4.2 A Rede de Direitos no Estado do Rio de Janeiro
4.2.1 O Conanda
Instituído pela Lei n.º 8242/1991,60 o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – Conanda, é um órgão colegiado permanente, de caráter deliberativo e
60 Art. 2º Compete ao Conanda: I - elaborar as normas gerais da política nacional de atendimento dos direitos da criança e do adolescente, fiscalizando as ações de execução, observadas as linhas de ação e as diretrizes
estabelecidas nos arts. 87 e 88 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente); II
composição paritária, previsto no artigo 88 da Lei nº 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Integra a estrutura básica da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). É composto por 28 conselheiros titulares e 28 suplentes, sendo 14 representantes do Poder Executivo e 14 representantes de entidades não governamentais com atuação em âmbito nacional e na promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes. Nele se gestaram os primeiros esboços do que viria a ser a política de atendimento socioeducativo.
Ao final da década de 1990, o atendimento socioeducativo passou a ser destinatário de um conjunto de paramentos, normativas e proposições que progressivamente vieram a conformar o campo da Política de Atendimento Socioeducativo, tal como pode ser compreendida hoje com as orientações e as regulamentações vigentes. Dentre os avanços presenciados destaca-se a construção do afinamento da política de Assistência Social, que também foi revista e aprimorada pari passu à construção do Sinase. Em assembleia realizada
- zelar pela aplicação da política nacional de atendimento dos direitos da criança e do adolescente; III - dar apoio aos Conselhos Estaduais e Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, aos órgãos estaduais,
municipais, e entidades não-governamentais para tornar efetivos os princípios, as diretrizes e os direitos estabelecidos na Lei nº 8.069, de 13 de junho de 1990; IV - avaliar a política estadual e municipal e a atuação dos Conselhos Estaduais e Municipais da Criança e do Adolescente; V - acompanhar o reordenamento institucional propondo, sempre que necessário, modificações nas estruturas públicas e privadas destinadas ao atendimento da criança e do adolescente; VI - apoiar a promoção de campanhas educativas sobre os direitos da criança e do adolescente, com a indicação das medidas a serem adotadas nos casos de atentados ou violação dos mesmos; VII - acompanhar a elaboração e a execução da proposta orçamentária da União, indicando
modificações necessárias à consecução da política formulada para a promoção dos direitos da criança e do adolescente; VIII - gerir o fundo de que trata o art. 6º da lei e fixar os critérios para sua utilização, nos termos do art. 260 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990; IX - elaborar o seu regimento interno, aprovando-o pelo voto de, no mínimo, dois terços de seus membros, nele definindo a forma de indicação do seu Presidente. Art. 3º O Conanda é integrado por representantes do Poder Executivo, assegurada a participação dos órgãos executores das políticas sociais básicas na área de ação social, justiça, educação, saúde, economia, trabalho e previdência social e, em igual número, por representantes de entidades não-governamentais de âmbito nacional de atendimento dos direitos da criança e do adolescente. (Regulamento)
§ 1º Na ausência de qualquer titular, a representação será feita por suplente. Parágrafo único. As funções dos membros do Conanda não são remuneradas e seu exercício é considerado serviço público relevante; Art. 4º O Presidente da República nomeará e destituirá o Presidente do Conanda dentre os seus respectivos membros; Art.
5º Fica instituído o Fundo Nacional para a criança e o adolescente. Parágrafo único. O fundo de que trata este artigo tem como receita:
a) contribuições ao Fundo Nacional referidas no art. 260 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990; b) recursos destinados ao Fundo Nacional, consignados no orçamento da União; c) contribuições dos governos e organismos estrangeiros e internacionais; d) o resultado de aplicações do governo e organismo estrangeiros e internacionais;
e) o resultado de aplicações no mercado financeiro, observada a legislação pertinente; f) outros recursos que lhe forem destinados. (..) Art. 10. Os arts. 132, 139 e 260 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, passam a vigorar com a seguinte redação: "Art. 132. Em cada Município haverá, no mínimo um Conselho Tutelar composto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local para mandato de três anos, permitida uma recondução. Art.
139. O processo para a escolha dos membros do Conselho Tutelar será estabelecido em lei municipal e realizado sob a responsabilidade do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, e a fiscalização do Ministério Público (grifos nossos).
pelo Conanda em 2006, votou-se pela criação do Sinase61 e a edição da Resolução n.º 119 de 2006.
Importante destacar que o Conanda, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH/ SPDCA), em parceria com a Associação Brasileira de Magistrados e Promotores da Infância e Juventude (ABMP) e o Fórum Nacional de Organizações Governamentais de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Fonacriad), realizaram, no ano de 2002, encontros estaduais, cinco encontros regionais e um encontro nacional com juízes, promotores de justiça, conselheiros de direitos, técnicos e gestores de entidades e/ou programas de atendimento socioeducativo. O escopo foi debater e avaliar com os operadores do Sistema de Garantia de Direito – SGD a proposta de lei de execução de medidas socioeducativas da ABMP (BRASIL, 2006).
O Sinase somente se tornou Lei Nacional no ano de 2012 após longo debate no Congresso Nacional, onde restou consignada a vontade de afastar a discricionariedade judicial e dos órgãos de aplicação da medida socioeducativa que avocavam para si – em razão do silêncio legislativo – a aplicação das leis penais impostas aos adultos de forma subsidiária à criança e ao adolescente em conflito com a lei.
A medida de internação é medida última, que visa à proteção do próprio adolescente e jamais poderá ter caráter retributivo, ou seja, a prisão, o encarceramento como fim da medida socioeducativa. Seria mais uma tentativa de afastar, em definitivo, a aplicação por analogia da Lei de Execuções Penais – LEP, voltada ao público adulto condenado por prática de crime ou contravenção penal.
Apesar do inegável avanço conceitual no campo sociológico, jurídico e socioeducativo, no sentido de reconhecer a criança e o adolescente infrator enquanto sujeito de direitos, o adolescente em conflito com a lei ainda é negligenciado e, portanto, colocado novamente em situação de vulnerabilidade, agora sob a tutela de algum ente federativo, quer seja municipal, quer estadual e sob a jurisdição de um juiz da infância e da juventude.
Contudo, por ser o Sinase um instrumento que resulta da coalizão de forças progressistas da sociedade brasileira, amplamente debatido por especialistas, sociedade civil e no Congresso Nacional e, principalmente, por envolver e depender de uma gama diferente de atores federativos e até da sociedade civil organizada, é que se exige acompanhamento e avaliação para que seu propósito inicial não se perca em meio aos dados estatísticos, como no caso do
61 Deliberação adotada no âmbito da Assembleia Ordinária de n° 140, realizada nos dias 07 e 08 de junho de 2006 e estabelecida pela Resolução n.º 119, de 11 de dezembro de 2006, publicada no DOU de 13 de dezembro de 2006.
Rio de Janeiro, o que pode levar à confusão e ao descrédito da medida, como se tentará demonstrar mais adiante.
Uma mudança significativa na nova forma de abordagem e tratamento do adolescente em conflito com a lei está no fato de que o Sistema Socioeducativo passa a ser descentralizado.
Do ponto de vista da medida socioeducativa, o Conanda baixou a Resolução n.º 171, de 04 de dezembro de 2014, com vistas a estabelecer
os parâmetros para discussão, formulação e deliberação dos planos decenais dos direitos humanos da criança e do adolescente em âmbito estadual, distrital e municipal, em conformidade com os princípios e as diretrizes da Política Nacional de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes e com os eixos e objetivos estratégicos do Plano Nacional Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes e altera os prazos dispostos na Resolução n.º 161, de 03 de dezembro de 2013. 62
Com o advento do ECA, apenas seria possível a aplicação de duas novas categorias específicas e exclusivas: as medidas de proteção e as medidas socioeducativas. Embora ambas tenham, como no caso dos adultos, o caráter coercitivo e pressuponham o reconhecimento do erro (desaprovação do ato), há uma declaração de reprobabilidade do fato praticado (SCHCAIRA, 2015, p. 189) e o interesse social do adolescente a ser observado.
Enquanto as medidas de proteção estão voltadas à criança de até 11 anos e 11 meses e 29 dias de idade, ainda que a criança cometa ato infracional grave ou gravíssimo, terá um tratamento protetivo sob a responsabilidade do Poder Judiciário, do Ministério Público e do Conselho Tutelar.63 As medidas socioeducativas, como já destacado, têm caráter punitivo mitigado64 no sentido de garantir a desaprovação, a responsabilização pelo ato praticado e a integração social do autor do ato, bem como a responsabilidade por seu acompanhamento, que é compartilhada entre entes federativos e a sociedade civil organizada.
62 Disponível em: http://dh.sdh.gov.br/download/resolucoes-conanda/res-171.pdf . Acesso em 10 abr. 2016.
63 Importante destacar que as medidas protetivas proíbem que a criança seja conduzida a uma delegacia de Polícia Civil, sendo responsabilidade do Conselho Tutelar. De acordo com informação contida na página do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – Conanda: “O Brasil é um dos poucos países que prevê legalmente a constituição de conselhos paritários e deliberativos na área das políticas para crianças e adolescentes, assim como a estruturação de conselhos tutelares eleitos pelas próprias comunidades”.
64 O sistema punitivo mitigado tem a ver com a natureza jurídica das medias socioeducativas. E neste sentido, concordamos com Natália Barros que “para o Direito Penal Juvenil a medida socioeducativa tem natureza jurídica complexa, sendo a sua substância penal, e sua finalidade, pedagógica, considerando que ela é a resposta estatal ao cometimento de ato infracional, que se dá de forma aflitiva para seu destinatário, mas que ao mesmo tempo tem o intuito de reinserir socialmente e também na família o/a autor/a do ato infracional. Assim sendo, teria a MSE um aspecto material, que é de natureza penal, e uma esfera instrumental, predominantemente socioeducativa, que corresponderia à finalidade de quando uma medida for aplicada”. Disponível em:
http://bdm.unb.br/bitstream/10483/12573/1/2015_NataliaGrazieleMariadePinhoGuedesBarros.pdf , acessado em 20 out. 2016.
Há que se destacar que em razão de sua condição de ser humano em desenvolvimento, o adolescente infrator, cuja idade vai dos 12 anos completos até os 17 anos 11 meses e 29 dias, deve ser apreciado através de uma abordagem garantidora em relação à sua condição de sujeito de direitos. Para a concretude deste objetivo era preciso um instrumento jurídico que delimitasse a discricionariedade do juiz e corresponsabilizasse uma rede de proteção socioeducativa interdisciplinar, visando dar efetividade e eficácia à “nova gramática, cujo principal verbo é garantir” e considerasse a figura do adolescente em conflito com a lei como parte necessária à construção de uma estratégia que privilegia a sua participação no PIA (SCHECAIRA, 2015).