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CAPÍTULO II: Os discursos de Chico Pinto e a decifração dos signos do poder (1971-74)

2.4 O discurso de Chico Pinto contra a Ditadura Chilena

Te recuerdo Amanda la calle mojada corriendo a la fabrica donde trabajaba Manuel La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo, no importaba nada ibas a encontrarte con el, con el, con el, con el, con el Son cinco minutos la vida es eterna, en cinco minutos

119Documento dos Autênticos recusando-se a votar na eleição presidencial (15/01/1974) In: PINTO, Francisco. Pequena História de Uma Época. Encadernação com discursos [sem referência de organização e publicação]. Contém 15 discursos de 1971 a 1974. p. 87-8.

(...) y en cinco minutos, quedó destrozado Suenan las sirenas de vuelta al trabajo muchos no volvieron tampoco Manuel.

(Victor Jara)120

Em 14 de março de 1974, Chico Pinto ergueu sua voz contra um dos maiores tiranos da América Latina, Augusto Pinochet, que estava presente no solo brasileiro para a posse de Ernesto Geisel. Veio ao Brasil com a proposta de formar um “eixo-político-Brasil-Bolivia- Chile-Paraguai”.

Francisco Pinto disse:

Mas, ontem, Sr. Presidente, chegou ao Brasil e foi recebido com honras de Chefe de Estado, quem desonrou o Estado que deveria servir a farda que o agasalha. Não fosse ele o Chefe da Junta Militar que oprime o Chile, seria recepcionado como

‘Calley’. O repúdio seria a homenagem justa ao mais truculento dos personagens que, nas duas décadas, esmagaram povos na América Latina121.

Francisco Pinto acusou Pinochet de assassino de proletários, mulheres e crianças.

Perguntou e afirmou:

Quem Allende matou, Sr. Presidente? Mas aquele que se intitula democrata, Augusto Pinochet, quantos crimes praticou? Quanto sangue sangrou dos seus próprios patrícios para saciar sua sede de poder e para servir a patrões de outras pátrias? Como todo fascista, serviu-se da democracia chilena pra acusar os democratas cristãos e os marxistas de prejudicarem o Chile, de servir a outros interesses e de receber dinheiro, obtendo ajuda externa, os primeiros da Itália e da Alemanha, e os segundos da Rússia e de Cuba122.

Como o Brasil e outros países da América Latina, o Chile também foi vítima do golpe dos civis e militares que esmagou e oprimiu os trabalhadores. A luta de classes no Chile, na década de 70, havia se acirrado em tamanha proporção que o país parecia se dividir em dois grandes blocos coesos e disputantes, a burguesia nacional e aliada ao capital internacional no partido da Democracia Cristã e o proletariado na Unidade Popular (de influência socialista).

A vitória de Salvador Allende significou o início de um governo de esquerda, com ações que provocaram reações violentas dos grupos capitalistas, sobretudo internacionais.

120Artista Chileno, comunista e morto brutalmente pelo comando do golpe de Estado em setembro de 1973.

121Pinto começa o discurso falando desse personagem, o Tenente William Calley, do Exército dos EUA, assassino na guerra do Vietnã, e que foi condenado pela opinião pública pelo massacre de Mi Lay. Fala dele para dizer que país nenhum o recebe com honras, este foi julgado pela Justiça Militar dos Estados Unidos e afastado do Exército. PINTO, Francisco. General Pinochet: O Infame (15/03/74). In: PINTO, Francisco. Pequena História de Uma Época. Encadernação com discursos [sem referência de organização e publicação]. Contém 15 discursos de 1971 a 1974. p 95.

122PINTO, Francisco. General Pinochet: O Infame (15/03/74). In PINTO, Francisco. op. cit.. p. 96.

Allende promoveu a estatização das principais indústrias e fábricas, das minas de cobre (maior fonte de divisas Chilena). Houve ainda a iniciativa do fim da especulação do preço dos víveres, sendo estes controlados pelo Estado, e mais um plano de reforma agrária, etc.

O objetivo do governo Allende:

Seria constituído assim um eixo socializado da economia, ao mesmo tempo que se golpeava de morte o capital monopolista, grande parte do qual era estrangeiro. Por sua vez, o aparelho estatal deveria ir sendo transformado desde o seu interior, mudando sua natureza de classe de um Estado burguês para um Estado popular123.

O governo Allende assumiu um caráter diretivo popular e contava com apoio da grande parcela dos trabalhadores. As marchas denotavam o apoio do setor popular às iniciativas de Allende: Allende, Allende, El pueblo te defiende. As organizações populares cresciam, em torno dos cordões de fábrica, da Central Única dos Trabalhadores, CUT, da UP.

Do outro lado a burguesia chilena, a classe média e o empresariado que visualizavam o perigo da organização dos trabalhadores em colocar em xeque os privilégios históricos, em disputa do poder. A burguesia tentou de diversas formas boicotar o governo Allende, incitando greves (com o financiamento dos EUA). A tentativa da direita era paralisar o país e desequilibrar a economia, como mecanismo de derrubar o governo Allende.

As pressões cresciam da parte da oposição no Congresso chileno contra Allende.

Ainda mais quando aquela ganhou as cadeiras parlamentares em 1973. Mesmo assim as marchas dos camponeses e trabalhadores tomavam a ruas do país, a burguesia também promovia as suas. E de forma inescrupulosa a elite civil e os militares preparavam o golpe. O ataque armado ao palácio da Moneda ocorreu em 11 de setembro 1973, e matou o presidente Allende, que resistiu com arma em punho.

A Junta Militar assumiu o poder e começou a caça aos comunistas, as invasões e repressões aos bairros proletários, as torturas e assassinatos124, numa ditadura que durou 17 anos.

Francisco Pinto disse no seu discurso:

(...) o que nos vem do Chile de Pinochet é o fechamento de jornais, é a censura desvairada à imprensa renascente. O que nos vem do Chile é a opressão mais cruel, de que nos dá idéia a reportagem e as fotos publicadas pela revista VISÃO, do campo de concentração da Ilha Dawson. O que nos vem do Chile é o clamor dos

123SADER, Emir. Cuba, Chile, Nicarágua: socialismo na America Latina. 8ed. São Paulo: Atual, 1992. P. 43- 44.

124Com bastante sensibilidade, o filme Machuca, retrata a dualidade da vida burguesa, em bairro rico e dos bairros operários no Chile na época do governo Allende, a articulação das duas classes em torno dos partidos e interesses, mais a brutalidade do golpe de Estado Chileno, leitura mostrada através da vivencia de duas crianças de classes antagônicas, Machuca e Gonzalo. Filme dirigido por Andrés Wood.

presos, dos perseguidos, do povo oprimido. É o horror do massacre promovido pelos golpistas125.

Na Ilha Dawson foram mantidos presos em regime de trabalho forçado os ministros do Governo de Allende126. Com esse discurso contra a ditadura de Pinochet, Chico Pinto se posiciona contra um regime que massacrou grande parte dos trabalhadores e organizações de esquerda, e depôs um governo com iniciativas socialistas. Chico Pinto se posiciona contra uma dada ordem política que se espalhou pela América Latina, um modelo capitalista sustentado na repressão violenta.

Atacou o silenciamento e a censura para evitar que passasse ilesa a visita de Pinochet, prestigiado pelos governistas como chefe de Estado. Francisco Pinto foi à tribuna para dizer que aquele assassino não era bem vindo no país, nem os que aqui estavam eram apoiadores de tal regime brutal. A imprensa, por sua vez, não poderia fazer referência ao que representava Pinochet e a vinda dele ao Brasil: uma aliança continental de ditadores contra os trabalhadores. Era a universalização de um projeto político e econômico de privilégio uma minoria à custa do massacre e misérias de muitos. Era essa situação que a figura de Pinochet mais especialmente representava e contra a qual Francisco Pinto bradou veementemente.

Como Allende e tantos outros, que se voltaram contra as grandes forças repressoras que dominavam o continente, sobreveio o fim trágico. O de Allende, a morte; o de Chico Pinto, o silenciamento. Esse foi seu último discurso no Congresso Nacional da legislatura que cumpria. Chico Pinto foi processado por ofensa a chefe de Estado.

Processado, em 28 de março de 1974, pelo Executivo, por ter proferido discurso na Tribuna da Câmara dos Deputados, denunciando violências praticadas pelo General Pinochet, do Chile, foi condenado a seis meses de prisão pelo STF, em outubro de 1974, e perdeu o mandato por decisão da Mesa da Câmara dos Deputados. Cumpriu pena no 1º BPM, DF 127.

Depois do processo sofrido com esse discurso, Chico Pinto em uma visita à cidade de Feira de Santana, em entrevista à Radio Cultura reafirmou o conteúdo do discurso, das denuncias contra Pinochet e alertou para a intolerância do governo e foi novamente alvo de

125PINTO, Francisco. General Pinochet: O Infame ( 15/03/74).In: PINTO, Francisco. Pequena História de Uma Época. Encadernação com discursos [sem referência de organização e publicação]. Contém 15 discursos de 1971 a 1974. p 96-7.

126Outro filme bastante interessante é a Ilha Dawson, baseado nos escritos do ex-ministro de Allende, Sergio Bitar - então ministro das Minas e Energias, mostra o sofrimento dos prisioneiros nesse campo de concentração, usa cenas reais do golpe, como o ultimo discurso de Allende e o ataque ao palácio da Moneda. Dirigido por Miguel Littin, lançado em 2009.

127Disponível em: http://www2.camara.gov.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=

105942&tipo=0

processo. Com a suspensão dos direitos políticos Chico Pinto não pôde concorrer às eleições de 1974128.

O capítulo demonstra o significado dos discursos de Chico Pinto no determinado momento histórico. Que produto simbólico o deputado negociava, que grupo disputava.

Assim, como era dado o limite de se fazer político, do que poderia ser dito. O discurso sobre o Pinochet foi o limite para ele, não só pelo dito, mas por ser um momento estratégico. Com a cassação e a protelação do processo, o deputado ficou impedido de concorrer às eleições de 1974. Os militares tiraram o deputado do caminho.

128Jornal Movimento, 9/05/1977, Ed. 97, p.8. A Absolvição de Chico Pinto.