• Nenhum resultado encontrado

O capítulo anterior reconstruiu algumas das vivências dos imigrantes chineses nas sociedades de destino, em especial Peru e Cuba. Tais experiências passavam pelo escrutínio internacional e movimentavam uma discussão sobre a natureza desse trabalho, livre ou escravizado. O debate em torno da imigração chinesa como a continuidade do tráfico negreiro ou como o sinal de um novo formato de trabalho livre ancorado nos contratos teve na diplomacia um importante palco. Casos de navios em chamas, motins em alto mar, fugas espetaculares, suicídios coletivos e julgamentos espetaculosos repercutiam na China, na América e na Europa. As autoridades coloniais e metropolitanas precisavam construir narrativas, isentas da carga negativa associada ao transporte de mão de obra chinesa. Estava em jogo, portanto, a imagem de nações “civilizadas”, o bom relacionamento com as autoridades chinesas e a convivência com a população local.

O jogo diplomático consistia em defender a lisura do processo migratório pelos seus portos e destacar os erros das outras nações envolvidas. Ingleses queriam se diferenciar de espanhóis e lusitanos para a população chinesa enquanto portugueses se defendiam da pressão internacional sofrida. Este capítulo reconstruirá o debate, as acusações e as defesas elaboradas por essas diplomacias que desejavam impedir associações entre a emigração chinesa e o tráfico de escravos africanos recentemente proibido no Oceano Atlântico. Era essencial provar que a emigração chinesa era compatível com o novo mundo de trabalho. O capítulo foi dividido em três partes: a primeira discutirá a importância desse comércio para os diferentes países, em especial para Portugal e para a Inglaterra, a segunda aprofundará o debate diplomático e a terceira analisará nos motivos que levaram ao acirramento da movimentação dos atores internacionais na década de 1870.

2.1 – Importância da emigração chinesa para ingleses e portugueses

Funcionários da empresa Tait and Company – responsável pelo recrutamento de mão de obra para o Caribe Inglês, Cuba e outros destinos na América –, caminhavam pelas ruas da cidade de Amoy230 quando foram atacados por soldados chineses na frente da estação de trem. Os soldados arrastaram os estrangeiros para um beco sem saída onde os insultaram e desferiram golpes de lança. O trágico episódio ocorreu no dia 21 de novembro de 1852 e desencadeou uma onda de ataques a europeus. O capitão do navio inglês “Australia” sofreu ataques semelhantes dias depois ao passar pela mesma rua na companhia de um amigo. O capitão relatou ter sido “tratado da maneira mais selvagem, recebendo cortes ao longo de cada têmpora, um golpe de lança na parte superior do seu braço esquerdo, cinco ou seis feridas na sua coxa direita, uma no abdômen”.231

Os ataques xenofóbicos continuaram nos dias seguintes quando a população intensificou os protestos e as agressões, resultando no fechamento de lojas. A multidão crescia com a chegada de moradores das redondezas, que passaram a pilhar os escritórios de empresas estrangeiros, levando as autoridades inglesas a desembarcar homens armados para evitar os saques. O levante já durava três dias e a turba mostrava-se cada vez mais irredutível.232 As autoridades locais interviriam garantindo a proteção das representações comerciais estrangeiras e prometendo punição exemplar aos soldados responsáveis pelos primeiros ataques.

230 A cidade de Amoy (Xiamen), localizada na província de Fujian, foi um importante ponto de trocas com europeus desde o século XVI. A cidade foi um dos cinco portos (Treaty Ports) obrigatoriamente abertos ao comércio com os ingleses após a Guerra do Ópio (1842). O primeiro navio com mão de obra chinesa saiu da cidade em 1845 rumo às ilhas Bourbon, pertencentes à França. Em 1847, uma companhia espanhola enviou 800 trabalhadores de Amoy para Cuba.

231 Correspondence with the Superintendent of British Trade in China, upon the subject of Emigration from that country (1852-1853), p 34-35.

232 Syme Muir and Company e Tait and Company eram duas empresas inglesas com grande participação no transporte de trabalhadores chineses desde Amoy.

Os acontecimentos em Amoy revelaram o ressentimento da população local com as empresas estrangeiras e seus procedimentos irregulares de recrutamento. O historiador Yen Ching-Hwan registrou a atuação de 44 empresas de transporte de mão de obra chinesa em cidades portuárias da China oriundas da Inglaterra, França, Holanda, Espanha, Alemanha, Estados Unidos e Portugal. A ilegalidade cometida por essas companhias era acobertada pela imunidade diplomática garantida pelas potências europeias.

Empresas estrangeiras financiavam uma complexa rede de recrutadores que conheciam a geografia, cultura e o idioma local. Algumas dessas companhias eram influentes e seus líderes chegaram a representar países europeus na região, o que conferia influência nos altos círculos da sociedade chinesa e imunidade diplomática. James Tait, proprietário da Tait & Company, tornou-se cônsul espanhol em Amoy em 1846, vice- cônsul holandês em 1851 e cônsul português em 1852.233

O ódio explícito no levante em Amoy consternou as autoridades inglesas que se preocuparam com o rancor popular contra grandes empresários. As investigações conduzidas pelas autoridades locais puniram chineses envolvidos no engajamento ilegal de trabalhadores. Os condenados respondiam às acusações de falsas promessas, agressões físicas, precariedade na hospedagem e restrição de liberdade nos depósitos.234

As denúncias de abuso reforçavam o ódio do governo e dos chineses à emigração, proibida desde de 1718, por um decreto imperial. O governo chinês difamava os emigrantes retratados como criminosos e viciados em ópio e em jogo, negando proteção consular aos súditos chineses no exterior. A emigração não era condenável apenas no âmbito governamental, mas rompia com preceitos importantes da filosofia de Confúcio.

233 CHING-HWANG, Yen. Chinese coolie emigration, 1845-1874. CHEE-BENG, Tan (org). Routhledge Handbook of the Chinese Diaspora. Londres e Nova Iorque: Routhledge, 2013, 74-76.

234 Correspondence with the Superintendent of British Trade in China, p 36-47

235 O confucionismo ensinava a importância de seguir os princípios dos três laços (san- kang) que vinculavam o indivíduo ao governante, o filho ao pai e a esposa ao marido.

Emigrar significava o abandono do imperador, do clã e a impossibilidade de homenagear os túmulos dos antepassados.236

Questões como lealdade e ancestralidade traziam uma carga moral àqueles que buscavam fortuna no exterior. As notícias de recrutamento forçado causavam indignação na sociedade. Os recrutadores eram desprezados e temidos, sempre vistos como cruéis, oportunistas e insensíveis. O estranhamento com os europeus antecedia ao recrutamento de imigrantes. Alguns autores chineses ridicularizavam algumas características físicas dos ocidentais como os narizes, comparados a bicos de águias, a pele branca, os cabelos vermelhos, os olhos azuis, o nariz protuberante, a barba, a alta estatura e roupas agarradas.237 Houve quem acreditasse que os estrangeiros precisavam de chá de ruibarbo para evitar cegueira e tratar problemas intestinais.238 A desconfiança virou ódio a partir do momento em que os estrangeiros eram associados ao sequestro de filhos, irmãos, pais e amigos.

Os eventos ocorridos em Amoy alertaram as autoridades inglesas quanto ao crescimento das hostilidades e da deterioração da imagem dos europeus na região. Lord John Russel, ministro de Relações Exteriores (Foreign Office), receava pela segurança da comunidade europeia na China.239 O governo britânico adotou medidas mais rigorosas para o transporte, a alimentação, e acomodação dos imigrantes, o Chinese Passanger Act

235 YUN, Lisa. The Coolie Speaks, p 65.

236 HAO, Yen-p’ing e WANG, Erh-Min, Changing Chinese Views of Western Relations, 1840-1895. In:

FAIRBANK, John & TWITCHETT, Denis. The Cambridge History of China. Volume 10, 1800-1911, Cambridge: Cambridge University Press, 1980, pp 184. TAYLOR, Rodney. The Illustrated Encyclopedia of Confucionism. New York: The Rosen Publishing Group, 2005, p 495.

237 HAO, Yen-p’ing e WANG, Erh-Min, Changing Chinese Views of Western Relations, p 153.

238 FAIRBANK e TWITCHETT. The Cambridge History of China, late Chíng, 1800-1911, volume 2.

Cambridge: Universidade de Cambridge, p 153.

239 Official Corespondence reporting the Slave Trade and the Coolie Traffic. Anti-Slavery Reporter, vol.

19, número 4, Londres, Outubro de 1860, p 250.

de 1855. As autoridades inglesas aumentaram a fiscalização nos portos de Namoa e Cumsingmoon e escolheram Hong Kong como a base para a vigilância e o controle da lei. Os britânicos queriam estabelecer o exemplo e criar uma imagem diferente da imigração chinesa diante da opinião pública inglesa e internacional.

Muitas empresas ligadas à emigração saíram de Amoy e estabelecerem-se em Macau, contribuindo para o florescimento dessa atividade econômica na cidade. Grande parte dos 742 navios com destino à América Latina, entre 1847 e 1874, partiu da colônia lusitana sob a bandeira de mais de 20 nações. França, Peru e Inglaterra foram os países com mais de 100 embarcações, enquanto Espanha, Estados Unidos, Itália, Portugal, El Salvador, Holanda, Rússia, Alemanha, Chile, Áustria, Noruega, Bélgica, Dinamarca, México, Colômbia, Equador e Suíça também integraram o conjunto das nações engajadas no transporte de trabalhadores.240

Os chineses migraram para dezenas de lugares como Austrália, Nova Zelândia, Ilhas do Pacífico (Havaí, Taiti, Nova Guiné, Samoa), Ilhas Maurício, Ilhas Reunião, Seychelles, Madagascar, África do Sul, Estados Unidos, Canadá, Cuba, Peru, México, Brasil, Panamá, Costa Rica, Suriname, Chile, Equador, Guiana Inglesa e Trinidad.241 Adam McKeown estimou a saída de 19 a 23 milhões de chineses entre 1840 e 1940, sendo que a esmagadora maioria, de 17 a 20 milhões, desembarcavam em regiões vizinhas como a Península Malaia, as colônias holandesas, Sião, Indochina francesa e as Filipinas. A Península Malaia, possessão britânica, recebeu entre 6a 7 milhões de pessoas e serviu como parada intermediária para a emigração para a Austrália, o caribe e as colônias

240 MEAGHER, Arnold. The Coolie Trade: the Traffic in Chinese Laborers to Latin America, 1847-1874.

Bloomington, IN: Xlibris Corporation, 2008.

241. LAI, Walton Look. The Chinese in the West Indies. Kingston, Jamaica: The Press University of the West Indies, 1998, pp 5-7. HUI, Juan Hung. Chinos em America. Barcelona: Editorial Mapfre, 1992.

holandesas. O continente americano foi o destino de 1,5 milhão de chineses entre 1850 e 1875.242

O debate da imigração chinesa tocou nos seguintes temas: recrutamento, travessia, condições de trabalho, retorno à China, competição com a mão de obra local, impactos étnicos nos países receptores e adaptação aos projetos nacionais. A questão das relações de trabalho intrigava sociedades abolicionistas europeias e norte-americana que traçavam semelhanças e diferenças com a escravidão. A emigração chinesa trouxe desafios para o Império Chinês que ainda assimilava as consequências da Guerra do Ópio.

A xenofobia crescente na China colocava em risco o interesse das nações europeias na região. A Inglaterra colocava-se como uma nação que recrutava chineses de acordo com regras e legislações e em contraponto a Macau. Levantaremos a seguir a relevância da emigração chinesa para Inglaterra e Portugal e as motivações que contribuíram para que essas nações continuassem a conduzir essa atividade econômica diante de tamanha polêmica.

Os ganhos econômicos e os riscos geopolíticos da emigração chinesa

Em 1859, Isidoro Francisco Guimarães, o governador de Macau recebeu uma comunicação do Ministério de Negócios, Marinha e Ultramar de Portugal pedindo explicações detalhadas dos casos de abusos cometidos por recrutadores na colônia lusitana. Isidoro Guimarães negou veementemente qualquer possibilidade de abuso na captação de chineses embarcados naquele porto e reafirmou o compromisso da sua administração com o cumprimento dos regulamentos. O governador garantiu que os abusos só poderiam ter ocorrido fora do território português e fez questão de reafirmar a

242 MCKEOWN, Adam. Chinese emigration in global context, 1850–1940. Journal of Global History, vol 5/1, Março de 2010, pp 98-99.

importância econômica da atividade. Caso a coroa portuguesa resolvesse proibir o

“comércio de chineses”, o governante pedia que fosse dado um prazo para que os comerciantes estrangeiros realocassem os seus empregados em outros negócios.243

Outro governador da cidade, Antônio Sergio de Souza, reafirmou na década seguinte a relevância da receita gerada por essa atividade econômica. O “negócio da emigração chinesa” representaria a “alma dos rendimentos públicos”. As companhias de imigração alugavam os melhores edifícios da cidade, mantendo 27 estabelecimentos para o abrigo dos migrantes. A atividade aumentava o valor dos aluguéis, trazia arrecadação e ajudava nos “emolumentos” (rendimentos extras de alguns oficiais). A emigração tinha se transformado no “meio de vida da maioria dos habitantes.”244 O Anti-Slavery Reporter calculava que 300 casas de comércio seriam fechadas caso a emigração chinesa terminasse, custando 40 mil empregos.245

Alguns historiadores discutiram a dependência de Macau da emigração chinesa.

O pesquisador cubano Juan Perez de la Riva destacou a derrocada comercial da cidade intensificada pela fundação de Hong Kong e a abertura dos cinco portos chineses ao tráfico internacional e o transporte de mão de obra teria sido a solução para a decadência econômica da cidade. 246 Muitos autores mencionaram a relevância da emigração chinesa para Macau, mas poucos acessaram fontes portuguesas. Gervase Clarence-Smith ressaltou a qualidade dos estudos realizados sobre o “comércio coolie” em países como

243 “Report No. 85”, Macau 25/9/1859, Isidoro Guimarães ao Ministro e Secretario d’Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, in: AHU, Macau Timor- ACL-SEMU-DGU-005, Cx. 0025.

244 Ofício do governado de Macau relativo a emigração chinesa. Macau 26 de novembro de 1870, Antônio Sergio Souza ao Ministro e Secretario d’Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, in: AHU, Macau Timor- ACL-SEMU-DGU-005, Cx. 0042.

245 The Macau Coolie Trade Supressed. Anti-Slavery Reporter, vol. 19, n. 2, Londres, Janeiro de 1868.

246 PEREZ DE LA RIVA, Juan. Los culíes chinos en Cuba (1847-1880), p 135.

Cuba e Peru, mas os arquivos de Macau e Lisboa continuariam “não perturbados, acumulando camadas de poeira”.247

Acreditamos que resistência do governo de Lisboa em fiscalizar e eventualmente proibir a emigração chinesa não se deveu completamente à dependência financeira de Macau. Documentos encontrados no Arquivo Histórico Ultramarino e na Biblioteca Nacional de Portugal revelam que os impostos arrecadados com o embarque de chineses significavam em torno de 5% das receitas de Macau. Os ganhos econômicos obtidos pela cidade e por funcionários públicos eram consideráveis, logo suspeitamos que alguns funcionários públicos, incluindo os governadores, controlavam as informações que chegavam em Lisboa. As correspondências enviadas a Lisboa exageravam na dependência de Macau da emigração chinesa.

Os laços econômicos entre a sociedade macauense e a emigração chinesa

João Andrade Corvo assumiu a direção do Ministério de Negócios, da Marinha e de Ultramar de Portuga em 1872 e liderou a pasta por cinco anos. O ministro havia ocupado a embaixada portuguesa em Madri em 1869 e ficou conhecido pela análise crítica da política externa portuguesa na segunda metade do século XIX explícita no livro Perigos. Papel de Portugal na Europa e no Mundo.248 O seu mandato à frente do ministério seria marcado pela crescente pressão dos governos da Inglaterra e da China para o término da emigração chinesa, culminando na proibição da atividade em 1873.

A Biblioteca Nacional de Lisboa guarda o arquivo pessoal do diplomata, com rascunhos de discursos e outras anotações. Transcrevemos aqui um desses documentos,

247 CLARENCE-SMITH, Gervase. The Portuguese contribution to the Cuban slave and coolie trades in the nineteenth century. Slavery & Abolition. A Journal of Slave and Post-Slave Studies, 5:1, p 24.

248SILVA, Júlio Joaquim. O pensamento de João de Andrade Corvo e a construção europeia (1870).

Debater a Europa. n.11 julho/dezembro 2014.


as receitas de Macau de 1867 a 1873 – a tabela 3 -, onde os rendimentos foram divididos entre impostos diretos, indiretos e outros. Os dados mostram que nesse período a emigração chinesa nunca respondeu por mais de 5% do total das receitas, ocupando a sétima posição entre as fontes de arrecadação. O imposto do selo, a loteria chinesa, as licenças para casas de jogo e a venda de ópio recolhiam mais recursos aos cofres do Estado.

João Andrade Corvo refutava a máxima da dependência econômica macaense da emigração chinesa e destacou que o crescimento das receitas com a emigração chinesa nos últimos 16 anos, 365%, havia sido bem menor do que o aumento trazido pelas licenças para a loteria e para o ópio, 909%. O crescimento das despesas com segurança necessária para manter a emigração chinesa teria, em contrapartida, subido em proporção semelhante às receitas. O término da atividade econômica ocasionaria na diminuição de receitas, mas também traria um menor gasto na “polícia, vigilância, atividade administrativa e judicial”, necessárias para atender essa população flutuante.249

Tabela 3 - Notas dos rendimentos públicos de Macau nos anos econômicos de 1867-1868 a 1871-1872

249 ANDRADE CORVO, João. Relatório e Documentos sobre a abolição de chinas contratados em Macau;

Apresentação às cortes de Sessão Legislativa de 1874. Lisboa: Imprensa Nacional, 1874, p 81.

Notas dos rendimentos públicos de Macau nos anos econômicos de 1867-1868 a 1871-1872 Anos

Impostos diretos 1867-1868 1868-1869 1869-1870 1870-1871 1871-1872 1872-1873 Décimas e impostos pagos

pelos cristãos

20.820.347 19.447.758 17.853.980 20.100.958 15.053.769 19.529.091 Décimas e impostos pagos

pelos chinas

22.682.549 19.829.938 14.969.850 21.526.776 18.884.022 23.514.084 Direitos de mercê 470.217 346.787 638.848 469.451 834.974 1.188.168 Imposto do selo 15.628.258 10.904.342 11.039.145 17.394.118 21.518.443 26.480.492 Direitos de registro 5.166.409 4.061.583 2.071.246 6.365.643 5.769.766 4.103.406 Licenças para os faitiões 249.900 385.900 416.500 489.600 290.700

Licenças aos rendeiros da carne de porco e vaca

14.166.667 10.030.000 13.408.450 15.511.080 15.782.800 16.014.000 Licenças aos rendeiros da

carne de peixe

2.843.002 3.089.753 3.163063 3.452.700 3.207.900 3.213.000 Licenças para abertura da

loteria china

40.335.333 37.173.333 37.272.500 37.400.000 40.992.950 49.566.333 Licenças para as casas de

jogo

107.797.000 101.141.150 106.972.500 100.300.000 111.010.000 124.500.000 Licenças para a venda de

ópio cozido

32.453.000 36.006.353 36.006.000 36.550.000 31.620.000 35.400.000

Multas 352.993 654.979 1.584.902 344.275 1.724.543 294.494

Impostos indiretos

Direitos de venda do sal 4.003.500 4.019.083 4.107.978 3.922.750 2.663.900 5.100.000 Direitos do pescado das

ostras

544.000 612.000 510.000 578.000 578.000 548.000

Licenças para os chinas lançarem redes de pesca no litoral da cidade

42.500 34.000 34.000 34.000 34.000 34.000

Polícia do porto 232.684 190.187 170.850 155.762 152.575 1.633.139 Rendimentos da taipa 8.861.624 10.542.818 8.614.484 12.125.032 10.189.831 9.909.448 Próprios e diversos rendimentos

Fonte: Arquivo Andrade Corvo. Biblioteca Nacional de Portugal

O governador de Macau na época, Visconde de São Januário, defendia que a interdição da emigração traria impactos e afetaria diretamente algumas pessoas, porém a crise seria temporária e superada com o florescimento de outras atividades. O governante acreditava que a emigração teria retraído outros ramos da economia, pois teria levado a população macaense a abandonar o “trabalho produtivo fundado em bases seguras e estáveis”. João Andrade Corvo reafirmou tais observações e apresentou dados que confirmariam a retração do comércio de outros produtos após o início da emigração chinesa. O único produto que havia demonstrado um crescimento significativo era o ópio, o que não contribuía “para energia nem para a prosperidade do povo que a consome”.250

250 ANDRADE CORVO, João. Relatório e Documentos, 1874. p 75-76.

Quotas dos emolumentos da pólvora

39.938 93.438 157.149 105.187 36.860 53.466

Foros e rendas de prédios 9.830.932 9.861.361 9.656.732 9.865.236 9.714.389 8.446.884 Subscrição voluntária dos

chinas para a sustentação da polícia

_ 9.943.716 20.515.727

22.032.626 22.351.600 14.248.244

Emolumentos da

Emigração chinesa

3.106.112 15.154.126 12.754.600 19.456.060 20.568.613 19.228.061 Receita eventual 13.756.448 2.167.562 7.944.106 6.819.568 14.631.900 5.000.000 Resumo

Impostos diretos 262.995.645 243.074.876 248.400.284 259.924.601 266.712.863 303.803.068 Impostos indiretos 13.684.314 15.398.088 13.437.612 16.815.544 13.618.306 17.224.587 Próprios e diversos

rendimentos

26.432.430 37.223.503 51.028.314 38.278.677 67.303.362 46.976.655 Total 303.412.419 295.696.467 312.866.210 335.018.822 347.634.531 371.004.310

O ópio representava entre 60 a 75% das importações e era responsável pelo déficit comercial de Macau.251

A paralização do crescimento comercial de Macau entre o período de 1847 e 1874 contrastaria com o florescimento de Hong Kong e de Cantão. A emigração chinesa teria criado rivalidades com as autoridades chineses e uma crescente desconfiança da população local. As denúncias de sequestro e trapaça contribuíram para o temor da população em frequentar a colônia portuguesa.

Os efeitos da emigração seriam perniciosos, pois afastariam a população cantonesa e contribuíam para a realocação das atividades de alguns comerciantes. Muitos portugueses moveram atividades econômicas para Hong Kong, motivados pela insegurança trazida pela emigração. Andrade Corvo destacou a diminuição da população chinesa em Macau de 71.842 em 1867 para 64.029 em 1871, enquanto A população lusitana em Hong Kong era mais numerosa do que a inglesa. 252 As afirmações do ministro condizem com os relatos de pessoas que foram a Macau sem o intuito de emigrar e acabaram sendo levados a força.

Andrade Corvo argumentava que a emigração havia estagnado o crescimento populacional de Macau, aumentado a desconfiança do governo chinês, impedido a fixação de população cantonesa, estagnado o desenvolvimento do comércio, promovido a deterioração da relação com a Inglaterra e gerado perdas de receitas. Outros ministros de Negócios, da Marinha e de Ultramar poderiam ter chegado a conclusões semelhantes e encampado um projeto de lei que proibisse a emigração de trabalhadores chineses pelo porto de Macau. Eventos ocorridos na década de 1870 criariam, no entanto, um ambiente propício para proibição da emigração no final de 1873.

251 Boletim de Província. XVIII, número 24, 29/05/1872, p. 81.

252 ANDRADE CORVO, João. Relatório e Documentos, p 74.

Nesse contexto, quais fatores contribuíram para a manutenção da emigração chinesa para Macau nas décadas de 1850 e 1860? A importância da emigração chinesa para a economia do país foi a resposta mais utilizada pela historiografia. O historiador luso-hong-konguês Carlos Augusto Montalto de Jesus reportou um cenário catastrófico resultante da proibição – desemprego, depreciação de propriedades e queda na arrecadação em 200 mil dólares.253 O historiador não citou as fontes. As tabelas reunidas por Andrade Corvo revelam que a arrecadação de impostos com a atividade não era tão grande. As receitas no ano fiscal seguinte à proibição, 1874-1875, caíram apenas 2%.254 A relevância econômica da emigração não foi o único motivo para a manutenção da atividade econômica. O “tráfico coolie” distribuía generosas remunerações extras aos funcionários envolvidos no processo e enriquecia parte da elite colonial.

A Superintendência da Emigração Chinesa coordenava a atividade em Macau com trinta funcionários com vencimentos entre 5 e 70 patacas. O superintendente recebia, além do seu ordenado, uma gratificação anual de 600 mil réis255, equivalente ao quarto maior salário da cidade, duas vezes o vencimento do cirurgião-mor ou 50% a mais que o rendimento do tesoureiro da colônia.256 O salário mais baixo era pago a seis “culli”(s) que provavelmente realizavam tarefas com maior esforço físico. Guardas, intérprete e amanuenses (escrivão/copista) eram pagos pela superintendência. O líder dos guardas ganhava 30 patacas, o segundo maior vencimento da superintendência, enquanto que os guardas, doze, recebiam 15 patacas o mesmo salário do escrivão chinês. Há claramente

253 MONTALTO DE JESUS, Carlos Augusto. Historic Macao. Hong Kong: Kelly & Wash, 1902, p 339.

254 Mapa geral da receita e despesas das províncias ultramarinas. Boletim da Província de Macau e Timor, vol XIV, n 26, Macau, 27 de Junho de 1874, p 102.

255 Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar. Boletim da Província de Macau e Timor, vol XIV, n 27, Macau, 4 de Julho de 1868, p 121.

256 Resposta – José Maria Ponte – Faz algumas considerações acerca da questão da emigração de Macau, Macau 22/3/1867, in: AHU, Macau Timor- ACL-SEMU-DGU-005, Cx. 0035.

Documentos relacionados