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O Guia dos Perplexos

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 92-97)

2.2 Os escritos de Maimônides

2.2.2 O Guia dos Perplexos

Eu colhi material espalhado a partir de várias fontes e tentei arranjá- los em um código sistematizado e metódico. Seria então de admirar que alguns erros tenham se insinuado dentro deste estudo complicado, especialmente na minha idade, quando a pessoa tem a tendência de esquecer certas referências? Por estas razões, eu aconselharia todo estudioso do meu trabalho a investigar escrupulosamente o texto e a conferir o conteúdo e as conclusões às quais chegamos. Que nenhuma pessoa se sinta restringida em examinar criticamente todos os detalhes do livro. [...] Desta forma, toda a ambiguidade e confusão serão retirados do texto e o meu principal motivo para escrever o “Código” estará concluído (Carta ao Rabino Ionatan Hacohen, 6:4).

Apesar da oposição ao Mishné Torá, o código permaneceu, até os dias atuais, como a maior obra de jurisprudência rabínica, reconhecida até mesmo por aqueles que combateram as concepções maimonidianas (HADDAD, 2003).

Entretanto, a circulação desse código, a partir de 1180, deflagrou uma das maiores polêmicas internas que o Judaísmo enfrentou. Tal polêmica intensificou-se posteriormente com o término e a tradução para o hebraico do Guia dos Perplexos.

Figura 6 - Página do Guia dos Perplexos (c. 1325 - 1374 d.C.)

Fonte: Localizada na Biblioteca Britânica. Disponível em: < https://www.bl.uk/collection- items/maimonides-guide-to-the-perplexed>.

No início da carta temos, “Em nome de Deus, Senhor do Universo. Para R. Joseph (que Deus o proteja!), filho de R. Jehudah (que ele descanse no Paraíso!)” (Guia, Introdução). Sendo assim, o início da introdução ao Guia é uma carta pessoal de Maimônides ao seu pupilo, o qual relembra do início dos estudos de Rabi Joseph. Adiante, o Rambam afirma:

[...] sua ausência [de seu aluno] me motivou a escrever esse tratado para você e para aqueles como você, apesar de poucos o serem. Eu o dividi em capítulos, cada um deles será enviado a você assim que forem terminados. (Guia, Intr.).54

O principal objetivo do Guia dos Perplexos é orientar o aluno através do caminho que leva até o verdadeiro conhecimento divino. Entretanto, esse conhecimento não é acessível a qualquer aluno, o que explica a expressão

“apesar de poucos o serem” da passagem anterior. De acordo com Maimônides,

O objetivo desse tratado é ilustrar um homem religioso que foi educado para acreditar na verdade da nossa santa Lei, que conscientemente cumpre seus deveres morais e religiosos, e ao mesmo tempo foi venturoso em seus estudos filosóficos (Guia, Intr.).55

O esclarecimento sobre o objetivo é seguido pela explicação do autor para a escolha do título de seu escrito. Conforme suas palavras,

[...] até pessoas esclarecidas são aturdidas se compreendem essas passagens em seu significado literal, mas eles são inteiramente retirados de suas perplexidades quando explicamos a metáfora, ou meramente sugerimos que os termos são figurativos. Por essa razão eu intitulei esse livro de Guia dos Perplexos (Guia, Intr.).56

Dito isso, Maimônides esclarece que não pretendia que seu escrito cessasse com todas as dúvidas que permeiam a tradição judaica, mas que propõe resoluções para parte das dificuldades. De maneira geral, no Guia dos Perplexos, o Rambam irá defender que as escrituras sagradas devem ser

54[…] Your absence has prompted me to compose this treatise for you and for those who are like you, however few they may be. I have divided it into chapters, each of which shall be sent to you as soon as it is completed.

55The object of this treatise is to enlighten a religious man who has been trained to believe in the truth of our holy Law, who conscientiously fulfils his moral and religious duties, and at the same time has been successful in his philosophical studies.

56Even well informed persons are bewildered if they understand these passages in their literal signification, but they are entirely relieved of their perplexity when we explain the figure, or merely suggest that the terms are figurative. For this reason I have called this book Guide for the Perplexed.

compreendidas de maneira alegórica, e não literal. Tais alegorias somente podem ser decifradas mediante a ajuda da filosofia e da metafísica.

Partindo desses pressupostos, o Guia dos Perplexos está dividido em três volumes, possuindo cento e setenta e seis capítulos. O primeiro volume tece análises sobre certas expressões bíblicas, no intuito de servir de introdução para o estudo da questão em torno dos atributos de Deus. O segundo volume, por sua vez, trata das provas da existência de Deus e da crença na Profecia. É nesse mesmo capítulo que o Rambam também disserta sobre a unicidade de Deus e a prova de Sua existência, o que acreditava que deveriam ser compreendidas como duas verdades absolutas. Por fim, o terceiro volume é dedicado à questão escatológica e a afirmação de que os judeus não deveriam buscar uma causa final para o Universo. Além disso, o Rambam afirma que

Se você deseja compreender todo o conteúdo desse livro, nada deverá escapar de sua percepção, considere os capítulos em ordem conectados. No estudo de cada capítulo, não se contente em compreender o objeto principal, mas também todo termo mencionado nele, mesmo que pareça não ter conexão com o objeto principal (Guia, Intr.).57

O Rambam pretendia demonstrar que existe uma identidade essencial entre a filosofia produzida pelos gregos e a tradição judaica (FALBEL, 1984).

Essa identidade, para ele, deveria ser compreendida por aquele que pretendia iniciar os estudos sobre os mistérios divinos. Para Nachman Falbel (1984, p.

65), talvez essa tenha sido sua contribuição mais relevante no Guia dos Perplexos. Segundo Dujovne ([s.d.]), é no Guia que Maimônides manifestou sua fidelidade ao Judaísmo, bem como a profundidade de seu conhecimento, ao tratar de questões que envolvem um sistema filosófico, teologia, metafísica e ética.

57 If you desire to grasp all that is contained in this book so that nothing shall escape your notice, consider the chapters in connected order. In studying each chapter, do not content yourself with comprehending its principal subject, but attend to every term mentioned therein, although it may seem to have no connection with the principal subject.

Nesse sentido, Maimônides afirmou que não há oposição entre a filosofia grega e o ensinamento rabínico, mas sim um apoio mútuo. Em outras palavras, o Rambam procurou demonstrar uma harmonização teológica, dirigida para as dúvidas de um grupo específico. Esse grupo, no caso, era o dos judeus com avançado conhecimento nas disciplinas profanas e religiosas, mas que não concordavam com a possível conciliação entre a ciência e a filosofia com os escritos bíblicos, talmúdicas e rabínicos (GUINSBURG, 1968).

Na introdução do Guia, Maimônides afirmou que:

[...] o significado oculto, inclusive no sentido literal, é similar a uma pérola perdida em um quarto escuro, cheio de móveis. É certo que a pérola está na sala, mas o homem não consegue a enxergar ou saber onde ela se encontra. É como se a pérola não mais estivesse em sua posse, pois, como já foi dito, não lhe dá nenhum benefício até que ele acenda uma luz (Guia I, Intr.).58

Para o Rambam, a luz que acende o quarto escuro é a filosofia, a qual seria um instrumento ou um meio que levaria o homem em direção à devida compreensão dos mistérios religiosos. Em outras palavras, a filosofia grega passa a ser vista como fundamental para o entendimento da verdade divina.

Destarte, no Guia dos Perplexos, Maimônides pretendeu demonstrar que as Escrituras Sagradas e o Talmude harmonizam com a filosofia aristotélica se forem interpretados de forma correta. De acordo com Wolfson (1977, p. 297), Maimônides foi um verdadeiro aristotélico medieval e analisou a religião judaica à luz de conceitos filosóficos aristotélicos.

Entretanto, o Guia foi recebido com debates e polêmicas, tanto pelas conceituações quanto pelas posições adotadas pelo autor. Em 1232, opositores das ideias maimonidianas denunciaram aos dominicanos o Guia dos Perplexos, o qual foi queimado em praça pública (HADDAD, 2003). Sendo assim, no início do século XII, durante a Controvérsia Maimonidiana, os

58 [...] the hidden meaning included in the literal sense of the simile to a pearl lost in a dark room, which is full of furniture. It is certain that the pearl is in the room, but the man can neither see it nor know where it lies. It is just as if the pearl were no longer in his possession, for, as has been stated, it affords him no benefit whatever until he kindles a light.

debates em torno do Guia dos Perplexos se intensificaram. Isso ocorreu devido à crescente reação antiracionalista e mística que se desenvolvia na vida intelectual religiosa judaica.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 92-97)