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O NOVO HOMEM

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAI (páginas 56-61)

todos os sujeitos das fotos/gravuras, masculinos, independente de seu comportamento e modos de ser.

Tanto na classe média, quanto na classe popular o jogador de futebol, foi descrito como aquele que corresponde a um modelo de virilidade; mais do que isso, lembrado como um símbolo da masculinidade. Assim o esporte apresentou e/ou configurou-se como uma inscrição perceptível da masculinidade em questão. Não somente por ser o futebol, mas por ser considerado uma “paixão nacional”, o esporte descrito pelo sujeito 5 da classe popular “o futebol sempre foi o carro chefe do esporte como se apresenta o homem”. Aqui nesse ponto retornamos às palavras de Eco (1984) ao citar a relação entre futebol e o adulto masculino, como o brincar de mamãe para as meninas, citado anteriormente, para ilustrar a importância da correlação entre o futebol e a representação deste com a masculinidade; um portal de entrada e aceitação de uma masculinidade a ser seguida e reconhecida como tal socialmente.

Ainda assim, podemos concatenar sobre esse modelo e/ou padrão de virilidade a ser seguido, associando-o a uma masculinidade hegemônica, que se apresenta nas palavras de Almeida (1995, p.2) como “um modelo cultural ideal que, não sendo atingível – na prática e de forma consistente e inalterada – por nenhum homem, exerce sobre todos os homens [...] um efeito controlador”.

Além disso, o autor posiciona-a como um componente central numa ordenação do gênero, o que nos permite exemplificar por meio da ilustração acima, pois o jogador de futebol foi posto pela maioria dos entrevistados como o mais masculino. Houve assim, um consenso cultural (meio social) na eleição do jogador como a masculinidade central e ideal, pelo porte físico, esporte que pratica e um caráter de atividade em oposição à passividade (VICENTE E SOUZA, 2006), mas também na comparação com as outras fotos ou modelos de masculinidade.

Do outro lado da espiral, de igual maneira, o emo (foto/gravura 5) foi apontado na hierarquia da masculinidade por grande parte dos entrevistados como uma marginalização da hegemônica ou como uma masculinidade subordinada (CONNELL, 1997), desviante ou periférica à central. Nesse sentido, cumpre-nos esclarecer que os pontos apresentados pelos entrevistados para defini- lo como o “menos masculino”

segundo sua opção, voltaram-se para uma comparação com o jogador de futebol e suas atitudes (esporte, modo de vestir e comportamentos diversos), o que o torna subordinado ao mesmo (masculinidade hegemônica). Este apareceu na maioria das vezes como o 6º escolhido para representar a masculinidade.

Com isso, outro aspecto apontado por Connell (idem) traz à baila a questão da dominação de uma heterossexualidade, e uma subordinação da homossexualidade expelida simbolicamente da masculinidade hegemônica; isso por exacerbar-se na utilização de adereços ou pelo prazer sexual anal, assimilada à feminilidade – ponto trazido pelos entrevistados, ao citar os adereços utilizados como indicadores de uma masculinidade duvidosa, ou uma feminilidade. Nesse ponto, vale destacar o estigma do passivo sexual, pontuado por Misse (1979) ao destacar a q uestão de uma “normalidade”

associada ao ativo e uma “anormalidade” (perigo) ao passivo sexual, presente no intercurso sexual; desse modo o estigma segundo o autor, aparece sob uma simbologia do estigma, “sob a forma de metáforas” e nas linguagens sobre o próprio ator social em questão, aqui descrito pelo sujeito 2 da classe média como: “um gay”, por suas características femininas e seus adereços, tais como: brincos, roupas, etc.

Além desses atores sociais descritos, há entre o jogador de futebol e o emo, o metrossexual – “novo homem”. Na grande maioria das respostas dos homens entrevistados, este esteve posicionado entre o jogador de futebol e o emo (masculinidade hegemônica e a subordinada). Tal ponto nos faz refletir sobre as próprias respostas dos sujeitos entrevistados, pois, para eles havia uma espécie de indeterminação quanto à questão de gênero, conforme declara o sujeito 3 da classe média ao referir- se da seguinte maneira: “mas ta uma coisa indefinida, a gente não pode dizer ao certo, ele está entre os dois... entre o masculino e o feminino; ele tem a sensibilidade, digamos... feminino, como é que se diz... o jeito está um pouco de feminino e o corpo de masculino” apontada por outros homens (olhar, exposição exacerbada do corpo e músculos, preocupação com a beleza, etc.).

Assim, o corpo apareceu como uma marcação ou como descreveu Douglas (1969 apud BUTLER, 2003) ao citar que os contornos do corpo, estabelecem-se como marcações, ou seja, há um código social prescrito que busca estabelecer fronteiras e/ou separar, demarcar e pontuar aquilo que é aceito e puro, daquilo que é impuro e deve ser punido; punição esta proveniente de uma “desordem” da relação binária homem/mulher ou da questão hegemônica que acima pontuamos, a ser seguida pelos homens em sua maioria. Mais do que isso, tanto o emo quanto o novo homem “fogem” dessa expectativa ou do que é repetido e internalizado através da performatividade do gênero (BUTLER, 2003).

Continua a autora, descrevendo que tais fronteiras, de acordo com os sistemas sociais desenvolvem margens por serem vulneráveis e que, por isso, são consideradas

perigosas; são lugares de “poluição e perigo”. Cabe-nos perguntar: perigo para quem?

Pois pensar sobre as palavras de Douglas, a respeito do status de poluição associado à homossexualidade e, as práticas sexuais entre homens, delineiam os limites daquilo que é permitido ou não. É possível uma permeabilidade entre homens, sem que o status de

“pureza” possa ser pontualmente retirado deste homem? O cuidar do corpo, o embelezar-se, a exibição corporal, constitui-se também como uma margem cheia de poluição? Seria o metrossexual ou o “novo homem” uma “fronteira” permeada de poluição e perigo, um “não eu como um abjeto” – desprezível (KRISTEVA, 1982 apud BUTLER, 2003) ou uma nova possibilidade de exercer a masculinidade?

Com isso, podemos refletir e comparar a periferia e o centro exposto por Douglas (1994) em seu livro Risk and Blame, refletindo sobre a posição em que o jogador de futebol encontrou-se nas respostas dos entrevistados, como um centro, pela aceitação geral social e pelos aspectos corporais visivelmente aceitos pela grande maioria; podemos inferir também o lugar do emo, como uma periferia, por encontrar-se na ponta da espiral e também ter sido apontado como um modelo de masculinidade, distante daquilo aprendido como “do que o homem faz” ou “pode fazer e/ou usar” – adereços, relacionamentos e etc.

Esse “novo homem” – aqui, o metrossexual -, pode ser considerado e intitulado como uma masculinidade subalterna/relativa, pois vimos a presença de uma masculinidade subordinada ou subalterna à hegemônica; isso tudo por possuir características de uma masculinidade viril - com o corpo másculo -, algumas vezes citado como um “olhar masculino”. Não somente isso, mas uma relativização quanto à periferia do emo, mesmo porque a exposição exacerbada, o “cuidado extremo com o corpo”, beleza, barba, cabelo, apreciar boa comida (FLOCKER, 2004) - questões referentes a preocupações da ordem do feminino - fazem-se presentes como formas de um afastamento da centralidade hegemônica da masculinidade, nesse mesmo homem.

Ainda assim, não podemos deixar de apontar – verificando a espiral e o movimento circular, de dentro para fora -, que mesmo havendo uma centralidade (masculinidade hegemônica), o movimento para fora da espiral prevê um perigo apontado para a periferia. O jogador de futebol refere-se a um modelo a ser seguido pelos entrevistados, porém, reconhecem que existe outro movimento e/ou modelo de homem, o metrossexual, que ultrapassando algumas barreiras (conforme citado acima), está na margem, pode tornar-se perigoso por adotar traços de feminilidade e, com isso, ferir a masculinidade hegemônica; mais que isso, eles discutem a presença de outro

modelo de masculinidade (ou um distanciamento da masculinidade), o emo; este se encontra fora do centro, já poluído e visto como perigoso e marginalizado (como na periferia, representada socialmente como perigosa) por apresentar traços femininos e ambigüidade na preferência sexual.

Nesse ponto não podemos deixar de citar que tais masculinidades subordinadas são referenciadas por Almeida (ibidem) como constituintes da hegemônica, estando contidas nesta última - aqui podemos também citar a subalterna/relativa. Isso nos permite dizer que, essas masculinidades que fogem desse modelo central, são apontadas pelo autor como “efeitos perversos” dessa centralidade; pois há uma potencialidade de perigo na homossociabilidade masculina (relações, comportamentos, etc.).

Percebe-se então uma fragilidade nesse modelo central frente às masculinidades subordinadas e subalterna/relativa; o que nos leva a questionar: seria esse modelo central - impossível de ser alcançado - o causador da criação de outras masculinidades?

E mais ainda, cansou o homem de esconder o feminino em seu comportamento e, por isso, apresenta ou cria novos modos de ser homem? Cansou ele de encontrar-se estereotipado em “caixas” (LIMA et al, 2007) ou ser “discriminado pra caralho”, segundo o sujeito 7 da classe popular? Ou também, as mudanças no âmbito social e a competição acirrada no mercado de trabalho, forçaram o homem a posicionar-se nessa masculinidade subalterna/relativa que ora é compreendida por uns ora rejeitada por outros?

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAI (páginas 56-61)

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