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O PROGRAMA SEGURO-DESEMPREGO: CRIAÇÃO E REQUISITOS

Todavia, à medida que diminuem as possibilidades do emprego com carteira assinada, se restringe significativamente o número de trabalhadores atendidos pelo PSD, tendo em vista que esse programa acolhe apenas os trabalhadores formais. Nosso país é marcado pela informalidade, bem como pela alta rotatividade e somamos hoje mais de 13 milhões de desempregados (IBGE, 2017). Nesse cenário assolador, o PSD parece caminhar em sentido oposto, diminuindo cada vez mais a cobertura pelo aumento dos pré-requisitos, especialmente no quesito “tempo de carteira assinada e reincidência na demissão”.

Nessa direção, a qualificação profissional compulsória pode dificultar ainda mais o acesso e permanência dos trabalhadores no Programa.

Diante da vinculação compulsória entre o PSD e o Pronatec, este artigo tem como objetivo refletir sobre a seguinte questão: o condicionamento do PSD a um curso de qualificação profissional consiste em avanço ou retrocesso para os trabalhadores, sob o ponto de vista da proteção social? Para tal, utilizamos dados empíricos sobre o Pronatec Seguro-Desemprego 32, resultantes de pesquisa concluída no ano de 2014 e de estudos em desenvolvimento.

Em 1948 a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a seguridade social como direito fundamental e, em 1952, o conceito recebeu conteúdo pela Convenção nº 102, da OIT, intitulada “Normas Mínimas da Seguridade Social”. Nas normas, o termo é definido como:

[...] proteção que a sociedade proporciona aos seus membros mediante uma série de medidas públicas contra as privações econômicas e sociais que de outra forma derivariam no desaparecimento ou em forte redução de sua subsistência como consequência de enfermidade, maternidade, acidente de trabalho ou enfermidade profissional, desemprego, invalidez, velhice e morte (OIT, 1952).

Como é possível perceber, a proteção contra o desemprego é mundialmente reconhecida no campo da Seguridade Social e todos os países do mundo são incentivados a construírem sistemas de seguridade. Porém, a partir da década de 1970, o modelo de Bem-Estar Social, que se pautava no fordismo/keynesianismo, entra em colapso, inaugurando o neoliberalismo como novo modo de regulação social. Este combina diminuição do papel do Estado e formas renovadas de exploração, que abdicam da proteção social para a maior parcela da classe trabalhadora. Assim os sistemas de seguridade de todo o mundo passaram a retroceder, sendo esse efeito mais nocivo aos trabalhadores nos países de capitalismo periférico, em que a proteção social mal chegou a se consolidar, como é o caso do Brasil (SILVA, 2012).

No Brasil, em 1988, a Constituição Federal (BRASIL, 1988) faz menção ao direito de o trabalhador receber apoio financeiro por demissão sem justa causa no contexto do PSD que, por sua vez, foi também incluído no rol de ações da Seguridade Social, especificamente na área Previdência Social. Foi também a Constituição de 1988 que destinou os recursos do PIS/ Pasep para o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), criado em 1990 pela Lei 7.998/90 (BRASIL, 1990), fundo financeiro e contábil do PSD33.

A Lei que criou o FAT também regulamentou o PSD, apresentando o seguinte objetivo para o Programa: “Prover assistência financeira temporária ao trabalhador desempregado em virtude de dispensa sem justa causa, inclusive a

33 Importa citar que a criação de um seguro financeiro para demitidos se deu em 1986 pelo Decreto Lei 2.284/86. Porém por sua baixíssima abrangência e falta de recursos, não se consolidou.

indireta, e ao trabalhador comprovadamente resgatado de regime de trabalho forçado ou da condição análoga à de escravo” (BRASIL, 1990, Art. 2, I).

Além dessa ampliação, o Programa se modificou no que tange à preparação do trabalhador para alcançar um novo emprego, “podendo para esse efeito, promover a sua reciclagem profissional” (BRASIL, 1990, art.2, II). Em 1994, foi alterado o inciso que trata da qualificação profissional, mudando sua redação para “auxiliar os trabalhadores na busca de emprego, promovendo, para tanto, ações integradas de orientação, recolocação e qualificação profissional”. A que vigora atualmente é dada pela Medida Provisória nº 2.164-41 de 2001 (BRASIL, 2001) e apenas acrescenta uma palavra, apresentando a seguinte redação: “auxiliar os trabalhadores na busca e preservação de emprego”.

As mudanças na letra da Lei refletem as transformações político- ideológicas no que tange à responsabilização do trabalhador diante da demissão. Ao propor “reciclar”, indica-se que este foi demitido por estar desatualizado. A proposta de “auxiliar na busca” é tornar o trabalhador atraente aos olhos do empresariado, difundindo a ideia de que a qualificação gera empregos. Finalmente, na

“preservação” do emprego é a consagração da ideologia da empregabilidade, em que a demissão é fruto da incompetência do trabalhador, pois este não foi capaz de, após conquistar, se manter no emprego. Em todas as formas há elementos de adaptação do trabalhador, desconsiderando fatores estruturais e conjunturais que determinam a realidade do mercado de trabalho.

Vejamos no quadro a seguir os atuais critérios do PSD, de acordo com as duas últimas alterações, uma em 1994 e a outra em 2014/2015. É possível constatar o retrocesso na cobertura do trabalhador pelo critério tempo de trabalho, reincidência e qualificação profissional.

Quadro 1- Comparação das regras do PSD

Lei 8.900/1994 Lei 13.134/201534

6 meses de trabalho- 3 parcelas 12 meses de trabalho- 4 parcelas 24 meses de trabalho- 5 parcelas

Matrícula facultativa em curso de qualificação, não sendo um pré-requisito.

1º solicitação

12 meses - 4 parcelas 24 meses – 5 parcelas 2º solicitação

9 meses - 3 parcelas 11 meses - 4 parcelas 3º solicitação em diante 6 meses - 3 parcelas 12 meses - 4 parcelas 24 meses - 5 parcelas

Matrícula em curso de qualificação profissional para quem acionar o Seguro pela 2º vez. Em caso de recusa do trabalhador em fazer o curso, o PSD é cancelado.

Fonte: BRASIL, 1994; 2011; 2012; 2015. Editado pelo autor.

Passemos agora a analisar a vinculação do PSD com o Pronatec. Para tal, utilizaremos os documentos oficiais do Pronatec e também estudos realizados sobre esse programa no Instituto Federal de Educação Científica e Tecnológica do Rio de Janeiro (IFRJ), instituição que compõe a Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica, ou apenas, Rede Federal. A pesquisa envolveu 20 alunos trabalhadores que foram obrigados a se matricularem no Pronatec para receberem as parcelas do seguro-desemprego e gestores do Instituto que participaram do Pronatec na condição de bolsistas.

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