5. A DIVERSIDADE DOS SENTIDOS DA EDUCAÇÃO E DO TRABALHO NA
5.1 OS DIVERSOS SENTIDOS DO TRABALHO: “SOBREVIVÊNCIA,
Para compreender a diversidade dos sentidos do trabalho, faz-se necessário percorrer por um caminho histórico e conferir brevemente o que está retratado em nossa sociedade e por onde perpassaram algumas transformações resultantes da modernidade. Cada sujeito emprega os sentidos do trabalho a partir de sua trajetória de vida e em sua relação com o mundo do trabalho. Em cada época, tempo e contexto, os sentidos são atribuídos a essas atividades humanas como a educação e o trabalho.
Tal perspectiva é vista na pesquisa de doutoramento realizada por Sousa (2018), que observou os sentidos do trabalho para egressos do curso de Pedagogia, numa universidade no Sul do Brasil, evidenciando que a construção da identidade pessoal está atrelada com os sentidos do trabalho em virtude da articulação dos percursos acadêmicos na atividade laboral.
Outra pesquisa que também trata dos sentidos do trabalho, entretanto, foi feita com professores do ensino superior, é da pesquisadora Kern (2016). Ela aponta que o trabalho aparece como central na vida dos sujeitos do estudo, e estes encontram sentidos no ato da docência. Outra pesquisa importante foi de Bittencourt (2020), em que objetivou investigar os sentidos do trabalho para jovens concluintes de um curso técnico integrado - ensino médio.
Como resultado, compreendeu-se que os sentidos do trabalho para os jovens perpassavam por dificuldades e desafios do contexto contemporâneo que vivemos,
“há condições do mundo do trabalho contemporâneo que atingem toda a classe trabalhadora” (BITTENCOURT, 2020, p. 24), isto é, as transformações no mundo do trabalho. Por isso, pesquisar e refletir sobre o termo trabalho é assumir uma postura teórica centrada na sociedade atual, sem deixar de adotar a categoria modernidade, descrita por Coutinho (2009, p. 191) como:
A compreensão das mudanças expressivas por que passam as sociedades capitalistas ocidentais, desde as últimas décadas do século XX, mas se opõem à ideia de ruptura com a sociedade moderna do século passado.
Assim pode-se pensar em transformações e continuidades.
A modernidade também é discutida por Baumann (2001), que a conceitua como
“modernidade fluída” que altera a condição humana em um processo de fluidez, que não mantém sua forma com facilidade, ou seja, que não se fixa em um espaço e nem perde tempo, o que leva a uma reflexão sobre os sentidos do trabalho na atualidade.
Ao trabalho foram atribuídas muitas virtudes e efeitos benéficos, como, por exemplo, o aumento da riqueza e da eliminação da miséria; mas subjacente a todos os méritos atribuídos estava sua suposta contribuição para o estabelecimento da ordem, para o ato histórico de colocar a espécie humana no comando de seu próprio destino. (BAUMANN, 2001, p. 172).
A palavra trabalho tem sua origem no latim – tripalium, a qual representa um instrumento de tortura, como também uma ferramenta utilizada por agricultores para o plantio. Na língua portuguesa, a definição da palavra trabalho veio acompanhada de ambas as significações, a de realizar uma obra que expresse o labor ou de reconhecimento social. Cada pessoa pode ressignificar a palavra e dar um sentido particular a ela.
Os termos “trabalho e emprego” caminham juntos nas definições utilizadas em reportagens, palestras e artigos. A palavra trabalho é mais antiga que emprego, como explica Raitz (2003, p.56): “O trabalho por si só existe desde o momento em que o homem começou a transformar a natureza e o ambiente em seu entorno, desde a fabricação de ferramentas e utensílios”, já a palavra emprego é mais recente na história da humanidade. Como enfatiza a autora, “surgiu por volta da Revolução Industrial, que estabeleceu a relação de venda e compra da força de trabalho” (ibidem, 2003, p.56). Atualmente, no modelo capitalista de sociedade, a força de trabalho é vendida para poder consumir o que é produzido pela força do trabalho.
O homem, dotado de consciência, tem a noção de imprimir no objeto do trabalho o que ele deseja, “a sociedade não dispõe de nenhuma substância além do homem, pois os homens são os portadores da objetividade social, cabendo-lhes exclusivamente a construção e a transmissão de cada estrutura social” (HELLER, 2016, p. 15-16). O trabalho é um momento de realização do ser social, contudo, este
se encontra envolto no capitalismo, em que o trabalhador vende sua força de trabalho, tornando-se produtivo e alienado. De acordo com Antunes:
[...] a classe trabalhadora hoje inclui a totalidade daqueles que vendem sua força de trabalho, tendo como núcleo central os trabalhadores produtivos. Ela não se restringe, portanto, ao trabalho manual direto, mas incorpora a totalidade do trabalho social, a totalidade do trabalho coletivo assalariado.
Sendo o trabalhador produtivo aquele que produz diretamente mais-valia e participa diretamente do processo de valorização do capital, ele detém, por isso, um papel de centralidade no interior da classe trabalhadora, encontrando no proletariado industrial o seu núcleo principal (ANTUNES, 2009, p.102)
O trabalho pertence ao reino da sobrevivência, mas não da liberdade, por isso tem o sentido de necessidade. Em todo período histórico, trabalhadores sofreram ou sofrem com ameaças em relação ao seu trabalho, forças policiais, ameaças de demissão em massa, sendo eles controlados por aqueles que compram seu poder de força. A realização do trabalho, na sociedade capitalista atual, faz do trabalhador um ser alheio e estranho ao produto, ao processo de alienação do trabalho.
Na visão de Marx (2013), o capital e o trabalho formam um movimento de unidade imediata e mediata de ambos; a oposição de ambos; a oposição de cada um contra si, levando à alienação. Quando o trabalhador se torna um estranho ao produto e sua atividade pertence ao outro, não o realiza, é um trabalho forçado determinado pela ação externa, tornando-o alienante. O homem, como ser social, constitui-se através do trabalho.
Arendt (2018) em sua obra “A Condição Humana” faz compreender o que estamos fazendo, a dignidade da política e a era moderna, a condição humana está em três atividades humanas fundamentais: trabalho, obra e ação. Estas são descritas como vida ativa (recebe este nome da vida contemplativa), sendo as condições básicas de vida dada ao homem na terra. Segundo a autora,
O trabalho corresponde ‘ao processo biológico do corpo humano’, [...] a condição humana do trabalho é a vida, a obra é a atividade correspondente à não-naturalidade da existência humana, proporciona um mundo ‘artificial’; a ação é a única atividade que ocorre diretamente entre homens, sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, que os homens e não o HOMEM, vivem na terra e habitam o mundo (ARENDT, 2018, p.09).
Esta condição assegura o trabalho não como sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie “os homens são seres condicionados, porque tudo aquilo com eles entra em contato, torna-se imediatamente uma condição de sua existência” (ARENDT, 2018, p.11). Desta forma, os homens criam suas condições, tudo o que entra em seu mundo por si só, ou através dele, torna-se parte da condição humana.
As ações presentes em um contexto histórico e atual do trabalho são constitutivas de uma nova morfologia do trabalho (ANTUNES, 2018), conforme suas características já mencionadas na introdução desta tese.
Neste contexto, novas exigências no mercado de trabalho quanto às habilidades e competências surgiram influenciando no perfil dos trabalhadores e trabalhadoras. Antunes e Alves (2004) nos ajudam a entender que o trabalho é a totalidade de assalariados, homens e mulheres, que vendem sua força de trabalho e em troca recebem um salário, “vivemos em um mundo capitalista, trabalhamos para viver e sobreviver” (BSI). No que tange ainda à palavra trabalho, Albornoz (1994) salienta que vem carregada de emoções que podem representar algo ruim ou muito bom e indicar transformação, como aparece na fala da egressa, o sentido que surge é paixão.
Para o meu trabalho, é a paixão pelo que eu tenho, pelo que eu faço. Por ajudar as pessoas. Sei lá, é a minha vida. Acho que 80% da minha vida é o meu trabalho, que é o que me motiva a acordar de manhã cedo, que me motiva a terminar a semana bem sabendo que eu consegui fazer o que eu queria. Saber que eu resolvi problemas, saber que eu ajudei pessoas, que eu atendi uma ligação que foi importante e ajudou uma pessoa. Eu acho que é isso que é o importante para mim. É uma paixão que eu tenho. Eu sou apaixonada pelo meu trabalho e sou muito criticada por não me importar com a parte financeira. Eu não quero trabalhar como advogada e ser frustrada. Eu acho que hoje em dia a gente não precisa mais passar 30, 40 anos trabalhando em algo que não se gosta. Porque hoje em dia você tem possibilidades. Acho que o financeiro ele te boicota para você ser feliz na área profissional. Porque tem muita gente infeliz, doente, com depressão e ela está gastando tudo que ela ganha, porque ela ganha muito bem para fazer uma coisa que ela não gosta e ela está gastando muito bem porque ela está ruim, está doente. Então, o fato de eu fazer e o fato de saber que está refletindo lá na frente e está fazendo as pessoas felizes está ótimo (DIR).
O trabalho torna-se com sentido quando o trabalhador encontra nele meios de realização e satisfação, como a paixão pelo trabalho expressa na fala da egressa. As mudanças no mundo do trabalho ocasionam um movimento entre idas e vindas de acordo com a inserção profissional para os egressos, consistindo num processo de
aprendizagem e diversidade dos elementos, que se configura numa escolha profissional.
O trabalho passa a ser visto sob uma ótica diferente, em que “a conquista no espaço do mercado não depende apenas de um diploma, mas também de características pessoais, competências específicas, redes de relações e capacidade de ajustar-se a diferentes demandas de trabalho” (RAITZ e OLIVEIRA, 2017, p. 9120).
Adaptar-se às oportunidades de trabalho, conforme a egressa demonstra:
Eu me adaptei ao meu trabalho atual, no caso sou graduada em Ciências Econômicas, é um curso muito abrangente, irei pensar no sentido de economista, em bolsa de Investimentos, nesse sentido eu não atuo, mas tem bastante na minha grade curricular, pelo menos há muitas matérias de contábeis e matérias de administração, então, é bastante abrangente e tem bastante opção para isso, então me adaptei bem ao meu contexto de trabalho (CEC).
O que o trabalho representa na vida dos jovens? Qual o sentido que atribuem a ele? Será que ele é central na vida deles? A representação do trabalho ocorrida ao longo da história da humanidade, de fato é marcante. Numa retrospectiva, passamos por aqueles que deram origem à nossa terra, os indígenas, que extraiam da natureza seu alimento para sobreviver, uma forma de trabalho. Com a colonização, novas formas de trabalho surgem, como a agricultura, que até hoje prospera, mas não como fonte apenas de cultivo familiar, mas de venda do grande capital.
Para cada época e momento, uma nova definição é empregada à palavra trabalho. Segundo Antunes (2009, p.37), “[...] nas formas contemporâneas de vigência da centralidade do trabalho ou nos múltiplos sentidos do trabalho”, percebem-se as mudanças a partir da nova configuração de classe trabalhadora, dos mecanismos de trabalho e das transformações na forma de materialidade, como na esfera da subjetividade, nas formas de ser e existir. O autor Lukács (2013) define a categoria trabalho como fundante do ser social, como um fenômeno originário do ser social.
Para Lessa:
[...] a categoria trabalho é, em Lukács, tanto a forma originária da práxis humano social com o fundamento ontológico do mundo dos homens. Ou seja, por ser a forma originária do ser social, seu fundamento ontológico último, os traços ontológicos mais gerais do trabalho, acima de tudo a peculiar dialética, entre teleologia e causalidade, está presente, ainda que por vezes sob formas bastante modificadas, em todos os atos humanos (LESSA, 1992, p.43)
Atos humanos que tomam consciência do sujeito – ser social - que exerce seu trabalho de forma consciente através da execução do que realiza, “afinal uma árvore não se torna uma canoa por ela mesma, mas são suas características que permitem que a humanidade a transforme” (FERRAZ; FERNANDES, 2019, p. 170). A consciência de transformação do sujeito e do objeto pode ocorrer no contexto do trabalho, na ação de um sujeito com o outro, como é anunciado na fala da egressa professora de educação física quando emprega um sentido ao seu trabalho.
Meu trabalho tem sentido quando vejo o crescimento, a evolução das crianças, tanto as do ensino fundamental I quanto do II, durante o ano, é muito grande. Poder proporcionar uma experiência boa para eles, principalmente do que é a Educação Física. Eles falam que muitos professores anteriores a mim só mandavam eles jogarem bola e aí a gente vê o crescimento deles durante o ano. Eu fiz uma escalada com eles no ano passado e isso para ele foi tudo. Levei eles no parque que tem quadras de futebol de areia, quadra de tênis. Para levá-los no parque, fiz eles andarem de ônibus circular, alguns nunca tinham andando de ônibus. A gente sai da escola com eles, e eles ficam todos embaixo “da asa”, do braço. Na hora de descer do ônibus, eles me obedeceram e, quando chegaram lá na praça, jogaram futebol com os alunos de outra escola. Foi bem legal. Eles tiveram uma educação incrível, respeitaram os colegas (EDL).
O trabalho precisa oportunizar possibilidades que ocasionem sentido ao trabalhador, e que este possa desenvolver suas competências. Para uma vida dotada de sentidos fora do trabalho, é necessária uma vida de sentidos também dentro trabalho (ANTUNES, 2009). De um lado, a gênese da categoria trabalho, uma nova esfera do ser, do outro lado o trabalho, modelo genérico que fornece a práxis ao humano e o social a partir de um pôr teleológico no qual o ser social tem consciência do que está fazendo, sabe fazer, o que me faz escolher a relação. Ao realizar a escolha, é preciso adaptar-se ao contexto de trabalho e da realidade em que está inserido, como descrito pela egressa:
Eu faço especialização. Eu comecei uma e troquei. Eu comecei com a parte de obstetrícia, que me ajudou bastante no meu trabalho, e troquei agora para parte de saúde pública [...] é a área que eu estou atuando, troquei porque é a área que eu gosto de atuar, daí juntou agora nessa especialização saúde pública com ênfase em Saúde da Família [...], foi e é também uma necessidade de trabalho (EFM).
As relações estabelecidas e a capacidade de adaptação ao trabalho são existentes e emolduradas de acordo com as transformações, evoluções e
necessidades da reprodução social, “não há ser vivo que não se reproduza pela transformação do seu ambiente” (LESSA, 2005, p.19). O ser humano, em sua evolução natural e autorrealização, atribui sentidos, segundo suas escolhas, quando cria consciência do seu fazer, de seu trabalho. Aqui aparece novamente a paixão como sentido do trabalho.
Acredito que, primeiro de tudo, você precisa gostar do que faz. Tenho como exemplo minha mãe e sinto que, por isso, ela influencia tanto minha vida. Ela é professora, e tem paixão por educar, por mais cansativo que o trabalho possa ser às vezes, ela ama o que faz e está sempre pronta pra fazer mais.
E é isso o que eu estou procurando, independente do quanto irei ganhar, independente do que eu tiver que fazer, quero fazer com o mesmo amor que vejo ela se dedicando todos os dias para os alunos dela (BSI).
Para os participantes desta pesquisa (134) os sentidos do trabalho são representados por palavras como; sobrevivência, paixão, amor, realização, remuneração, estabilidade, entre outros, como exibido na Figura 15;
Figura 15- Palavras que representam os sentidos do trabalho para os egressos - questionário
Fonte: elaborado pela pesquisadora com base nos dados obtidos na coleta de dados (2020).
O trabalho surge na vida do homem como uma condição e consequência da atividade humana, compreendendo-o na sociedade tal qual um ser social. Portanto, as discussões da categoria trabalho no presente trabalho se fundamentam nesta perspectiva, pois é a partir do trabalho e de sua realização que o ser social se diferencia de todas as formas pré-humanas (ANTUNES, 2005). Enquanto ser
constituído e integrante do processo de trabalho, traz sentidos representados por diversas palavras, que podem ser observadas na Figura 16.
Figura 16 - Sentidos representados sobre trabalho pelos egressos entrevistados
Fonte: elaborado pela pesquisadora com base nos dados obtidos na coleta de dados (2020).
Os termos mostrados na figura acima foram memorados/evocados durante as entrevistas com 10 (dez) egressos, em que atribuíram sentidos à palavra trabalho e corroboram com as palavras apresentadas na figura 15, afirmando os sentidos do trabalho para os jovens egressos. Os contextos de atividades se diferenciam, entretanto, os sentidos atribuídos se aproximam quanto ao que representa o termo.
Por meio do trabalho e do trabalhador acontecem transformações, isso quer dizer que
“o ser social que trabalha atua sobre a natureza; desenvolve as potências nela existentes, ao mesmo tempo que ele mesmo se autotransforma” (ANTUNES, 2018, p.
12). O trabalho se transforma e o transforma como um elemento central do ser social, como representado pela egressa que diz: “Quando você consegue passar um sentido, passar alguma coisa para a vida de outra pessoa e acrescentar de alguma forma algo, acho que aí se encontra um sentido, acho que isso é trabalhar” (PSI).
As transformações que ocorreram no mundo do trabalho, nos últimos anos, desde a reestruturação produtiva, o avanço da tecnologia, nova organização do trabalho, etc., acarretaram muitas consequências, uma delas foi o desemprego estrutural, terceirização, trabalho precário, informalização, etc. Tais características afetaram muitos trabalhadores, neste caso, os jovens trabalhadores ou egressos universitários no contexto de inserção no mercado de trabalho. Nos últimos anos do
século XX e início do século XXI, essas alterações levaram os referidos jovens a se adaptarem às oportunidades surgidas no mundo do trabalho,
[...] eu me inscrevi no curso, pois surgiu a oportunidade de trabalhar na contabilidade, ele (meu chefe) pediu para fazer Administração ou Contábeis, eu ia fazer Ciências Contábeis por ser voltada mais à área, porque eu tinha gostado na entrevista, do que eu ia fazer nem tinha muita noção do que era, mas fiquei encantada. Quando eu fui me inscrever, só tinha Administração, fiz, pois estava na mesma área e não poderia perder este trabalho (ADM).
As oportunidades de trabalho que surgem são aproveitadas pelos jovens que buscam se adaptar ao mercado de trabalho, contribuindo com novos caminhos, ao mesmo tempo que visualizam certa liberdade que pode ser tratada como emancipadora, “um processo de emancipação simultaneamente do trabalho, no trabalho e pelo trabalho” (ANTUNES, 2018, p.304). Esta emancipação por meio do trabalho é a busca por independência, sobrevivência, transformação e responsabilidades, entre outras, que emergem dos contextos diversos e de situações que cada jovem vivencia em sua vida. Isso significa não tornar o trabalho apenas como algo instrumental, “na vida destes jovens, mas penetra na esfera do cotidiano repleto de outros sentidos, moral, simbólico, dimensão entre o individual e o coletivo, envolve aspectos cognitivos, de expressão cultural, assim como possibilita interpretações de mundo (RAITZ, 2003, p. 58). Processo constituído por meio do resgate de pertencimento da classe trabalhadora ao realizar o trabalho.
Para uma das egressas, o trabalho aparece como foco central da vida, porém tem ares de obrigação e não de emancipação.
O trabalho está em primeiro na minha vida, é até demais! Como eu moro sozinha e não moro com a família, eu tenho essa tendência do que faço é me dedicar muito, ainda mais quando é o que eu gosto, com certeza o trabalho está em primeiro lugar e ocupa um espaço grande demais até. Eu precisei pedir folga, pois não consegui mais organizar meus pensamentos.
Eu gosto disso, mas eu sei que tem que ter certo equilíbrio (CEC).
Antunes (2005, p. 14) colabora quando fala que a vida humana, quando “se resume exclusivamente ao trabalho, ela frequentemente se converte num esforço penoso, alienante [...]”, e o sentido, neste caso do trabalho, passa a ser puramente instrumental, alienante, por obrigação. O autor ainda reflete sobre o tempo de trabalho
e o tempo livre do trabalhador como uma condição preliminar para uma vida emancipada.
Neste aspecto, deve-se observar o tempo de trabalho mediante uma redução da jornada e o tempo de vida dedicado às atividades de lazer, cultura, poesia, ócio, etc., o que gera uma “vida dotada de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho” (ANTUNES, 2015, p. 135). Para a vida dotada de sentido, o indivíduo encontra no trabalho o primeiro momento de realização, e no tempo livre o utiliza para humanizar-se através de atividades diversas (TOLFO;
PICCININI, 2007).
E é por meio da educação também que os jovens se humanizam e buscam qualificação para se inserir no mundo do trabalho. Segnini (2000) escreve que a educação e a formação profissional são questões centrais, pois possibilitam a entrada em atividades profissionais aumentando a criatividade e a qualidade do trabalho. Em tais relações, cada sujeito atribui um sentido ao trabalho e um grau de importância que este ocupa em suas vidas - Qual a importância do trabalho em sua vida? – este foi um dos questionamentos feitos para os egressos.
Para responderem a pergunta, precisaram de um momento de autoanálise, no entendimento do lugar que o trabalho ocupa em suas vidas, ao mesmo tempo, relatam que nunca haviam parado para pensar sobre o assunto. Para Raitz (2009, p. 03), “os sentidos sobre o trabalho foram apreendidos como fios que se conectam e se entrecruzam na totalidade de uma rede”, é nesta conexão que se atribuem alguns sentidos sobre a importância ou centralidade do trabalho em suas vidas,
Eu vou pensar numa escala, de 0 a 10, comparando com a minha família, o trabalho seria uma nota 6 (seis). Se for preciso pela minha família, pela minha saúde pelo meu bem-estar e pelo bem-estar das pessoas que eu amo, eu largaria. (ADM)
Olha, o trabalho hoje, se, digamos assim, a gente for colocar entre família e trabalho, eu vou dar prioridade para família, se de repente eles falarem [...] tu precisas voltar para cuidar da tua avó, porque ela precisa de alguém cuidando dela. Eu vou largar meu trabalho e vou trabalhar com a minha avó, só que já que eu vou estar lá, pode ser que esteja mais parada, eu vou buscar outra coisa e vou estar cuidando dela. Daí posso estar contribuindo de outra forma, o trabalho ficaria praticamente em segundo lugar, porque mesmo dando prioridade para família, eu ia achar um jeito de tá trabalhando. (CEC) A prioridade não vai ser trabalho... com passar do tempo, eu não sou tão experiente, mas os meus 28 anos, eu vejo que hoje eu tenho trabalho e honro com a responsabilidade que eu tenho com ele, eu faço da melhor forma possível com caráter de uma pessoa honesta [...] o principal, para mim e a família, daí eu vou dizer que o trabalho é 1/3, primeiro família, então um