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3. Globalização: economia e filosofia universais

3.2 Desfazendo mitos

3.2.3 O mito do Estado mínimo

Corrente entre as teses da globalização está a defesa do Estado mínimo. Em consonância com o ponto anterior, o livre mercado é realizado onde o Estado interfere de modo ínfimo nas relações econômicas internacionais. Desregulamentar é a chave do negócio. O Estado deve se tornar flexível em suas regras para que as leis internas, e naturais, da economia, na livre concorrência, possam gerar os bens pedidos pelo conjunto da sociedade.

O caminho escolhido para conseguir esse objetivo é o da desestatização. Entrega-se tudo à iniciativa privada com o fito de permitir a dinamização do econômico, já que a morosidade do aparato estatal é contrária à velocidade das decisões mercadológicas e sua força de penetração no mundo. O Estado, em si, ficaria somente, quase, com mera função simbólica. Seu campo de atuação se restringiria, vez por outra, a arbitrar conflitos em função de perdas econômicas.

184 TODD, Emmanuel. Depois do Império. A decomposição do sistema americano. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003. Ver, sobretudo, o capítulo 6.

O Estado, e sua governabilidade, só é considerado desde suas possibilidades econômicas.185 De suas entranhas é tirada a política no sentido do bem comum para aplicar um novo órgão ao corpo. São os modelos administrativos empresariais que são transplantados para substituir o órgão político. Pensa-se a política visando sempre o econômico e o social é subjugado e mesmo suplantado. Daí que o transplante não é só a troca de um órgão por outro para exercer a mesma função do anterior. Nesse caso, as coisas são mudadas substancialmente. Os modelos gerenciais, arrimados pelas tecnoestruturas, conduzem a vida do Estado à condição de mantenedor e defensor das estruturas econômicas. Estas são vistas como um fim em si mesmas. Tudo isso é pensado para se tirar as “penosas” discussões sociais que retardam o desencadear célere do econômico. O social não combina com a velocidade exigida pelo mercado, eivado de decisões rápidas e práticas.

Deve-se, assim se exige, repensar o social como resultado das forças econômicas em desenvolvimento. Na prática, isso equivale a dar maior fôlego para deslanchar as atividades de plutocratas em conjunto com multinacionais e as relações dos mercados internacionais.

Discutindo o lugar do Estado na globalização, em contexto latino-americano, o bem conhecido sociólogo brasileiro Francisco de Oliveira lembra um dos anátemas de Marx e Engels no Manifesto Comunista, que calha bem ao caso da análise aqui proposta, de que

“os governos não passam de comitês executivos da burguesia”.186 Daí passa a falar de crise do Estado no Brasil, que pode bem ilustrar no local o que acontece no global. Esta crise pode ser vista sob dois ângulos. Uma é a da relação entre sociedade e Estado. Ela é interposição das instituições do mercado entre sociedade e Estado pelo infiltra-se na sociedade civil.187 Essa presença interposta tende a minimizar o acesso das forças sociais reivindicatórias de direitos sociais frente ao governo. O outro lado da crise do Estado pode ser vista nos blocos dominantes. Liquidados financeiramente, sob a forma da dívida interna pública sustentaram seus lucros de modo financeiro e não operacional.188 Aí o Estado agiu para sanar os problemas das classes dominantes. Toma emprestado e paga juros para

185 HIRST, Paul e THOMPSON, Grahame. Globalização em Questão. Op. Cit. p. 263. Assim analisaram os autores a questão do Estado por causa das idéias da globalização, embora não seja essa a posição defendida pelos mesmos.

186 OLIVERIA, Francisco. “À Sombra do Manifesto Comunista: Globalização e Reforma do Estado na América Latina” in SADER, Emir e GENTIL, Pablo. Pós-neoliberalismo II. Que estado para que democracia? Petrópolis: Vozes, 2004, p. 68

187 Ibidem, p. 69-70

188 Ibidem, p. 70-71

sustentar a riqueza acumulada. Ele não deve, mas parece que deve para sustentar os endividados. E durante a década de 1980, no Brasil, os lucros não operacionais sustentaram a lucratividade das grandes empresas, todas elas, inclusive as multinacionais.189 Isso gerou a expansão da dívida interna pública e entrada na globalização pelo país. Explica Francisco de Oliveria:

“Essa expansão da dívida pública interna deu-se com a internacionalização da economia paga pelo Brasil e não pelos capitais estrangeiros, nem pelo FMI e nem pelo Banco Mundial. O tamanho e os serviços da dívida externa significam que a economia pagou a sua internacionalização, sua globalização. Isto é o que ocorre com todos os países da periferia. Nessa outra vertente, o Estado brasileiro também liquidou-se financeiramente. Ao liquidar-se financeiramente, perdeu a capacidade de ser o motor e o guia da expansão capitalista, tal como tinha sido desde os anos 30. Então, do lado dos grupos dominantes, também há uma crise do Estado, vista por estes dois aspectos.” 190 Esse é o Estado mínimo. Maleável pela imposição das idéias globalizantes, do mercado a ser difundido em todo o mundo. Deixa o mercado seguir seus destinos sem nenhum impedimento. Tira a importância da relação entre sociedade e Estado. Potencializa as instituições econômicas. Favorece os blocos dominantes. E visto assim esse Estado é decadente, senil, decrépito, acometido por crises. Essa visão do Estado mínimo e caquético é possível na comparação com a imagem idealizada que se tem dele e suas funções sociais entendidas como atributos. No entanto, é importante observar o Estado em sua polissemia e as várias formas que pode assumir.191

Visto por outra ótica ele não é tão mínimo assim. Ela continua sendo o Estado, mas sob outras características. Retomando o caso pontual da situação do Estado no Brasil, a crise pela qual passa poderia ser examinada de outro modo. Ao afastar-se da sociedade civil e romper o diálogo, e abraçar os liquidados blocos dominantes (financeiramente), o Estado fez opção por se tornar o Estado do Capital.192 Ele não é mínimo, ele é máximo. O Estado não estaria passando por uma crise ao pagar os dividendos da globalização, mas assumindo um caráter instrumental a serviço do poder concentrado pela lógica do mercado. Na

189 Ibidem, p. 70-71

190 Ibidem, p. 70-71

191 BOBBIO, Norberto. Estado, Governo, Sociedade. Para uma teoria geral da política. São Paulo: 1999, pp.

53-133. Na recente história do Estado, Bobbio expõe com clareza os tantos modos que este assumiu em curto espaço de tempo, na configuração aos contextos em meio a disputas teóricas.

192 Ibidem, p. 125. Essa é uma das formas do Estado mencionadas por Bobbio.

verdade, ele não é esvaziado, mas reformulado para atingir os fins desejados pelo movimento do capital. É, de modo claro, a manifestação da vitoria das forças das instituições financeiras sobre as forças da sociedade civil e seus interesses. E aqui não há nenhuma contradição entra a existência dos plutocratas, relações comercias internacionais e Estado. O último potencializa os primeiros, em um mundo no qual não faz mais sentido em falar de países pobres e ricos, mas de classe rica e classe empobrecida do orbe, onde riqueza e pobreza já não são mais localizadas geograficamente.193

Ver o Estado como mínimo é míope. Ele está mesmo é grande e estruturado para implementar a vida erigida sobre o capital ou apagar as chamas do incêndio financeiro à custa da vida das Nações. O Estado é forte e vive, agora, sob nova forma. Sua principal função é assegurar o mercado interna e externamente e não atrapalhar o desempenho da sociedade plutocrática onipresente em todo o mundo.