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significante, que introduz o pulsional em rompimento com o instintivo, marcando o lugar do desejo e do gozo para o sujeito, lugar perante o qual ele terá que tomar posição.

O objetivo desse capítulo é mapear os elementos que acreditamos serem os mais característicos, específicos do campo da psicanálise: o inconsciente, a sexualidade, a linguagem e o sujeito, atravessados que estão pelo desejo e pelo gozo, de modo que possamos apreender o que aí surge de específico em relação à psicose.

Pretendemos tratar essas questões começando por tecer uma ‘malha modesta’ sobre o que é a psicanálise, trabalhando inicialmente os dois pilares onde ela encontrou sustentação a partir de Freud em sua eterna inquietação frente aos enigmas do sujeito humano. Trata-se da descoberta do inconsciente e da ampliação do conceito de sexualidade, os quais produziram uma ruptura radical com tudo o que se pensava na época, sendo responsáveis pelo surgimento de inúmeras resistências à psicanálise.

consistia em trazer à tona, pela hipnose, o que fôra recalcado, liberando o afeto suprimido a partir de uma “catarse”.

Após Breuer ter abandonado o tratamento das histéricas13, Freud prossegue seu percurso de investigação e tratamento das neuroses, introduzindo novidades técnicas a partir das descobertas que a experiência clínica lhe proporcionava. Entre essas novidades encontramos o abandono da hipnose e sua substituição pela técnica da “associação livre”, que, juntamente com a interpretação do analista, apresenta-se como um dos fundamentos principais da clínica psicanalítica.

Em seu texto Sobre a Psicoterapia (1905), Freud apresenta a psicanálise como um método de psicoterapia diferente dos inúmeros métodos já existentes, os quais se pautavam na sugestão como instrumento principal de intervenção. Segundo ele, a sugestão é um instrumento da prática médica desde seus primórdios, e a psicanálise também deu seus primeiros passos a partir dela, quando da utilização da técnica da hipnose de Charcot.

Contudo, a partir da experiência com o tratamento das histéricas, o método analítico vai se distanciando das outras psicoterapias, abandonando o uso da hipnose em prol da regra básica da associação livre.

No texto Sobre a Psicanálise (1913), Freud a define como uma combinação notável, que abrange não apenas um método de pesquisa, mas também um método de tratamento.14 Nele, Freud ressalta as bases do que nomeou psicanálise - uma prática que, como tal, não é fruto da especulação, mas sim da experiência; inicialmente, a experiência com as histéricas. A partir dessa experiência, Freud começa todo um processo de ruptura com a lógica médica oferecendo uma explicação dinâmica para a histeria, baseada na ação recíproca das forças psíquicas, apontando a origem da dissociação histérica num processo psíquico especial - o recalque.

Essa visão do funcionamento psíquico encarava os sintomas como produtos de experiências traumáticas que, por serem traumáticas (produtoras de desprazer), sofriam o recalque e eram afastadas da consciência. Contudo, mesmo afastadas da consciência produziam efeitos vindos do inconsciente. Esses efeitos eram os sintomas, que, segundo Freud, tinham sua forma determinada por pormenores dos efeitos traumáticos das

13 Breuer abandona o tratamento das histéricas assustado com os fenômenos da transferência. Na época, ele atendia Anna O. que, sob transferência, lhe apresenta uma gravidez psicológica.

14 É importante ressaltar que essa formulação que apresenta a psicanálise como uma combinação entre pesquisa e tratamento (na verdade, pesquisa e tratamento se confundem) revela um dos fundamentos principais da prática

experiências - os sintomas eram, nas palavras de Freud, o retorno do recalcado. Ou seja, a partir de então, os sintomas passam a ter um sentido - eles estão diretamente ligados às experiências traumáticas dos sujeitos, são seus substitutos.

A intervenção terapêutica visava livrar o material psíquico inconsciente do recalque, de modo que, tornado consciente, pudesse ter outro destino que não o sofrimento do sintoma.

Esse trabalho, como nos adverte Freud, não é realizado sem fortes resistências por parte do sujeito, que vai tentar de todas as maneiras manter tudo como está.

Todo esse processo tem seu início com um conflito fundamental, que representa uma das marcas essenciais da descoberta freudiana. Trata-se do conflito entre as pulsões sexuais, Freud ressalta - “sexual no seu sentido mais amplo” - e as pulsões do eu.15 Nas neuroses, as pulsões sexuais sucumbem ao recalque e constituem a base mais importante para a gênese dos sintomas, que são encarados por Freud como substitutos de satisfações sexuais.

A referência ao “sexual no seu sentido mais amplo” aponta como uma das características essenciais desse sexual: sua enorme força - a força constante da pulsão - que faz com que, mesmo após o recalque, continue fazendo pressão e exigindo satisfação, o que acaba conseguindo através dos sintomas. Outro fator de destaque nesse sexual é que ele está presente desde a mais tenra infância, desde os primeiros contatos do bebê com a mãe, quando da amamentação, ponto sustentado nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905) e que rendeu a Freud as mais severas críticas, causando espanto e repúdio no meio médico vienense.

O recalque, por sua vez, encontra seu fundamento no próprio desenvolvimento cultural imposto à humanidade, desenvolvimento que só pode ser alcançado às custas das restrições à sexualidade, do represamento dessa força constante que exige o tempo todo satisfação imediata. Essa função é assumida pelo complexo de Édipo. Contudo, mesmo antes dessa operação, Freud afirma haver algo de inconquistável na pulsão - sua impossibilidade de satisfação completa - referenciada ao recalque originário (Üverdrangung).

No decorrer de suas experiências com o tratamento das histéricas, Freud fez uma descoberta de extrema importância que viria romper com a lógica médica dominante a qual colocava em campos radicalmente opostos o ‘normal’ e o ‘patológico’. Essa descoberta é fruto não só das observações de sua clínica, mas, principalmente, da observação de seus

15 Este conflito, como veremos com o desenvolvimento da teoria das pulsões de Freud, vai ceder lugar ao conflito fundamental entre a pulsão sexual (incluindo aí as pulsões do eu) e a pulsão de morte.

próprios conteúdos psíquicos, de sua “auto-análise”16, a partir das inquietações produzidas por seus próprios sonhos - “o método psicanalítico descobriu a estreita relação entre os produtos psíquicos patológicos e estruturas normais - sonhos, lapsos, atos falhos, chistes.” (FREUD, (1913) 1987:227).

Nas bases dessa descoberta encontra-se a pulsão, que ele formulará em 1915 como um dos conceitos fundamentais da psicanálise. Com a pulsão encontramos a descoberta da importância da sexualidade infantil na constituição do sujeito, e com ela a formulação do complexo de Édipo, que Freud apresenta como o complexo nuclear das neuroses, responsável pelo fenômeno da transferência, outro conceito fundamental da psicanálise.

Ou seja, as descobertas de Freud não se restringem às manifestações patológicas da vida psíquica, mas dizem respeito também ao seu funcionamento normal. O estudo dos sonhos e das parapraxias revelou a Freud os mecanismos que regem o inconsciente, sobretudo a determinação do sujeito pela linguagem e pelo sexual. Tanto nos sonhos, como nas parapraxias - esquecimento de nomes, lapsos de linguagem, atos falhos, chistes - Freud destaca a presença de um desejo recalcado, que aparece de forma disfarçada através dos mecanismos da linguagem - condensação e deslocamento.

Nos artigos sobre a técnica da psicanálise (1911-1915[1914]), encontramos os pontos de sustentação da teoria psicanalítica. Trata-se dos artigos em que Freud apresenta os instrumentos necessários para o manejo clínico, entre eles a interpretação dos sonhos, a transferência e a associação livre, considerada, a partir de então, a regra técnica fundamental da psicanálise, pela qual o paciente deve falar tudo que vier a sua cabeça, mesmo que pareça absurdo ou vergonhoso. A associação livre visa uma fala desvinculada das qualidades sensíveis do texto, visa o significante e não o significado, diria Lacan. Quanto ao médico, este deve se posicionar a partir de uma escuta também desvinculada das qualidades do texto trazido pelo paciente, uma escuta orientada pela cadeia significante - o que Freud denomina

“atenção flutuante”.

A diferença essencial entre a sugestão, operada pelas outras psicoterapias, e a associação livre, sustentada pela terapia analítica, está no fato de que a primeira, não se importando com a origem, a força e o sentido dos sintomas, visa impedir a expressão da patologia a partir da introdução da sugestão; e a terapia analítica, preocupando-se com a gênese dos sintomas e com a “trama psíquica da idéia patogênica”, visa localizar na fala do

16 Na verdade, não se trata propriamente de uma auto-análise, pois Freud sempre endereçava suas questões a

sujeito os significantes que o determinam, a partir de uma espécie de ‘limpeza’ dos significados apresentados no texto do paciente. De tal forma, não pretende acrescentar, nem introduzir nada, mas antes tirar, “trazer algo para fora”.(FREUD, (1905) 1987:247)

Freud chama a atenção num desses artigos - Recomendações ao médicos que exercem a psicanálise (1912) - para a dificuldade presente no manejo das questões colocadas pelo método analítico, enfatizando a necessidade de uma formação rigorosa, que passa em primeiro lugar pela análise pessoal - “Como alguém pode se tornar analista: pela análise dos seus próprios sonhos” (Freud, (1912) 1987:130). Seu alerta é de que ser um psicanalista não é simplesmente colocar o sujeito no divã e ordenar-lhe que nos revele seus segredos, advertindo-nos que a terapia analítica estabelece grandes exigências tanto ao doente quanto ao médico.

No texto Sobre a psicoterapia (1905), ele destaca três pontos de sustentação para o método analítico: inconsciente, sexualidade e recalcamento. Em primeiro lugar, sustenta que a terapia analítica baseia-se na concepção de que as representações inconscientes são a causa imediata dos sintomas patológicos, advertindo-nos sobre a especificidade do inconsciente no campo da psicanálise – este, “não está de forma alguma remetido às profundezas da mais obscura filosofia”. (FREUD, S.- op.cit.:252) O método analítico, portanto, consistiria no desvendamento e na tradução do inconsciente, o que não se dá sem poderosas resistências por parte do paciente, na medida em que o afloramento desse inconsciente está vinculado ao desprazer.

Em segundo lugar, ressalta que o ‘material’ desse inconsciente é o sexual - é no elemento psíquico da vida sexual do neurótico que encontramos a etiologia da neurose. Ao tratar desse ponto, Freud nos alerta para uma importante exigência a ser feita ao médico -

“Não apenas ele próprio tem de ser de caráter integro, como também deve ter superado, em sua própria pessoa, a mescla de concupiscência e puritanismo com que, lamentavelmente, tantos outros estão habituados a enfrentar os problemas sexuais”. (idem, ibdem:253). Isso nos remete para a importância da análise do próprio analista enquanto elemento fundamental de sua formação.

Por fim, destaca o recalcamento como outro fator indispensável no mecanismo da neurose, fruto da aversão do neurótico à sexualidade, de sua incapacidade de amar. Esses três pontos - inconsciente, sexualidade e recalcamento - são os pilares da terapia analítica, que tem na transferência seu principal instrumento.

Vejamos o que Freud nos diz sobre esse dispositivo. Em A Dinâmica da Transferência (1912), ele afirma que cada sujeito, a partir da combinação de fatores constitucionais e acidentais, conseguiu um método específico próprio de conduzir-se na vida erótica - um

“clichê estereotípico”, constantemente reimpresso no decorrer da vida. É a partir desse clichê que ele se relaciona com os outros, sustentando-se numa espécie de matriz para todas as suas relações. É também a partir desse clichê que cada um vai se relacionar com o analista, transferindo para sua figura tudo o que está fundamentado na sua matriz original de relação com os outros primordiais - seus pais.

Como destaca Freud, a transferência é algo que não se dá exclusivamente na análise, mas atravessa toda a vida social do indivíduo, e vai estar presente em cada encontro dele com os outros que o cercam. Contudo, na análise ela surge com uma característica especial, surge como a resistência mais poderosa ao tratamento. A resistência, como já vimos, surge quando o trabalho analítico incide sobre o que está recalcado, trazendo à tona o material inconsciente.

Vejamos como isso se dá: quando algo no material complexivo serve para ser transferido para a figura do médico, essa transferência é realizada, produzindo a associação seguinte e anunciando-se por sinais de resistência. A idéia transferencial entra na consciência à frente de quaisquer outras associações porque ela satisfaz a resistência.

Ou seja, a transferência no contexto da experiência analítica apresenta uma dupla face:

ao mesmo tempo que oferece ao analista a principal arma para ‘vencer o recalcado’, na medida em que traz a cena os elementos que o compõe, é usada pelo paciente também como principal arma na ‘defesa do material recalcado’.

O clichê estereotípico, no qual se fundamenta a transferência, nos remete à estrutura do complexo de Édipo, enquanto protótipo das relações do sujeito com os outros que o cercam.

O complexo de Édipo surge na história da psicanálise como um mito usado por Freud na abordagem das questões relacionadas à etiologia das neuroses. Num primeiro momento, Freud acreditava na tese da sedução como trauma responsável pelo desencadeamento da neurose, tese que será abandonada com a descoberta do papel desempenhado pela fantasia na vida psíquica dos neuróticos. A essa descoberta somam-se as provenientes de sua “auto- análise”, que culminam com a elaboração do complexo de Édipo - “Descobri em mim, como em toda parte, sentimentos de amor por minha mãe e de ciúme por meu pai. Esses

sentimentos são, ao que me parece, comuns a todas as crianças pequenas (...)” (FREUD (1896) apud KAUFMANN, 1996:136).

O Édipo da tragédia de Sófocles empresta a Freud a chave para a solução de seus obstáculos teóricos. A partir de então, o complexo de Édipo adquire seu estatuto universal na realidade do sujeito humano, e sua importância capital na teoria e na clínica psicanalítica.

Vejamos agora em que consiste esse complexo.

Freud nos apresenta o complexo de Édipo como o fenômeno central do período sexual da primeira infância. Este período é marcado pelo que ele vai chamar de primazia do falo, período em que a diferença sexual ainda não se colocou para o sujeito, seja ele menino ou menina. Ambos acreditam-se possuidores do falo, tendo como objeto amoroso a mãe. Neste período a criança apresenta uma intensa atividade masturbatória, despertando nos adultos que cuidam dela uma atitude de desaprovação e de repressão. Diante desse comportamento da criança, são comuns as ameaças por parte dos adultos em tirar-lhe essa parte do corpo tão valorizada - ameaças de castração.

Freud estabelece uma diferença na evolução do complexo de Édipo em relação ao menino e a menina. Como vimos, em ambos os casos, a mãe é o objeto original. É a ela que se dirige a atividade masturbatória da criança, seja ela menino ou menina. Esta última, como observa Freud, trata seu clitóris como um falo, e é nessa condição masculina que ela dirige seu amor à mãe. Diante da constatação da diferença sexual através da visão dos genitais masculinos e femininos, a criança começa a levar em consideração as ameaças de castração - os meninos temem perder o que eles acreditam possuir e as meninas concluem terem sido castradas efetivamente.

Segundo Freud, esse passo marca a dissolução do compelxo de Édipo para o menino, que, pelo temor da castração, substitui as catexias de objeto pela identificação com o pai, internalizando sua autoridade de forma a dar lugar ao supereu, que surge como o herdeiro do complexo de Édipo. Para a menina o complexo de castração marca sua entrada no complexo de Édipo - diante da visão do genital masculino e da conclusão de ser castrada ela vai buscar o falo no pai, desejando receber dele um filho:

“(...) a libido da menina desliza para uma nova posição ao longo da linha da equação ‘pênis-criança’. Ela abandona seu desejo de um pênis e coloca em seu lugar o desejo de um filho; e com esse fim em vista, toma o pai como objeto.”(FREUD, (1925) 1987:284)

Freud finaliza esse artigo enfatizando a importância do complexo de Édipo na vida adulta do sujeito, ressaltando que o modo como o sujeito se introduz nele e o abandona não pode deixar de ter seus efeitos.

Não podemos deixar de ressaltar as críticas dirigidas a Freud por antropólogos que refutavam a universalidade do complexo Édipo, críticas que nos servirão para apontar o caráter estrutural do Édipo, dessubstancializando-o dos comportamentos e discursos manifestos em prol do nível inconsciente em que se situa Freud ao abordar seus elementos.

A crítica mais conhecida à universalidade do complexo de Édipo, como nos destaca Rinaldi (1996), é a do antropólogo Bronislaw Malinowski que, apoiado na defesa da ausência do complexo de Édipo (conforme o enredo narrado por Freud) entre os trobriandeses, recusava a universalidade do complexo e acusava Freud de etnocentrismo.

Rinaldi aponta na crítica de Malinowski um desconhecimento do texto freudiano e de seus conceitos básicos - inconsciente, recalcamento, fantasia -, chamando a atenção para a leitura lacaniana onde o Édipo é dessubstancializado, destacando “a estrutura simbólica triangular que está na base do desejo humano, sejam quais forem os conteúdos culturais que ela possa assumir.” (RINALDI, 1996:26)

Rompendo com a imaginarização do Édipo, Lacan apresenta três tempos lógicos17 onde se desenvolveria o complexo, destacando a sua vinculação (presente no texto freudiano) com o complexo de castração ao ressaltar que o que importa realmente nessa operação é a interdição que barra o acesso à satisfação do desejo ligando-o à Lei. A universalidade do Édipo sustentada por Freud decorre, então, da função simbólica, independendo da manifestação cultural do complexo.

Passamos agora para um exame mais cuidadoso dos dois pontos principais responsáveis pela especificidade da psicanálise: o inconsciente e a sexualidade.