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sem os problemas e inseguranças das companhias teatrais.” Sendo considerado por ela o melhor emprego para os artistas “se aposentarem e se tornarem celebridades nacionais. Tudo isso com um salário bastante bom”. 86 Com relação às melhores condições para aposentadoria, os depoimentos de Patricio não atestam essas informações.

O ambiente radiofônico poderia oferecer melhores condições de trabalho em comparação com algumas companhias de teatro, mas não oferecia segurança trabalhista como afirmou a atriz. A experiência do cantor Patricio Teixeira é reveladora, pois foi essencialmente um artista de rádio, que atravessou todas as fases da radiotransmissão, dos seus primórdios aos indícios de deterioração com o surgimento da televisão. As fragilidades no mundo do trabalho para o artista estavam também presentes no rádio.87 Atuando no veículo até meados da década de 1950, Patricio não teve seus direitos trabalhistas assegurados e, já sexagenário, não conseguiu se reinserir no mercado musical, o que levou à sua pauperização na velhice.

Na citação que abre este subcapítulo há alguns questionamentos, como o fato de ser antigo e a alcunha de “incorrigível” que acompanhava sua identificação como “seresteiro”.

Também existe uma indagação quanto ao fato de Patricio ser seresteiro A arguição se ele poderia ser enquadrado como um cantor seresteiro em termos musicais interessa menos do que os motivos que o levaram a se caracterizar dessa forma. Patricio se definiu seresteiro em várias entrevistas, e assim foi descrito por muitos de seus contemporâneos. Ele chegou a assinar uma dedicatória em sua fotografia como tal.89 Nomear-se seresteiro o associava aos tempos anteriores ao rádio, quando participar de serenatas era cantar e tocar violões nas noites enluaradas. Disse em certa ocasião: “Quando comecei, ainda nem se falava em rádio. Faziam- se serenatas sob as janelas de nossas enamoradas. Cândido das Neves, Eduardinho da Piedade, Rogério Guimarães, João Pernambuco, eu e outros”.90 Fazer serestas ou serenatas, entendidos como sinônimos naquela ocasião, era uma prática de socialização e vivência musical relacionada a cantar modinhas ao luar, vagando com violões pelas ruas e portas da mulher amada.

Para Patricio, identificar-se como seresteiro no rádio era possivelmente uma maneira de capitanear o passado das tradições musicais populares, colocando-se como guardião dessas manifestações naquele espaço. A definição da Revista do Rádio corrobora para essa afirmação sobre o cantor: “o sorriso não abandona o mais antigo seresteiro ainda em evidência”.91 Essa característica seresteira reforçava o seu caráter de testemunha ocular dessas experiências, angariando prestígio suficiente para não dar margem a questionamentos quanto ao lugar de destaque que ele ocupava. Falar em nome de um legado cultural, sendo uma voz de autoridade no assunto, talvez pudesse resguardá-lo de opiniões que desabonassem a sua presença negra em um ambiente predominantemente branco. Era assim que conseguia se manter no meio radiofônico, o que não arrefeceu e nem muito menos eliminou os preconceitos raciais que o acompanharam na vida de artista profissional.

Ladeira, ao agregar-lhe a alcunha de “incorrigível”, adensa a discussão sobre as percepções que se tem de Patricio enquanto cantor de rádio. Sobre o apelido, em entrevista na década de 1950, foi mencionado que “o próprio cantor nunca o entendeu.”92 Nem mesmo o artista compreendia (ou talvez tenha optado por não comentar) os significados em torno do seu mais famoso apelido. A expressão “incorrigível” abarca os sentidos de irrecuperável, inveterado, irremediável e até rebelde.

89 A imagem consta no capítulo seguinte.

90 Revista do Rádio. 29/05/1951, p.30.

91 Revista do Rádio, 07/04/1962, p.48-49.

92 A Cigarra, agosto 1951, p.27. “Patricio Teixeira. ‘O seresteiro incorrigível’”, matéria não assinada.

Junta-se a essa percepção o seguinte comentário: “Patricio bem merece o título gaiato que lhe impôs Cesar Ladeira, o famoso ‘speaker’ da Mayrink Veiga – seresteiro incorrigível.

O violão é a razão da sua vida”.93 Desse modo, fica evidenciado que havia razões para imputar-lhe esse apelido que iam além da seara musical. A marca de um seresteiro era o violão em punho, vagueando, cantando composições românticas. Mas já fazia tempo que a juventude de serenatas de Patricio ficara para trás. Por que a insistência nas brincadeiras e nas galhofas quando o assunto era Patricio Teixeira? Quais eram os motivos para o tom zombeteiro de tal apelido? Estaria restrito às características musicais e a seus hábitos seresteiros da juventude?

Quando se compara esse apelido de Teixeira com os cognomes atribuídos a outros cantores, o contraste no tom empregado é evidente. Como costumava dar apelidos aos artistas que passavam pela Mayrink Veiga, Cesar Ladeira batizou alguns com qualificativos que ficaram eternizados, sendo “A pequena notável”, que acompanhou Carmen Miranda ao longo de sua carreira, um dos mais conhecidos.94 Francisco Alves ganhou dele o título mais pomposo, “O rei da voz”. “O cantor das mil e uma noites” era Ciro Monteiro. Vicente Celestino recebeu a gloriosa alcunha de “A voz orgulho do Brasil”. Carlos Galhardo era simplesmente o “Cantor que dispensa adjetivos”.

Como se observa, os apelidos que designavam os cantores tinham um intuito parecido, que era o de valorizá-los. Os nomes ressaltavam um aspecto positivo dos artistas com o objetivo claro de exaltação. O “seresteiro incorrigível” assumia uma conotação pejorativa, divergindo do caráter de aclamação e enaltecimento empregado nos outros apelidos. Caso curioso se deu com o cantor Sílvio Caldas, que tinha muito prestígio. Ele foi nomeado como

“Caboclinho querido”, mas depois teve seu apelido alterado para “Poeta da voz”. 95

As apreciações sobre o cantor Patricio Teixeira estavam sempre permeadas de duplo sentido, malícia e jocosidade. Da sua idade ao seu comportamento, passando pela sua musicalidade, suas características eram abordadas de forma galhofeira. Muitos desses cantores citados tinham idades aproximadas, cantavam os mesmos gêneros musicais

93 Pranóve, nº17, outubro de 1939, p.9, assinado por Mariza Lira.

94 O primeiro apelido que ela ganhou foi “Ditadora sorridente do samba.”

95 Outro apelido que parece dúbio é o da cantora Aracy de Almeida, que recebeu de César Ladeira a alcunha de

“O samba em pessoa” (HAUER, 2011, p.63). Silvio e Aracy eram mestiços. Outros artistas que ganharam apelidos: Odete Amaral era a “Voz tropical”. Aurora Miranda, irmã de Carmen, seria “A outra pequena notável.”

Por achar que Luiz Barbosa cantava parecido com o cantor e ator francês Maurice Chevalier, era chamado de

“Chevalier do samba”. Joel e Gaúcho eram os irmãos “Gêmeos da voz”. Moreira da Silva era chamado de “O tal”. Nonô, o pianista Romualdo Peixoto, era “O Chopin do samba”. João Petra de Barros era “A voz dos 18 quilates”. Farjala Rescala, conhecido como Déo, era “O ditador de sucessos” e Albertinho Fortuna apelidado de

“O garoto que vale ouro.” Dorival Caymmi, o “Colombo dos balangandãs” (HAUER, 2011, p.63-64).

populares durante boa parte da década de 1930 e conviviam nos mesmos bares e ambientes boêmios. Ser um seresteiro ou um boêmio não era exclusividade de Patricio. Era uma característica comum da socialização dos músicos populares, fossem brancos, mestiços ou negros. Inclusive, não é demais notar que artistas de camadas sociais mais abastadas também apreciavam essa forma de manifestação musical.

Fazendo algumas inferências, tendo como norte a experiência do cantor e seu contexto sociocultural, o termo “incorrigível” pode ser lido na linguagem popular como alguém que não toma jeito, não se emenda ou não se conserta. Logo, aplicado a Patricio, pode ser entendido como uma relutância em mudar um comportamento ou uma característica. Ele era um inveterado boêmio desde a juventude, mas nos compromissos profissionais não foi encontrado nenhum ato que desabonasse sua conduta. Por que, então, impingir-lhe essa marca?

Inevitavelmente, surgem as motivações raciais como pano de fundo para os trocadilhos e jogos de palavras associados a Patricio Teixeira. Naquele contexto, ele se destacava dos demais cantores brancos do meio radiofônico pela cor de sua pele. Esse dado de composição social dos estúdios é extremamente relevante do ponto de vista da constituição do racismo estrutural, aquele que não é aberto, mas amalgamado com outros elementos de ridicularização. Não estou analisando isoladamente o apelido “seresteiro incorrigível”, mas o contexto cultural e socio-histórico como um todo. Levo em conta também as outras percepções depreciativas a seu respeito e as restrições de acesso a espaços sociais como já relatado. Assim sendo, a indagação a seguir compõe um quadro mais amplo de tensões raciais latentes quando se refere ao cantor. Para além da questão musical, o questionamento da sua relutância em permanecer como seresteiro no rádio, indiretamente, estava mirando a contumaz presença de um cantor negro em um microfone de brancos?

A resposta descrita a seguir, do porquê de ele ser chamado de “incorrigível”, dá algumas pistas para deduções. Provavelmente “se devesse ao fato de insistir o cantor, apesar da idade, em fazer suas serestas radiofônicas”. A suposta velhice do músico foi desmentida conjuntamente com sua marca de seresteiro: ele “não era tão velho e nunca foi, em qualquer tempo, um seresteiro”. É curioso que a idade de Patricio era sempre apresentada como argumento quando se queria fazer uma crítica a ele, ao seu repertório ou desempenho musical.

Parecia ser um subterfúgio para posições que não se poderiam trazer às claras. É também intrigante que as reportagens feitas sobre o artista não tenham sequer mencionado o tema do preconceito racial, como se fosse um tabu falar desses assuntos. Sendo Patricio um caso

excepcional de sucesso de um cantor negro na radiofonia dos anos 1930, essa não seria uma pauta que poderia despertar curiosidade nos jornalistas?

O que estava por trás do questionamento não era apenas a insistência de Patricio em se designar como seresteiro ou ter idade suficiente para ser considerado um portador das lembranças de outrora. O incômodo não era somente com a sua persistência em escolher determinados gêneros musicais, o que como já vimos em outro capítulo não procede. Estava em jogo na arguição o espaço que ele ocupava, ou seja, o rádio. Patricio persistia em “fazer suas serestas radiofônicas”. Era, portanto, um obstinado, fincando sua presença no rádio, mesmo com as inúmeras críticas direcionadas a suas escolhas musicais e à sua pessoa. Apesar de não se falar abertamente no assunto, incomodava o fato dele ser negro e ocupar um lugar de prestígio. O emprego de termos com duplos sentidos e adjetivações ambíguas na denominação da trajetória de Patricio Teixeira diz muito sobre as tensões raciais que permeavam suas relações sociais no meio artístico profissional.

Não deveria ser nada fácil para Patricio ter de lidar com os preconceitos subliminares nas designações a seu respeito. Diferentemente de outros músicos com a mesma origem social, Patricio ascendeu e ganhou uma evidência como cantor de rádio pouco provável para um sujeito negro naquela sociedade que há poucas décadas escravizava negros. Portanto, naquele período, ele ficou no holofote do cenário artístico e ganhou admiradores pelo País, o que deveria causar, no mínimo, alguns constrangimentos sociais.

Patricio, como cantor que gravava discos e, principalmente, que atuava em microfones de emissoras de rádio, ganhou uma projeção de sua imagem muito mais significativa do que os que atuavam como instrumentistas e compositores. Entre eles, João da Baiana, Donga e até Pixinguinha, que também era orquestrador e arranjador. Isso é perceptível quando se analisam os periódicos do final da década de 1920 e, principalmente, dos anos 1930.96 A sua inserção na radiofonia como cantor foi o grande diferencial na trajetória de Patricio como músico popular em relação aos seus colegas. Por conta da natureza da atuação de intérprete, a imagem de Teixeira ficava mais exposta e assim, mais suscetível a questionamentos que não se restringiram ao seu desempenho musical.

O “seresteiro incorrigível” ganhou apelido e fama tal como outros artistas do rádio, fez saraus e recitais em teatros refinados como o Lírico, cantou e tocou seu violão em rodas e

96 Na atualidade, prevalece o inverso, ou seja, Patricio Teixeira quase totalmente esquecido na memória musical, enquanto, Pixinguinha, Donga e João da Baiana mais lembrados. O exemplo mais atual é o da comemoração do centenário do samba em 2016, em que Patricio não foi lembrado pela imprensa. Enquanto os demais foram, merecidamente, exaltados. Essa operação de seleção da memória e como isso afetou a história de Patricio Teixeira foi abordada no primeiro capítulo e será complementada no quarto capítulo.

espaços elitizados, pouco frequentados por pessoas negras. Mesmo que a alcunha de

“incorrigível” tivesse significado desdenhoso e depreciativo, como analisado acima, e que seu sucesso enfrentasse críticas e barreiras preconceituosas mirando sua cor de pele e sua idade, Patricio ganhou uma visibilidade proporcionada pelo rádio, principalmente na década de 1930, que poucos cantores negros da sua época conquistaram. Mesmo que por meio do rádio só se ouvisse sua voz, os jornais e revistas publicavam fotos, ainda que poucas, se comparadas a outros cantores de rádio.

Ao longo de sua trajetória, Patricio perpassou por diferentes espaços culturais, desembocando na radiofonia. Esta o projetou nacionalmente e, de certo modo, estendeu seu talento a outros países, com repercussão de suas gravações nos Estados Unidos, por exemplo.

Sua ação no rádio, ao mesmo tempo que foi possibilitada pela experiência que acumulou nos teatros, cassinos, clubes recreativos, carnavais, blocos, serenatas e festas variadas – populares e da alta sociedade – abriu ainda mais as portas para sua performance artística.

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