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O conceito de fenômeno na compreensão do ethos

1. O Ethos como fenômeno

1.5. O conceito de fenômeno na compreensão do ethos

Fenômenos são basicamente fatos da natureza, o que chamamos também de dados. Os fenômenos pertencem ao solo da experiência, e conforme afirma o professor Delmar Cardoso, “não há como não admitir que a experiência, e não o conceito, está na base do conhecer”40. Dados são vazios de auto- compreensão, não se expressam intencionalmente, porque se encontram à espera de alguém que os compreenda, já que não possuem capacidade de produzir mudanças, por encontrarem-se no lugar do empírico, sendo guiados apenas pelas experiências.

O significado de “fenômeno” se estende a tudo aquilo que se pode ter consciência, das mais variadas formas. Os fenômenos não devem ser entendidos apenas como objetos da consciência, devem ser percebidos também como ações quando conscientes, o que valerá para os âmbitos intelectivo, volitivo, afetivo, outros. De forma mais autêntica, refere-se ao conteúdo intencional da consciência.

Dessa forma, são objetos da percepção, que aparecem não somente à consciência, mas também à experiência sensível (aos sentidos), configurando, pois, qualquer algo observável.

40 CARDOSO, Delmar. Lonergan e o método em Filosofia. In BRITO, Emídio Fontenele; CHANG, Luiz Harding. (orgs.) Filosofia e Método. São Paulo: Loyola, 2002, p. 116. Apesar de esse ser direcionado a outras veredas de discussão, pensamos que tal colocação encontra-se com nossa discussão no momento.

Sendo, pois, conteúdo intencional da consciência, tal como ações enquanto conscientes, a práxis humana, e, por conseguinte, o ethos deve ser visto como fenômeno que se apresenta à consciência humana, e é por isso que existe a possibilidade de se estudar e compreender o ethos em todas suas dimensões, tal como garantir a ocorrência de constante transformação dele. Sendo assim, o ethos como fenômeno apresenta-se como um solo fértil de compreensão do próprio agir do ser humano e do meio em que vive. Esses dados, como dito, precisam ser compreendidos, levados à reflexão por alguém, e esse alguém deve ser o próprio homem, pois se mostra como sujeito capaz de perguntar sobre si. “Perguntar sobre si é buscar razões para o próprio ser, a fim de se autoafirmar”.41 Não há como negar que uma das formas de o ser humano se autoafirmar é conhecer e compreender aquilo que o cerca, o lugar social em que está inserido, sua morada, tal como seus próprios atos e aquilo que os motiva, isto é, deixar de ser apenas um “dado” para tornar-se “autoexpressão”.

O sujeito (Eu) se constroi dialeticamente, não sendo, pois, estático, nem somente determinado pela natureza ou por sua própria vontade. Por não ser encerrado em si mesmo, sua construção ocorre continuamente, a partir da suprassunção de sua inclinação enquanto animal que é (em sua fisiologia), na consciência, que o faz não agir somente por instinto; age de forma racional e consciente, deixando de ser apenas um dado, vazio em si mesmo, para se tornar autoexpressão, isto é pertencer ao mundo do sentido, onde as ações são expressão e significado42.

Conhecendo, pois, os sentidos de ethos e de fenômeno, inicialmente, podemos afirmar que o ethos, enquanto realidade histórico-social, é formado pelo encadeamento de dados/fenômenos: experiências empíricas em constante construção e movimento, de forma que se algo “está-aí-no-mundo”43 para ser compreendido, é porque é um dado. Todo ser humano é autoexpressão, no entanto, na medida em que o indivíduo coloca a si mesmo (seu agir, outros) no lugar de objeto de análise, está além do fenômeno, pois compreende a razão de sua existência, e toma consciência de que é autoexpressão.

41 SAMPAIO, R. G. Metafísica e Modernidade: método e estrutura, temas e sistema em Henrique Cláudio de Lima Vaz. São Paulo: Loyola, 2006, p. 262.

42 Ver AF I, p. 148.

43 No caso de essa expressão ser atribuída ao homem (como ocorre aqui) significará a “condição natural do ser humano”.

Na natureza, a ordenação nomológica dos fenômenos possibilita que eles sejam unificados sob a égide de um princípio unificador. Na sociedade, o indivíduo é elevado ao patamar da comunidade ética quando se integra no corpo normativo do ethos e ultrapassa a contingência da sua situação ou da sua individualidade empírica. No plano da comunidade ética, o indivíduo se refere a um princípio de ordem que fornece a razão da sua existência comunitária e do seu agir eticamente qualificado. (SAMPAIO, 2006, p. 201)

Ao definir o termo “fenomenologia”, Canto-Sperber (2003, p. 629-630) afirma que

Toda instituição doadora originária é uma fonte de direito para o conhecimento; o que se oferece a nós na ‘intuição’ de maneira originária (na sua realidade corporal, por assim dizer) deve ser simplesmente recebido na forma em que se dá, mas sem ultrapassar os limites nos quais se dá.

Entende-se aqui, que o oferecido a nós ou o que se dá como os fenômenos, ocupantes de um espaço de “estar-aí-no-mundo”, encontra-se à espera de ser conhecido, compreendido e ordenado. A autora afirma ainda que tais fenômenos “devem provar sua fecundidade, tanto no terreno ético quanto em qualquer outro terreno”, o que demonstra que não são todos os fenômenos que servirão de material para a compreensão do agir do ser humano, em seu âmago ético; será necessária uma seleção daqueles que pertencem ao campo do agir humano enquanto ético. Ou ainda, como fechamento das considerações apresentadas sobre o significado de fenomenologia, apresentamos as palavras de H. Vaz44:

A Fenomenologia designa, aqui, aquele primeiro estágio do pensamento filosófico no qual o objeto é descrito segundo os traços constitutivos da sua manifestação ao pensamento interrogante, que se pergunta sobre a

“essência” do que se manifesta (phainómenon).

44 EF II, p. 29, nota 58.