47 CAPÍTULO I
POR QUE O BATISMO? UMA APROXIMAÇÃO AOS ASPECTOS SACRAMENTAIS NO CONTEXTO DAS COMUNAS ITALIANAS NA BAIXA
IDADE MÉDIA
Como foi assinalado na Introdução, a experiência comunal baixo-medieval do norte da Itália tem sido resgatada pela historiografia tanto medievalística quanto da teoria política devido, principalmente, ao seu viés político e ao valor que possui no processo de unificação do Estado. Contudo, este resgate acaba por mostrar-se incompleto, pois a perspectiva política, como afirma Augustine Thompson, é apenas uma das faces do fenômeno comunal, sendo que a perspectiva religiosa é outra dessas faces128. A natureza religiosa da comuna, por sua vez, comporta os mais variados planos de ação: formas de organização, conceptualização do tempo e do espaço129, compreensão da própria realidade, idealização de personagens ícones caros à comunidade, e toma conta da realidade por completo de modo que “a linguagem, os rituais e as formas”130 acabam por ser atingidos, fato que leva Thompson a defini-la como uma cultura religiosa própria das comunas italianas setentrionais131.
Um dos componentes dessa cultura religiosa, que Augustine Thompson discute em seu estudo, é o ritual do batismo e, por conseguinte, o local de sua execução, o batistério. Desse modo, compreendido como “o santuário da república,”132 o prédio não só abrigava o ritual mediante o qual a pessoa tornava-se cristã e afeiçoada ao lugar de nascimento senão também, assim como o duomo, era sítio de ambos os mundos, do religioso e do secular, visto que, por exemplo, tanto o carrocio e/ou os estandartes próprios como os do inimigo capturados em batalha eram guardados no batistério133.
Algumas cidades do norte da Itália reutilizaram espaços prévios para tal fim, como antigos batistérios, transeptos ou capelas localizadas embaixo destes134. Não obstante, houve um súbito movimento de construção durante os séculos XII e XIII que deu nascimento a vários batistérios comunais; o que, por outra parte, se insere no contexto do enfraquecimento
128THOMPSON. Introduction…, p. 3.
129THOMPSON. Introduction…, p. 3.
130THOMPSON. Introduction…, p. 6.
131THOMPSON. Introduction…, p. 4.
132THOMPSON, Augustine. The mother Church. In: ______. Cities of God: the religion of the Italian communes, 1125-1325. The Pennsylvania State University Press: Pensilvânia, 2005. p. 27.
133THOMPSON. The mother Church…, p. 27.
134THOMPSON. The mother Church…, p. 29.
48 do poderio imperial e o concomitante fortalecimento do movimento comunal135. Destarte, constatamos o surgimento de batistérios nas cidades de Pisa, Parma, Cremona e Pádua. Dentre esses casos, talvez possamos aventurar-nos a conjecturar que aquele onde o batistério se apresenta mais evidentemente como o ápice do orgulho citadino seja o de Florença.
Qualificado por Dante Alighieri como “il mio bel San Giovanni” e citado em várias oportunidades no decorrer da sua obra136, A Divina Comédia (1307-1319/20)137, o batistério florentino é um dois mais evidentes ícones representativos da comunidade citadina. Nesse sentido, podemos lançar-nos à hipótese de que, aprofundando o trabalhado realizado por Augustine Thompson, a riqueza desse batistério radica em uma dupla natureza, religiosa e cívica; caso contrário, como conseguiríamos explicar a sua presença na Nuova Cronica de Giovanni Villani no momento em que se faz referência à chegada dos ostrogodos ocorrida no século VI (Fig. 2), sendo que a sua construção data dos séculos XI/XII?
Fig. 2: “Totila faz destruir a cidade de Florença” [f. 36r (l. III,1)]138
135THOMPSON. The mother Church…, p. 29.
136“Não menos eram e não mais folgados que os que há no meu belo São João [nel mio bel San Giovanni], e são aos batizantes destinados (...).” DANTE. Inferno, Canto XIX, versos 16-18. “Maria me deu, por altos ais urgida;
e o antigo Batistério me benzeu, justamente cristão e Cacciaguida.” DANTE. Paraíso, Canto XV, versos 133- 135. “Falai-me do redil de São João [l’ovil di San Giovanni]; quanto era então; quais foram os talentos que a altos cargos tiveram ascensão.” Paraíso, Canto XVI, versos 25-26.
137DISTANTE, Carmelo. Prefácio. In: DANTE Alighieri. A Divina Comédia: Inferno. Tradução e notas de Italo Eugenio Mauro. Sao Paulo: Ed. 34, 2011. p. 11.
138FRUGONI, Chiara et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica. In: FRUGONI, Chiara (org.). Il Villani Illustrato. FIrenze e l’Italia medievale nelle 253 immagini del ms. Chigiano L VIII 296 della Biblioteca Vaticana. Città del Vaticano: Biblioteca Apostolica Vaticana/Casa Editrice Le Lettere, 2005. p. 101 (tradução nossa).
49 Nitidamente, percebe-se que, uma vez acontecida a destruição da cidade, cuja alegoria é o desmembramento do elemento prístino desta última, a saber, a muralha, o único prédio que resistiu à mais cruel violência (como aprecia-se nas decapitações do setor inferior- esquerdo da iluminura, entre os quais podemos encontrar um bispo portando mitra), é o batistério da cidade. Portanto, cabe pensar que o autor utilizou o batistério como ferramenta alusiva à essência da cidade, aquilo que mais lhe representa: ele é eterno e perpassa a vida de qualquer florentino; inclusive antes da sua própria edificação, ele já existia. A sua localização tampouco pode ser pensada como aleatória: em todas as oportunidades, “il mio bel San Giovanni” é a peça central da construção; sua forma octogonal evoca, bíblica e liturgicamente, o símbolo da escatologia cristã em que o oitavo dia representa, ao mesmo tempo, a ressurreição de Cristo e a vida eterna dos batizados. O seu caráter medular aprecia- se, também, na reconstrução da cidade em tempos de Carlos Magno a qual ergue-se em volta do batistério (Fig. 3). Este último se comporta como eixo central a partir do qual ordena-se o espaço: “Simbolicamente, o edifício erguia-se no centro do espaço terreno e celestial.”139
Fig. 3: “A cidade de Florença reedificada com ajuda de Carlos Magno” [f. 44r (l. IV,1)] 140
139THOMPSON. The mother Church…, p. 31 (tradução nossa).
140FRUGONI et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica…, p. 106 (tradução nossa).
50 Por conseguinte, caso consideremos o batistério exclusivamente como o espaço reservado para um ritual meramente religioso, perderíamos de vista o sentido que Giovanni Villani lhe concedeu ou o sentimento partilhado por Dante que, almejando nostalgicamente o regresso a Florença, deseja que essa querida recepção aconteça nesse edifício141. Entretanto, se a construção dos batistérios é uma das expressões do movimento comunal que atravessou as realidades citadinas no norte da Itália142, porventura acharíamos fora de Florença uma experiência similar no que tange ao sentimento citadino que envolve o batistério? Qual foi o motivo da escolha do batistério como metonímia representativa do espírito comunal? Qual era o sentido que a cerimônia do batismo tinha para os cidadãos florentinos? Cabe a possibilidade que Pádua possuísse uma ligação análoga com o seu próprio batistério?
Fig. 4: “Como foi feito em Florença o templo de Marte, o qual hoje se chama o Duomo de São Giovani” [f. 29v (l. II,5)]143
141“Se acontecer que este sacro poema no qual têm posto a mão o Céu e a Terra, trazendo-me anos de exaustão extrema, / vença ainda a versão que me desterra do – em que dormi cordeiro – aprisco belo, hostil aos lobos que lhe fazem guerra; / com outra voz enfim, com outro velo, co’ o laurel de Poeta irei à fonte do meu batismo, por cingido tê-lo; / porque lá entrei nesta fé que de fronte a Deus as almas leva, e porque após, em nome dela, Pedro ornou-me a fronte.” DANTE. Paraíso, Canto XXV, versos 1-12.
142THOMPSON. Introduction…, p. 5.
143FRUGONI et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica…, pp. 94-95 (tradução nossa).
51 Fig. 5: “Como a cidade de Florença esteve em
ruínas e destruição por 350 anos” [f. 43r (l. III, 21)]144
Fig. 6: “Como em Florença começou-se a batalha citadina entre os Uberti e a Senhoria dos Cônsules”
[f. 64r (l. VI, 9)]145
Fig. 7: “Como primeiro o partido güelfo foi expulso de Florença pelos Gibelinos e a força do imperador Frederico” [f. 80r (l. VII, 33)]146
Fig. 8: “O imperado Henrique VII assedia Florença” [f. 206r (l. X, 47)]147
No intuito de dar uma resposta a essas perguntas, primeiramente, devemos adentrar- nos no significado do ritual que o batistério albergava antes de examinar o edifício em si, missão que formará parte de futuros capítulos. Portanto, temos diante de nós a tarefa de desvendar um ritual que tem atravessado a história do Cristianismo por inteiro. Vivenciado pelo próprio Jesus Cristo e praticado inclusive na atualidade, nos seus quase dois mil anos de existência, o batismo tem acolhido milhares de neófitos e os transformado em membros de uma comunidade cristã. Todavia, embora a validade de um ritual resida, principalmente, na
144FRUGONI et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica…, p. 104 (tradução nossa).
145FRUGONI et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica…, p. 119 (tradução nossa).
146FRUGONI et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica…, pp. 131-132 (tradução nossa).
147FRUGONI et al. Le illustrazioni della Nuova Cronica…, p. 228 (tradução nossa).
52 perenidade e suposta imutabilidade das suas estruturas148, cabe a nós cogitar a mudança do seu sentido na sua diacronia.
Por tal motivo, restringir-nos-emos nesta parte, exclusivamente, ao batismo no contexto comunal e, no próximo capítulo, ajudados pela liturgia do Sábado Santo proveniente de Il “Liber Ordinarius” della Chiesa Padovana, do século XIII, na qual insere-se a descrição do procedimento do ritual em discussão, buscaremos elucidar o sentido do ritual no específico contexto paduano. Contudo, consideramos relevante para a construção do nosso raciocínio, resgatar, minimamente, as ferramentas prístinas para sua execução assim como também o seu significado para o contexto indagado. Esse motivo fica ainda mais pertinente ao pensar que o ritual com água como símbolo de purificação e limpeza, seja por aspersão, lavagem ou imersão, e, assim mesmo, de (re)nascimento não éprivativo do cristianismo nem foi inventado por ele149.
Primeiramente, deve-se pontuar a inexistência, no Novo Testamento, de alguma sorte de tratado sobre o batismo150 que diga a respeito à origem e execução do rito ou a algum padrão de iniciação cristã151; pelo contrário, o pesquisador deve-se fornir de um grupo de citações disseminadas pelos diferentes livros e evangelhos que, por sua vez, possuem abordagens se não discrepantes, ao menos particulares. Inclusive, poderíamos aventurar-nos a inferir que houve uma influência dos relatos do batismo de Cristo apresentados pelos evangelhos sinóticos, como também daqueles a respeito da Última Ceia, no uso litúrgico dos sacramentos; contudo, dado que não podemos avaliar qual era esse uso litúrgico tampouco conseguimos estimar atéque ponto realmente aconteceu a dita influência152. Em palavras de Bryan Spinks:
O Novo Testamento é tanto o fulcro desde o qual emergem todas as reflexões teológicas sobre o batismo e todos os ritos batismais cristãos, quanto o critério, ou “norma normativa” contra a qual eles podem ser testados. Porém, os livros do Novo Testamento não apresentam nenhuma doutrina do batismo, nem algum rito litúrgico arquetípico.153
148BELL, Catherine. Ritual Change. In: ______. Ritual: perspectives and dimensions. New York: Oxford University Press, 2009. p. 211.
149HARTMAN, Lars. Introduction. In: ______. 'Into the Name of the Lord Jesus' Baptism in the Early Church.
Edinburgh: T&T Clark, 1997. pp. 3, 6.
150HARTMAN. Introduction..., p. 3.
151SPINKS, Bryan D. The New Testament Foundations. In: ______. Early and Medieval Rituals and Theologies of Baptism. From the New Testament to the Council of Trent. Farnham: Ashgate Publishing Limited, 2009. p. 11.
152SPINKS. The New Testament Foundations..., p. 11.
153SPINKS. The New Testament Foundations..., p. 12 (tradução nossa).
53 Entretanto, qual é o sentido que como sacramento adquire na Baixa Idade Média?
Com o propósito de responder essa pergunta, tomemos como documento alusivo o Tratado dos Sacramentos correspondente à obra de São Tomás de Aquino, Suma de Teologia (1265- 1273)154, quem dedicara a questão 66 da Terceira Parte, exclusivamente, à descrição do batismo. Embora ele tenha sido perpetrado previamente por João Batista, para a instituição do batismo como sacramento não foi somente necessária a vinda de Jesus Cristo e o seu batismo, a partir do qual este adquiriu “a força de produzir seu efeito,”155 ou seja, a graça; mas também que Ele “padecesse e ressurgisse, antes que se notificasse aos homens a necessidade de configurar-se a sua morte e ressurreição.”156 Portanto, a paixão e ressurreição de Cristo apresentam-se como o divisor de águas a partir do qual torna-se necessário o batismo como sacramento, já que implicaram tanto a chegada da nova lei e os seus próprios sacramentos quanto a morte do pecado original e o ressurgimento, com o Messias, a uma nova era, a uma nova vida. Eis, entre outras justificativas, a sua singularidade, dado que “o batismo é um novo nascimento espiritual, em que a pessoa morre para a vida velha e começa a viver uma vida nova. (...) Ora, cada homem nasce apenas uma vez. Como não se repete o nascimento carnal, tampouco se pode repetir o batismo.”157
Quanto à dinâmica e realização do ritual, o próprio São Tomás deduz do batismo uma abordagem socioantropológica. Ornamentando os elementos substanciais do ritual: a causa principal (a forma), a causa instrumental (o ministro) e a matéria (a água), são realizadas certas solenidades. O seu fim não radica, meramente, na sua face metafísica: inibir “o poder do demônio de opor obstáculo ao efeito sacramental;”158 mas também possuem um caráter de congregação necessário em um contexto de massas não cultas: os signos sensíveis possuem um extraordinário alcance nas pessoas com menos instrução. Portanto, para que o ritual tenha, realmente, o efeito desejado, precisa-se dessas cerimônias solenes “para despertar a devoção dos fiéis e a reverência ao sacramento”, já que “se se fizesse simplesmente a ablução com água, sem solenidade alguma, facilmente alguns considerariam ser como uma ablução qualquer”; e, por outro lado, “para instrução dos fieis”, pois “as pessoas simples, não versadas nas letras, têm necessidade de serem instruídas por sinais sensíveis (...).”159 Destarte, o
154LUENGO, Gregorio Celada. Introducción a la Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino. In:
MARTORELL, José et al. Suma de Teología. 4ta ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2001. vol. 1, p.
10. 155TOMÁS DE AQUINO (São). Suma teológica III, q. 66, a. 2.
156TOMÁS DE AQUINO (São). Suma teológica III, q. 66, a. 2.
157TOMÁS DE AQUINO (São). Suma teológica III, q. 66, a. 9.
158TOMÁS DE AQUINO (São). Suma teológica III, q. 66, a. 10.
159TOMÁS DE AQUINO (São). Suma teológica III, q. 66, a. 10.
54 batismo como culto complexo aglutinará a totalidade do seu público: “as cerimônias que solenizam o batismo, embora não sejam necessárias à realização do sacramento, não são supérfluas, porque contribuem a uma boa celebração.”160
Por sua parte, Boaventura de Bagnoregio também consagrou uma parcela da sua obra, intitulada Breviloquium, à matéria dos sacramentos entre os quais achamos o batismo. O próprio título desse sexto capítulo é alusivo à forma com que trabalha esses signos: “A medicina dos sacramentos”. Com uma prosa caracterizada pela cura e proteção do indivíduo, Boaventura considera os sacramentos como
medicina santificadora, pois por eles a alma é arrancada da purulência dos vícios e levada à santificação perfeita. – Por isso, embora sejam corporais e sensíveis, devem, contudo, ser venerados como santos, pois representam os sagrados mistérios, preparam para os carismas sagrados, foram dados por Deus santíssimo, consagrados pela instituição e pela benção divina, constituídos para o culto sacratíssimo de Deus na Igreja. Por tudo isso, há motivos sobejos para serem chamados de sacramentos.161
Em outras palavras,
os sacramentos são sinais sensíveis, instituídos por Deus como medicamento, nos quais, ‘sob o manto das coisas sensíveis, opera secretamente a graça divina´, de tal modo que eles ´por sua semelhança representam, por sua instituição significam e por sua significação conferem alguma graça espiritual, pela qual a alma é curada da enfermidade dos vícios. Essa cura das enfermidades é o fim último ao qual os sacramentos se endereçam, embora sirvam também para a humilhação, o ensinamento e o exercício das virtudes, como a fins que estão subordinados ao fim primário.162
Contudo, as suas linhas nos deixam entrever não só uma perspectiva escatológica, mas também uma histórica e que cuida do ser na própria terra, brindando as ferramentas necessárias para tal fim. Caso contrário, como compreender o seu seguinte argumento?
(...) Cristo Senhor, Verbo encarnado, sendo ‘a virtude e a sabedoria de Deus’
[1 Cor 1, 24] e nossa misericórdia, deve instruir de modo tão potente, tão sábio, tão clemente e tão conveniente os seus sacramentos na lei da graça, que nada falta à nossa cura, no que respeita à condição da vida presente.163 Essa hipótese parece ficar mais nítida quando Boaventura discorre a seguinte frase: “Enfim, não há cura perfeita sem a conservação da saúde obtida.”164 Se a cura perfeita personifica-se
160TOMÁS DE AQUINO (São). Suma teológica III, q. 66, a. 10.
161BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. I, a. 6.
162BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. I, a. 2.
163BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. III, a. 2.
164BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. III, a. 4.
55 no corpo ausente de mácula pecaminosa, estado necessário para o ingresso no Além, acaso a dita conservação não diz respeito ao labor que os sacramentos fazem também no Aquém? Ou seja, para ganhar a estada no céu, porventura, não se precisaria cuidar da alma na terra?
Nessa missão, o batismo apresenta-se como remédio sacramental indicado para remediar a marca deixada pelo pecado original, para tirar esta última doença, mas nem o primeiro nem o último são únicos: existem sete sacramentos para cada uma das “doenças”165. O batismo é designado como o sacramento que “fortifica os que entram na luta”; uma luta que só pode ser devidamente transitada sob a proteção da “armadura da graça septiforme” uma vez que, quem a receba, serão “soldados que um dia haverão de perecer.”166 Por conseguinte, ele é o primeiro degrau numa escadaria de lutas direcionado àqueles que iniciam a transitar esta vida; é a primeira das investiduras de uma larga lista de armaduras que o homem tem que possuir para conseguir sobreviver nesta vida “pois o batismo é o sacramento dos que ingressaram, a confirmação dos que lutam, a eucaristia o que refaz as forças, a penitência é sacramento dos que voltam a levantar-se, a unção dos enfermos dos que tombam, a ordem introduz novos soldados e o matrimônio os prepara.”167
Prosseguindo com a ideia terrenal tanto quanto celestial dos sacramentos, a função do batismo no Aquém parece enfatizar-se uma vez que argumenta que Jesus “(...) por seu sumo poder, instituiu os sacramentos como auxílio para os homens, a fim de pelos sacramentos restaurar nossas forças para cumprir os preceitos orientadores da vida e por eles chegarmos às promessas eternas.”168 Em outras palavras, o sacramento do batismo é o ritual inicial pelo qual o homem, saindo do pecado original, retoma o caminho certo e, no seu decorrer, tenta apegar-se aos “preceitos orientadores da vida” caso ele queira ganhar o céu; ele o tem que ganhar com a atitude e os pertinentes cuidados que leva aqui na terra.
A respeito da sua administração, Boaventura não o considera como um dos sacramentos de maior importância entre os quais coloca o da confirmação e o da ordem que só podem ser instrumentalizados pelos bispos169. O batismo, entendido como um daqueles
“que se referem à indigência da necessidade” junto ao do matrimônio, é visto como um dos sacramentos inferiores e, como tal, “podem ser administrados por pessoas de qualquer ordem e mesmo pelos não-ordenados, principalmente em caso de necessidade” embora esse
165BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. III, a. 2.
166BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. III, a. 4.
167BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. III, a. 4.
168BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. IV, a. 2.
169BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. V, a. 3.
56 sacramento seja considerado como a pilastra fundamental sem o qual não podem ser recebidos os restantes deles170.
Como consequência da sua execução, o batismo grava uma marca transparente, mas indissolúvel que faz do indivíduo parte da comunidade dos fiéis. Nesse sentido, podemos dar um passo à frente na nossa missão e conjecturar a respeito do laço existente entre a cidade e o batismo já que conseguiríamos compreender por que um homem estrangeiro batizado numa outra comunidade, talvez jamais fosse realmente recebido pela nova comunidade como parte dela visto que, uma vez que não pode receber novamente o sacramento, ele não pode apagar a marca que a água da fonte batismal pertencente à sua cidade natal imprimiu nele, pois o batismo se encontra dentro de “aqueles sacramentos (...) que imprimem caracteres que, uma vez indelevelmente impressos, sempre servem para distinguir as pessoas na Igreja, e por isso nunca podem ser reiterados.”171 Posteriormente, e enfatizando a nossa hipótese, Boaventura argumenta que devido “(...) a distinção primeira e radical dá-se entre o povo e o não-povo (...)”172, o batismo é fundamental para tal discriminação.
Assim sendo, resultam curiosos os processos resgatados por Augustine Thompson, a partir dos quais os indivíduos buscavam obter a cidadania no contexto sob análise: enquanto em Siena precisava-se de três anos para dar início ao pedido e em Volterra eram necessários dez anos, na cidade de Pádua, o processo começava, somente, após quarenta anos de residência. Contudo, o autor frisa que nos casos em que as cidadanias eram concedidas, os seus beneficiários permaneciam como “naturalizados” ou “adotados” aos dos “verdadeiros paduanos” que tinham nascido no batistério da cidade. A relevância do ritual é tão importante para a conjuntura que inclusive a sua consideração extrapola os limites dos teólogos quando um jurisconsulto, como Bartolus de Sasoferrato, considera que como corolário da liberação que implica o batismo, ao liberar o ser humano da escravidão de Satanás e seus anjos, adquire-se a cidadania173.
Iniciados na aproximação do ritual ao contexto citadino, torna-se pertinente aqui adentrar-nos ainda mais nesse sentido a partir de outra fonte documental. Apresentada na introdução, a prédica de Giordano da Rivalto, Dell´Ordine de´Predicatori, correspondente aos anos 1302 a 1305, talvez seja a que melhor nos ofereça essa simbiose cívico-religiosa. Frente
170BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. VI, a. 1.
171BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. VI, a. 4.
172BOAVENTURA. Brevilóquio VI, q. VI, a. 5.
173THOMPSON, Augustine. Resurrection and Renewal. In: ______. Cities of God: the religion of the Italian comunes, 1125-1325. The Pennsylvania State University Press: Pensilvânia, 2005. pp. 311-312.