• Nenhum resultado encontrado

De acordo com a Ergonomia da Atividade (WISNER, 1994; GUÉRIN et al., 2005; DANIELLOU, 2004; FALZON, 2007), o trabalho nunca é pura execução, há sempre uma defasagem entre a tarefa prescrita e a atividade29. Esta Ergonomia fez a importante descoberta de que existe uma defasagem permanente entre o que inicialmente foi denominado “trabalho prescrito” e “trabalho real”.

Guérin et al. (2005) consideram que essa defasagem ocorre principalmente pela existência de variabilidades nas situações de trabalho: variabilidades tanto humanas (inter e intraindividual) quanto externas (do sistema técnico e                                                                                                                

29 Neste sentido, esta corrente da Ergonomia prefere denominar os trabalhadores como “operadores”, sinalizando que não são apenas executores, conforme pretendia a ideologia do Taylorismo.

organizacional, como imprevistos e disfuncionamentos). Por mais que se busque eliminar as variabilidades das situações de trabalho, nunca é possível tornar as condições de produção perfeitamente estáveis. Nesse sentido, a atividade de trabalho compreende aquilo que deve ser ajustado, rearranjado, até mesmo inventado pelos trabalhadores – individual e coletivamente – para dar conta dos objetivos fixados pela tarefa em uma dada situação concreta. Neste sentido, os autores destacam o ponto de vista da atividade, pois ela é o elemento central organizador e estruturante da situação de trabalho.

Esta é uma das características da proposta presente na démarche da Ergologia que procura ampliar, desenvolver e problematizar os conceitos que se apresentam no campo das ciências do trabalho. Neste processo, incorpora ao dispositivo de produção de saberes também as forças que estão presentes nos saberes da prática, considerando o polo das exigências éticas e epistemológicas – daí um dispositivo dinâmico de três polos (DD3P). Dentre outros conceitos, a Ergologia vem procurando explorar as noções de tarefa e atividade. Schwartz (2000a) afirma que o meio de trabalho é sempre de alguma forma infiel, conforme as descobertas de Canguilhem sobre a vida e a saúde. Isso quer dizer que para dar conta das infidelidades do meio – que extrapola as variabilidades parcialmente previsíveis e incorpora o acaso, a indeterminação – aquele que trabalha necessita mobilizar seus recursos e definir suas escolhas, na atividade. A escolha é necessária porque as instruções têm seus limites, contêm equívocos e são insuficientes para lidar com as variabilidades e o acaso. E a maneira de cobrir essa defasagem será inevitavelmente uma pessoal, uma tentativa singular de recentrar o meio em torno de seu próprio meio, sua própria história, normas e valores.

Se por um lado os trabalhadores, no curso de suas atividades de trabalho fazem escolhas, eles o fazem em função de sua experiência e de seus valores; não se pode esquecer que, por outro lado, essas escolhas são arriscadas. Antecipam soluções possíveis, mas sabendo que efetivamente há riscos de erro. Deparam-se com situações onde não há antecedentes. Escolher entre opções possíveis é também uma maneira de escolher a si mesmo e de assumir as consequências.

Logo, a atividade de trabalho tem algo de dramático. Isso nos reenvia ao que Schwartz (2000, 2010) conceitua por dramáticas de uso de si.

Ou seja, explorando a decisiva descoberta da Ergonomia de que trabalhar não se limita simplesmente a uma execução de tarefas prescritas, Schwartz (2000a,

2010b 2011) afirma que em suas atividades, o trabalhador faz uso de si, do corpo-si (SCHWARTZ, 2011), envolvendo uma dialética: o uso de si “por si” e “pelos outros”.

O uso de si pelos outros se deve ao fato de que cada um se insere em um meio de trabalho já dado, onde já existem normas (antecedentes), regras de todos os tipos:

científicas, técnicas, organizacionais, relações de subordinação, de poder, tudo isso ocorrendo conjuntamente. Não obstante, cada adulto que trabalha já sabe que não se faz apenas o que se deseja; ocorre neste debate de normas que cada um tenta fazer valer, em cada situação, suas próprias normas de vida, suas próprias referências, através de uma síntese pessoal de um mundo de valores que circulam neste debate, neste combate. Isso nos remete ao entendimento de que, ao mesmo tempo, todo uso de si é uso de si por si mesmo. Temos aí a dialética que assinala a Ergologia (SCHWARTZ, 1994): do mesmo modo que é impossível manter a estabilidade e eliminar as variabilidades do meio em que vivemos (conforme evidenciou a Ergonomia da Atividade), não se pode viver sob um regime de total imposição das normas deste meio, isto seria “invivível” (como nos ensinou Canguilhem).

Portanto, mesmo na menor das atividades de trabalho há um encontro de diferentes valores que gera um debate de normas de si consigo. Frente às normas antecedentes (algumas delas impostas), os trabalhadores – para tornarem o meio vivível – exercitam sua capacidade normativa e inventam, em um movimento contínuo de “renormatização” (SCHWARTZ, 2010a). Não se limitando a procedimentos dirigidos à regulação do processo, tentam modificar o meio de trabalho, aproximando-o de seu próprio meio singular, mesmo que em escala infinitesimal.

Entendemos que as análises que se desenvolvem a partir da démarche ergológica, com o desenvolvimento dos conceitos já conhecidos e a criação de outros, traz uma riqueza (hoje incontornável) ao projeto transdisciplinar e transaberes de compreender↔transformar o trabalho em que se situa a Psicologia do Trabalho & Organizacional (PT&O) que buscamos desenvolver. Nesta perspectiva é que a introdução de aportes teóricos e metodológico-técnicos de diferentes ciências e abordagens se fazem férteis, assim como a confrontação com os saberes da prática.

A relação da PT&O com a Linguística Dialógica de Bakhtin (2010) tem possibilitado importantes aportes, colaborando para dar consistência a um paradigma dialógico, como os conceitos de gênero e estilo profissional.