A Ilumiara da Beleza.
Eu, meditando na delgada avena, As rudes canções de dissertação, Fiz Caçadas agoureiras, proféticas, De depoimento e inspiração
Bebi a voz do Gênio Alumiso, Profeta de Vinho e Canto espantoso.
Cesse o que a antiga musa canta Que o armorial já se alevanta.
Alumioso, príncipe da bandeira do Divino do sertão”, como conta o próprio autor e o roteiro elaborado pelos estudos de Dona Idelette Muzart Fonseca dos Santos, na sua demanda da poética popular (2009, p. 48).
O objetivo do autor com as (re) inscrições na obra parece ser o de reforçar verdadeiramente a construção do seu Castelo Literário, já que as alterações acontecem para que A Pedra do Reino seja anexada como parte do gaviônico Projeto Literário que Ariano Suassuna deseja concretizar após o lançamento de seu(s) novo(s) livro(s), que está sendo escrito, O Jumento sedutor.
De concreto sabemos que o Romance d’A Pedra do Reino inspirou uma grande manifestação popular em São José do Belmonte, no sertão pernambucano. Da mesma forma que inspirou o autor a conceber o projeto da construção da “Ilumiara Pedra do Reino” no local onde ficam as Pedras do Reino. O Sítio Histórico da Pedra do Reino foi iniciado em mil novecentos e noventa e oito, abriga quinze estátuas esculpidas em pedra, com desenhos concebidos por Ariano Suassuna. As imagens representam figuras religiosas, O Cristo Rei, Nossa Senhora, São José, São João, São Pedro, Santo Antonio, Santa Madalena, Santa Teresa e Santana, e as imagens dos reis e rainhas personagens do movimento sabastianista da Pedra do Reino; João Antonio, João Ferreira, Pedro Antonio, Izabel, Josefa e Quitéria. Para fechar o marco, tem a Pedra que indica a Ilumiara Pedra do Reino e que homenageia a figura do genial artista do Barroco mineiro e brasileiro, o Aleijadinho. O santuário idealizado por Ariano Suassuna, além de ser um monumento de arte sertaneja, barroca e brasileira, que relembra e celebra as vidas sertanejas perdidas no decorrer da história e dos sonhos do espírito sertanejo para restaurar o Quinto Império sebastianista de justiça e igualdade social, será um centro turístico para a cidade de São José do Belmonte. A festa da Cavalhada e da Cavalgada à Pedra do Reino é realizada todos os anos pela Associação Cultural Pedra do Reino, formada por cidadãos belmontenses. Ao final, anexamos nos autos do processo imagens do monumento
“Ilumiara Pedra do Reino”, para que Vossas Senhorias constatem a veracidade das minhas informações, podendo até ampliar o entendimento através de consulta na biblioteca digital da Associação Cultural da Pedra do Reino (o blog www.pedradoreinosjb.blogspot.com.br), ou num tal de “Gúgol”, que anda deixando os estudantes de hoje mal acostumados com as pesquisas e demandas dos estudos, afastando-os, muitas vezes, da leitura dos livros de verdade.
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Então nobres Senhores e belas Damas de lábios que “são lírios com mirra que flui e se derrama”, Ilustríssima e gaviônica Banca julgadora, chego ao final do meu depoimento com minha obra finda, motivo pelo qual me encontro diante de Vossas Senhorias para o julgamento e a cerimônia régia que poderá me alçar à Categoria de Mestre pela Academia Sertaneja. Diante de mim uma espécie de Conselho, formado pelos generosos espectadores e leitores do meu depoimento, parece reencenar a coroação que alçou o narrador Quaderna à Categoria dos grandes gênios e personagens da Távola Redonda da Literatura Brasileira, coroação que representa de maneira bela e poética o alcance e o significado que o Romance d’A Pedra do Reino atingiu, enquanto epopeia guerreira e enigmática da nação, desde o seu lançamento em 1971.
A sagração do narrador/escritor do romance afirma a Obra Castelar e epopeica, e a eleva como o canto grandioso de criação e representação estética do espaço cultural do Sertão, o misterioso “Campo de sono ensangüentado”, onde “arde em brasa o Sonho perdido” de cada homem filho de mulher, que convive ou não nesse lócus. A mim coube Demandar na Quinta Expedição ao Reino do Sertão, para ocupar meu posto de sucessor dos nobres Cavaleiros Sertanejos da Pedra do Reino José de Alencar, Euclydes da Cunha, Ariano Suassuna e Carlos Newton Júnior.
AS CONSIDERAÇÕES FINAIS OU A SAGRAÇÃO DA QUINTA EXPEDIÇÃO AO REINO DO SERTÃO
Como diz o genial filósofo espanhol José Ortega y Gasset, “cada dia menos me interessa sentenciar; a ser juiz das coisas vou preferindo ser seu amante” (1967, p. 56). Com efeito, a missão das minhas meditações e estudos críticos não intenta em dizer se a obra literária em questão é boa ou má, cabe ao leitor traçar sua demanda particular e julgar da maneira que melhor lhe convier. A mim vale o engenho e a arte de que me armei para partir à
“Fonte do Cavalo” em busca da inspiração necessária para dizer a minha aventura intelectual pelo Sertão do Nordeste, um Sertão histórico, sociológico, mas também estético, quixotesco, régio, poético, mítico, apolíneo, dionisíaco e armorial.
Um Sertão que ganha uma dimensão de Reino, pela valorização de sua cultura e de sua história pela pena engenhosa e armorial de Ariano Suassuna. Um espaço rude, pedregoso, mas, ao mesmo tempo, uma Pérola, “engastada em ouro fino”, no depoimento literário que o
narrador/escritor suassuniano arquiteta através de sua providencial prisão e de seu providencial julgamento pelo Juiz Corregedor, “de modo a comover o mais possível” com a sua narração os corações generosos que acompanham os seus infortúnios. Toda a tessitura do discurso quadernesco faz com que a Obra de Ariano Suassuna permaneça e levante outras tantas demandas em favor das meditações de toda a proposta refletida nas linhas e entrelinhas que compõe esse bloco de pedra e de poesia que é o Romance d’A Pedra do Reino. Assim, segundo as palavras de Ângelo Monteiro, “A Pedra do Reino, por ser de pedra, irá permanecer durante todo o tempo em que o sol se refletir sobre ela” (1974, p.39).
Então, nobres Senhores e belas Damas de peitos macios e brandos, “nesta bela Concha” coberta pelo sangue florido que banha a terra sertaneja, enfeitada pelas coroas-de- frade e pelos espinhos de mandacarus, o Sol do meio-dia parece pintar de luz e barro, Poesia e Mundo, Sonho e Razão, a cada leitura, a cada demanda aventurosa ao Reino do Sertão, os fósseis petrificados da nossa cultura, para reencená-los de maneira grotesca e gloriosa, fazendo reviver as nossas memórias sertanejas e brasileiras.
E assim, reencenando, revisitando a sentença proferida a todos os homens, o narrador/escritor bebe o fogo dos Lajedos para celebrar a “luta sem grandeza” que o heroísmo de ser a si mesmo assinala a vida e a morte de cada Cavaleiro e de cada Dama. Cada ser vivente que se propõe em cantar o enigma da Fronteira, encenado pela estranha voz rouca e afiada, como o pio de gavião, do Engenhoso escultor/escritor, a Divindade, que escreve a grande peça de teatro que é a vida, com os vestuários das Intrigas, presepadas, contendas e aventuras, ou do ódio, do amor, das batalhas, do cantar e da meditação.
Por fim, bebendo da água sagrada da “Fonte do Cavalo”, é preciso que eu diga que o sonho da legenda e a meditação gaviônica me conduziram no galope do depoimento da minha dissertação armorial em favor da concretização da Quinta Demanda Novelosa ao Reino do Sertão. De onde sai todo esse cantar espantoso, o sonho em quebrar a Pedra que serve de porta e fronteira para transpormos, enquanto sertanejos do Brasil Real, a Chapada diabólica e heráldica formada pelos espinhos da “desconhecença” e da dúvida que pode conduzir, todos aqueles que desejem catar aventuras, ao caminho da “sabença”. O livro do Mundo está aberto para todos, basta que nos dediquemos à leitura dele para descobrirmo-nos enquanto heróis de engenhosos passos, de engenhosos Reinos, aventuras e expedições, inerentes à condição humana.