Capítulo III O “PRINCÍPIO MISERICÓRDIA”: IMPLICAÇÕES PARA O
3.1. O “Princípio misericórdia”
3.2.1. O seguimento como forma de explicitar a identidade cristã
Para Jon Sobrino, a vida cristã se atualiza no seguimento de Jesus. Por sua vez, o seguimento é expressão de fé e a mais importante forma de explicitar a identidade cristã29. Esta é entendida na constante tensão entre reproduzir e atualizar o seguimento. Desse modo, o seguidor é chamado, por força de sua fé, a reproduzir a estrutura fundamental da vida de Jesus – encarnação, missão, cruz e ressurreição – bem como, atualizá-la a partir do contexto no qual está inserido.
29 Cf. SOBRINO, Identidade cristã. In: FLORISTAN SAMANES, C. & TAMAYO-ACOSTA. J. J.
(Orgs.). Dicionário de conceitos fundamentais do cristianismo. São Paulo: Paulus, 1999. p. 343.
Imbuído no real da história, o seguimento ganha concretude, de modo que “a identidade cristã adquire realismo e se vê exigida a introduzir na sua essência combater a negatividade e tomar sobre si a realidade onerosa”30. No seguimento, enquanto lugar da construção da identidade cristã, a misericórdia é historizada, e esta, evidencia-se como uma característica fundamental de ser e agir cristão.
A identidade cristã aparece de modo especial ao refazer a vida de Jesus. Trata-se da misericórdia de Jesus pelos últimos e desprezados, afligidos pela cruel inumanidade, chamados por Sobrino de “povos crucificados”. Diante da dor e sofrimento das pessoas, Jesus é movido pela misericórdia, de modo que esta se torna o modo concreto do seu agir para sanar o sofrimento dos feridos e dar-lhes esperança.
A identidade cristã se constrói, não à margem da realidade sofrida de tantos homens e mulheres, os quais por sua vida inumana clamam por misericórdia, mas no atualizar o jeito de viver de Jesus. Isso implica “re-fazer com espírito e no Espírito”31 o seguimento, atualizando e assumindo com suas urgências e desafios sua virtude maior, a misericórdia.
Nesse sentido, Sobrino afirma que somente no seguimento realizado, se pode falar, com sentido, do seguimento e, somente a partir deste, dar-se a convicção de que nele está a identidade cristã32.
Ser cristão supõe encarnar-se numa realidade concreta, ao modo de ser e viver de Jesus. Para o teólogo, da mesma forma que Jesus é a melhor salvaguarda de Cristo, assim também o seguimento é o melhor modo de explicitar a identidade cristã. E continua: “[...] o seguimento de Jesus [...] é a forma mais importante de explicitar a identidade cristã, e muito mais quando, ao longo da história, os cristãos passaram por crise de identidade e relevância”33. Por conseguinte, a identidade cristã possui duas dimensões importantes, expressas por Sobrino nos verbos: recordar e caminhar.
A necessidade do “recordar” como central da identidade cristã está no fato de que Deus se manifestou em Jesus. Essa manifestação é atestada nos textos do Novo Testamento, pelos santos padres e nas fórmulas conciliares. Desse modo, à identidade cristã impõe-se a
30 SOBRINO, A fé em Jesus Cristo, p. 488.
31 Idem.
32 Cf. SOBRINO, Identidade cristã, p. 343.
33 Idem.
crença no Deus de Jesus e, portanto, a partir de Jesus. Sabemos quem é Deus somente e sempre naquilo que aparece em Jesus. Em outras palavras, Jesus é o elemento essencial de nosso saber de Deus. É fundamental – insiste Sobrino – para identidade cristã “evitar uma fé em um Deus que não necessite de Jesus”34.
A recordação como chave de compreensão da identidade cristã, conduz ainda a outro elemento importante: o Reino de Deus e sua relação central com os pobres. Estar em sintonia com o Deus de Jesus leva-nos, consequentemente, a assumir seu Reino de justiça e paz, bem como a causa dos pobres como expressão de sua misericórdia. Para Vera Bombonatto, “é preciso evitar o perigo de esquecer o Reino de Deus, pois sem ele desaparece a identidade cristã, a centralidade dos pobres em relação ao projeto de Deus”35.
O “caminhar” como ponto central e essencial da identidade cristã. Segundo Sobrino, a fé cristã é uma fé a caminho, porque o Deus de Jesus Cristo é um Deus a caminho.
A fé cristã responde e corresponde a esse Deus na medida em que assume o caminhar da história e não fora dela. É inserida na história que a fé ganha sentido, pois descobre nela e integra a partir dela, os diversos momentos, aparentemente contrários, à maneira do Deus a caminho36.
Assim Sobrino destaca os elementos específicos da identidade cristã, no seu caminhar na história, em fidelidade ao Deus a caminho, do seguinte modo:
a) “a encarnação na verdadeira realidade, isto é, no mundo das vítimas, contra a tendência a sair da história, grosseira ou sutilmente;
b) a esperança de plenitude no futuro, apesar de e contra a onipresença das cruzes da história;
c) o caminhar práxico, agir com justiça, construir o Reino contra obstáculos de perseguição e morte – e não só uma esperança puramente expectante;
d) a denúncia do anti-reino, e o assumir suas consequências, com o oneroso da realidade;
34 SOBRINO, A fé em Jesus Cristo, p. 491.
35 BOMBONATTO, Seguimento de Jesus, p. 274.
36 Cf. SOBRINO, A fé em Jesus Cristo, p. 497.
e) o deixar-se levar pelo novo, o Espírito de Deus, que sopra onde lhe apraz;
f) a humildade do caminhar, sem pretender sintetizar na história aquilo que só é sintetizável no fim, contra todo tipo de gnose e dogmatismos;
g) manter o caminhar contra todos os obstáculos, ideologias e cantos de sereia que fazem razoável o abandoná-lo”37.
Sobrino afirma que o cristianismo é uma “religião do caminhar na história”,
“animado de esperança, por uma parte, e questionado, por outra, pela própria existência das vítimas”38. Com efeito, no saber caminhar na história, e no como caminhar sempre e apesar de tudo, é que vai humanizando as vítimas e a si mesmo. Desse modo, o cristianismo oferece luz nesse caminhar, não obstante a opacidade do real e sua obscuridade39.
No recordar e caminhar, enquanto dimensões da identidade cristã, é que a identidade vai sendo construída, tendo como paradigma e motivação, Jesus de Nazaré. Ele é o caminho de Deus para este mundo, e é o caminho para o Pai e o caminho para os seres humanos, sobretudo dos pobres e das vítimas40, o samaritano por excelência.