• Nenhum resultado encontrado

O direito: segunda forma de reconhecimento

CAPÍTULO 3: RECONHECIMENTO NÃO RECONHECIMENTO

3.1. Os padrões de reconhecimento intersubjetivo: amor, direito, solidariedade

3.1.2 O direito: segunda forma de reconhecimento

Visto que essa relação de reconhecimento prepara o caminho para uma espécie de autorrelação em que os indivíduos alcançam mutuamente uma confiança elementar em si mesmos, ela precede, tanto lógica, quanto geneticamente, toda outra forma de reconhecimento recíproco: aquela camada fundamental de uma segurança emotiva, não apenas na experiência, mas também na manifestação das próprias carências e sentimentos, propiciada pela experiência intersubjetiva do amor, constitui o pressuposto psíquico do desenvolvimento de todas as outras atitudes de autorrespeito (HONNETH, 2009b, p. 177).

Por outro lado, com a ideia de outro generalizado, Mead estava interessado na lógica do reconhecimento jurídico como tal, ou seja, para Mead, o reconhecimento jurídico representa tão somente a relação entre o eu e o outro, na qual ambos se respeitam mutuamente como sujeitos de direitos, segundo as normas existentes na sociedade. Mais especificamente, Mead referia-se às relações de reconhecimento jurídico no interior das sociedades concretas, condicionado à estima social tributada aos participantes, em função do seu status social, cujos direitos poderiam ser reclamados através do apelo a um poder dotado de autoridade. Trata-se, em síntese, de uma forma de reconhecimento jurídico presente em sociedades tradicionais, nas quais a atribuição de direitos, condicionada ao status individual, se faz de forma desigual.

Historicamente, o sistema jurídico foi pressionado no sentido de expressar os interesses universalizáveis de todos os membros da sociedade, sem admitir privilégios; separa-se das atribuições relacionadas ao status e modifica sua finalidade passando a proteger, não somente a propriedade, mas também o exercício da capacidade universal que caracteriza a pessoa enquanto pessoa. Essa capacidade refere-se à autonomia dos indivíduos para participar, com responsabilidade, da elaboração de acordos morais ou à sua imputabilidade moral (HONNETH, 2009b, p.188). Em decorrência, a relação de reconhecimento do direito passou a expressar a forma de reciprocidade no interior da qual, obedecendo à mesma lei, os sujeitos de direito se reconhecem reciprocamente como pessoas moralmente autônomas.

Observa-se que essa definição das propriedades que caracterizam o ser humano como pessoa ou cidadão autônomo vai depender, em cada caso, dos pressupostos que o capacitam para a participação num acordo racional. Lembremo-nos aqui de que os menores de idade não são considerados capazes de participar de tais acordos. Em outras sociedades, os negros e as mulheres também não são ou não eram levados em conta. É justamente em virtude desses pressupostos que o direito moderno se tornou o foco de várias lutas por reconhecimento, resultantes das pretensões de diferentes grupos sociais no sentido da ampliação de sua imputabilidade moral. Com isso, ao longo da história, efetuou-se uma diferenciação dos direitos subjetivos em direitos liberais de liberdade, direitos políticos de participação e direitos civis de bem-estar.

Thomas H. Marshall (Honneth, 2009b) sociólogo inglês — autor de um ensaio denominado Cidadania, classe social e status — foi quem procurou reconstruir o nivelamento histórico das diferenças sociais de classe como um processo articulado à ampliação dos direitos individuais fundamentais. Para esse autor, o desacoplamento entre as atribuições ligadas ao status social e às pretensões jurídicas individuais deu origem à ideia de igualdade universal que

trouxe, para a ordem jurídica e como consequência, a recusa a quaisquer exceções e privilégios.

A ideia de cidadania, que acompanha semelhante exigência, significa exatamente que cada um é membro de igual valor na comunidade política assim instaurada. A partir daí, de acordo com Marshall (1967), ao longo da história, os direitos individuais dividiram-se em três tipos.

Estarei fazendo o papel de um sociólogo típico se começar dizendo que pretendo dividir o conceito de cidadania em três partes. Mas a análise é, neste caso, ditada mais pela história do que pela lógica. Mas chamarei estas três partes ou elementos de civil, política e social. O elemento civil é composto dos direitos necessários à liberdade individual – liberdade de ir e vir, liberdade de imprensa, pensamento e fé, o direito à propriedade e de concluir contratos válidos, e o direito à justiça. Este último difere dos outros porque é o direito de defender e afirmar todos os direitos em termos de igualdade com os outros e pelo devido encaminhamento processual. Isso nos mostra que as instituições mais intimamente associadas com os direitos civis são os tribunais de justiça. Por elemento político se deve entender o direito de participar no exercício do poder político como um membro de um organismo investido da autoridade política, ou como um eleitor dos membros de tal organismo. As instituições correspondentes são o Parlamento e conselhos do governo local. O elemento social se refere a tudo que vai desde o direito de um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar por completo, na herança social e levar a vida de um ser socializado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade. As instituições mais intimamente ligadas com ele são o sistema educacional e os serviços sociais (MARSHALL, 1967, p. 63)

Esses direitos não foram concedidos aos cidadãos e só foram alcançados ao longo do tempo, como resultados de lutas sociais. Para Marshall (1967), no século XVIII, tivemos a fundação dos direitos liberais de liberdade, ou seja, os direitos civis; no século XIX, foram estabelecidos os direitos políticos de participação. “Quanto aos direitos sociais, quase desapareceram no século XVIII e princípio do século XIX. O ressurgimento começou com o desenvolvimento da educação primária pública, mas não foi senão no século XX que eles atingiram um plano de igualdade com os outros dois elementos da cidadania” (MARSHALL, 1967, p. 75). Os movimentos em favor de uma educação obrigatória universal, pressuposta como indispensável para o exercício igual dos direitos políticos, fundamentavam-se no entendimento, segundo o qual,

os direitos políticos de participação permanecem uma concessão apenas formal à massa da população enquanto a possibilidade de sua prática ativa não é garantida por um determinado nível de vida e pela segurança econômica; de exigências de igualdade dessa espécie procedeu, no curso

do século XX, ao menos nos países ocidentais que tomaram um desenvolvimento marcado pelo Estado de bem-estar, aquela nova classe de direitos sociais que deve assegurar a cada cidadão a possibilidade do exercício de todas as demais pretensões jurídicas ( HONNETH, 2009b, p. 192).

Um outro aspecto desse desenvolvimento foi demonstrado por Marshall (1967): essa evolução não se deu apenas no nível dos indivíduos, mas no nível dos grupos sociais. No primeiro caso, no nível dos indivíduos, o direito ganha em conteúdos materiais, visto que as diferenças nas chances individuais de realização das liberdades socialmente garantidas encontram uma consideração jurídica crescente; no segundo caso, o direito ganha em amplitude, uma vez que os graus de universalização se tornam extensivos a grupos até então excluídos, garantindo-lhes os mesmos direitos que os demais. Os conflitos que se originam devido às experiências resultantes da negação do reconhecimento jurídico representam tentativas de ampliação, tanto do conteúdo material da norma, quanto do seu alcance social (HONNETH, 2009b)

Também para Ricoeur (2006), o objetivo do reconhecimento jurídico é duplo, relativo ao outro e relativo à norma. Em termos do outro, o reconhecimento significa identificá-lo como livre e igual; em termos da norma, significa aceitá-la como válida. Tal estrutura dual do reconhecimento jurídico consiste na conexão entre a ampliação dos direitos individuais e o enriquecimento das capacidades que os sujeitos reconhecem em si mesmos. Essa ampliação e esse enriquecimento constituem produtos de lutas históricas.

Qual é a espécie de autorrelação positiva possibilitada pelo reconhecimento jurídico?

Do ponto de vista da individuação, de acordo com Mead (1913), o autorrespeito é para a relação jurídica o mesmo que a autoconfiança é para a relação amorosa. Se, por meio desta, o indivíduo adquire segurança para manifestar seus próprios impulsos e carências, por reconhecer-se como um sujeito digno de amor, o autorrespeito advém da segurança de poder conceber-se como pessoa autônoma e ser respeitado por todos os outros. Ou seja, o indivíduo pode conceber-se a si próprio como digno de respeito, porque merece o respeito de todos os outros.

Ter direitos nos capacita a ‘manter-nos como homens’, olhar os outros nos olhos e nos sentir de uma maneira fundamental, iguais a qualquer um.

Considerar-se portador de direitos não é ter orgulho indevido, mas justificado, é ter aquele autorrespeiro mínimo, necessário para ser digno do amor e da estima dos outros. De fato, o respeito por pessoas [...] pode ser simplesmente o respeito por seus direitos de modo que não pode haver um sem o outro; o que se chama ‘dignidade humana’ pode ser

simplesmente a capacidade reconhecível de afirmar pretensões (FEINBERG, apud HONNETH, 2009b, p. 196).

É o caráter público de que os direitos se revestem que autoriza o indivíduo a expressar livremente suas pretensões. Com a atividade facultativa de reclamar direitos, “é dado ao indivíduo um meio de expressão simbólica, cuja efetividade social pode demonstrar-lhe, reiteradamente, que ele encontra reconhecimento universal como pessoa moralmente imputável” (HONNETH, 2009b, P.197). Pode-se concluir a partir daí que o indivíduo se sente autorizado a partilhar, com os outros membros da sua coletividade, as capacidades inerentes à formação discursiva da vontade e tem, portanto, a possibilidade de alcançar o reconhecimento universal como pessoa imputável (HONNETH, 2009b).

Contudo, para Honneth (2009b, p. 198), com essa conclusão, o que se pode afirmar é tão somente uma correlação conceitual entre conquista de direitos e autorrespeito. Provas empíricas, que demonstrem a veracidade dessas ideias na realidade fenomênica são difíceis de serem encontradas de forma direta, uma vez que o autorrespeito só é comprovável na sua ausência. Isso significa que somente com o sofrimento e as queixas advindas dos indivíduos que passaram pela experiência do desrespeito provocado pela negação dos seus direitos se tornam mais visíveis, assim como o desejo pelo autorrespeito. Quando esse sofrimento e essas queixas se tornam motivo de um debate público, tal como ocorreu com o movimento dos negros americanos, essa realidade fenomênica da vergonha social face à negação dos direitos se torna mais clara, gerando os protestos e lutas por reconhecimento.