CATÓLICAS NO BRASIL
3. FACULDADES E UNIVERSIDADES CATÓLICAS NO BRASIL
3.3. OS PRIMÓRDIOS DA FACULDADE DE ENGENHARIA INDUSTRIAL
Dom Carlos Carmelo Vasconcelos Motta e passou a fazer parte das universidades chamadas comunitárias. 226 Foi obtida uma dispensa da exigência legal de haver funcionamento das faculdades agregadas por dois anos, antes da cessão do título de Universidade.
antes da criação do curso, já se preocupava com a formação e aperfeiçoamento do corpo docente e precocemente planejava que os professores se atualizassem em universidades norte-americanas. Quando procurava informações para montar o modelo pedagógico para o funcionamento do curso de química da Faculdade de Engenharia Industrial, o Padre Sabóia procurou o engenheiro e professor universitário José Milton Nogueira, que ministrava aulas da disciplina Química Orgânica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. O professor Nogueira informou, em uma entrevista realizada no ano de 2005, que no ano de 1944 foi procurado por um senhor de nome Acrísio Paes Cruz, que era o secretário particular do Padre Roberto Sabóia de Medeiros. Este solicitava um encontro, visando a procura de informações sobre o modelo pedagógico e como funcionava o curso de química da Escola Politécnica.
O Padre Sabóia de Medeiros e o professor Milton Nogueira encontraram-se diversas vezes. Os assuntos dessas conversas versavam sobre vários temas acadêmicos, incluindo os estágios de professores no exterior, laboratórios de química e até mesmo sobre a criação de usinas-piloto na área de química, como exemplifica a correspondência seguinte, enviada pelo professor José Milton Nogueira ao Padre Sabóia no ano de 1944:
“UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO”
“ESCOLA POLITÉCNICA - QUÍMICA ORGÂNICA”
“São Paulo, 7 de Setembro de 1944 Reverendíssimo Padre Sabóia:
Cordiais saudações:
Tendo conversado com o Sr. Acrisio Paes Cruz a respeito da Escola de Engenharia Química a ser instalada em São Paulo por sua iniciativa e tendo sido convidado pelo mesmo a entrar em entendimentos, sem compromisso de parte a parte, com V.R., passo a expor as minhas idéias relativas à referida escola e
ao estágio de especialização e aperfeiçoamento a ser efetuado nos EEUU:
I – Curso de Aperfeiçoamento: Creio que o aperfeiçoamento dos professores deverá ser feito com relação à cadeira que o mesmo irá lecionar e talvez com relação a mais uma cadeira ligada à primeira em seus fundamentos teóricos (Química Orgânica e Química Orgânica Industrial, por exemplo). Assim sendo, o estágio da especialização deverá constar de uma visão de conjunto da matéria em estudo, isto é, deverá colocar o professor ao par de como a mesma é lecionada na Escola Americana escolhida como padrão, de como é organizada a parte prática, o programa teórico e a extensão e profundidade do mesmo.
Naturalmente que no caso da cadeira de aplicação (Química Orgânica Industrial, por exemplo) a matéria relativa à mesma deverá ser adaptada às circunstâncias legais brasileiras. Portanto, não há necessidade de o professor fazer um curso de aperfeiçoamento detalhado da cadeira que irá lecionar, porque os fundamentos da mesma já devem ser perfeitamente conhecidos.
II – Usinas-piloto: Em se tratando de uma Escola de Engenharia, não se admite que a mesma não possua usinas-piloto para que os alunos tenham noção exata dos processos e trabalhos industriais com os quais terão que lidar após a conclusão do curso. Assim, é de capital importância a instalação de usinas-piloto relativas às indústrias de interesse para o Brasil (álcool – celulose – tratamento de minérios – indústrias vegetais extrativas e indústrias alimentares), assim como a instalação de aparelhamento necessário às operações industriais gerais (trituração, moagem, peneiração, filtração, secagem, transporte,
etc.). Além de servirem para estudo, tais instalações podem produzir em pequena escala material, não só para uso interno da Escola, como também para fornecimento ao comércio, o que constitui uma fonte de renda que reverterá em benefício do próprio ensino.
III – Laboratórios: De grande importância é a instalação de laboratórios para os trabalhos práticos. Assim, cada cadeira deverá ter o seu laboratório próprio montado de acordo com as necessidades da mesma. As usinas-piloto farão parte dos respectivos laboratórios – creio que entre estas as que mais interessam ao Brasil são: instalações para produção de álcool etílico – celulose – alcalóides – corantes – distilação de weslen – cerâmica – fundição – indústrias alimentares (óleos, gordura, leite, carnes, fontes, etc).
IV – Período de Estágio: para a familiarização com os processos modernos da indústria americana e com a organização dos programas e métodos de ensino de escolas de Engenharia, creio que bastam três meses para cada cadeira. No meu caso particular, pelo fato de eu ser professor adjunto da cadeira de Química Orgânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, no momento só poderia me interessar um estágio de três meses e assim mesmo durante o período de férias (de dezembro a março).
Pela atenção que esta merecer de V. Revma., confesso-me grato, colocando-me ao seu inteiro dispor. Atenciosamente, José Milton Nogueira.” 228
228 Carta do Professor José Milton Nogueira ao Padre Sabóia, enviada em 7 de setembro de 1944 e cedida gentilmente para cópia pelo remetente. Quanto a estes estágios, esta foi uma proposta que não chegou a ser concretizada.
O Padre Sabóia viajou pela primeira vez aos Estados Unidos, em 1944, atendendo a um convite do Departamento de Estado norte-americano, tendo chegado na cidade de Miami no dia 19 de março e se hospedado na Georgetown University, uma universidade jesuíta. Esse convite foi efetuado graças à interferência de seu amigo Adolpho Berle, que mais tarde foi nomeado embaixador daquele país junto ao governo brasileiro. 229
O Padre Sabóia enviou um relatório ao R. P. Provincial, relatando detalhadamente o que ocorreu na sua primeira viagem e os subsídios que conseguira para fundar a sua escola de química em São Paulo:
[...] “Esta carta já está comprida, mas temos ainda que dar uma chegada a Detroit para conhecer o P. Shiple. Cabeça toda branca, fisionomia de menino, grandemente acolhedor e regente do Departamento de Química da Universidade. A ele se devem os planos da nossa projetada Escola de Química Industrial.
Convocou os seus professores, distribuiu as tarefas, fez escrever as principais revistas e associações químicas e depois de dois meses e meio, dava-me o calhamaço. O Pe. Shiple fora-me indicado como ‘o tal’ para me ajudar com o Pe. Powers, de Fordham e que é vice-presidente da Sociedade Americana de Química e outro bem merecedor de um comentário.” [...] 230
Nos Estados Unidos, o Padre Sabóia verificou que as firmas e as organizações norte-americanas não subsidiavam empreendimentos que não fossem “Fundações”. Ao que parece, foi por esse motivo que ele criou a Fundação de Ciências Aplicadas, à qual ficou incorporada, desde logo, a Faculdade de Engenharia Industrial - FEI, como relatou ao seu pai, em 21 de fevereiro de 1945, quando também solicitou a ele que elaborasse os respectivos estatutos:
229 Pe. J. C. de Souza, S. J., Padre Roberto Sabóia de Medeiros, S. J. - Apóstolo da Ação Social, p. 148.
230 Notícias da Província do Brasil Central. 4a série, ano XVIII, número 2, Rio de Janeiro, dezembro de 1944, p. 104.
[...] “A Faculdade de Engenharia Industrial pertence à Fundação Faculdade de Engenharia Industrial [que na verdade foi criada com a denominação Fundação de Ciências Aplicadas]. Uma vez que a Fundação é quem manda. Daí não há escapatória. No entanto da Fundação poderão fazer parte o Provincial da Companhia de Jesus e o Presidente da Sociedade Brasileira de Educação, como membros natos. O Presidente da Ação Social não seria membro nato, mas entraria a título de contribuições que recolheu para a Faculdade, a título do trabalho de organização.
Melindraria dar voto de qualidade e direito de voto a quem quer que seja. Em vez disto, os membros da diretoria da Fundação (que são vitalícios ou deixam o cargo por renúncia), por morte ou renúncia seriam substituídos por designação e nomeação do Provincial em uma lista de dez nomes apresentados a ele pelos demais membros. Creio, papai, deste modo se satisfazem todas as exigências, se ressalvam todos os direitos e se previnem os inconvenientes de empiétements 231 ou de interferências anti- católicas. A minha impressão é que a Faculdade poderá funcionar perfeitamente bem e que não é preciso pedir mais. Além disso, eles sugeriram outro ponto: que estando o Provincial presente às reuniões, ele seja o presidente da assembléia. Peço, pois, que o senhor elabore os estatutos conforme essas indicações, modificando para melhor caso algo de melhor ainda ocorrer ao senhor. Depois tratarei de submeter tudo ao Provincial e aos meus amigos daqui. Um grande abraço. Roberto.” 232
231 Usurpações.
232 Pe. P. A. Maia, S. J., Introdução aos Excertos das Cartas do Padre Roberto Sabóia de Medeiros, S. J., (1922-1954).