Considerando que esta pesquisa foi desenvolvida em uma instituição pública de ensino, é importante apresentar, mesmo que de forma breve, algumas considerações sobre as especificidades do assédio moral no serviço público.
O assédio moral pode ser praticado em qualquer ambiente desde que haja condições e circunstâncias que favoreçam a sua ocorrência nas organizações. Porém, há locais de trabalho que são mais expostos (HIRIGOYEN, 2017b).
Sobre a ocorrência do assédio moral em diferentes setores, a autora afirma que
O assédio moral predomina no setor terciário, no setor de medicina social e no de ensino, ou seja, nos setores em que as tarefas não são definidas e nos quais, em consequência, é sempre possível culpar alguém por alguma coisa.
Existe menos assédio nos setores de produção, sobretudo nos muito técnicos (HIRIGOYEN, 2017b, p. 123).
Ainda segundo a autora, os resultados de sua pesquisa realizada na França demonstram claramente que o assédio moral no setor público ocorre de forma mais acentuada do que no setor privado.
O assédio moral apresenta características diferentes de um setor para o outro.
No setor privado é mais perceptível, tem duração de tempo menor e quase sempre termina com a saída do assediado. Já no setor público o assédio moral pode se estender por muitos anos, uma vez que, em princípio, os servidores são protegidos, não podendo ser demitidos, salvo nos casos em que se comete alguma falta muito grave. Em virtude dessa situação, os casos de assédio moral no setor público são
mais nocivos e por essa razão acabam trazendo sérias consequências para a saúde do servidor (HIRIGOYEN, 2017b).
Algumas pesquisas importantes foram realizadas por alguns autores sobre o assédio moral no serviço público. Barreto (2005), em uma de suas pesquisas, concluiu que os casos com maior duração de assédio moral ocorreram em organizações públicas, sendo que em 60% destas tiveram duração superior a três anos. Outra pesquisa realizada por Barreto e Heloani (2015) constatou que, entre os anos de 2007 e 2012, 69% de 2.869 trabalhadores do serviço público declararam que foram vítimas de humilhações, constrangimentos, isolamento, imposição de horários injustificados ou transferência de turno. Outros resultados importantes também foram identificados nessa pesquisa, como o tempo de duração do assédio, que variou de um mês a dois ou mais anos. As situações hostis mais frequentes citadas foram ignorar a presença frente a outros (61%), bloquear o andamento dos trabalhos (58,5%), atribuir erros imaginários (58,5%), dar instruções confusas e imprecisas (54%) e falar mal do outro em público (52%).
Sobre as motivações do assédio moral no setor público a autora comenta:
Como o setor público está voltado para o bem público, dentro de um esquema social, os abusos que lá ocorrem parecem chamar muito mais a atenção.
Nota-se geralmente que o assédio moral não está relacionado à produtividade, mas às disputas de poder. Neste caso, não se pode livrar as pessoas da responsabilidade, incriminando o lucro ligado ao capitalismo e à globalização, só se podendo atrelar o assédio a uma dimensão psicológica fundamental, a inveja e a cobiça que levam os indivíduos a controlar o outro e a querer tirá-lo do caminho (HIRIGOYEN, 2017b, p. 125).
Os motivos do assédio, de acordo com o Sindicato Nacional dos Servidores do Ministério Público da União (SINASEMPU), podem ser variados, pois, além da intenção de obrigar a vítima a pedir exoneração, o assédio pode ter como objetivo fazer com que o trabalhador deixe de apoiar o sindicato ou mesmo se dar por motivos políticos ou outros tipos de discriminação, o que ocorre com frequência em caso de mudança de chefes dos executivos federal, estadual e municipal (SINASEMPU, 2007).
No caso específico do setor público, é importante analisar o atual modelo de gestão normalmente utilizado, que está orientado, sobretudo, pelos princípios da eficácia empresarial e de avaliações heterônomas. Tal modelo leva os trabalhadores à culpabilização e gera individualismo e competitividade nas relações de trabalho (BARRETO; HELOANI, 2015).
Os desmandos podem ser controlados e os abusos punidos quando a organização é sólida e transparente, porém, como a administração pública é uma máquina complexa, as responsabilidades encontram-se diluídas (HIRIGOYEN, 2017b). Assim, se a instituição for transparente com suas ações, as punições serão efetuadas quando o abuso for constatado. Porém, com frequência observa-se exatamente o contrário, ou seja, a presença da permissividade e da impunidade em muitas das instituições públicas brasileiras. São comuns em grande parte dessas organizações o apadrinhamento político, a rede de contatos e o pertencimento ao grupo dominante que permite ao agressor perpetuar suas ações no seu setor de domínio. Tais situações levam à desilusão do servidor público em relação ao seu trabalho, à própria imagem que ele apresentava sobre a instituição, com repercussões no seu desenvolvimento e no seu trabalho, na adesão organizacional, entre outros aspectos (NUNES, 2016).
É importante destacar também algumas dificuldades encontradas no serviço público, como: o processo de avaliação dos servidores, uma vez que estes não têm uma base de comparação, já que não há objetivos de longo prazo; a atribuição de tarefas burocráticas sem explicar as razões nem avaliar se o servidor dispõe dos meios disponíveis para a sua realização; e o excesso de trabalho em alguns setores (HIRIGOYEN, 2017b).
Quando o assédio moral ocorre por parte de um superior hierárquico, os reflexos são observados primeiramente na avaliação do servidor com o rebaixamento de sua nota, uma vez que os salários não estão relacionados à competência do servidor, mas são definidos pelo seu quadro de carreira. Os processos avaliativos são motivo de muita preocupação para os servidores, pois eles integram os critérios que permitem a promoção para níveis ou escalões superiores (HIRIGOYEN, 2017b).
Por fim, visto que esta pesquisa foi desenvolvida em uma instituição pública de ensino, é importante destacar a afirmação de Hirigoyen (2017b) de que uma das áreas mais afetadas pelo assédio moral é a da educação. Segundo a autora, na área da educação, mais especificamente no campo da pesquisa, o assédio moral é considerado um fenômeno de sobrevivência, pois poucos conseguem alcançar algum reconhecimento ou status. Muitos ficam acumulando rancor e inveja e aproveitando- se dos colegas com maior notoriedade (HIRIGOYEN, 2017b).
Comentando também sobre o assédio moral envolvendo servidores docentes e técnico-administrativos, Nunes (2011) afirma que os docentes aparecem mais nos artigos acadêmicos como sujeitos de análise, pois fazem questão de expor a precariedade e deterioração do trabalho docente e ainda a acirrada competitividade e a busca desenfreada pela produtividade que marca a vida da categoria. Porém, os servidores técnico-administrativos também são submetidos ao assédio moral nas instituições, sendo inferiorizados por muitos docentes, que os tratam como se fossem incompetentes, subalternos e a serviço de uma categoria superior.
É importante destacar que o assédio moral ocorre com frequência no ambiente acadêmico como em qualquer outro ambiente organizacional. As universidades, que a princípio deveriam ser um espaço de racionalidade, confiança e tolerância, não estão imunes aos casos de assédio, pois estão sujeitas às mesmas forças e influências que qualquer outro ambiente (WESTHUES, 2015).
2.7 ASPECTOS DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA SOBRE O ASSÉDIO MORAL NO