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O Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio

No documento Tese - Ana Carolina de Sousa Castro - 2023 (páginas 164-169)

suas experiências técnicas em defesa de litigantes ou em consultoria jurídica: definindo-se como especialistas em todo o ramo, oferecem “serviço completo”, que vai desde assessoria jurídica a lobby político, elaboração de emendas legislativas, atuação em câmeras arbitrais internacionais, entre outros. O Instituto atua nessa zona cinzenta do Estado Regulador, abraçado pelo Estado neoliberalizado (VAUCHEZ; FRANCE, 2021). Isso faz com que a atuação desses advogados não se restrinja apenas aos Tribunais; eles vão transitando entre sedes de grandes empresas, corredores do Congresso Nacional, Câmaras de Arbitragem internacional.

No próximo capítulo, irei me dedicar à descrição e análise da observação realizada durante o primeiro curso de pós-graduação oferecido pelo IBDA.

4 A FORMAÇÃO – “O ADVOGADO DO AGRO PRECISA SE ESPECIALIZAR!”

Como busquei demonstrar no capítulo anterior, as transformações operadas no mercado transnacional, teve reflexos significativos no mundo do direito. Vimos se organizar um mercado de expertises em torno da temática do agronegócio, protagonizado pelos advogados do agronegócio. Foi possível identificar determinadas práticas que vão se revestindo de advocacia de causa em torno do agronegócio, para além dos interesses e disputas profissionais. É o caso do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio, criado pelo advogado Renato Buranello.

Nesse capítulo, irei focar numa das frentes de atuação do Instituto: a formação de advogados por meio de cursos de pós-graduação lato sensu. Com isso, lançarei luz sobre uma dimensão da estrutura de apoio ao agronegócio que busca mudanças no direito por meio da criação de ideias e de estratégias jurídicas (EPP, 1998).

Partindo de uma construção nativa, sobre a necessidade de o advogado do agronegócio se especializar, mergulharei na análise do primeiro curso de pós-graduação oferecido pelo IBDA. Nesse mergulho, algumas perguntas são feitas: O que e como se ensina? O que se aprende? Como questões interessantes ao agronegócio aparecem nos relatos dos professores?

Como os alunos absorvem essas questões?

Ann Southworth (2008), em Lawyers of the Right – Professionalizing the Conservative Coalition – destaca como os advogados assumiram papeis significativos nos variados tipos de organizações sem fins lucrativos dirigidas por movimentos conservadores, entre eles think tanks, associações comerciais e escritórios de advocacia. Em seu livro “The Rise of the Conservative Legal Movement – the battle for control of the law”, Steven Teles demonstra como o movimento intelectual “Law & Economics”, observado tanto na Universidade de Chicago quanto nos programas do “Henry Manne’s Law and Economics Center” foi notavelmente bem sucedido em imprimir mudanças significativas no mundo do Direito quanto à inserção de teorias conservadoras. E, contraposição, a primeira geração de escritórios conservadores de advocacia, fortemente ancorada em escritórios locais e com o apoio de empresas, teria sido amplamente malsucedida na efetivação de seu projeto, o que fez com que o movimento conservador tivesse que reconsiderar a abordagem sobre mudanças legais.

O Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio é um exemplo paradigmático da simbiose entre o direito e a economia. Na apresentação oficial do Instituto, afirma-se que o IBDA nasceu da vocação de estudar o direito e a economia da atividade agroindustrial, privilegiando a geração de valor aos negócios a partir de estudos acadêmicos e da produção de notas técnicas.

Criado em 2018, o IBDA se propõe a trazer um novo modelo para o “estudo, regulamentação e formulação de políticas públicas para o setor do agronegócio” (IBDA, 2018), a partir de uma perspectiva que privilegia a relação entre o direito e a economia. Apresenta-se como um “observatório para a formulação de políticas públicas e melhor interpretação do conjunto de normas que regulam o setor” (IBDA, 2022). Funcionaria como um “difusor de conhecimento específico sobre regime jurídico do setor” (IBDA, 2022), especialmente a partir da produção de estudos técnicos voltados ao desenvolvimento do setor. Para tanto, tem duas frentes de atuação principal: a acadêmica, com a realização de cursos de curta, média e longa duração, além da publicação de artigos e livros pela Revista Brasileira de Direito do Agronegócio (RBDAgro); e a elaboração de notas técnicas.

As notas técnicas são produzidas pela “equipe de Relações Governamentais” do IBDA que atua na “Análise de Impacto Regulatório (AIR), no âmbito dos sistemas agroindustriais e suas políticas públicas” (IBDA, 2022). Tais notas teriam por finalidade atingir uma “nova regulação em meio às falhas do mercado”, objetivando “reduzir custos e melhorar o ambiente”

(IBDA, 2022). Apontando para a existência de falhas no sistema jurídico, afirma-se que a análise realizada por meio dessas notas tem por finalidade o “uso apropriado dos institutos jurídicos e sua melhor interpretação”, levando em consideração os critérios da “economicidade,

efetividade, eficácia e eficiência.”. O IBDA fundamenta juridicamente a importância de tais normas no art. 5º Lei de Liberdade Econômica, que prevê que, diante da edição e alteração de atos normativos, é necessário que propostas que versem sobre interesses gerais de agentes econômicos, sejam precedidas da realização de análise impacto regulatório. Essa AIR deve conter informações e dados sobre os possíveis efeitos do ato para que se verifique a razoabilidade do seu impacto econômico.

Segundo o IBDA, durante os anos de 2020 e 2021, foram produzidas Notas Técnicas diversas, dentre as quais eles destacam as seguintes: recuperação judicial do produtor rural, aquisição de terras rurais por estrangeiros, FIAGRO61, oportunidades para o Mercado de Capitais no agronegócio brasileiro e funções e natureza jurídica do registro da CPR (Cédula do Produtor Rural).

Atualmente a “equipe IBDA” é formada por cinco conselheiros acadêmicos, dois diretores e duas assistentes acadêmicas. Os conselheiros são:

Quadro 10 – Conselheiros acadêmicos do IBDA

Renato Buranello Francisco de Godoy Bueno

Advogado

Conselheiro na Sociedade Rural Brasileira Doutor pela USP

Erik Oioli Advogado

Sócio de Renato Buranello Doutor pela USP Bruno Lorencini Juiz Federal do TRF da 3ª Região

Doutor pela USP e pela Universidade de Salamanca/Espanha

Ana Frazão

Advogada

Professora de direito na UnB

Ex-conselheira do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE)

Doutora pela PUC-SP Fonte: A autora, 2023.

Renato Buranello é apresentado na página de inicial do Instituto como o fundador do IBDA. Em entrevista a mim concedida, Buranello afirmou que o IBDA nasceu de um desejo de organizar suas reflexões e ações acerca do direito e do agronegócio. “Como estar preparado para emitir uma nota técnica? Para pegar e ir à Brasília de hoje para amanhã porque teve um chamado e preparar uma matéria e levar lá para discussão? Participar de uma audiência pública? Propor a alteração num projeto de lei?”, se questionou. O IBDA seria, então, o lugar onde isso poderia ser organizado, separando a sua atuação profissional de sua atuação política.

61 FIAGRO é o Fundo de Investimentos nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, criado em 1993 e alterado em 2021 pela lei nº 14.130.

A criação do IBDA deu ao projeto de Buranello uma base organizacional sólida (TELES, 2008):

não se tratava apenas de ideias; elas se transformaram num fato – com equipe de pessoal, revistas, programações, professores comprometidos.

Foi, em suas palavras, uma forma de separar os seus negócios: “Eu não posso pegar a minha equipe [do escritório de advocacia], olhar para os meus sócios e falar: ‘Eu estou fazendo isso, usando da estrutura do escritório e não estou trazendo nenhuma remuneração para isso’”. O trabalho em torno dessa causa exigiria horas de dedicação, muitas vezes, sem remuneração alguma. A fundação do Instituto foi uma forma de dar autonomia financeira e administrativa a ele frente ao escritório de advocacia, separar o financiamento do Instituto da remuneração do advogado. Ele diz: “‘Você quer apoio do Renato? Paga a passagem para ele ir para Brasília’. ‘Você tem que desenvolver um trabalho? A Larissa e a equipe estão aqui para desenvolver’. Eu não quero confundir trabalho com cliente e trabalho institucional.”. As matérias com as quais o IBDA lida são “muito além do escritório”, diz Renato. “Quando eu vou à Brasília, eu não estou atendendo a um cliente, eu estou atendendo a um setor, eu estou atendendo a um segmento. Estou atendendo a algo maior. E aí o IBDA me ajudou a organizar tudo isso.”.

Assim, o IBDA seria a sua “carteirinha de Brasília” (BURANELLO, Programa “Fala, Carlão!”.). “Quando eu olho de forma setorial ou institucional, eu estou relacionando instituições ao Ministério da Economia, à Agricultura, à Frente Parlamentar [...], ao Poder Judiciário.”. E assevera: “o IBDA ele representa este tipo de atendimento, de criar relações entre os Poderes na contribuição para o setor.”.

De certa forma, mesmo anunciando o propósito evidente de servir ao agronegócio, há um esforço de manter a discrição pública sobre as posições do advogado no poder econômico.

Na fala do advogado, a atuação na defesa dos interesses dos seus clientes seria uma atuação distinta dos interesses que o motivam em sua atuação por políticas públicas voltadas ao setor;

seus clientes seriam diferentes daqueles beneficiados pelas políticas públicas do setor. Na atuação por políticas públicas, o interesse seria público, ao contrário de sua atuação em seu escritório. Há, nesse sentido, um esforço por se colocar como uma autoridade neutra, mobilizando-se, assim, essa “hipocrisia piedosa” (BOURDIEU, 1991) das práticas jurídicas. A dominação simbólica, pela universalização dos interesses, pode ser pensada em dois níveis diferentes. Se de um lado, os interesses do agronegócio são universalizados frente à sociedade, por outro, há um processo de abstração dos clientes desses advogados. O cliente se transforma em “agronegócio”, apagando-se os interesses individuais e particulares dos diferentes atores que compõem o agronegócio. Ao se identificar como defensor do agronegócio, o advogado não

é identificado como o advogado do fazendeiro, da trading de sementes ou da instituição financeira.

O discurso sobre o financiamento do Instituto reforça essa percepção de um trabalho para o coletivo, universal. “Eu penso muito nisso. Como eu mantenho em pé o IBDA? Tem um custo, tem estrutura, tem pessoas, têm equipes, publicações. A gente vai fazendo os cursos de curta duração para poder sobrar recursos para fazer os outros trabalhos.”.

Renato Buranello não se refere ao trabalho do IBDA como lobby, diferentemente do que falam alguns professores do seu curso ou até mesmo os advogados em entrevista. O discurso público sobre o IBDA enquadra a atividade do Instituto na Lei de Liberdade Econômica, atribuindo ao Instituto a função de reparar as falhas existentes no sistema jurídico, com base em princípios da economicidade, da efetividade, da eficácia e da eficiência. Essa reivindicação deve ser pensada no contexto das transformações operadas no campo jurídico a partir da abertura do mercado, no início dos anos 1990. Os “juristas de negócios”, vinculados aos negócios internacionais, protagonizaram, assim, os debates intelectuais em torno da reforma das instituições, promovendo regras jurídicas conformes aos interesses das corporações transnacionais. Com isso, setores mais cosmopolitas das profissões jurídicas, que mantinham contatos e experiências internacionais, ganharam mais espaço dentro da agenda das reformas legais. Esses agentes passaram a atuar na difusão de ideias neoliberais de economia política, pressionando o governo pela privatização, abertura de mercados, promoção de investimento estrangeiro, regulamentação limitada (ENGELMANN, 2011).

Nas falas de Buranello, as atividades do Instituto são enquadradas em formas eufemizadas: “carteirinha de Brasília”, “ir à Brasília” ou “andanças em Brasília”. Ao mesmo tempo, a atividade é atrelada à defesa de uma causa, a um interesse público, e não ao seu interesse pessoal ou de seus clientes. É um Instituto agindo para atingir determinadas finalidades públicas, comuns e coletivas, e não o advogado atuando por seus clientes. O IBDA aciona uma operação de politização (ISRAËL; GAÏTI, 2003), na medida em que casos particulares são transformados em causas gerais e públicas, símbolos de um agronegócio cada vez mais eficientes.

O IBDA se coloca como uma importante voz em defesa de um conservadorismo político-econômico (LO, 1982) pelo direito; ele pretende organizar advogados para assumir papeis importantes na oposição ao Estado de Bem Estar Social e à regulação estatal. Cabe ao Estado unicamente garantir legalmente a operação livre e sem distorções dos mercados privados (VOUCHEZ; FRANCE, 2020) e é preciso que o direito ofereça profissionais aptos a garantir bom funcionamento dessas trocas.

Não por outra razão, a questão da formação profissional se torna uma das frentes de atuação prioritárias do IBDA. “Quero dividir um pouco mais essa experiência, deixar esse legado aqui com vocês... a formação de sucessores, a formação de pessoas que possam carregar esses conceitos para nós é fundamental.”, fala Renato Buranello na aula inaugural de sua pós-graduação. “Agora é hora mesmo de a gente levar isso mais longe e realmente eu acredito que a gente está construindo um contexto melhor, um setor mais bem arranjado, a partir do movimento que a gente cria de tentar entendê-lo e compreendê-lo melhor.”, conclui o advogado.

Nas próximas seções, irei discorrer sobre a minha pesquisa de campo na primeira turma de pós-graduação concebida por Renato Buranello e viabilizada por meio do seu IBDA em parceria com outras entidades que servem ao agronegócio. Com o protagonismo do IBDA, a pós é uma realização conjunta do IBDA com o Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) e com a Faculdade CNA e conta com o apoio da Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG), da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), da Câmara de Mediação e Arbitragem Empresarial – Brasil (CAMARB), da Associação Paulista dos Magistrados (APAMAGIS), da Sociedade Rural do Paraná, da Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (ABAGRP), da Associação dos Juízes Federais de São Paulo e Mato Grosso do Sul (AJUFESP), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE), do Sistema OCB, da Academia Brasileira de Direito do Agronegócio, da Agroschool e da Datagro.

Partindo do imperativo exposto pelos pioneiros advogados do agronegócio, de que “o advogado do agronegócio precisa se especializar”, busco discutir os sentidos dessa necessidade de especialização, pensando o que e como é dito, o que é priorizado, valorizado, como se organizam os cursos e as relações que o constrói. Entendo a especialização também como um campo que nos permite pensar a própria organização dos advogados enquanto advogados do agronegócio, bem como as batalhas políticas que envolvem a mobilização do direito em torno da defesa do agronegócio. Por fim, penso a especialização como uma dimensão importante para pensar o agronegócio enquanto uma causa defendida por esses advogados.

No documento Tese - Ana Carolina de Sousa Castro - 2023 (páginas 164-169)

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