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O município de Conceição do Mato Dentro

69 American, sob a ótica das três dimensões do desenvolvimento sustentável. Ademais, o quadro analítico tem o objetivo de responder:

• Em que medida o projeto Minas-Rio promove desenvolvimento sustentável em Conceição do Mato Dentro?

• Como foi a atuação da administração pública local durante o processo de implantação do projeto?

• Como a administração pública local gerencia os impactos – positivos e negativos – da exploração mineral?

Por fim, foi realizada uma consolidação dos resultados encontrados.

5 ESTUDO DE CASO

O presente capítulo destina-se ao estudo de caso sobre Conceição do Mato Dentro e o projeto Minas-Rio. Neste sentido, as próximas seções apresentam uma breve contextualização sobre o município de Conceição do Mato Dentro e Serro. Em seguida, sob a ótica das dimensões do desenvolvimento sustentável (econômica, social e ambiental), busca-se ilustrar a realidade do município antes e depois do projeto Minas-Rio e os impactos advindos da mineração. Ademais, a seção seguinte investiga a atuação da administração municipal ao longo da implantação e operação da Mina do Sapo. E, por fim, são apresentadas algumas notas conclusivas, a partir do conceito de desenvolvimento e desenvolvimento sustentável.

5.1 O município de Conceição do Mato Dentro

70 Tabuleiro, terceira maior queda d’água do país. Além disso, situa-se na região divisora das bacias do Rio São Francisco e do Rio Doce, abrigando importantes rios, como o rio Cubas, o Paraúna, o Parauninha e o Santo Antônio (PREFEITURA MUNICIPAL DE CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO, s.d.).

O município, assim como o estado de Minas Gerais, possui sua origem vinculada à exploração mineral. O topônimo da cidade indica como a história de Conceição do Mato Dentro está vinculada ao contexto religioso e das bandeiras exploratórias. Assim, “Conceição” foi uma homenagem à Virgem de Conceição, padroeira portuguesa e madrinha das bandeiras, já “Mato Dentro” é a tradução de

“Caeté”, a floresta que os índios viviam e que logo se transformou no arraial minerador (DIAS, 1994).

Neste sentido, Conceição do Mato Dentro é consequência das explorações que ocorreram no período do ciclo do ouro, no século XVIII. A região que hoje contempla o território do município era habitada por índios Botocudos e foi encontrada por meio das bandeiras paulistas. Em 1701, liderados pelo Coronel Antônio Soares Ferreira, um grupo de bandeirantes, partindo de Sabará, alcançou a região conhecida como Ivituruí (Serro Frio). Parte do grupo, entre eles Gaspar Soares, Manuel Corrêa de Paiva e Gabriel Ponce de Leon, decidiu, no entanto, prosseguir a marcha rumo sul, até o ribeirão de Santo Antônio, onde encontrou ouro (FJP, 1978).

Por iniciativa de Gabriel Ponce de Lion, foi construída ali uma capela, dedicada à Nossa Senhora da Conceição (IBGE, s.d.). Esta capela foi fundamental para a história de Conceição do Mato Dentro, visto que foi em torno dela que o arraial começou a desenvolver-se. Ao passar do tempo, mais bandeirantes chegaram para explorar o ouro e os diamantes da região, tendo se fixado ao redor da capela de Nossa Senhora da Conceição. Além disso, muitos negros foram trazidos da África para trabalharem, de maneira forçada, no território que se transformou em um centro urbano, onde a principal atividade econômica era a mineração (BECKER; PEREIRA, 2011).

Viu-se, portanto, a região crescer rapidamente, com uma sociedade diversa,

“composta de negros cativos e forros, pobres mendigos, senhores de terras e de escravos, pequenos comerciantes, homens da burocracia administrativa, faiscadores12, clérigos, artistas e profissionais liberais” (DIAS, 1994, p. 22).

12 Os faiscadores eram os mineradores individuais de ouro, que trabalhavam nos depósitos de aluvião.

71 Paralelamente à mineração, outros setores produtivos foram crescendo na região e, deste modo, o município foi construindo uma estrutura econômica diversa com comércio, agricultura e pecuária. No final do século XIII e início do XIX, com o declínio da mineração, o setor de abastecimento e comércio cresceu. A região de Conceição, que estava localizada no caminho das rotas comerciais, transformou-se em um entreposto comercial, o qual disponibilizava para os seus habitantes e para a população das regiões vizinhas o abastecimento de gêneros de subsistência e artigos de consumo corrente (DIAS, 1994). “A economia local foi capaz de minimizar o êxodo que, em várias outras regiões mineradoras, foi quase absoluto” (DIAS, 1994, p. 74).

Neste sentido, a cidade se desenvolveu a partir de uma economia baseada em atividades agropecuárias e no pequeno turismo rural (MILANEZ; SANTOS, 2019).

A região foi distrito da comarca do Serro Frio até 1840 quando, por meio da Lei provincial n° 171, foi criada a vila de Conceição em terras desmembradas do Município de Serro. Em 1851, pela Lei Provincial nº 533, a vila de Conceição foi elevada à categoria de cidade. Na divisão administrativa que ocorreu em 1911, o município passou a ser denominado como Conceição do Serro, mas o nome foi alterado para simplesmente Conceição em 1923 (Lei Estadual nº 843) e Conceição do Mato Dentro em 1943 (Decreto-Lei Estadual nº 1.058) (IBGE, s.d.).

Hodiernamente, o município é composto por 10 distritos, de acordo com a divisão territorial datada de 2003: Conceição do Mato Dentro, Brejaúba, Córregos, Costa Sena, Itacolomi, Ouro Fino do Mato Dentro, Santo Antônio do Norte, São Sebastião do Bonsucesso, Senhora do Socorro e Tabuleiro do Mato Dentro (IBGE, s.d.). Ademais, a cidade de Conceição do Mato Dentro faz limite com vários municípios, como Santana do Riacho, Serro, Morro do Pilar e Dom Joaquim.

Deve-se destacar que apesar da atividade mineradora ter tido grande participação na história originária de Conceição do Mato Dentro, o município viveu muito tempo sem a exploração de grande vulto. Todavia, este contexto se alterou com a chegada da empresa Anglo American, com o Projeto Minas-Rio.

5.1.2 O projeto Minas-Rio

O projeto Minas-Rio é a maior exploração mineral em atividade no município de Conceição do Mato Dentro. Neste sentido, o projeto é composto por uma mina de ferro (Sapo-Ferrugem), um mineroduto e um porto para a exportação do minério, proposto pela empresa brasileira MMX, mas implantado pela sul-africana Anglo

72 American. O projeto teve início em 2006, com os estudos técnicos e negociações. Em 2008, a empresa obteve a concessão das licenças prévias, mas a instalação teve início apenas em 2010 e a operação em setembro de 2014, sendo que o carregamento da primeira remessa de minério para o exterior ocorreu em outubro de 2014 (MILANEZ; SANTOS, 2019).

Sob tal ótica, em 2006, o governo estadual anunciou a parceria com a empresa MMX para instalação do projeto mineral Minas‐Rio. A MMX conduziu as primeiras etapas do projeto, entretanto, em 2008, a empresa vendeu o projeto para a Anglo American por US$ 4,5 bilhões, junto com outra mina no Amapá (SANTOS; MILANEZ, 2015). A Anglo American é uma empresa sul-africana, criada em 1917, com sede no Reino Unido. Sua primeira atividade em solo brasileiro foi em 1973, quando desenvolveu atividades no estado de Goiás nos segmentos de níquel, nióbio e fosfato (ANGLO AMERICAN, 2013 apud MILANEZ; SANTOS, 2019, p. 79).

A viabilização do projeto Minas-Rio contou com grande ajuda do governo de Minas Gerais. Neste sentido, o projeto foi incluído no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI), o qual reduziu o quantitativo de impostos a serem pagos pela empresa. Além disso, o governo “declarou como de utilidade pública as propriedades necessárias para a implantação da cava da mina, usina de beneficiamento e mineroduto, agilizando assim as desapropriações” (MINAS GERAIS, 2009 apud MILANEZ; SANTOS, 2019, p. 81).

Deve-se destacar, ainda, que o licenciamento do projeto ocorreu de maneira fragmentada. Assim, “a mina foi licenciada pelo Governo do Estado de Minas Gerais, o mineroduto pelo Governo Federal e o porto pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro” (SANTOS; MILANEZ, 2015, p. 14). A fragmentação auxiliou o processo de licenciamento, visto que ocultou os impactos sistêmicos do projeto.

Deste modo, a Licença Prévia (LP)13 “foi concedida mediante uma série de condicionantes, fato que representava o perdão por parte do órgão ambiental ao não cumprimento da legislação ambiental” (PEREIRA; BECKER; WILDHAGEN, 2013 apud MILANEZ; SANTOS, 2019, p. 82). Um dos pontos críticos foi a definição da população atingida pelo projeto. De acordo com os estudos apresentados pela

13 A Licença Prévia (LP) é concedida na fase preliminar do planejamento do empreendimento e analisa sua localização e concepção, atestando a viabilidade ambiental e estabelecendo os requisitos básicos e condicionantes a serem atendidos nas próximas fases de sua implementação (FORTE EMPRESARIAL, s.d.).

73 empresa MMX, existiam apenas três “núcleos populacionais” dentro da Área de Influência Direta (AID) do projeto: Itapanhoacanga, Córregos e São Sebastião do Bom Sucesso. Todavia, esta indicação foi fortemente questionada pela população local e pelos movimentos sociais. Deste modo, a concessão da Licença Prévia foi condicionada a novos estudos, os quais identificaram um total de 22 comunidades impactadas pelo projeto (MILANEZ; SANTOS, 2019).

Após o resultado da análise da Licença Prévia, a empresa se posicionou como incapaz de cumprir todas as condicionantes definidas e, por conseguinte, a fim de viabilizar o projeto, foi negociada a divisão da Licença de Instalação (LI)14 em duas fases. Esta divisão concedeu a “Licença de Instalação Parcial”, a qual permitiu que o empreendimento se instalasse mesmo não tendo cumprido todas as condicionantes da Licença Prévia. No que diz respeito à concessão da Licença de Operação,15 observou-se os mesmos problemas das etapas anteriores, visto que também foi concedida independentemente do cumprimento de todas as condicionantes (MILANEZ; SANTOS, 2019).

Como supracitado, o projeto Minas-Rio é um projeto composto por uma mina de ferro, um mineroduto e um porto para a exportação. A mina de ferro está localizada na Serra do Sapo, em Conceição do Mato Dentro, e na Serra da Ferrugem, em Alvorada de Minas. O mineroduto de minério de ferro, com 529km de extensão, atravessa 27 municípios mineiros e 06 fluminenses. Já o porto está localizado São João da Barra, no Rio de Janeiro (ANGLO AMERICAN, 2021).

Neste sentido, a partir do recorte territorial de Conceição do Mato Dentro, observa-se que o projeto possui três grandes etapas:

• Etapa 1 – O Complexo Minerário do Sistema Minas-Rio;

• Etapa 2 – O projeto de otimização da Mina do Sapo;

• Etapa 3 – O projeto de extensão da Mina do Sapo.

Deve-se destacar que a diferença entre as etapas são as estruturas licenciadas e a área utilizada para exploração da Mina do Sapo. Sob tal ótica, em 2018, a Anglo

14 A Licença de Instalação autoriza a instalação do empreendimento de acordo com as especificações dos projetos aprovados, incluindo o cumprimento das medidas de controle ambiental e demais condicionantes da Licença Prévia (FORTE EMPRESARIAL, s.d.).

15 Licença de Operação autoriza a operação do empreendimento, após a verificação do efetivo cumprimento do que consta das licenças anteriores, com as medidas de controle ambiental e condicionantes determinados para a operação (FORTE EMPRESARIAL, s.d.).

74 American deu início a implementação da Fase 3, a qual previa a expansão da Mina do Sapo. O Step 3 do projeto tinha como objetivo

expandir a exploração das reservas vizinhas à cava atualmente licenciada, dando continuidade à exploração inicialmente planejada, garantindo a capacidade produtiva, a qualidade dos produtos e a amplitude da vida útil do Complexo Minerário (FERREIRA ROCHA, 2016, p. 17).

De acordo com o projeto da Fase 3, a nova estimativa de vida útil do complexo é de cerca de 28 anos e a expansão permitiu ampliar em grande escala a produção de minério de ferro. O avanço das etapas promoveu uma ampliação da área utilizada pela mineradora e a utilização de novas estruturas ou a expansão das estruturas já existentes, a fim de expandir a produção de minério de ferro da Mina do Sapo.

Assim, o projeto atinge, diretamente, 13 comunidades de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim, sendo que 7 estão no território de Conceição do Mato Dentro: Córregos, Gondó, São Sebastião do Bom Sucesso, Turco, Cabeceira do Turco, Beco e Água Quente (GESTA/UFMG, 2018).

5.2 O município de Serro