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2.4 O que é o feminismo?

2.4.1 O Feminismo Interseccional

O termo interseccionalidade foi cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, professora e advogada negra norte-americana, defensora dos direitos civis e uma das principais estudiosas de raça nos Estados Unidos. De acordo com a teórica, a interseccionalidade permite-nos enxergar a sobreposição de estruturas, fazendo com que a discriminação assuma singulares características. Assim, mulheres negras não são contempladas por um feminismo que não tem em seu cerne a questão da raça, reproduzindo racismo, e não são contempladas por um movimento negro, que não observa a vivência das mulheres negras, colocando-as na periferia do movimento.

O feminismo interseccional aponta para os atravessamentos formadores das diferentes mulheres. Ele verifica que nós não somos um grupo homogêneo e, portanto, luta pelos direitos das mulheres a partir da interseção de outras características da opressão, como a classe social e raça. É um feminismo que admite a importância de se considerar as vivências das classes “subalternas” no capitalismo para, a partir de então, nortear as lutas femininas.

Segundo Akotirene,

A interseccionalidade visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo, cisheteropatriarcado –

produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais. (AKOTIRENE, 2020, p.19)

A ignorância desses atravessamentos permite que mulheres continuem sendo exploradas por homens e por outras mulheres dentro da lógica capitalista e racista do Brasil. Uma das pautas feministas fundamentais, a sororidade8, só poderá de fato ser efetiva quando houver o reconhecimento de que as mulheres não partem do mesmo ponto na sociedade brasileira. Não poderá existir sororidade enquanto mulheres explorarem outras mulheres. Basta andarmos pela Zona Sul carioca, por exemplo, para vermos mulheres negras de roupas brancas que cuidam dos bebês de mulheres brancas. Longe de definir qual emprego é válido ou não, nesse exemplo vemos que mulheres pretas ocupam cargos e trabalhos que mulheres brancas não querem ocupar. De acordo com Bell Hooks,

(...) podemos nos tornar irmãs na luta somente confrontando as maneiras pelas quais mulheres – por meio de sexo, classe e raça – dominaram e exploraram outras mulheres, e criaram uma plataforma política que abordaria essas diferenças.

(HOOKS, 2020, p.19-20)

A autonomia das mulheres que fazem parte da base da pirâmide da sociedade brasileira só poderá ocorrer através da luta nos espaços políticos. Para o feminismo interseccional, não há a possibilidade de existir uma emancipação feminina se esta não estiver aliada à política. O feminismo só é feminismo se lutar pelo fim de uma sociedade patriarcal, exploratória, racista, classicista e opressora. Assim, a sororidade mostra-se não somente na compaixão compartilhada em casos de sofrimento comum entre mulheres com vivências parecidas, mas também na luta política contra a injustiça patriarcal, não importa a forma que a injustiça se configura. Para o feminismo interseccional não há uma hierarquia de opressão, isto é, gênero antes de raça e de classe, mas sim a imbricação desses marcadores identitários que contribuem para a exploração de variadas mulheres.

As pautas e metodologias do feminismo interseccional foram levantadas inicialmente por mulheres negras, como já afirmado no subitem anterior e no início dessa subseção, ao escrever sobre as feministas revolucionárias. Portanto, para algumas feministas interseccionais, esse tipo de feminismo deve ser nomeado de feminismo negro, pois, dessa forma, mostra quem foram as mulheres que sempre estiveram à frente de uma luta que de fato promovesse a emancipação de todas as mulheres.

8 De acordo com Babi Souza (2016), sororidade é e a aliança entre mulheres baseadas na empatia e companheirismo, na busca de alcançar objetivos em comum.

A partir do pensamento do feminismo interseccional se inicia, em 1980 no Brasil, uma maior estruturação de luta entre feministas negras, concomitante com as pautas do Movimento Negro que já tinham começado a serem debatidas na década de 1970 no país. Essas feministas apontavam que as mulheres negras possuem características diferentes das mulheres brancas e, por isso, não podem estar embaixo de um mesmo feminismo.

As mulheres negras das décadas de 1960 e 1970 não se adequavam a movimentos que deveriam abarcá-las: por um lado, havia a invisibilidade do movimento feminista ao deixar de se preocupar com as questões das mulheres negras e focar em diretos trabalhistas, quando muitas mulheres negras nem integravam o trabalho formal; por outro lado, havia o protagonismo masculino no Movimento Negro, tornando as pautas misóginas e sexistas.

Segundo Sueli Carneiro,

Essa temática da mulher negra invariavelmente era tratada como subitem da questão geral da mulher, mesmo em um país em que as afrodescendentes compõem aproximadamente metade da população feminina. Ou seja, o movimento feminista brasileiro se recusava a reconhecer que há uma dimensão racial na temática de gênero que estabelece privilégios e desvantagens entre as mulheres. (SUELI CARNEIRO, 2011, p.121)

A evolução do feminismo negro no Brasil passou por maiores dificuldades em seu início, quando os livros sobre feminismo publicados no país eram produzidos por mulheres brancas.

Isso era consequência direta do pouco acesso das mulheres negras ao ambiente acadêmico, já que as reflexões e pesquisas sobre o assunto aconteciam em sua maioria nas universidades.

Angela Davis, uma das precursoras do feminismo negro nos Estados Unidos na década de 1960, conseguiu aprimorar os debates sobre a situação da mulher negra por ter acesso à universidade.

Ao se pensar em feminismo negro, a dúvida da real necessidade desse tipo de feminismo aparece para as feministas não negras, afinal, poderia ser visto como uma separação da pauta principal de todo feminismo, que é a luta contra o patriarcado e sexismo. Todavia, para nós, mulheres negras, é impossível tentar romper com a opressão machista quando temos pouca visibilidade na sociedade e nossos direitos básicos negados.

Davis (2016) aponta as diferenças constituintes da formação das mulheres negras estadunidenses que refletem na vida contemporânea das mulheres negras no país. No início do livro Mulheres, raça e classe ela traz uma diferença crucial entre a formação do papel social da mulher branca no período colonial e a formação do papel social da mulher negra nesse mesmo período:

Proporcionalmente, as mulheres negras sempre trabalharam mais fora de casa do que suas irmãs brancas. O enorme espaço que o trabalho ocupa hoje na vida das mulheres negras reproduz um padrão estabelecido durante os primeiros anos de escravidão (DAVIS, 2016, p. 17).

À medida que a ideologia da feminilidade – um subproduto da industrialização – se popularizou e se disseminou por meio das novas revistas femininas e dos romances, as mulheres brancas passaram a ser vistas como habitantes de uma esfera totalmente separada do mundo do trabalho produtivo. A clivagem entre economia doméstica e economia pública, provocada pelo capitalismo industrial, instituiu a inferioridade das mulheres com mais força do que nunca. Na propaganda vigente, “mulher” se tornou sinônimo de “mãe” e “dona de casa”, termos que carregavam a marca fatal da inferioridade. Mas, entre as mulheres negras escravas, esse vocabulário não se fazia presente. Os arranjos econômicos contradiziam os papéis sexuais hierárquicos incorporados na nova ideologia. Em consequência disso, as relações homem-mulher no interior da comunidade escrava não podiam corresponder aos padrões da ideologia dominante (idem, 2016, p. 24-25).

Relaciona-se a isso a solidão sofrida pelas mulheres negras nas relações amorosas na sociedade ocidental. A partir do momento em que elas não podiam se dedicar somente à função de mãe e dona de casa justamente por serem escravas e, como objetos, estarem à vontade dos senhores, se destitui delas a capacidade de ser uma “boa mulher” aos moldes da ideologia dominante (europeia e cristã). Assim, elas ficam à margem das relações, ou seja, se elas não podem desempenhar o papel de mãe como o estipulado pela sociedade cristã – já que esse papel é das mulheres brancas -, elas servirão para outros papeis que não o de constituir uma família:

O ditado “Branca para casar, mulata para fornicar e negra para trabalhar” é exatamente como a mulher negra é vista na sociedade brasileira: como um corpo que trabalha e é superexplorado economicamente, ela é a faxineira, arrumadeira e cozinheira, a “mula de carga” de seus empregadores brancos; como um corpo que fornece prazer e é superexplorado sexualmente, ela é a mulata do Carnaval cuja sensualidade recai na categoria do “erótico-exótico. (LÉLIA GONZALES, 2020, p.179)

Desses papéis sociais femininos surgidos no período escravagista, resultou a luta do movimento feminista branco na busca de as mulheres serem donas de seus corpos e suas sexualidades. Porém, essa luta por poder “transar com quem quiser” ou andar de seios à mostra não cabe às mulheres negras, pois, ao serem destituídas da capacidade de serem donas de casa e esposas, a elas fica destinado o papel de mulheres com quem os homens podem se relacionar sexualmente antes de se casarem, sem efetivar um compromisso. Assim, o corpo da mulher negra pertence, no imaginário social, ao domínio público. O compromisso e a

castidade aparecem relacionados ao papel da esposa, de mãe e de dona de casa, desempenhado pelas mulheres brancas.

Por outro lado, mesmo tendo o corpo objetificado, o prazer sexual das mulheres negras é ignorado, servindo apenas para atender as vontades masculinas. Essa negação do prazer pode ser consequência da relação estabelecida entre elas e senhores brancos no período colonial:

Seria um erro interpretar o padrão de estupros instituídos durante a escravidão como uma expressão dos impulsos sexuais dos homens brancos, reprimidos pelo espectro da feminilidade casta das mulheres brancas. Essa explicação seria muito simplista. O estupro era uma arma de dominação, uma arma de repressão cujo objetivo oculto era aniquilar o desejo das escravas de resistir e, nesse processo, desmoralizar seus companheiros (Ibidem, 2016, p. 36).

Os abusos sexuais sofridos rotineiramente durante o período da escravidão não foram interrompidos pelo advento da emancipação. De fato, ainda constituía uma verdade que “mulheres de cor eram consideradas como presas autênticas dos homens brancos” – e, se elas resistissem aos ataques sexuais desses homens, com frequência eram jogadas na prisão para serem ainda mais vitimizadas por um sistema que era um “retorno a outra forma de escravidão” (Ibidem, 2016, p. 98).

Verifica-se, portanto, a necessidade de haver um feminismo interseccional (negro) que atenda às especificidades dessas mulheres. A história construiu caminhos diferentes entre elas, fazendo da mulher negra a base da pirâmide social, precisando lutar contra o racismo e o machismo. As feministas negras não lutam somente para ter seus direitos civis equiparados aos dos homens brancos, mas para poderem ter prazer sexual, para não serem estupradas e violentadas, para saírem da condição de pobreza, para não terem seus maridos e filhos assassinados pelas mãos da polícia militar, para não sofrerem violência obstétrica no Sistema Único de Saúde (SUS).