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O dia do brinquedo, dilemas e perspectivas

3.3 O PROCESSO DE DIDATIZAÇÃO DO CONSUMO

3.4.1 O dia do brinquedo, dilemas e perspectivas

As escolas de EI pesquisadas, tradicionalmente, nas sextas-feiras, realizam o “Dia do Brinquedo”, sendo este um momento importante para o desenvolvimento da criança, como exposto pelas escolas e docentes participantes do trabalho investigativo. No que concerne a entrada do consumo no cotidiano escolar, podemos pensar que este dia é um momento central no processo de vinculação do cotidiano escolar com as mercadorias que os alunos possuem, este poderia ser uma ocasião essencial para trabalhar uma aprendizagem diferente da veiculada nas mídias, por meio da demonstração de que o processo de relações humanas, brincadeiras e práticas pode se dar para além das mercadorias. Em todas as instituições de ensino pesquisadas, é muito claro para as escolas a funcionalidade e objetivo do “Dia do Brinquedo”, sendo o momento da Ludicidade, o momento de socialização e de brincadeira no interior do cotidiano da EI. Sendo assim, aqui não estamos nos dispondo a efetivar uma crítica a este momento, mas analisar como as sextas-feiras acabam por ser um momento de efetivação de consumo, sendo esperado por crianças, como também este dia que deveria ser de plena aprendizagem, acaba por se tornar mais uma etapa de consumo.

Este é o momento em que as crianças trazem para a escola os seus brinquedos favoritos, no intuito de brincar, de socializar e de mostrar para os amigos. Sendo então uma situação de exposição de determinados produtos, gostos e hábitos das crianças, mas cabe ao docente e à escola, trabalharem e direcionarem o que deve se trazer, como deve ocorrer o processo de divisão, de brincar e de socialização, a fim de que não se torne um mero momento expositivo de mercadoria, sem direcionamento e em especial sem uma real aprendizagem, pois caso não haja uma intervenção direta por parte da escola, o dia do brinquedo passa a ser um mero passa tempo, repleto de violência simbólica e de reprodução de práticas socialmente aceitas nas demais esferas da sociedade.

Há um consenso entre as escolas, ao menos em teoria, conforme afirmam os sujeitos pesquisados – professoras e coordenadoras, que estes brinquedos devem ser simples e baratos, e que o dia tem por objetivo propiciar uma nova situação lúdica, o que por essência é interessante. Mas, ao entrar em contato com as professoras que realizam a vivência diária com os alunos, percebemos uma contradição. No discurso delas notamos que o “Dia do Brinquedo” transcende a simplicidade proposta pedagogicamente e adentra a esfera da grandiosidade e do espetáculo tecnológico. Após expor as dificuldades de utilização dos brinquedos tecnológicos, a professora relatou, “Hoje mesmo é dia do brinquedo, e aqui na sala tem dois tablets [...]” (Elis em 13/03/2015). O que demonstra que em teoria o dia é para a socialização, na prática acaba sendo um novo momento de continuidade do consumo que se efetiva além da escola, a intervenção docente limita-se e permite que o brinquedo tecnológico adentre o espaço, reduzindo, assim, uma real interação entre os alunos, ocorrendo uma socialização artificial, que se efetiva apenas pelo ter ou não um brinquedo interessante para os demais colegas.

Ao longo das entrevistas a totalidade dos docentes afirmaram que o levar de brinquedo como tablet, celular e computadores nestes dias não é algo positivo, e que constantemente ocorre dos alunos levarem-no para a escola, alguns com a permissão dos pais e outros, escondido. Ficou evidente com os relatos analisados, que uma das grandes preocupações da maioria das professoras, não é com a aprendizagem que se limita com a introdução destes aparelhos, mas em virtude do preço que eles possuem e da possibilidade destes quebrarem no dia do brinquedo, novamente retomamos a fragilidade do ensino, e este subordinado ao econômico.

Outro elemento que merece ser pensado, ou melhor dizendo, repensado no tão famoso “Dia do Brinquedo”, é o processo de diferenciação de gênero. Esses dias ao serem analisados pelo viés das contradições de gênero podem ser pensados pelas contribuições de

Finco (2007), às meninas brincam de bonecas, de salão de beleza e os meninos de carros e de heróis, sendo impensada e não trabalhada a superação de uma estrutura social de segregação entre homens e mulheres – refletindo a questão de gênero, em suas atividades e práticas cotidianas. A brincadeira de papéis é comum ao cotidiano da criança, a escola como instituição formadora e transformadora, deve propiciar as condições de superação desta condição, e não meramente aceitar e até mesmo incentivar a perpetuação de estruturas sociais segregadoras. O único momento em que houve uma certa aproximação entre os gêneros foi na utilização dos aparelhos eletrônicos, e se finda conforme o jogo que nele é realizado. Parece que há uma tendência à naturalização das relações sociais baseadas na fisiologia do corpo.

Esses brinquedos são dispositivos que participam da construção das identidades da criança, produzindo e reproduzindo determinados comportamentos.

Analisando a perspectiva de gênero que se apresenta na escola de EI, e que é possível notar pelos brinquedos, pelas brincadeiras, pelos jogos e pelos materiais escolares, percebemos, que a aprendizagem direcionada, desde os primeiros anos de vida das crianças, é de uma educação de segregação por gênero, no qual meninas são imersas em um mundo de Princesas cor de rosa e meninos circundam entre heróis azuis, sendo a indústria dos produtos infantis, sejam eles das mais diferentes espécies, perpetuadoras e incentivadora desta segregação que se efetiva no estilo e nas formas de brinquedos e materiais.

Esses fatos demonstram que a forma como vem sendo trabalhada a introdução de brinquedos e de materiais da esfera de consumo, na escola, em nada supera as estruturas para além dela, sendo uma mera reprodução de hábitos naturalizados e reproduzidos. É evidente que no jogo simbólico, parte-se do real vivido, entretanto, por este se realizar no interior da estrutura educacional, deveria ir para além do que os alunos já conhecem.

Ao analisarmos o “Dia do Brinquedo” e o próprio brinquedo, e este vem sendo transformado como mera mercadoria vendável, assim como os materiais escolares, em um mercado de capitais e como isto se coloca como um desafio para a escola, educação, ao trabalho docente, à aprendizagem e aquisição de conhecimentos, devemos resgatar uma análise de Vygotsky (2007, p. 118)

[...] o brinquedo cria na criança uma nova forma de desejos. Ensina-a a desejar, relacionando seus desejos a um “eu” fictício, ao seu papel no jogo e suas regras.

Dessa maneira, as maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação real e moralidade.

Neste percurso cabe uma reflexão sobre a importância da aprendizagem que se realiza pelo brinquedo, pelo brincar e pela brincadeira, estas são centrais para o processo de interpretação e aquisição do mundo por parte da criança, porém ao serem mercantilizadas, acabam por cercear a imaginação infantil em virtude da prontidão das “mercadorias” e não promover o processo de emancipação da criança.