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O ACORDO SOBRE SALVAGUARDAS

2.4.3 Indústria nacional

O Artigo 4º do Acordo sobre Salvaguardas, § 1º, alínea “c” define indústria nacional como “conjunto dos produtores dos bens similares ou diretamente concorrentes que operem dentro do território de um Membro ou aqueles cuja produção conjunta de bens similares ou diretamente concorrentes constitua uma proporção substancial da produção nacional de tais bens”.

No Artigo 5º fica estabelecido como as medidas de salvaguardas serão aplicadas: o § 1º, em caso de restrição quantitativa, diz que “tal medida não reduzirá a quantidade das importações abaixo do nível de um período recente, que corresponderá à média das importações efetuadas nos três últimos anos representativos para os quais se disponha de estatísticas [...]”. Já o § 2º, alínea

“a” trata de quota aplicada entre países prestadores, no qual “o Membro que aplica as restrições poderá buscar um acordo quanto à distribuição das parcelas da quota com todos os demais Membros que tenham um interesse substancial no suprimento do produto em questão”. Porém, se isto não ocorrer, as quotas aplicadas será baseada sobre as proporções fornecidas pelos Membros interessados “durante um período representativo anterior, levando devidamente em conta quaisquer fatores especiais que possam ter afetado ou estar afetando o comércio desse produto”.

2.4.4 Princípio da não-seletividade

É um dos pilares do Acordo sobre Salvaguardas, no qual “as medidas de salvaguarda serão aplicadas ao produto importado independentemente de sua procedência” (BROGINI, 2004, p. 191). Para Brogini, isso quer dizer que não é permitido um tratamento discriminatório entre os Membros que exportam. Assim sendo, é importante para que não se aplique medidas que atinjam a indústria de um país específico (GOYOS JR., 2003, p. 103). Porém, segundo Goyos Jr. (2003, p. 103), “os países em desenvolvimento têm um tratamento mais favorável”.

EUA e México foram os primeiros países a estabelecer cláusulas de salvaguardas (Acordo de Concessão Tarifária, 1942). “Reproduzindo as cláusulas de salvaguardas utilizadas pelos Estados Unidos da América, o GATT 1947 também previu a possibilidade de utilização das medidas” (GOYOS JR., 2003, p. 96).

Em 1947, os EUA e outros 21 países começaram a negociar os textos do GATT, e o então Presidente norte-americano Truman exigiu que uma “cláusula de escape” (provisão que permite a utilização temporária de barreiras às importação quando elas vem aumentando e são comprovadas que prejudicam a indústria competitiva nacional) fosse incluída em cada acordo comercial sob a autoridade dos acordos de troca comercial norte-americanos (JACKSON, 1997, p. 179). Pode-se afirmar que “a cláusula de escape do GATT (Artigo 19) descendeu diretamente da cláusula da mesma natureza do Acordo de Comércio entre EUA e México” (JACKSON, 1997, p. 180).

Como já visto, as salvaguardas poderiam ser implantadas, de maneira emergencial e temporária, se a existência de importações de um produto similar causasse ou pudesse causar dano à indústria nacional. Porém, para Goyos Jr. (2003, p. 97), fica inexistente a comprovação de prática desleal ao comércio. As medidas de salvaguardas são, por isso, pouco utilizadas, e também porque é exigido uma compensação quando uma salvaguarda é aplicada.

Segundo o Artigo 6º do Acordo sobre Salvaguardas, devido a circunstâncias críticas,

“poderá ser adotada medida de salvaguarda provisória em decorrência de determinação preliminar da existência de provas claras que o aumento das importações tem causado ou ameaça causar prejuízo grave”. A duração não excederá 200 dias.

Já o Artigo 7 º do mesmo Acordo estabelece a duração das medidas de salvaguarda:

1. só serão aplicadas durante o período que seja necessário para prevenir ou remediar o prejuízo grave e facilitar o ajustamento. Tal período não será superior a quatro anos, a menos que seja prorrogado nos termos do parágrafo segundo.

2. o período poderá ser prorrogado [...] se a medida de salvaguarda continua a ser necessária para prevenir ou remediar o prejuízo grave; de que haja provas de que a indústria está em processo de ajustamento [...].

3. o período total de aplicação de uma medida de salvaguarda, contados o período de aplicação de qualquer medida provisória, o período de aplicação inicial e de qualquer prorrogação deste, não será superior a oito anos.

Alguns países, até mesmo os EUA, adotam formas de proteção mais rápidas e eficientes, como quotas e outras formas de proteção não tarifária. “Eram denominadas ‘medidas de área cinzenta’ ou ‘medidas obscuras’, destacando-se a utilização dos ‘Acordos de Contenção Voluntária às Exportações’” (GOYOS JR., 2003, p. 97).

O Acordo de Contenção Voluntária era a “negociação formal entre país exportador e importador, quando o governo deste último tem a capacidade de restringir exportações de determinado produto” (GOYOS JR., 2003, p. 97). Quem exportava era coagido a impor, a si mesmo, quotas, o que limitava suas exportações para o país importador. “Na prática, estas

medidas eram impostas, desde a década de 70, como pressão de alguns países desenvolvidos para que os Estados e empresas reduzissem ‘voluntariamente’ as exportações para o seu mercado”

(GOYOS JR., 2003, p. 98). Assim sendo, ficavam estabelecidos os preços para os compradores e mercados para os vendedores.

Viu-se, portanto, a necessidade de elaborar um Acordo sobre Salvaguardas na Rodada Uruguai que, para Goyos Jr. (2003, p. 99), visava objetivar “a redução da utilização dos Acordos de Contenção Voluntária que proliferaram diante a crise econômica”. No decorrer da Rodada Uruguai, é observado o interesse de “solucionar definitivamente a questão das salvaguardas e [...]

na elaboração de um novo acordo” (BROGINI, 2004, p. 154).

O Acordo sobre Salvaguardas, segundo Goyos Jr. (2003, p. 218), “determina a possibilidade de aplicação de medidas de salvaguarda, caso constatar-se surto de importações de determinado produto, que esteja causando ou ameaçando causar prejuízo grave ao setor nacional que produza bens similares ou diretamente concorrentes [...]”.

Pode-se dizer, então, que as salvaguardas são um dos mecanismos encontrados no âmbito da defesa comercial que possibilitam ao país auxiliar sua indústria nacional prejudicada pelas importações em demasia de um determinado produto. Utilizando as salvaguardas, o país consegue ajudar no desenvolvimento da sua indústria nacional, e ela, eventualmente, não precisará mais utilizar a salvaguarda e conseguirá competir internacionalmente. O país deve usar o instrumento de salvaguardas, pois elas foram criadas dentro do âmbito da OMC e, por isso, respeitam suas regras.

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