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OS MECANISMOS DE CONEXÃO ARGUMENTATIVA NOS ARTIGOS DE OPINIÃO

No documento a perspectiva textual-discursiva da (páginas 157-168)

MÍDIA BRASILEIRA

3. A DIMENSÃO VERBAL DOS ARTIGOS DE OPINIÃO

3.3 OS GÊNEROS NA ABORDAGEM DO INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO

3.3.3 OS MECANISMOS DE CONEXÃO ARGUMENTATIVA NOS ARTIGOS DE OPINIÃO

argumento para uma mesma conclusão (designada, convencionalmente, por R). Em outros termos, nota-se no exemplo (68) o emprego da seguinte estratégia: (i) argumento 1 = Tribunais constitucionais de vários países já decidiram que o Estado não pode criminalizar alguém pela decisão de ingerir uma substância entorpecente; (ii) uso do operador “além disso” para acréscimo de novo argumento; (iii) argumento 2 = o direito à saúde, amplamente garantido por lei, é desrespeitado ao se tratar o uso de drogas como crime no Brasil. Dessa forma, os dois argumentos apresentados (ambos pertencentes a uma mesma classe), estão a serviço da tese defendida pelos articulistas.

O exemplo (64), extraído do mesmo artigo de opinião, apresenta um movimento argumentativo de mesma natureza. Os articulistas expõem que o direito à saúde é desrespeitado nos casos em que se trata o uso de drogas como crime. Na sequência, introduzem o seguinte enunciado: “(...) Nossa Constituição também é desrespeitada pela forma como a lei é aplicada”. Ou seja, o emprego do operador “também” sinaliza um acréscimo de argumento em favor do ponto de vista defendido, qual seja, de que em ambas as situações a Constituição Federal brasileira é desrespeitada. Vejamos, a seguir, outros exemplos que ilustram o uso de operadores argumentativos nessa mesma linha de raciocínio.

(Exemplo 65)

No centro do problema está o requerimento de aprovação pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), bem como a admissão pelos comitês de ética em hospitais e universidades. Esse processo duplica a necessidade de aprovação ética e, assim, deixa o Brasil de fora de importantes inovações terapêuticas, tornando-o um mero importador de informações científicas. (AJO 13 – FSP – SET./2015)

(Exemplo 66)

Ao alimentar a lógica de guerra ao invés de investir em políticas públicas efetivas de segurança, como estimula a afirmação "bandido bom é bandido morto", fomentamos o confronto entre as forças de segurança e a criminalidade –aumentando o número de mortos pelas polícias (3.022, em 2014), mas também contribuindo para um número inaceitável de policiais mortos (398 no mesmo período). (AJO 15 – UOL – OUT./2015).

O mesmo raciocínio argumentativo pode ser observado nos exemplos (65) e (66). No primeiro caso, o fragmento apresentado faz parte de um artigo de opinião que critica a morosidade brasileira em relação à liberação de estudos e pesquisas na área médica. Os articulistas, especialistas no assunto tratado, apresentam argumentos que apontam para essa tese: a dependência de aprovação por parte da Comissão Nacional de ética em Pesquisa

bem como a admissão de estudos por parte de comitês de ética em hospitais e universidades do país. O operador argumentativo “bem como” sinaliza a exposição de argumentos voltados para uma mesma conclusão. Em (66), observa-se o emprego de argumentos de mesma natureza, os quais são articulados pelo operador “mas também”, cujo efeito de sentido aponta para um resultado provocado pelo imaginário social de que

“bandido bom é bandido morto”. Dito de outra forma, o articulista do portal UOL expõe, nesse exemplo, que a manutenção desse pensamento resulta (não só) na incitação do confronto entre as forças de segurança e a criminalidade, mas também na contribuição inaceitável de policiais mortos no Brasil.

Diferentemente da classe argumentativa, a noção de escala argumentativa implica, em relação aos enunciados ou argumentos apresentados, uma gradação de força crescente no sentido de uma mesma conclusão. Embora os operadores que aí se enquadram (os que assinalam o argumento mais forte ou mais fraco de uma escala) sejam menos frequentes nos artigos investigados, ainda assim foi possível perceber o emprego desses mecanismos nos textos. Os exemplos a seguir ilustram essas ocorrências.

(Exemplo 67)

No Brasil, à falta de uma legislação própria para a terceirização de serviços, o assunto passou a ser regido pela súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho, que a permite apenas para atividades-meio. Muitas vezes, porém, é difícil distinguir atividade-fim de atividade-meio, inclusive porque elas podem ser intercambiáveis à medida que avançam os processos produtivos. A súmula cria ambiguidades, acarretando milhares de causas trabalhistas e incertezas às empresas. (AJO 05 – RVJ – MAR.2015).

(Exemplo 68)

Cerca de 70% dos países têm 18 anos como idade penal mínima. E essa é a realidade, sobretudo, nos países que têm democracias maduras e tradição na defesa dos direitos humanos. Países como a Alemanha e a Espanha, que reduziram a maioridade penal, diante da não diminuição da violência, recuaram de suas decisões. (AJO 06 – FSP – ABR./2015).

(Exemplo 69)

Aqueles em que tantos acreditaram nutrem pensamentos delirantes em sua ilha da fantasia, negando a tragédia que ocorre debaixo de seus olhos: pobreza, inflação descontrolada, endividamento em massa, decadência da educação, saúde, moradia, transporte, segurança e dignidade, e — pior de tudo - a morte lenta da confiança. Eles de todos os modos procuram pateticamente negar o verdadeiro drama que nos assola a todos, sem exceção. (AJO 03 – RVJ – FEV./2015).

No exemplo (67), retirado de um artigo que defende ser a terceirização do trabalho um avanço na maneira de produzir e organizar as empresas e o mercado de mão de obra no país, é possível observar que a instância de produção se vale de dois argumentos para sustentar um posicionamento. Primeiramente, o articulista afirma que, no Brasil, em função da ausência de uma legislação própria para a terceirização de serviços, esse assunto passou a ser tratado pela súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho, que a permite apenas para atividades-meio, chegando à conclusão de que tal ato é um problema, pois acarreta ambiguidades e causas trabalhistas. Para embasar esse ponto de vista, o articulista afirma que: (i) é difícil distinguir atividade-fim de atividade-meio (argumento de força intermediária) e (ii) essas atividades podem ser intercambiáveis, argumento mais forte da escala, introduzido pelo operador “inclusive” e voltada para a conclusão pretendida.

Em (68) e (69), nota-se um movimento argumentativo que caminha nessa mesma direção, uma vez que os trechos ilustram o emprego de operadores que introduzem argumentos mais fortes para uma conclusão desejada. No exemplo (68), é possível verificar o seguinte: Conclusão R = países como Alemanha e Espanha reduziram a maioridade penal, não tiveram queda da violência e, por isso, recuaram de suas decisões. Logo, o Brasil não deveria aprovar a redução da maioridade penal. Para chegar a essa dedução, o articulista elabora o seguinte raciocínio: argumento 1 = Cerca de 70% dos países têm 18 anos como idade penal mínima; argumento 2 = essa é a realidade, sobretudo, nos países que têm democracias maduras e tradição na defesa dos direitos humanos. É importante observar que o segundo argumento (por ser considerado o mais forte da escala) mostra-se decisivo para a conclusão desejada.

Em (69), a articulista Lya Luft (revista Veja), expõe uma série de problemas resultantes da corrupção no país (pobreza, inflação descontrolada, endividamento em massa, decadência da educação, saúde, moradia, transporte, segurança e dignidade). Em seguida, apresenta o argumento mais forte da escala (e, pior de tudo, a morte lenta da confiança), com o objetivo de levar o leitor a concordar com a opinião apresentada: a de que esses problemas são fruto da corrupção em órgãos estatais e partidos políticos.

Os exemplos a seguir ilustram a ocorrência de operadores argumentativos que expressam contrajunção de ideias, contrapondo, assim, argumentos orientados para conclusões contrárias.

(Exemplo 70)

“No Evangelho de Mateus, Ele fala dos que seguem detalhes milimétricos, como o dízimo dos temperos, mas não obedecem aos mandamentos mais importantes, como o amor ao próximo e a justiça. Não os chama de seguidores, mas de hipócritas, oito vezes só no capítulo 23.” (AJO 08 – FSP – MAI./2015).

O exemplo (70) faz parte de um artigo opinativo no qual o autor defende a tese de que “a associação de trechos bíblicos fora de contexto a posturas policialescas, moralismo e populismo é receita antiga para causar tragédias”. Nesse trecho, é possível observar o uso do articulador “mas” em dois períodos distintos. Todavia, o efeito de sentido produzido por ambos é o mesmo: contrapor argumentos orientados para uma conclusão contrária. Nesse sentido, de acordo com as ideias expressas no texto, nota-se que o enunciado introduzido pelo “mas” conduz o leitor à aceitabilidade de que existe um grupo de pessoas que é hipócrita e não obedece aos mandamentos mais importantes (tais como amor e justiça).

Considerado por Ducrot (1984) o operador argumentativo por excelência, o “mas” é o representante mais utilizado nos artigos analisados. Seu funcionamento se dá a partir da introdução de um argumento possível (P) para uma conclusão (R). Logo após, opõe-lhe um argumento decisivo (Q) para a conclusão contrária, não-R, sendo esta última a que prevalece.

(Exemplo 71)

O falecido Conselho Federal de Educação (CFE) tinha a boa teoria. Os conselheiros deveriam ser os "sábios" da educação, manifestando livremente o seu julgamento sobre as políticas educativas. Mas (grupo 02) a prática era um desastre, com poucos conselheiros lúcidos e muitos lamentáveis. Sua nova versão, o Conselho Nacional de Educação (CNE), visava a consertar os vícios do anterior. Mas (grupo 02) acabou com um pecado original imperdoável. Grande parte dos seus membros passou a ser indicada por grupos de interesse e associações disso ou daquilo. Como não é possível uma representação equilibrada, termina sendo um fórum de confronto entre alguns lobbies.

A sociedade e em particular os empregadores estão ausentes ou sub-representados. A democracia fugiu pela janela. (AJO 11 – RVJ – JUL./2015)

No exemplo (71), retirado do artigo “A democracia e suas derrapagens”, o autor emprega, na primeira ocorrência, o operador argumentativo “mas” para contrapor uma hipótese: a de que os conselheiros deveriam ser os “sábios” da educação. Assim como na primeira ocorrência, o segundo emprego do “mas” é precedido de um enunciado em que o articulista mobiliza informações de cunho positivo e, logo depois, refuta essas considerações com outra asserção de natureza negativa. Esse contraste, de forma similar ao exemplo

anterior, apresenta, após o “mas”, a introdução da ideia/ponto de vista que prevalecerá sobre o enunciado que o antecede.

(Exemplo 72)

Inicialmente, carros duravam décadas. A partir de meados dos anos 1960, consolida-se a obsolescência programada, ou seja, a existência de produtos com sentença de morte definida e vida curta. A partir dos anos 1990, o processo de indução de demanda passa a ser mais sofisticado, com o conceito de obsolescência percebida. Embora nosso telefone celular esteja funcionando perfeitamente, um novo aparelho, com algum pequeno avanço técnico ou estético, nos faz sentir que somente seremos dignos de sermos chamados seres humanos após a compra do novo brinquedo. Buscamos nossa felicidade comprando coisas que talvez não precisemos. (AJO 04 - UOL - FEV./2015)

(Exemplo 73)

Foi contrariado o princípio democrático. Ainda que fosse um plano maravilhoso, em nada contribuiria para a sua legitimidade. Se só os sindicatos participaram, foi um processo distorcido. Nasceu em mãos de um grupo de interesses, defendendo as suas posições — como se espera que ajam sindicatos. (AJO 11 - RVJ - JUL./2015)

Os exemplos (72) e (73), apesar de integrados a dois artigos de opinião de temáticas e autores diferentes, apresentam operadores argumentativos que indicam um contraste de ideias. Enquanto o excerto (72) diz respeito a um artigo em que seus autores discutem os embates burocráticos e financeiros para a pesquisa clínica no Brasil, o exemplo (73) é parte de um artigo que trata da democracia e de suas derrapagens na sociedade brasileira. Nesses exemplos, os articulistas utilizam um processo de oposição de ideias. Porém, isso é feito a partir de uma estratégia que difere daquela utilizada nos exemplos anteriores (exemplos 70 e 71).

Na verdade, nas ocorrências (72) e (73), tal processo se dá por meio da estratégia da antecipação (Guimarães, 1987), a qual, nesses exemplos, pode ser evidenciada a partir do emprego de articuladores concessivos (embora e ainda que). Em outras palavras, nota-se o seguinte raciocínio: apresentação de uma informação “A”, introduzida pelos operadores

“embora” e “ainda que”, seguida de uma informação “B”, que contrasta com o que foi afirmado em “A”.

O uso desses operadores, no início dos períodos, faz com que se evitem generalizações e, sobretudo, sinaliza para o leitor um argumento (informação) que será refutado. De acordo com Koch (1984), a estrutura gramatical das línguas naturais possibilita discernir entre argumento possível e argumento decisivo. Assim, nos exemplos em questão, ao fazerem uso tanto do “embora” quanto do “ainda que”, os articulistas anunciam uma

espécie de ressalva (argumento possível), o que faz com que o conjunto apresentado em “B”

seja aquele que ganha ênfase no enunciado (argumento decisivo). Como uma estratégia argumentativa, o uso desses operadores (e outros de mesma natureza), sobretudo na posição introdutória de enunciados, faz com que se evite (ou pelo menos amenize) a presença de generalizações, o que ocasiona uma abordagem de argumentação diferenciada.

Os exemplos a seguir ilustram a ocorrência de operadores argumentativos que apontam para a negação da totalidade daquilo que é afirmado, contribuindo, dessa forma, para o projeto discursivo dos articulistas.

(Exemplo 74)

Cláudio de Moura Castro, Simon Schwartzman e o mesmo João Batista condenam o assembleísmo do plano, incluindo a ideia de criar “um emaranhado de instâncias consultivas e deliberativas entre municípios, estados e governo federal, que supostamente ajudariam a resolver os problemas de qualidade e equidade da educação”. Nenhum país sério, afirmam, decide sobre educação “por meio de negociações recorrentes e intermináveis entre sindicatos, professores, grupos de interesse e governos locais, estaduais e nacional” (Estadão, 30/6/2015). Lembremos que há mais de 5 500 municípios. (AJO 14 - RVJ – OUT./2015).

(Exemplo 75)

O debate franco e democrático somente é possível no contexto social no qual há o respeito aos grupos, inclusive aos politicamente minoritários, e o direito de voz é igual para todos e todas. (AJO 07 – UOL – ABR./2015) .

Em (74), na primeira parte do enunciado, observa-se que o articulista lança mão de um argumento de autoridade para fundamentar o ponto de vista defendido sobre o assunto.

Na sequência, por meio de um discurso indireto (atribuído aos especialistas em questão), o articulista ratifica a ideia apresentada, afirmando que nenhum país sério decide sobre educação “por meio de negociações recorrentes e intermináveis entre sindicatos, professores, grupos de interesse e governos locais, estaduais e nacional”. Trata-se de um argumento marcado pelo operador “nenhum”, que funciona numa escala orientada para a negação da totalidade. O exemplo (75), retirado de um artigo de opinião que trata do direito à liberdade de expressão (e suas consequências), ilustra o emprego do operador argumentativo “somente”, também orientado para a negação da totalidade, sinalizando uma constatação por parte do autor do texto.

Nos exemplos (76) e (77), observa-se o emprego de operadores argumentativos que indicam comparação. Tais operadores podem estabelecer, entre um termo comparante e

um termo comparado, diferentes nuances discursivas, tais como uma relação de igualdade (tanto...quanto, como, tal), de superioridade (mais... do que) ou de inferioridade (menos...

do que). Vejamos as ocorrências apresentadas a seguir.

(Exemplo 76)

Há quem defenda gastos per capita em educação iguais aos dos países ricos. Como a renda per capita desses países é até cinco vezes a do Brasil, isso implicaria gastar em educação 50% do PIB, mais do que a carga tributária da Suécia. Pode? (AJO 14 – RVJ – OUT./2015).

(Exemplo 77)

O enxugamento do setor público, tão hipertrofiado quanto ineficiente na gestão de recursos, e cujos critérios de contratação e de controle estão muito aquém da eficiência dos que pautam o setor privado, é tão fundamental quanto repensar o papel do Estado na economia, pois contam-se aos montes as ações desastradas da intervenção estatal no ambiente de negócios.(AJO 02 – UOL – JAN./2015).

No exemplo (76), nota-se que a operação efetuada por meio da expressão mais do que estabelece uma relação de comparação. Para Vogt (1977), semanticamente, a comparação possui uma estrutura argumentativa que estabelece, no ato da enunciação, uma escala que permite uma relação de grau mais forte ou menos forte em favor de um julgamento, que pode chegar a ser mais informativo do que argumentativo. Entretanto, do ponto de vista argumentativo, como assinala Vogt (1977), o enunciado (81) comporta dois movimentos contrários colocados em comparação.

Movimento A (países ricos, como a Suécia, investem muito em educação porque apresentam renda per capita alta).

Movimento B (O Brasil apresenta renda per capita baixa em relação aos países ricos e, por isso, não pode investir alto em educação).

Entre os dois itens comparados, é possível perceber a existência de uma relação de oposição. Semanticamente, em função da conclusão pretendida, um dos termos torna-se o argumento mais forte, desfavorecendo o outro. No caso em questão, o trecho “mais do que a carga tributária da Suécia” direciona o leitor à conclusão pretendida pelo articulista: o aumento dos gastos públicos com educação não tem propósitos bem definidos no Brasil.

O exemplo (77) faz parte de um artigo de opinião que tem como temática central a questão econômica do país. Nesse artigo, o autor tece comentários relacionados à nova

equipe econômica do governo e apresenta possíveis soluções para a retomada do crescimento econômico no país. Entre as medidas sugeridas, aponta a urgente necessidade de enxugamento de gastos com o setor público, estabelecendo uma relação de comparação valorativa em relação ao problema. Nota-se que o enunciado “o enxugamento do setor público, tão hipertrofiado quanto ineficiente na gestão de recursos (...)” evidencia a comparação efetuada pelo articulista, o qual lança mão de adjetivações pejorativas para qualificar o problema, marcando, dessa forma, o seu posicionamento argumentativo. Ainda nesse exemplo, observa-se que o articulista conclui o seu raciocínio com outra comparação

“(...) *o enxugamento do setor público+ é tão fundamental quanto repensar o papel do Estado na economia (...)”, apresentando, mais uma vez, possibilidades de solução para o problema. Assim, ao fazer uso dos operadores de comparação, o articulista emite um posicionamento frente ao que é enunciado, orientando argumentativamente o discurso, com vistas, é claro, à captação do leitor.

Além dos exemplos analisados até o momento, foi possível verificar nos artigos de opinião a ocorrência de trechos em que se combinam diferentes tipos de operadores. Os textos que se utilizam dessa estratégia acabam assumindo uma potencialidade argumentativa muito forte, uma vez que os elementos utilizados para estabelecer relações de várias ordens restringem os encadeamentos discursivos, determinando, por extensão, o valor argumentativo dos enunciados. O leitor, dessa forma, acaba sendo influenciado a concordar com a opinião expressa pelo articulista. Nesse sentido, é importante lembrar, como bem pontua Koch (2004), que o uso da linguagem é essencialmente argumentativo, isto é, buscamos dotar nossos enunciados de determinada força argumentativa. Para o cumprimento dessa tarefa, utilizamos os operadores argumentativos que fazem parte da gramática da língua e que têm por função indicar a força argumentativa dos enunciados e a direção para a qual apontam. É o que se pode observar nos trechos/exemplos analisados a seguir:

(Exemplo78)

Pode até haver chefes que, em qualquer escalão, não percebam a corrupção entre seus funcionários, se for um breve episódio; mas, se se prolongar por um pouco de tempo que seja, denota grave incompetência de parte dos mandantes. Se souberem e fecharem os olhos permitindo que os crimes continuem, porque “afinal no Brasil é assim, sempre foi assim, e assim é por toda parte”, serão pelo menos cúmplices, ainda que não metam a mão pessoalmente no dinheiro (que neste caso se acumula em milhões e bilhões). (AJO 03 – RVJ – FEV./2015).

(Exemplo 79)

Um crime não deixa de ser um crime pelo fato de ser cometido por uma pessoa pobre, da mesma forma que ser pobre, apenas, não significa ser honesto. Mas e daí? Em nosso pensamento penalmente correto, a ideia de que as culpas são sobretudo uma questão de classe é verdade científica, tão indiscutível quanto a existência do ângulo reto. Por esse tipo de ciência, um homicídio não é "matar alguém", como diz o Código Penal brasileiro; para tanto, é preciso que o matador pertença pelo menos à classe média. Daí para baixo, o assassinato de um ser humano é apenas um "fenômeno social". Fim da discussão. No mais, segundo os devotos da absolvição automática para os criminosos que dispõem de atestado de pobreza, "somos todos culpados". Nada como as culpas coletivas para que não haja culpa alguma - e para que todos ganhem o direito de se declarar em paz perante sua própria consciência. (AJO 09 – RVJ – JUN./2015).

Tanto no fragmento (78) quanto no fragmento (79), são apresentados operadores argumentativos que, apesar de estabelecerem relações semânticas distintas, concatenam ideias e opiniões, contribuindo, assim, na busca de adesão do leitor em relação ao conteúdo abordado pelos articulistas. Em (78), o uso do operador até” tem por finalidade restringir quantitativamente o número de chefes que não percebem a corrupção, quando ela não passar de um episódio breve. Logo a seguir, no mesmo exemplo, o processo argumentativo utilizado é o de oposição de ideias, em que a autora do artigo, Lya Luft, retoma a informação exposta anteriormente e contrapõe um episódio breve e prolongado por um tempo.

Na sequência, a progressão temática e argumentativa é feita por meio de uma relação condicional, na qual se retoma o sujeito em questão – os chefes – com a finalidade de, ao final do enunciado e quase em tom de ameaça e culpabilização, prepará-los para o que pode acontecer. Em seguida, a articulação conduzida pelo operador porque apresenta uma justificativa, por meio de um imaginário social, sobre o motivo de o Brasil continuar a permitir que os crimes sejam cometidos.

Ao final do parágrafo, o emprego das expressões articuladoras “pelo menos” e

“ainda que” dá continuidade ao procedimento argumentativo em que o articulador pelo menos indica uma gradação de se estar em uma situação menos pior, ou seja, de acordo com o ponto de vista da autora, é menos ruim ser cúmplice do que ser ladrão/corrupto. Na última oração presente no exemplo (78), nota-se o emprego do operador de contrajunção (ainda que) por meio do qual a articulista faz uma ressalva entre os envolvidos nos processos de corrupção e incompetência administrativa.

Em (79), os operadores argumentativos estão a serviço da adesão da tese por parte do leitor, conduzindo-o à ideia de que pobres e ricos devem responder com grau de

No documento a perspectiva textual-discursiva da (páginas 157-168)