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CAPÍTULO 2 LIBERDADE E MORALIDADE

2.1 O conceito de liberdade em Kant

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prática, o uso que esta faz daqueles conceitos é diverso do que fazia a razão especulativa. Tal diferença é que justifica o duplo tratamento dado à liberdade nas duas primeiras Críticas: a primeira estabelece (ainda que apenas negativamente) sua possibilidade teórica (ou lógica); a segunda, sua realidade prática.

O problema teórico da liberdade aparece na terceira antinomia, do conflito que surge, entre tese e antítese, a partir da ideia de causalidade e que pode ser resumido na questão: os fenômenos do mundo podem ser explicados unicamente pela causalidade segundo leis da natureza ou eles exigem também uma causalidade mediante a liberdade? (KrV, B 472). A solução de Kant à antinomia consiste em aceitar os dois tipos de causalidade sob a condição de distinguir e delimitar seus respectivos campos de aplicação.

Kant mostra a necessidade de se admitir uma liberdade transcendental argumentando que a proposição da antítese (que afirma que toda causalidade é possível somente segundo a lei da natureza) se contradiz em sua ilimitada universalidade na medida em que a própria lei da natureza consiste em que nada acontece sem uma causa suficiente. Ora, essa causa suficiente ela mesma não pode ser encontrada dentro da série dos fenômenos senão seria apenas uma causa subalterna. Logo, é preciso admitir uma causalidade que não seja dependente daquela sequência temporal. Tal causalidade seria uma “espontaneidade absoluta”

“capaz de dar início por si a uma série de fenômenos que se desenrola segundo as leis da natureza e, por conseguinte, uma liberdade transcendental, sem a qual, mesmo no curso da natureza, nunca está completa a série dos fenômenos pelo lado das causas” (KrV, B 474).

A distinção entre o caráter inteligível e o caráter empírico, possibilitada pelo idealismo transcendental e que, aplicada à vontade humana, permite considerar o homem e a causalidade de suas ações sob os dois pontos de vista distintos, é o único modo pelo qual Kant considera possível pensar a união de liberdade e necessidade em uma mesma ação. Segundo o caráter empírico, as ações do sujeito são consideradas como fenômenos e, portanto, como encadeadas com outros fenômenos segundo leis da natureza numa série temporal. Por outro lado, essas mesmas ações, enquanto são efeitos em seu caráter empírico, teriam sua causa no caráter inteligível, que, por não se encontrar sujeito a condições da sensibilidade nem do tempo, não é fenômeno (KrV, B 566-569). Desse modo, afirma Kant,

por um lado, ele mesmo [o homem] é, sem dúvida, fenômeno, mas, por outro, do ponto de vista de certas faculdades, é também um objeto meramente inteligível, porque a sua ação não pode de maneira nenhuma atribuir-se à receptividade da sensibilidade (KrV, B 574s).

Essas faculdades são o entendimento e a razão. O entendimento, fazendo um uso empírico de seus conceitos, dá-nos a conhecer a causalidade segundo leis da natureza pela

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qual conhece o encadeamento das ações do homem enquanto fenômeno. A razão, por sua vez, demonstra sua causalidade através dos imperativos que se impõem como regras no âmbito prático, isto é, como dever. Ora, se levamos em conta somente o curso da natureza, dela só podemos conhecer aquilo que é, foi ou será, nunca o que deve ou deveria ser. Portanto, esse dever que exprime uma ação como necessária não pode ter seu fundamento simplesmente num fenômeno da natureza, mas num simples conceito da razão cuja causalidade devemos supor que seja distinta da causalidade da natureza, à medida que considera necessárias ações que ainda não aconteceram e talvez nem aconteçam.

Admitindo que a razão possua uma causalidade em relação às ações do homem, ou seja, que suas ações enquanto fenômenos foram determinadas não por causas empíricas, mas por princípios da razão, então o caráter empírico das ações é determinado no seu caráter inteligível. Mas não se pode pensar que a ação resulte do caráter inteligível segundo leis empíricas como se as condições da razão pura a antecedessem, pois tal causalidade da razão não está submetida à forma do tempo nem às condições de sucessão temporais (KrV, B 579).

A razão é, pois, a condição permanente de todas as ações voluntárias pelas quais o homem se manifesta. Cada uma delas está determinada no carácter empírico do homem ainda antes de acontecer. Em relação ao carácter inteligível, de que aquele é apenas o esquema sensível, nenhum antes ou depois é válido e toda a ação, independentemente da relação de tempo em que juntamente com outros fenômenos se insere, é o efeito imediato do carácter inteligível da razão pura. Esta, por conseguinte, age livremente, sem que seja dinamicamente determinada, na cadeia das causas naturais, por princípios, externos ou internos, mas precedentes no tempo; e esta sua liberdade não se pode considerar apenas negativamente, como independência perante as condições empíricas (de outro modo a faculdade da razão deixaria de ser uma causa dos fenômenos), mas também, positivamente, como faculdade de iniciar, por si própria, uma série de acontecimentos, de tal sorte que nela própria nada começa, mas, enquanto condição incondicionada de toda a ação voluntária, não permite quaisquer condições antecedentes no tempo, muito embora o seu efeito comece na série dos fenômenos, mas sem poder aí constituir um início absolutamente primeiro (KrV, B 581s).

A possibilidade, portanto, de se admitir uma causalidade por liberdade depende da distinção, já levada a cabo pela Analítica, entre “coisa em si” e “fenômeno” a partir da qual se compreende que as leis da natureza se restringem ao campo dos phenomena e as leis da liberdade ao campo dos noumena. Este encontra-se fora dos limites do conhecimento, limite a partir do qual pode haver outro uso da razão. Assim, esse dualismo é uma pressuposição

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necessária da teoria moral kantiana na medida em que abre espaço para se pensar a liberdade e a moralidade.

Kant apresenta a definição de liberdade transcendental e resume a necessidade que a razão tem de pensá-la na passagem da Dialética que segue:

entendo por liberdade, em sentido cosmológico, a faculdade de iniciar por si um estado, cuja causalidade não esteja, por sua vez, subordinada, segundo a lei natural, a outra causa que a determine quanto' ao tempo. A liberdade é, neste sentido, uma ideia transcendental pura que, em primeiro lugar, nada contém extraído da experiência e cujo objeto, em segundo lugar, não pode ser dado de maneira determinada em nenhuma experiência, porque é uma lei geral, até da própria possibilidade de toda a experiência, que tudo o que acontece deva ter uma causa e, por conseguinte, também a causalidade da causa, causalidade que, ela própria, aconteceu ou surgiu, deverá ter, por sua vez, uma causa; assim, todo o campo da experiência, por mais longe que se estenda, converte-se inteiramente num conjunto de simples natureza. Como, porém, desse modo, não se pode obter a totalidade absoluta das condições na relação causal, a razão cria a ideia de uma espontaneidade que poderia começar a agir por si mesma, sem que uma outra causa tivesse devido precedê-la para a determinar a agir segundo a lei do encadeamento causal (KrV, B 561).

Em seguida, a liberdade prática é definida como “independência do arbítrio (Willkür) frente à coação dos impulsos da sensibilidade” (KrV, B 562). Para esclarecer o tipo de independência do arbítrio humano em relação à sensibilidade, Kant o contrasta com o arbítrio animal. Ambos são sensíveis na medida em que são patologicamente afetados por móbiles da sensibilidade. A diferença é que, enquanto o arbítrio animal é patologicamente necessitado (arbitrium brutum), o arbítrio humano, embora patologicamente afetado, é um arbitrium liberum, pois a afecção sensível não torna necessária a sua ação podendo o homem determinar-se independentemente daquela coação.

O texto do Cânon, embora mais preocupado com o aspecto prático, define a liberdade praticamente nos mesmos termos:

o arbítrio humano não é determinado só por aquilo que estimula, isto é, afeta imediatamente os nossos sentidos, pois temos o poder (Vermögen) de dominar as impressões que incidem sobre a nossa faculdade sensível de desejar mediante representações daquilo que, mesmo de um modo mais remoto, é útil ou prejudicial.

Estas reflexões acerca daquilo que no tocante a todo o nosso estado é desejável, ou seja, bom e útil, repousam sobre a razão. Em consequência disto, esta última também fornece leis que são imperativos, isto é, leis objetivas da liberdade, e que dizem o que deve acontecer, embora talvez jamais aconteça (KrV, B 830).

De acordo com Allison (1990, p. 55), “a espontaneidade absoluta e a independência da sensibilidade, que são as características positiva e negativa, definidoras da liberdade transcendental são aqui, (no contexto do Cânon) entendidas como a espontaneidade e a independência da razão na determinação da vontade”. Nesse sentido, a liberdade prática é entendida como uma causalidade da razão e como tal “pode ser conhecida pela experiência como uma das causas naturais” (KrV, B 831) da determinação da vontade, enquanto a

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liberdade transcendental exige uma independência dessa mesma razão em relação às causas determinantes do mundo sensível, parecendo assim ser contrária à lei da natureza e a toda experiência possível, de modo que permanece problemática do ponto de vista especulativo.