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manifestantes, logo no início dos levantes. Assim, em 21 de outubro de 2011, foram realizadas eleições abertas,18 inaugurando uma nova era de perspectivas para o povo tunisiano.19

Os protestos do Egito encontraram no governo um adversário encarniçado. No poder desde 1981, Muhammad Hosni Said Mubarak, ex-oficial da força aérea egípcia, era o Vice- presidente da república quando Anwar Al Sadat, então presidente, foi assassinado. Alçado ao poder em outubro daquele ano e disposto a continuar pelo menos até a realização das eleições que ocorreriam em setembro de 2011, quando pretendia ser sucedido por seu filho Gamal, Mubarak respondeu com extrema dureza e violência a todos os desafios perpetrados contra a autoridade estatal. Castells (2013, p.57) ressalta, em relação à revolução egípcia, que a disposição do governo era de que “nenhum desafio à autoridade do Estado ficaria sem resposta”. Como se viu, o governo de Mubarak pôs em prática medidas que nenhum outro país ousou fazer até então, como bloquear totalmente a internet, sinais de telefonia celular e a troca de mensagens SMS. Mas as medidas não surtiram o efeito desejado. Castells (2013, p.58-59) destaca que ao tentar bloquear a internet, o governo sofreu um imediato contra-ataque de uma resistência que:

[(...) vem da vigilância da comunidade global da web, que inclui hackers, techies, empresas, defensores dos direitos humanos, redes de militantes como a Anonymous e pessoas do mundo todo para os quais a internet se tornou tanto um direito fundamental quanto um modo de vida. Essa comunidade veio ao socorro do Egito como fizera na Tunísia em 2010 e no Irã, em 2009. Além disso, a engenhosidade dos manifestantes egípcios tornou possível a reconexão com o movimento, assim como entre este, O Egito e o mundo em geral. (...) [para se ter um exemplo] Uma organização internacional de hackers, a Telecomix, desenvolveu um programa que recuperava automaticamente mensagens telefônicas provenientes do Egito e as repassava para todas as máquinas de fax do país. Muitas delas operavam em universidades que frequentemente eram usadas como centro de comunicação.

Figura 8 – Manifestantes na Praça Tahrir

Fonte: http://oglobo.globo.com/fotos/2011/02/18/?p=2

Assim, o bloqueio20 implementado pelo governo egípcio caiu por terra e as autoridades logo foram obrigadas a restaurar os serviços.21 O povo já estava nas ruas e havia a mobilização necessária para a revolução em marcha. Outros tipos de rede foram criadas e funcionavam a pleno vapor e mecanismos diversos foram utilizados pelos manifestantes em sua comunicação.

Suspender a internet se revelou um ato desesperado que logo demonstrou sua ineficácia, de modo que o bloqueio foi rapidamente levantado. Mas o levantamento do bloqueio também se deu por razões econômicas. A OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estimou que o Egito perdera cerca de 90 milhões de dólares nos dias sem internet.22

Mesmo com a renúncia de Mubarak, que veio acontecer em 11 de fevereiro de 2011, a situação dos manifestantes pouco se alterou. Alçado ao poder, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), disposto a manter o privilégio dos militares, exerceu uma repressão mais violenta do que o antigo governante. Castells (2013, p.63,grifos nossos), relata que

O CSFA tentou apaziguar e desativar o movimento revolucionário, cobrindo-se do manto da revolução para garantir que, ao mudar, tudo permanecesse do mesmo jeito (...) O ano de 2011 como um todo testemunhou um confronto sem tréguas entre o CSFA e o movimento (...) O pleito para o Parlamento Constituinte de fato teve lugar, iniciando-se em 28 de novembro e prosseguindo por várias semanas. Mas foi só finalmente aceito pelo CSFA após uma série de confrontos sangrentos entre o movimento e os militares durante todo o ano, com 12 mil civis condenados em tribunais militares, cerca de mil manifestantes mortos e dezenas de milhares de feridos.

Após muita repressão perpetrada pelo CSFA, só em junho de 2012 foram realizadas eleições e foi eleito para a presidência do país Mohamad Morsi, candidato da irmandade muçulmana, tornando-se o primeiro civil eleito de forma democrática para governar o Egito.

Porém, em 3 de julho de 2013 Morsi foi deposto e a constituição suspensa, dando segmento às indefinições políticas no país. O general Abdul Fatah Saeed Hussein Khalil Al-Sisi, ex-Ministro

20 Para mais informações sobre o bloqueio e como os egípcios o superaram, acesse: <http://g1.globo.com/

tecnologia/noticia/2011/02/saiba-como-o-egito-se-desligou-da-web-e-o-que-e-feito-para-furar-bloqueio.html/>.

Acesso em 16 jun. 2016.

21 O bloqueio teve início no dia 28 de janeiro e no dia 2 de fevereiro foi restaurado.

22 Os serviços de telecomunicações e internet representam entre 3% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do Egito. Para mais informações, acesse: <http://idgnow.com.br/internet/2011/02/03/corte-da-internet-no-egito- custou-us-90-milhoes-a-economia-do-pais/>. Acesso em 16 jun. 2016.

da Defesa e ex-Chefe das Forças Armadas, personagem principal da deposição de Morsi, foi eleito presidente do Egito nas eleições realizadas em 2014.23

Assim, apesar das incertezas que ainda norteiam o Egito, a revolução ocorrida no país em 2011 foi importantíssima para o contexto das revoluções e dos movimentos reivindicatórios que se alastraram por vários países árabes, alguns países europeus, Estados Unidos e também aqui no Brasil. O que o mundo pôde vislumbrar através da internet e de outras mídias era a possibilidade de mudança efetiva. Se um país assolado pelo autoritarismo e dividido política e religiosamente como o Egito pôde colocar em prática uma revolução que abalou os alicerces de um regime ditatorial que há décadas dominava o país, por que não outros? A Tunísia mostrou ser possível e, no Egito, a Praça Tharir foi o interruptor que ligou a conexão com as múltiplas redes globais de resistência aos poderes estabelecidos. (CASTELLS, 2013, p.63)

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