uma formação de qualidade para o aluno. Elas também esclarecem que tais avaliações e índices ocupam um lugar privilegiado dentro do planejamento das ações educativas da escola:
“Aqui nesta escola o 9º ano é muito trabalhado para as questões de fora porque uma boa parte dos alunos tentam ir para outros colégios. Como a escola é uma escola que tem uma boa pontuação, tem um bom desempenho, na Prova Brasil, na prova da rede, na prova do Rio, ganha 14º, os alunos ficam sempre tentados pra saber quando as inscrições estão abertas, então a gente trabalha com eles, intensifica um pouco mais os conteúdos.” [Glória]
E ainda discorrem sobre a burocratização do trabalho docente, sobre como despendem seu tempo de trabalho preenchendo formulários exigidos pela Secretaria de Educação e o quanto isso atrapalha a dedicação para o desenvolvimento de um bom trabalho pedagógico:
“Uma coisa que atrapalha é que nós temos muita coisa prá fazer que não tem muito a ver com a aula, é um monte de trabalho, um monte de projeto, folha pra preencher. Você tem prazos, vive o bimestre com prazos. Tinha que ser mais flexível”. [Glória]
“A gente tem que fazer a mesma coisa várias vezes, preenche diário, preenche planejamento, tudo o que tá no planejamento tá no diário, tem folha disso, folha daquilo, lança nota no papel, lança nota na internet, são trabalhos muito repetitivos” [Bianca]
professores, então vamos ter que mudar, né?” disse a Coordenadora Pedagógica que estava visivelmente desconfortável exercendo este papel de avaliar os professores.
Segundo o que pude perceber, ela estava desempenhando esta função burocraticamente, apenas para cumprir uma exigência da 1ª Coordenadoria Geral de Educação (CRE) da qual a escola faz parte e procurou fazê-la de maneira a minimizar possíveis embates com os professores. Ao relatar sua conversa com os alunos enfatizou o fato de que durante a avaliação pôde comprovar as queixas dos próprios professores, dando-lhes razão em suas reclamações, mas não conseguiu evitar com que eles sentissem-se chateados.
O grupo de professores da escola ficou notavelmente abalado com a situação. Estava na Sala de Professores quando um professor entra dizendo: “A minha turma será investigada então, eu resolvi descer. Na verdade quem vai ser investigado somos nós. Está tendo uma avaliação dos professores na escola e não fui avisado”. Este professor estava visivelmente abalado com a situação de ser surpreendido durante a sua aula pela entrada da Coordenadora Pedagógica em sua sala para conversar com os alunos sobre a avaliação dos professores da escola.
“Deve-se avaliar todos os segmentos, não só o professor. Engraçado... é tão cobrado o planejamento do professor, e uma coisa tão séria como a avaliação docente não é nem avisada. Cria um equívoco na comunicação com os alunos. A avaliação deve ser da escola toda, dos funcionários da limpeza até a Diretora. Avaliar todos os segmentos, não só o professor. Isso fragiliza a avaliação. Vou colocar isso no Conselho de Classe.”
O professor levantou a questão do modo como a avaliação foi realizada, apenas focando nos professores e não considerando o conjunto de segmentos de toda a unidade escolar. Além disso, o fato se serem pegos desprevenidos, de surpresa, sem que tenha havido um esclarecimento sobre os objetivos desta avaliação, a maneira como ela seria realizada e a finalidade dos dados obtidos através dela faz com que os professores sintam-se regulados e isso gera neles um desconforto.
Neste dia, durante a hora do recreio o comentário geral foi sobre a avaliação que acontecia na escola. A Coordenadora Pedagógica foi de sala em sala com umas fichas, formulários para preencher sobre a avaliação dos professores pelos alunos.
O professor era convidado a se retirar por uns minutos e ele ia para a Sala dos Professores, enquanto a Coordenadora conversava a turma. Ela havia repetido muitas vezes “tem que fazer, não tem jeito”, mas parecia se sentir desconfortável com a situação. Estava lidando como uma ordem da SME/RJ que precisa ser cumprida, de maneira burocrática. Alguns professores se sentiram desrespeitados com a forma como esta avaliação estava sendo realizada. Outros lidaram com ela através de brincadeiras e risos. Durante a discussão levantaram a questão de não ter finalidade, de não representar melhorias para suas condições de trabalho. “E o que vai mudar com esse papel? O que vão fazer com esses dados?”. Uma professora disse. “A relação que eu tive com este papel foi só receber”.
No formulário havia uma questão que dizia “Como eu me sinto...” para eles completarem em relação a como se sentem sobre seu trabalho. “Mal paga, com salário baixo” respondeu Adriana. “Me sinto trabalhando sozinha”, disse Marcela.
Outro professor brincou dizendo que para responder questões sobre sentimentos teria que ligar para seu analista. Ainda durante a conversa Marcela disse: “Imagina o que vão falar da gente? Feiosa, bruxa”. “Eu não vou nem dormir no feriado preocupada com o que os alunos falaram de mim”, respondeu Adriana em tom de deboche, considerando natural que os alunos teçam alguns comentários desagradáveis sobre os professores e estranhando o fato de uma avaliação dos professores formulada pela Secretaria de Educação considerar a fala dos alunos.
No final da manhã, a Coordenadora Pedagógica não teve tempo de visitar todas as turmas, então pediu para os professores que faltavam ser avaliados para enviar um grupo de alunos para conversar com ela. “Manda pra mim uns alunos decentes, que vocês sabem que sabem bem o que está acontecendo em sala de aula para falar comigo porque não dá para passar em todas as turmas”, disse ela.
Diante desta situação percebemos o quanto o discurso da performatividade circula na Escola Esperança, atrelado a cobranças de bom desempenho dos professores e alunos. Notamos elementos dessa cultura impregnados nas falas dos professores, revelando o quanto apropriam-se deste pensamento ao pensarem as questões que envolvem a escola e seu trabalho.
Em uma situação observada, os professores conversavam sobre a visão da Direção sobre a qualidade de seu trabalho, concluindo que algumas práticas eram melhores vistas e isso colaborava para serem considerados bons professores ou bons profissionais.
“No lugar da foto do patrono terá a foto do funcionário de mês, o funcionário padrão. Nesse mês será o fulano (referindo-se a um professor da escola), que deixou de ir ao passeio para corrigir as provas”. [Lúcia]
Lúcia comentou um fato ocorrido na escola fazendo uma alusão a uma prática estabelecida em ambientes corporativos que estimulam a competitividade e avaliam os funcionários pela sua produção, muito baseada em dados quantitativos. Uma destas práticas adotadas por algumas empresas é a seleção do melhor funcionário do mês. Este funcionário geralmente tem seu nome e fotografia destacados dentro do ambiente de trabalho. A professora chamou a atenção para os critérios utilizados na escola, pela Direção para avaliar o professor, destacando as práticas que são valorizadas como, por exemplo, um professor deixar de ir a um passeio para corrigir provas. Esta ação demonstraria compromisso do profissional com o seu trabalho – entendido aqui como aquilo que é muito específico da programação proposta pela SME/RJ e deixando outra atividade pedagógica de igual importância como o passeio da turma para trás -, revelando que esses critérios envolvem um pensamento baseado em práticas mercadológicas.