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[...] ao refletir sobre quase 15 anos de atuação na área da deficiência mental, percebi que a minha postura, como a da maioria dos meus colegas, era elitista (como acadêmica) e maternalista (como clínica): eu sabia e eu ajudava. No entanto, nunca havia efetivamente parado para ouvir o que os consumidores desse meu saber e trabalho tinham para me contar. (2009, p. 27).

Estudos que priorizem o Método de História de Vida contribuem efetivamente para a construção do conhecimento sobre pessoas com deficiência. Além disso, os resultados obtidos em pesquisa podem e devem contribuir para propostas e estratégias favoráveis ao atendimento e relações sociais desses sujeitos. Através da escuta, essa investigação traz uma perspectiva de analise reflexiva, pelo o qual, o pesquisador tem o papel de aprendiz, de acordo com as palavras de Augras (1989, p.12):

A escuta respeitosa tenta apreender a especificidade do mundo pessoal. Nessa perspectiva, o pesquisador é, antes de mais nada, aprendiz da verdade do outro. Ora, a alteridade é por natureza irredutível. Como alcançar a visão que o outro tem de si e do seu mundo? Somente pelo diálogo... A dimensão dialógica da investigação constitui a garantia da adequação do discurso produzido nesse encontro.

Em síntese, esse trajeto metodológico contribui para a livre fala de grupos estigmatizados e excluídos historicamente. Ao reconhecer como legítima as narrativas desses sujeitos, esse viés metodológico valoriza a escuta desses grupos. Outro ponto, que merece destaque, é a constituição de uma fonte rica de dados, na medida em que, esse método oportuniza o resgaste da identidade desses indivíduos, além de suas relações familiares/profissionais e sociais. De acordo com o exposto, consideramos que a consolidação da metodologia História de Vida no campo da Educação Especial contribui para uma rica análise sobre as pessoas com deficiência, partindo de “ dentro para fora”, da visão de mundo de quem fala e não de que ouve.

participantes fossem jovens ou adultos com diagnóstico de deficiência intelectual, e estivessem frequentando, ou tivessem frequentado o ensino comum.

Para encontrar os sujeitos que participaram dessa pesquisa, contamos com a ajuda de alguns colegas professores que abriram as portas de suas instituições e permitiram o nosso contato com estudantes que correspondessem ao perfil do estudo. Tivemos acesso ao Colégio Pedro II (escola federal de excelência do estado do Rio de Janeiro), a Escola Municipal Nísia Vilela Fernandes (localizada no município de Duque de Caxias) e ao Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência (CIAD19). Todas as instituições estão localizadas no Estado do Rio de Janeiro. Nessas instituições acima, tivemos a oportunidade de selecionar, juntos aos professores, os sujeitos que se encaixavam nos critérios escolhidos. Apresentamos a pesquisa para esses sujeitos junto aos seus responsáveis. Após o esclarecimento dos objetivos desse estudo é que posteriormente, foi marcado encontros para a realização das entrevistas. O quadro abaixo traz algumas informações sobre os sujeitos.

Quadro 1 - Informações sobre os participantes da pesquisa

NOME20 IDADE ANO DE

ESCOLARIDADE21

IRIS 46 9º ANO DO ENSINO

FUNDAMENTAL (EF)

MARIA 44 3º ANO DO (EF)

IGOR 23 1º ANO DO ENSINO

MÉDIO

MARCOS 17 8º ANO DO (EF)

EMANUEL 18 8º ANO DO (EF)

CAMILA 21 7º ANO DO (EF)

LARA 25 ENSINO MÉDIO

COMPLETO

Fonte: elaborado pela autora

19 O Centro objetiva oferecer de forma integrada serviços nas áreas de educação, esporte e lazer, saúde, assistência social, trabalho e tecnologia, para a promoção e inclusão da pessoa com deficiência e sua família em um único espaço. Oferece serviços aos segurados com deficiência do INSS, em agência totalmente adaptada, iniciativa única no Brasil. ”. Fonte: www.acessibilidadeinclusiva.com.br/ciad-centro-integrado-de- atencao-a-pessoa-com-deficiencia. Acesso em: 10 de abr. de 2017.

20 Todos os nomes dos sujeitos são fictícios a fim de preservar suas identidades.

21 O ano de escolaridade se refere a escolaridade máxima que esses sujeitos haviam chegado até o momento da entrevista.

Não foi solicitado o histórico escolar dos entrevistados, já que, o foco dessa seleção foram os sujeitos e não as instituições que eles frequentam ou frequentaram. Dessa maneira, contamos com as informações dadas pelos os próprios sujeitos, nas entrevistas, para elaborar esse quadro abaixo com o perfil do percurso escolar de cada um.

Quadro 2 - Perfil do percurso escolar dos sujeitos

IRIS

Frequentou escolas da rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro. Já frequentou também escolas especiais por um ano.

Iris parou de frequentar a escola no 9º ano no ensino comum.

Atualmente participa de atividades no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência (CIAD)

MARIA

Frequentou a escola municipal México, localizada no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, onde foi alfabetizada. Teve experiências anteriores em outras escolas da rede municipal. Já frequentou escolas especiais. Maria cursou até 3° ano do ensino fundamental no ensino

comum. Atualmente participa de atividades no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência (CIAD).

LARA

Frequentou escolas públicas fora do Estado do Rio de Janeiro.

Terminou o ensino médio na escola estadual Antônio Figueira de Almeida no Rio de janeiro. Nunca frequentou escolas especiais.

Atualmente participa de atividades no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência (CIAD).

CAMILA

Foi aluna da rede municipal de ensino por muitos anos onde chegou até o 7° ano do ensino fundamental. Atualmente frequenta a Escola Especial Municipal Marly Fróes Peixoto no Rio de Janeiro. Participa também de atividades no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com

Deficiência (CIAD).

EMANUEL

Frequentou escolas da rede municipal de ensino. Atualmente é aluno da Escola Municipal Nísia Vilela Fernandes localizado no Rio de Janeiro, onde está cursando o 8° ano do ensino fundamental. Nunca

frequentou escolas especiais.

MARCOS

Atualmente é aluno da Escola Municipal Nísia Vilela Fernandes localizado no Rio de Janeiro, onde está cursando o 8° ano do ensino

fundamental. Nunca frequentou escolas especiais.

IGOR

Frequentou escolas da rede privada de ensino no Rio de Janeiro, somente nos dois primeiros anos de escolaridade. Desde então, é aluno do Colégio Pedro II na modalidade da EJA, onde está cursando

o 1° ano do ensino médio. Nunca frequentou escolas especiais.