2.1 O trabalho
2.1.2 O trabalho, a vida e a sociedade de consumidores
60 Vimos até aqui então que Arendt faz uma crítica à história da filosofia por não ter desenvolvido de forma clara e minuciosa a distinção existente entre a atividade do trabalho e da fabricação. Seja pela própria organização histórico-social vivenciada pelos gregos, seja pelo desinteresse dos filósofos cristãos pela distinção das atividades no período medieval ou mesmo pela troca de papéis que os modernos fizeram ao tratar o trabalho e a fabricação, sua conceituação e sua distinção sempre estiveram aquém da importância que tais atividades desempenham na condição humana. Hannah Arendt ao desenvolver a distinção entre as atividades quer muito mais que demarcar as fronteiras de suas atuações, ela quer compreender a própria condição humana, o lugar do homem no espaço chamado Terra.
61 necessita para seu posterior sustento. Do ponto de vista das exigências do próprio processo vital, o labor e o consumo seguem-se tão perto que chegam a constituir um único movimento – movimento que mal termina e deve começar novamente.19
Em suma, o trabalho e o consumo são dois estágios partes de um mesmo processo imposto ao animal humano pelas necessidades da vida biológica. Trabalhar, nesse sentido, significa engajar-se em esforços para manter-se vivo e, assim, encontrar-se escravizado pela necessidade.
Percebe-se que amiúde se escuta dizer que vivemos numa sociedade de consumidores e, como acabamos de ver, o trabalho e o consumo são estágios do mesmo processo, determinados ao ser humano pelas necessidades da vida, dessa forma, isso acaba sendo o mesmo que dizer que vivemos numa sociedade de operários, afirma Hannah Arendt20. Torna- se importante salientar nessa concepção que o fato em destaque não é que pela primeira vez na história os operários tenham sido admitidos com iguais direitos na esfera pública, mas sim que quase conseguimos nivelar todas as atividades humanas, reduzindo-as ao denominador comum de assegurar as coisas necessárias à vida e de produzi-las em abundância.
Para Arendt, o risco da emancipação do trabalho na era moderna já havia sido percebido claramente por Marx, quando ele insistiu em que o objetivo da revolução não podia ser a emancipação das classes trabalhadoras, mas sim a emancipação do homem em relação ao trabalho. E a emancipação do trabalho, na concepção de Marx, equivale à emancipação da necessidade, o que significaria, em última análise, a emancipação em relação ao próprio consumo, ou seja, ao metabolismo com a natureza, que é a própria condição da vida humana.
O animal laborans jamais pensa em gastar o seu tempo vago em fazer outra coisa se não consumir, e quanto mais tempo ele dispõe, mais ávido é a sua sede por consumo. O fato de essa sede pelo consumo ter se tornado mais refinada e não se restringir mais às necessidades da vida, mas, ao contrário, visar agora à superfluidade da vida, não muda o caráter desta sociedade, mas agrava o perigo de que chegará o momento em que nenhum objeto no mundo estará a salvo do consumo e da extinção através do consumo.
A grande ameaça de tudo isso é que enquanto o animal laborans continuar a ocupar a esfera pública, não poderá existir uma esfera verdadeiramente pública, mas apenas atividades privadas exibidas em público. E se não existir mais esfera pública, como veremos mais
19ARENDT, A condição humana, p.111
20Ibid. p.139
62 detalhadamente à frente, o ser humano perde o seu espaço de discurso e de ação, isto é, perde o espaço onde a singularidade se faz presente em meio à pluralidade humana. Temos então uma sociedade entregue à mercê de governos ditatoriais e totalitários. Citando a própria Arendt,
A sociedade competitiva de consumo criada pela burguesia gerou apatia, e até mesmo hostilidade, em relação à vida pública, não apenas entre as camadas sociais exploradas e excluídas da participação ativa no governo do país, mas acima de tudo entre a sua própria classe. Essas atitudes burguesas são muito úteis àquelas formas da ditadura nas quais um “homem forte”
assume a incômoda responsabilidade de conduzir os negócios públicos21
Um dos sintomas mais persuasivos de que já estejamos no limiar de realizar o ideal do animal laborans é a sinal de que toda a nossa economia já se tornou uma economia do desperdício, em que todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas quase tão rapidamente quanto surgem no mundo. Mas se nossa sociedade já estivesse vivenciando plenamente o ideal do animal laborans e não passássemos de membros de uma sociedade de consumidores, não estaríamos mais vivendo num mundo, mas simplesmente lançados num processo cíclico perenemente repetido no qual as coisas surgem e desaparecem, “sem jamais durar o tempo suficiente para conterem em seu meio o processo vital”22
A gravidade de uma sociedade de consumidores reside também no fato de ela deslumbrar-se diante da abundância de sua crescente fertilidade e presa ao leve funcionamento de um processo interminável. Isso faz com que ela não reconheça sua própria futilidade, “futilidade de uma vida que não se fixa nem se realiza em coisa alguma que seja permanente, que continue a existir após terminado o trabalho”23
Ao longo da discussão acerca do trabalho tentou-se demonstrar o esforço que Hannah Arendt faz para demonstrar a distinção entre trabalho e fabricação. Atividades essas que sempre foram deturpadas ou em grande parte foram ignoradas pela tradição filosófica ocidental. A autora, ao esforçar-se em buscar as diferenciações fundamentais existentes entre tais atividades, tem como finalidade descrever o que faz o ser humano quando está ativo, consiste no esclarecimento da linha que distingue a liberdade da necessidade.
21ARENDT, Origens do Totalitarismo, p.441
22Id. A condição humana, p.147
23ARENDT,A condição humana. p.148
63 Arendt buscou esclarecer a fronteira que limita o mundo humano, como morada e assunto do Homem, não só pelo seu aspecto contemplativo e quieto próprios das atividades do espírito, considerados capacidades superiores, pela tradição filosófica, mas explicitando o processo vital, que liga o metabolismo do corpo humano à natureza e à necessidade de prover os meios de subsistência do organismo vivo. A problemática existente está na destruição desse limite entre o mundo humano e o processo vital do indivíduo. Mesmo que em qualquer atividade humana haja elementos de Labor, essenciais e insubstituíveis, a vida dos humanos exige que eles sejam envolvidos por algo feito por eles mesmo. Cabe então à fabricação a tarefa de tornar o mundo um local habitado, um lugar familiar e seguro.