do fenômeno pesquisado, pois tendem a fornecer ao pesquisador apenas as informações solicitadas.
A fim de oferecer espaço para a troca de percepções e negociação de sentidos e significados a respeito da experiência em investigação, nesta pesquisa, a conversa hermenêutica foi realizada no último encontro do curso em destaque e orientada a partir dos tópicos descritos abaixo que desencadearam os seguintes aspectos, pertinentes para o diálogo no decorrer da interação:
➢ A experiência de participar do curso
➢ A autopercepção a cada encontro
➢ Reflexões, sensações e sentimentos ao final do processo
A conversa hermenêutica, com duração de 110 minutos, foi gravada em áudio e vídeo, posteriormente transcrita a fim de gerar o material textual utilizado na investigação do fenômeno em foco, conforme descrevo na próxima seção. Na sequência, apresento um quadro com a síntese dos instrumentos de geração de textos utilizados nesta pesquisa:
Quadro 4: Instrumentos de pesquisa Instrumento Narrativa
linguístico- biográfica
Diário Reflexões
compartilhadas
Conversa hermenêutica
Utilização Material de apoio
Material de apoio
Material de apoio Tematizada
Fonte: Elaborado pela autora
pelos demais instrumentos de pesquisa utilizados nesta investigação: a narrativa linguístico-biográfica, o diário e as reflexões compartilhadas foram utilizados como materiais de apoio para iluminar e ampliar a compreensão de algum ponto que se fez necessário no percurso interpretativo.
A narrativa linguístico-biográfica e a apresentação dos alunos no primeiro encontro do curso trouxeram informações importantes sobre os perfis dos participantes, bem como as especificidades de suas relações com as línguas conforme descrito na seção 2.3. Nesse sentido, a AHFC reconhece tanto o caráter subjetivo, quanto objetivo do processo interpretativo, ao considerar que a investigação é realizada a partir da bagagem experiencial e subjetividade do(a) pesquisador(a) e de seus participantes (FREIRE, 2010).
O ato interpretativo em si foi desafiador, de modo que mergulhar nos textos, experiências, vozes e percepções dos participantes em interconexão com as minhas, sem afundar nem me afogar, demandou bastante sensibilidade, pausas, aproximação, distância, muito fôlego e atenção para manter o fenômeno investigado sempre à vista, conforme ilustro no Quadro 4, apresentado adiante.
Identificar temas, subtemas e seus desdobramentos também foi um desafio interpretativo uma vez que as emergências que caracterizavam a essência do fenômeno em foco encontravam-se intrinsecamente conectadas, ou seja, foi uma tarefa desafiadora conseguir separá-las para fins de apresentação do fenômeno, para juntá-las, posteriormente, na interpretação. No entanto, essa também foi uma vivência prazerosa, de intensa ligação com a natureza do fenômeno investigado, o que proporcionou grande alegria em poder ampliar minha perspectiva e compreensão dos significados que emergiram de sua essência nesta pesquisa.
À medida em que a interpretação progrediu, tive maior clareza do fenômeno investigado, o qual, no início da pesquisa, considerei como as identidades nas relações entre línguas em um curso sistêmico-complexo. A essência do fenômeno revelou-se, gradativamente, quando entrei em contato com os textos e mergulhei em sua interpretação, o que me despertou para a compreensão do fenômeno como o movimento das identidades entre línguas em um curso sistêmico-complexo. Quando me aproximei, de fato, do fenômeno
investigado, entregando-me ao ampliar da percepção e à sensibilidade diante este rio em fluxo interpretativo, consegui identificá-lo com maior clareza.
Para exemplificar o processo realizado, compartilho um trecho correspondente à interpretação agaéfico-complexa do fenômeno em foco conforme as etapas relacionadas no quadro a seguir:
Quadro 5: Ilustração parcial do processo interpretativo TEMATIZAÇÃO
TEXTUALIZAÇÃO Primeiras unidades de
significado
Refinamento &
ressignificação
Refinamento &
ressignificação
Definição de temas, subtemas, sub- subtemas...
Eu quero falar então. Para mim, essa experiência de participar desse curso... muito mais do que…olhar línguas, eu consegui...é... foi uma ... um curso de...de
autoconhecimento ...e ...para mim as...
a questão das línguas me trouxe a... a minha origem...a minha ancestralidade e….eu consegui identificar...ok, eu trago isso da minha ancestralidade, mas eu trago isso que também é meu, que é próprio meu. Então, acho que, para mim, foi o principal. Foi o que conectou todo… em todas as ... em todos os encontros eu tinha insights disso.
experiência de participar desse curso
muito mais do que olhar línguas curso de
autoconhecimento a questão das línguas me trouxe a... a minha origem...a minha ancestralidade consegui identificar/trago isso da minha ancestralidade, mas eu trago isso que é meu, próprio meu
conectou todos os
encontros eu tinha insights
experiência curso
ir além de/
transcender línguas/idiomas
autoconhecimento
línguas minha origem ancestralidade
consciência de ter características ancestrais em si ancestralidade consciência da diferença características próprias
insights
experiência curso
transcendência idiomas
autoconheciment o
línguas/idiomas origem
ancestralidade
consciência características comuns
identificação com a
ancestralidade diferenciação do si mesmo singularidade
insights
TRANSCENDÊNCIA IDIOMAS
autoconhecimento ancestralidade si mesmo
AUTOCONHECIMENTO CONSCIÊNCIA ancestralidade identificação diferenciação si mesmo singularidade
Fonte: Elaborada pela autora com base em Freire (2010, p. 25)
As rotinas de organização e interpretação (FREIRE, 2010, 2017a) foram as orientações-base que me permitiram mergulhar nos textos e desenvolver o
CICLO DE VALIDAÇÃO
processo interpretativo, o qual realizei por meio de meu computador portátil em alguns meses de trabalho. No entanto, ainda me sentindo um pouco distante dos textos, resolvi imprimi-los para tê-los às mãos, numa necessidade de poder manuseá-los, fazer mais anotações, utilizar marca-textos para colorir um pouco mais, estabelecendo um tipo de relação mais próxima, sensação que tive ao tocar os papéis, podendo adicionar reflexões e estabelecer conexões de um modo mais pessoal e informal, como que numa oportunidade de tecer um diálogo íntimo com os sentidos e significados que emergiram para mim em interação com o fenômeno por meio do material textual, no papel.
Dessa maneira, senti que a interpretação fluiu e consegui aprofundar ainda mais minhas percepções por meio de um diagrama que elaborei com cada tema identificado e seus desdobramentos, seguindo as orientações da AHFC, o qual me auxiliou na percepção do fenômeno, como se revelou para mim, de uma forma visualmente organizada, contribuindo para ampliar minha compreensão das relações estabelecidas.
Conforme apresento no Quadro 4, a palavra “ancestralidade”, mencionada diversas vezes, contribui para a compreensão do fenômeno ao emergir como um desdobramento do tema TRANSCENDÊNCIA, e, simultaneamente, um desdobramento do tema AUTOCONHECIMENTO, revelando, também, a intrínseca relação entre os temas na construção desta teia interpretativa, a qual demonstra as ligações em rede existentes nesta manifestação da essência do fenômeno investigado como um holograma que revela as partes no todo e o todo nas partes.
A escolha dos substantivos que indicadores da essência do fenômeno em investigação foi realizada mediante a contribuição de cada unidade de significado que foi refinada e, muitas vezes, ressignificada, na medida em que se fazia necessário encontrar um substantivo que capturasse a intenção do que foi compartilhado pelo participantes sem, necessariamente, reproduzir o que por ele foi dito como ilustro, por exemplo, com o trecho retirado do Quadro 4: “mas eu trago isso que também é meu, que é próprio meu”, excerto do qual emergiu, sob minha perspectiva, a palavra singularidade, desdobramento de AUTOCONHECIMENTO, capturada pela interpretação da manifestação do fenômeno no curso Quem sou eu entre línguas e culturas? Um percurso sistêmico conforme descrevo no capítulo a seguir.
Refletindo sobre o processo de interpretação que desenvolvi nesta pesquisa, compreendo que, em meio a diversos rascunhos, lendo e relendo os textos em mãos, os diários, retomando as reflexões compartilhadas e as narrativas linguístico-biográficas, passei a me sentir uma parte cada vez mais conectada à teia interpretativa construída. A compreensão da essência do fenômeno foi tomando forma e se concretizou na medida em que elaborei a representação gráfica que me ajudou na redação do texto referente à interpretação do fenômeno conforme apresento no capítulo 4: Do rio ao oceano.
Diante do fluxo investigativo desta correnteza que organizou e orientou a realização desta pesquisa, sigo rumo ao capítulo seguinte, intitulado O caminho das águas, no qual será detalhado o curso que desenhei para o ambiente remoto, em busca da compreensão do movimento das identidades entre línguas em um curso sistêmico-complexo.
CAPÍTULO 3
O CAMINHO DAS ÁGUAS
“Já em casa, as pessoas pediam-lhe para repetir a história de sua jornada e descoberta.”
Hunter Beaumont
Neste capítulo, apresento o curso remoto pelo qual as águas trilham seu fluxo nesta investigação: Quem sou eu entre línguas e culturas? Um percurso sistêmico, por meio da descrição da Abordagem Sistêmico-Complexa, seu planejamento, desenvolvimento, critérios de avaliação, feedback e algumas observações relevantes.