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NOVIDADE, ORIGINALIDADE E IMPORTÂNCIA DA OBRA DE ELIADE

ELIADE: IMPORTÂNCIA, ESTRUTURAÇÃO E ALCANCE DA SUA OBRA

I.1. NOVIDADE, ORIGINALIDADE E IMPORTÂNCIA DA OBRA DE ELIADE

Neste item, pretendemos evidenciar a novidade que a obra de Eliade representou no campo da História das Religiões e, ao mesmo tempo, a originalidade do seu pensamento; iremos apontar ainda a importância que a obra de Eliade tem não só na área da citada disciplina, mas também para as disciplinas que têm o homem como o seu objeto de estudo e, ainda, a sua relevância não somente para a cultura ocidental em geral, como também para um diálogo profícuo com as outras culturas.

Eliade nasceu em Bucarest, em 13 de março de 1907341, e faleceu em Chicago, em 22 de abril de 1986342, sendo normalmente referido pelos estudiosos da área da História das Religiões como um dos mais influentes historiadores das religiões e um dos mais abalizados intérpretes do símbolo e do mito religiosos 343344.

341 Apud Turcanu, in Mircea Eliade, p. 7.

342 Ibidem, p. 517.

343 A propósito da importância de Eliade como historiador das religiões e especialista em matéria de interpretação de símbolos e mitos religiosos, leia-se o que escreveu Allen, Associate Professor do Departamento de Filosofia da University of Maine, um dos mais renomados especialistas no pensamento eliadiano (In Mircea Eliade y el fenómeno religioso, p. 29; tradução do texto em espanhol pela autora):

Eliade é considerado geralmente como o principal e o mais escutado de todos os historiadores das religiões, e sua autoridade em matéria de interpretação de mitos e símbolos é universalmente reconhecida. Citemos, a titulo de exemplo, alguns dos elogios que lhe foram tributados: Eliade, escreve Harvey Cox, ‘é a maior autoridade mundial em história das religiões’. ‘People Weekly’, revista americana de grande difusão, vê em Eliade, ‘o maior

166 No campo da disciplina a que se dedicou, a História das Religiões, a orientação metodológica adotada por Eliade, que congrega de uma forma articulada fenomenologia da religião e história das religiões, representou uma novidade e ao mesmo tempo uma evolução significativa em relação às formas de abordagem da religião utilizadas por seus predecessores345.

Em primeiro lugar, apesar de sua orientação severamente empírica na pesquisa científico-religiosa, Eliade realizou seus estudos sobre a religião e o fenômeno religioso utilizando um método claramente fenomenológico346 fundado no estruturalismo347 e dotado de um arcabouço hermenêutico configurado na morfologia do sagrado; mediante a realização de um processo hermenêutico no desenrolar do qual utiliza os sistemas simbólicos universais e autônomos que conformam a morfologia do sagrado, o referido historiador das religiões extrai as significações dos dados religiosos; por meio deste método fenomenológico-hermenêutico, além de se posicionar contra as tendências positivistas naturalistas que predominaram no século XIX no campo dos estudos da religião, o nosso autor também marcou posição frente às correntes positivistas – da especialista em história das religiões e em tudo quanto tenha relação com os mitos’. Mac Linscott Ricketts, ainda reconhecendo que muitos de seus colegas não subscrevem todas as teses de Eliade, nem sua metodologia, afirma que ‘se a história das religiões possui hoje metodologia própria, isto se deve a Eliade. E se tivesse que apontar uma primeira figura indiscutível nesse campo, haveria de elegê-lo, pois os historiadores das religiões sempre recorrem a ele’.

Em seu mais recente Myth and Religion in Mircea Eliade (Prefácio, p. xi), Allen reitera a referência a Eliade como tendo sido freqüentemente mencionado pelos estudiosos e na imprensa popular como o mais influente historiador das religiões e o principal intérprete mundial do símbolo e do mito. Por sua vez, Rennie, que passou a despontar como especialista no pensamento de Eliade na Europa a partir da publicação, em 1996, da sua obra Reconstructing Eliade: making sense of religion, que foi prefaciada por Mac Linscott Ricketts, este último também especialista em Eliade e tradutor dos seus escritos feitos na sua língua-mãe, o romeno, refere-se a Eliade como a um estudioso de estatura de primeira linha no campo de estudo da história das religiões ( p. 1).

344 Sobre Eliade como historiador das religiões, literato e figura multidisciplinar, remetemo-nos novamente a Allen, (in Mircea Eliade y el fenomeno religioso, p. 29, tradução livre pela autora do texto em espanhol), que assim o descreve:

Mircea Eliade é uma das grandes personalidades do século XX, tanto na condição de especialista em história das religiões, como na de escritor. Não poucos vêm nele um dos principais representantes da literatura romena contemporânea. Seu talento se exercitou nos domínios mais diversos. É uma figura essencialmente multidisciplinar, e a antropologia, a sociologia, a psicologia, a literatura, a hermenêutica, a filosofia da linguagem, a estética, a fenomenologia, a filosofia religiosa, a filosofia da história, a antropologia filosófica e muitas outras disciplinas estão em dívida para com ele.

345 Pode-se visualizar melhor este aspecto – a inovação representada pela abordagem metodológica em geral e fenomenológica em particular levada a efeito na obra eliadiana – no corpo do item 1.2. deste trabalho, onde localizamos a citada obra no tempo e no contexto da História das Religiões.

346 Sobre a condição de Eliade como fenomenólogo da religião fundamentamos o nosso posicionamento no subitem 2.4. deste trabalho. E sobre o método fenomenológico-hermenêutico utilizado pelo citado autor no campo da sua fenomenologia da religião, tal matéria foi tratada nos itens 2.6 e 2.7 retro.

347 Um estruturalismo que é peculiar, como vimos no subitem 2.6.2. e no item 2.7. deste trabalho , não correspondendo ao estruturalismo da corrente estruturalista representada pelo pensamento de Claude Lévi-Strauss.

167 sociologia, da antropologia, da psicologia e da história348 – que começaram a se afirmar na mesma área de estudos a partir do início do século XX349; sob outro prisma, a fenomenologia da religião eliadiana representou um progresso considerável ante as obras de outros estudiosos que o precederam e que são apontados como fenomenólogos da religião clássicos, como Rudolf Otto e Gerardus van der Leeuw350.

Depois, o trabalho de Eliade representa também uma inovação no que se refere à forma de abordagem que ele faz do fenômeno religioso sob o prisma da história das religiões: a história das religiões construída pelo referido autor, integrando de uma forma articulada fenomenologia da religião e história, corresponde a uma anamnese das tradições religiosas da humanidade, que é mais do que um empreendimento simplesmente historiográfico, e isto na medida em que é uma anamnese das significações dos fenômenos religiosos; a história das religiões, para Eliade, corresponde à compreensão da história das situações existenciais, dos tempos pré- históricos aos nossos dias351. Para comprovar a inovação da abordagem de Eliade no campo da história das religiões, o termo de comparação deve ser localizado na obra do renomado historiador das religiões italiano Raffaele Pettazzoni, ao qual o nosso autor sempre se dirigiu o sobre o qual ele sempre se referiu como o seu mestre, o seu modelo.

Pettazzoni tentou toda a sua vida fazer uma história geral das religiões que coordenasse os dados religiosos um com o outro, estabelecesse relações entre eles e os agrupasse de acordo com essas relações, isto sem apelar para a fenomenologia da religião. No final da sua vida, Pettazzoni reconheceu a importância da fenomenologia da religião para a extração do significado dos fenômenos religiosos, estes que, segundo ele, o historiador das religiões busca antes de tudo; mas não articulou a fenomenologia da religião com a sua história das religiões, tendo reconhecido à primeira um papel apenas secundário e auxiliar em relação à segunda352. Como se vê, o discípulo – Eliade - superou o mestre – Pettazzoni -.

Em resumo, a grande inovação representada pela obra eliadiana no campo dos estudos religiosos está configurada na sua concepção da História das Religiões como constituindo uma disciplina autônoma e integral que articula fenomenologia da religião e história das religiões, girando em torno de dois eixos, o fenomenológico e o histórico.

Ademais, a fenomenologia da religião eliadiana também inova quando utiliza um

348 Na parte em que cada uma delas teve a religião como objeto de estudo.

349 Eliade (in OR, p. 28). Segundo Eliade, o ano de 1912 foi um ano significativo para a história do estudo científico da religião, com a publicação de Formes élémentaires de la vie religieuse por Emile Durkheim;

com a publicação do primeiro volume da obra Ursprung der Gottesidee por Wilhelm Schmidt; com a publicação de La religione primitiva in Sardegna por Rafaele Pettazzoni; com a publicação de Wandlungen und Symbole der Libido por C. G. Jung; com a correção de Totem und Tabu de Freud, que viria a ser publicado no ano seguinte. Eliade ressalta que quatro abordagens diferentes do estudo da religião foram retratadas nestas obras, embora nenhuma dessas abordagens fosse realmente nova: a sociológica, a etnológica, a psicológica e a histórica. Contudo, o mesmo autor observa também que Freud, Jung, Durkheim e Schmidt estavam a aplicar novos métodos afirmando que haviam obtido resultados mais duradouros do que os seus predecessores e as respectivas teorias acabaram por desempenhar um papel considerável na vida cultural das décadas seguintes.

350 Como iremos mostrar no item 1.2. deste trabalho.

351 Eliade, in FJ/I, p. 398.

352 Sobre o posicionamento de Pettazzoni, cf. o subitem 1.2.2.2. deste trabalho.

168 método que é fenomenológico-hermenêutico, aproximando-se da linha da fenomenologia existencial, sedimentando bases para uma antropologia filosófica.

Além disso, a História das Religiões tal como enxergada por Eliade tem, segundo a sua concepção, uma função cultural específica. Esta função cultural se expressa como um programa que orienta os seus estudos como historiador das religiões, e consiste na tarefa precípua da referida disciplina, no seu modo de ver, que é a de interpretar os fatos religiosos considerados como criação cultural, atuando, desta forma, como uma disciplina que supera a oposição entre sentido espiritual e sentido histórico de um fenômeno religioso353, interpretando a história como a realização de um sentido espiritual. A este propósito, ele354 afirma:

A História das Religiões, como a entendo, é uma disciplina

‘libertadora’ (saving discipline). A hermenêutica poderá se tornar a única justificação válida da História. Um acontecimento histórico justificará sua aparição quando ele vier a ser compreendido. Isto poderá significar que as coisas acontecem, que a História existe unicamente para obrigar os homens a compreendê-las.

Na consideração da originalidade da obra de Eliade, Culianu355 chega ao ponto de afirmar que essa mesma obra é única, justificando-o dessa forma: não há uma escola que carregue o seu nome, a obra eliadiana não é repetível. Culianu assinala ainda, que, mesmo assim, há motivo de conforto nessa constatação que faz, pois desta forma fica afastada a possibilidade de que o pensamento de Eliade se fossilize em forma mais ou menos ad usum delphini.

Contudo, a posição de Culianu, ao nosso ver, é exagerada quando isola a obra de Eliade no tempo a pretexto de lhe dar o valor que ela merece.

Ainda hoje, mais de 20 anos após a morte de Eliade, continuam sendo publicados estudos científicos e filosóficos em torno da sua obra356, o que mostra o vigor e a atualidade do seu trabalho e a fecundidade do seu pensamento para alavancar novas especulações nos campos da História das Religiões, da hermenêutica filosófica, da antropologia filosófica, bem como nos âmbitos de especulação de outras ciências do espírito e humanas, como da teologia, da psicologia do profundo, da etnologia, da antropologia cultural e da sociologia, enfim para fazer avançar o conhecimento geral acerca do homem.

A novidade, a riqueza, a abrangência e a fecundidade da obra de Eliade, procuramos retratá-las ao longo de todo este trabalho.

Nos itens que se seguem, faremos uma radiografia da obra eliadiana, mostrando como ela se compõe, como se exterioriza em seus escritos, e o programa que lhe está

353 Como as oposições existentes nas interpretações materialistas e desmistificadoras da religião.

354 Eliade, in FJ/1, 537; tradução do texto em francês pela autora.

355 Culianu, in Mircea Eliade, p. 161; tradução do texto em italiano pela autora.

356 A título de exemplos, citamos a coletânea editada por Rennie, intitulada Mircea Eliade: a critical reader (Londres: Equinox Publishing, 2006), que contém não só textos de autoria do próprio Eliade sobre pontos-chave da sua obra, como textos de diversos comentaristas seus; e a outra coletânea também editada por Rennie, intitulada The international Eliade (Albany, New York: State University of New York Press, 2007), que congrega ensaios sobre o pensamento de Eliade destinados a introduzir o leitor inglês a algumas opiniões internacionais sobre Eliade.

169 subjacente, o que possibilitará uma confirmação das afirmações que acabamos de fazer a seu respeito.