já que o “profissional da saúde pública vive [...] neste campo de tensões em que uma formação profissional tecnicista se mostra insuficiente para efetivar o projeto de democratização da saúde desejado desde os primeiros movimentos populares e na criação do SUS” (MORSCHEL; BARROS, 2014, p. 938).

Ressalta Merhy (1997), por sua vez, que as relações do cotidiano do serviço que fundamentam a organização dos processos de trabalho e a produção da saúde – por ele chamadas de micropolítica do trabalho em saúde – são imprescindíveis e devem ser entendidas para que sejam promovidas mudanças reais nas formas de se produzir saúde.

Essa produção e reprodução das relações dos cotidianos de trabalho, varia de acordo com as características dos serviços de saúde e seus territórios. Isso fica bastante evidente quando resgatamos as categorias de tecnologias de saúde construídas por Merhy (1997), já referidas neste estudo. São elas: a) tecnologia dura, b) a tecnologia leve-dura, c) e a tecnologia leve. Para ele, apesar das diferenciações, tais categorizações são sempre interrelacionadas, e que as tecnologias leves no cuidado em saúde são importantes para a construção de um espaço relacional trabalhadora/trabalhador-usuária/usuário saudável e eficaz.

No caso dos serviços de saúde da ABS, as tecnologias leves são a principal força-motriz para a produção de cuidado. Elas compreendem o acolhimento, a integração, a formação de vínculos, o espaço para encontros e escuta, o respeito e a valorização à autonomia, a cooperação e a corresponsabilização, o uso de habilidades de comunicação para adequada expressão verbal, o bom humor, a empatia e a postura ética.

Entretanto, elas se tornam um desafio quando as formações de trabalhadoras/trabalhadores não preparam o acadêmico para permitir que o encontro terapêutico tenha também subjetividades, afetos, cultura e diálogo. Nesse sentido, o plano micropolítico na ABS deve fabricar territórios existenciais, onde ocorrem os processos de subjetivação, e, em cada território, são produzidos encontros, com seus limites e possibilidades, a partir das relações de poder e de resistência ao poder neles mediadas (FEUERWERKER, 2014).

É nesse sentido que afirmamos que as formas de existir/resistir e as possibilidades de existências se fazem importantes no processo de cuidado em saúde, visto que o processo de trabalho em saúde é um espaço-tempo permeado por tensões, invenções, experimentações de atos e ações cuidadoras ou mesmo as suas negações. E estas ocorrem em razão da rudeza ou insensatez dos momentos vivenciados na contemporaneidade, marcados pela negação de direitos fundamentais, precarização do direito ao trabalho e dos vínculos empregatícios das/dos trabalhadoras/trabalhadores da saúde, os quais tem se agravados e acentuados nesses tempos da pandemia de Covid-19. Entretanto, seguimos luta-busca para que possamos construir-promover em um Sistema Único de Saúde cada vez justo, igualitário, equânime e integral.

4.2.2 Práticas de cuidado da Atenção Básica à Saúde no enfretamento da pandemia de Covid-