As formas simbólicas são representações sociais carregadas de significados – são polivocais –um processo de construção da imaginação individual e dos grupos sociais, e estão intimamente interligadas ao espaço (HALL, 1997; CORRÊA, 2007). Elas podem ser identificadas como estátuas, templos, cemitérios, shopping centers, memoriais, prédios e
outros (CORRÊA, 2007). Segundo o autor (2007, p. 7), elas “são representações da realidade, resultantes do complexo processo pelo qual os significados são produzidos e comunicados entre pessoas de um mesmo grupo cultural”. São representação da realidade, elas representam uma comunicação, uma linguagem entre os grupos. Tal comunicação se dará pelo significado dessas formas e o seu significante, que exprimem uma relação atribuída.
Elas são representações sociais dotadas de aspectos simbólicos dos que as elaboraram e dos que dela interagem. E para White (1973, p. 335), “todo comportamento humano é comportamento simbólico, todo comportamento simbólico é comportamento humano”, e, nesse sentido, as formas construídas representam essas reflexões, intenções e construções coletivas – são idealizações do comportamento humano. Partindo da premissa acima, as formas simbólicas são materialidades que compõem imaterialidades e subjetividades, e cabe a geografia cultural compreender essas dinâmicas no espaço e no tempo. Nessa prerrogativa, as formas simbólicas tornam-se espaciais por estarem relacionadas ao espaço, compondo processos, função, fixos e fluxos – com localizações e itinerários (CORRÊA, 2007). Elas tornam-se simbólicas pelo deposito de significados
[...] que lhes são atribuídos; sendo o seu estudo, geográfico ou de outra natureza, passível de análises individuais e coletivas, isso porque um dado objeto pode instigar a proeminência de significações das mais variadas, diferença esta produto de um processo cultural subjetivo. (OLIVEIRA e SOUZA, 2010, p. 4)
A construção do entendimento das formas simbólicas espaciais perpassa ao processo de sua constituição como tal, como categoria analítica e, para isso, envolve analisá-las, de acordo com Hall (1997), por dois sistemas de representação: o mapa conceitual interno ao sujeito e o social, a linguagem. Sem esse sistema não poderíamos interpretar o mundo de maneira significativa, conforme aponta o autor (1997, p. 17), “[…] there is the 'system' by which all sorts of objects, people and events are correlated with a set of concepts or mental representations which we carry around in our heads. Without them, we could not interpret the world meaningfully at all”.
O significado será construído a partir de um “sistema de conceitos e imagens formados em nossos pensamentos que podem estar a favor ou 'representam' o mundo, o que nos permite referir-se a coisas tanto dentro como fora de nossas cabeças” (HALL, 1997, p. 17). Por conseguinte, o mapa conceitual se objetiva a partir da junção com a linguagem, de modo que se correlaciona aos nossos conceitos e ideias com “algumas palavras escritas, faladas, sons ou imagens visuais”, que carregam significados e signos. Esses signos “mostram ou representam os conceitos e as relações conceituais entre eles e o que carregamos em nossas cabeças e,
juntos, compõem os sistemas de significados da nossa cultura”. (HALL, op. cit., p. 18, tradução nossa).Nas palavras do autor (op. cit., p. 17)
Representation is the production of the meaning of the concepts in our minds through language. It is the link between concepts and language which enables us to refer to either the 'real' world of objects, people or events, or indeed to imaginary worlds of fictional objects, people and events.
Devemos compreender as formas simbólicas e seu poder simbólico, segundo Bourdieu (1989), mediante três estruturas de sistemas simbólicos: a) estruturas estruturantes; b) estruturas estruturadas e; c) como instrumentos de dominação. Na primeira, elas correspondem instrumentos do nosso conhecimento e de construção de um mundo objetivo, são estruturas que permitem a solidificação de uma estrutura simbólica, como a religião, a arte, a ciência, entre outros. Na segunda, os sistemas simbólicos só podem ser estruturantes a partir de sua consolidação como tal, como estrutura que suporta os signos e os significados.
Nesse sentido, a forma simbólica espacial e religiosa só será estrutura quando buscar ou possuir a finalidade de estruturar um grupo ou parcela de um segmento, com o qual comunica e se faz comunicar. Na terceira opção, de viés marxista, os sistemas simbólicos possuem uma relação política, uma relação de dominação, servindo de interesse ao grupo que a formulou, em contraposição a função gnosiológica.
Assim, as formas simbólicas espaciais, isto é, os objetos que compõem o ambiente construído da cidade-santuário, são representações do nosso sistema, sobretudo do devoto. O processo de significação se fará da interpretação do significante e o significado, o sujeito e o objeto. Nessa relação entre o sujeito e o signo, observa-se que essas formas possuem como prerrogativa: a) complexificação do turismo religioso, b) a economia locacional e, principalmente, c) a intencionalidade na perpetuação e transmissão da religiosidade, os aspectos relacionados ao sagrado. Elas representam o poder espacial do sagrado, podendo
“[...] incorporar os atributos já conferidos aos lugares e itinerários, como estes podem, por outro lado, beneficiar-se ou não da presença de formas simbólicas” (CORRÊA, 2007, p. 9).
Da mesma maneira que representam e “refletem os significados estabelecidos, elas também criam significados” (CORRÊA, 2012, p. 135). Por conseguinte, a produção de formas simbólicas espaciais religiosas também criará e ressignificará outras percepções e vivências no agente modelador, seja peregrino, devoto, turista ou outra persona envolvida.
As formas simbólicas espaciais podem ter diversas razões e representar inúmeras intencionalidades, como um obelisco em memória às vítimas de uma determinada guerra, o busto de um general, um patrono educacional, um templo religioso e seus signos que definem
sua matriz religiosa, entre outros. Na cidade-santuário, as formas simbólicas espaciais religiosas apresentam elementos que a definem como tal, em contrapartida, outras apresentam nuances que podem estar inseridas em mais de uma percepção. Dentre as percepções, temos a voltada ao consumo, que como sintetizado no capítulo anterior, corresponde ao processo de turistificação do espaço, mas, acima de tudo, um processo de evangelização por ser uma instituição religiosa.
A produção de formas simbólicas espaciais religiosas pelo Santuário Nacional insere- se numa perspectiva de significados e significantes, atribuições dotadas pelo agente idealizador e ressignificados pelo frequentador, o peregrino e o turista, e outros agentes possíveis. A ressignificação ocorre por meio da prática de criação de espaços temáticos sob ação do agente modelador ao frequentá-los, as formas visíveis e, também, por meio dos aspectos subjetivos do frequentador para com os símbolos inerentes às obras.
As formas simbólicas “[...] tendem a ressignificar lugares específicos e conectá-los a projetos de sentido mais amplo.” (OLIVEIRA e SOUZA, 2010, p. 4). Nesse espaço singular elas comunicam com os sujeitos e as suas devoções, numa experiência ligada ao sagrado.
Existe uma harmonia nos símbolos e de sua significação nas obras realizadas pelo Santuário Nacional. Entendemos esses espaços como as formas visíveis que estão incluídas no Complexo Turístico Religioso e são por nós interpretadas sobre um outro olhar, como Parque Temático Religioso. Nesse sentido, buscaremos interpretar e correlacionar a definição teórica de parques temáticos e sua possível contextualização quanto ao denominado Complexo Turístico Religioso do Santuário Nacional.