3. O MODELO COOPERATIVO DE PROCESSO NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015
Nesse sentido, Ronaldo Kochem, refletindo Rudolf Wassermann, aponta que “os princípios dispositivo processual e inquisitório já não compreendem os acontecimentos processuais como um todo e, muitas vezes, obstaculizam uma adequada condução processual”269.
Esse novo modelo de organização do processo encontra suas bases no princípio da cooperação, cuja conformação decorre dos princípios do devido processo legal, da boa-fé processual, do contraditório, do autorregramento da vontade e da solidariedade, que serão adiante delineados. No que tange à divisão de trabalhos no modelo cooperativo de processo, tem-se que a condução da marcha processual é compartilhada, ou seja, não é deixada ao alvedrio das partes ou ao arbítrio inquisitivo do juiz270.
O processo cooperativo busca, portanto, um ponto de equilíbrio entre a figura de um juiz ativo e o restabelecimento do caráter isonômico do processo, estimulando-se o diálogo entre os sujeitos processuais, cuja incapacidade decorre da conformação até então vista do processo judicial. O ponto de equilíbrio buscado está no fortalecimento dos poderes das partes, que devem atuar de forma mais ativa e leal no processo de formação da decisão judicial. Elimina-se uma concepção autoritária de condução do processo e incorpora-se uma contemporânea divisão de trabalho entre juiz e partes. 271
Trata-se de verdadeira condução cooperativa do processo, sem sobressalência de algum dos sujeitos processuais, uma vez que abandonadas a concepção liberal de condução do processo pelas partes e a figura do julgador que autoritariamente conduz a marcha processual272. A cooperação e a colaboração passam a nortear a atuação dos sujeitos processuais no processo cooperativo, marcado pela ativa participação de todos na condução e na instrução do processo273.
269 WASSERMANN, Rudolf. Der soziale Zivilprozeß: Zur Theorie und Praxis des Zivilprozesses im sozialen Rechtsstaat. Neuwied-Darmstadt: Luchterhand, 1978, p.103, apud KOCHEM, Ronaldo. Introdução às raízes históricas do princípio da cooperação (kooperationsmaxime). Revista de Processo, São Paulo, v. 251, 2016, p.
89.
270 GODINHO, Robson Renault. A autonomia das partes e os poderes do juiz entre o privatismo e o publicismo do processo civil brasileiro. Civil Procedure Review, v.4, n. 1, jan.-abr., 2013, p. 64.
271 OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Poderes do juiz e visão cooperativa do processo. Academia
Brasileira de Direito Processual Civil. Disponível em
<https://www.yumpu.com/pt/document/view/45554599/poderes-do-juiz-e-visao-cooperativa-do-processo-i- academia>. Acesso em 12 de set. de 2019, p. 8.
272 DIDIER JR., Fredie. Os três modelos de direito processual: inquisitivo, dispositivo e cooperativo. Revista de Processo. São Paulo, v. 36, n. 198, p. 213-225, ago. 2011.
A simetria na divisão de trabalhos da condução do processo permanece até a prolação da sentença274 ou de decisões interlocutórias sobre questões materiais e processuais do feito275. Em tais circunstâncias, verifica-se o exercício de função eminentemente assimétrica com a prática de ato exclusivo do juiz, que, embora feito sem as partes, é fruto da condução do processo com elas compartilhada276.
E ao trazer o órgão judicial – que deixa de ser tanto um espectador passivo quanto um inquisidor ativo – para o diálogo entre os sujeitos processuais, o processo cooperativo enseja um redimensionamento do princípio do contraditório, não mais visto apenas como regra formal de observância para validade das decisões, mas sim como instrumento indispensável ao aprimoramento da decisão judicial277. Essa nova feição do princípio do contraditório, a par de ser fortalecida pelo modelo cooperativo de processo, também representa um de seus fundamentos, conforme será melhor delineado adiante278.
Afinal, uma melhor comunicação entre o órgão judicial e as partes, bem como um equilíbrio dos poderes de todos os sujeitos processuais, legitimam o exercício da jurisdição279. Entre o diálogo e o monólogo, a preferência é do primeiro, pois, dialeticamente,
“amplia o quadro de análise, constrange à comparação, atenua o perigo de opiniões preconcebidas e favorece a formação de um juízo mais aberto e ponderado”280.
273 PINHO, Humberto Dalla Bernardina de; ALVES, Tatiana Machado. A cooperação e a principiologia no processo civil brasileiro. Uma proposta de sistematização. Revista Eletrônica de Direito Processual – REDP, v. 12, p. 293. Disponível em <www.redp.com.br>. Acesso em 21 ago. 2019.
274GODINHO, Robson Renault. A autonomia das partes e os poderes do juiz entre o privatismo e o publicismo do processo civil brasileiro. Civil Procedure Review, v.4, n. 1, jan.-abr., 2013, p. 64.
275PINHO, Humberto Dalla Bernardina de; ALVES, Tatiana Machado. A cooperação e a principiologia no processo civil brasileiro. Uma proposta de sistematização. Revista Eletrônica de Direito Processual – REDP, v. 12, p. 291. Disponível em <www.redp.com.br>. Acesso em 21 ago. 2019.
276DIDIER JR., Fredie. Os três modelos de direito processual: inquisitivo, dispositivo e cooperativo. Revista de Processo. São Paulo, v. 36, n. 198, p. 212, ago. 2011.
277DIDIER JR., Fredie. Os três modelos de direito processual: inquisitivo, dispositivo e cooperativo. Revista de Processo. São Paulo, v. 36, n. 198, p. 213-225, ago. 2011.
278PINHO, Humberto Dalla Bernardina de; ALVES, Tatiana Machado. A cooperação no novo código de processo civil: desafios concretos para sua implementação. Revista Eletrônica de Direito Processual – REDP, v. 15, p. 258. Disponível em <www.redp.com.br>. Acesso em 21 ago. 2019.
279OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Poderes do juiz e visão cooperativa do processo. Academia Brasileira de Direito Processual Civil. Disponível em <https://www.yumpu.com/pt/document/view/45554599/poderes- do-juiz-e-visao-cooperativa-do-processo-i-academia>. Acesso em 12 de set. de 2019, p. 8.
280OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Poderes do juiz e visão cooperativa do processo. Academia Brasileira de Direito Processual Civil. Disponível em <https://www.yumpu.com/pt/document/view/45554599/poderes- do-juiz-e-visao-cooperativa-do-processo-i-academia>. Acesso em 12 de set. de 2019, p. 9.
A partir do diálogo explicitado por Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, chega-se com mais facilidade à concretização de um processo justo, com uma decisão final justa, pois a reconstrução dos fatos será diretamente proporcional à participação dos sujeitos processuais, que, exortados pelo dever geral de colaboração, envidarão esforços máximos para a obtenção da tutela jurisdicional281. Sob esse aspecto, o modelo de processo colaborativo reforça a ideia de justiça não apenas pelo procedimento, mas pela qualidade da decisão e pela tentativa de alcance da verdade possível.
E dessa perspectiva de modelo cooperativo de processo, que redimensiona e equilibra o papel dos sujeitos processuais, assegurando a ativa participação de todos, e à luz do princípio da cooperação, exsurge de poder-dever atribuído ao juiz e às partes de colaborarem entre si na condução do processo. A condução compartilhada do processo guiada pelo poder- dever de colaboração promove a democracia, a segurança jurídica e o contraditório e gera para todos os sujeitos do processo uma gama de deveres que serão discriminados282.
O modelo cooperativo de processo, por fim, valoriza a autonomia das partes dentro de uma perspectiva constitucional, que não remete ao sentido privatístico clássico, pois a manifestação de vontade encontra limites283. Como bem pontua Robson Renault Godinho,
“há maturidade cultural suficiente para receber a autonomia das partes do processo, sem que isso signifique qualquer privatização, mas tão-somente o almejado encontro do processo com a Constituição”284.