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OUTRAS FORMAS DERIVADAS DE CRIMES DE LAVAGEM E

No documento LAVAGEM DE DINHEIRO - Univali (páginas 46-62)

O artigo 1º, § 1º e seus incisos asseveram que:

[...]

§ 1º Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização de bens, direitos ou valores provenientes de qualquer dos crimes antecedentes referidos neste artigo:

I - os converte em ativos lícitos;

II - os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda, tem em depósito, movimenta ou transfere;

III - importa ou exporta bens com valores não correspondentes aos verdadeiros.

Rodolfo Tigre Maia expõe que buscando a ampliação das hipóteses de incidência do crime básico, de forma a alcançar diferentes formas de reciclagem de ativos, foram identificados três tipos derivados daquele.114

Roberto Delmanto e outros autores da mesma obra esclarecem:

Trata-se de uma conduta mais sofisticada de lavagem, qual seja a reciclagem do produto do crime antecedente, fazendo com que aquele bem, direito ou valor que teve sua origem ocultada ou dissimulada, circule, com maior engenhosidade na

112 BARROS, Marco Antônio de. Lavagem de Capitais e Obrigações Civis Correlatas: com comentários, artigo por artigo, à Lei 9.613/98, p. 179.

113 Cf. BARROS, Marco Antônio de. Lavagem de Capitais e Obrigações Civis Correlatas: com comentários, artigo por artigo, à Lei 9.613/98, p. 178-179.

114 Cf. MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 94-95.

economia formal, de modo a apagar os rastros de sua origem espúria, mediante determinadas condutas, especialmente elegidas pelo legislador.115

José Laurindo Souza Neto remata que:

Procede-se à reciclagem numa fase ulterior, onde os benefícios adquirem a aparência de legalidade. Visa-se assim, apagar os elementos reveladores da origem criminosa, através de determinados atos, para que possam ser reintroduzidos no circuito financeiro legal.116

O inciso I mostra a figura equiparada da conversão de ativos ilícitos, que de acordo com Rodolfo Tigre Maia, incrimina as condutas que tem por finalidade ocultar, ou seja, esconder ou dissimular (disfarçar), o emprego de ativos frutos de crimes anteriores por meio da conversão.117

Já o segundo inciso é um tipo mais amplo, em decorrência dos diversos verbos empregados. O mesmo autor citado acima afirma que este inciso prevê várias atividades que possibilitam a ‘limpeza’ dos frutos dos delitos. Ademais, o mesmo doutrinador conclui que dentre essas atividades “algumas são freqüentemente utilizadas na etapa de dissimulação (layering) ou ‘lavagem’ propriamente dita”.118

Conforme anteriormente salientado, vale lembrar que é justamente nessa etapa de dissimulação, onde ocorre o impedimento da reconstituição de toda a lavagem, eliminando-se os vestígios.

Por fim, nota-se que o inciso III, do § 1º, do artigo 1º, prevê como ilícito um dos disfarces mais comuns para remessa de ativos ilícitos para o exterior. Rodolfo Tigre Maia aduz que:

O tipo objetivo alicerça-se nos núcleos (a) importar (trazer do exterior ou internar o bem em nosso território) ou (b) exportar (remeter ou enviar o bem para o exterior), tendo por objeto substancial (c) bens (quaisquer mercadorias) (d) com valores não correspondentes aos verdadeiros (discrepantes, para mais ou para menos, dos preços de mercado). Ambas as hipóteses são formais e plurissubsistentes, sendo a tentativa viável e consumando-se o crime, respectivamente, com a entrada ou a saída da mercadoria no território nacional.119

115 DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 560.

116 SOUZA NETO, José Laurindo. Lavagem de dinheiro: Comentários à Lei 9613/98. Curitiba: Juruá, 1999. p.

98.

117 Cf. MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 95.

118 MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 95-96.

119 MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 99.

Constata-se que os 3 (três) incisos presentes no § 1º, do art. 1º, representam tipicamente os negócios jurídicos de troca, movimentação, aquisição, transferência e outros.

Da mesma maneira, observa-se que é constante o aprimoramento dos criminosos, que se desenvolvem todos os dias, melhorando as formas de operações, dificultando o rastreamento da origem criminosa de seus ativos.120

Finalizando, William Terra de Oliveira e outros doutrinadores lembram que a conduta incriminada sempre é independente das infrações precedentes (o agente não necessita haver participado dos crimes antecedentes), existindo responsabilidades penais autônomas para quem lava dinheiro seu ou dos outros. O mesmo doutrinador expressa que se tem um novo crime, independente dos anteriores, e não mero exaurimento de crimes precedentes, sendo, inclusive, sugestivo criminalizar, como forma complementar, o favorecimento pessoal.121

O parágrafo segundo, do artigo 1º, assinala que:

[...]

§ 2º Incorre, ainda, na mesma pena quem:

I - utiliza, na atividade econômica ou financeira, bens, direitos ou valores que sabe serem provenientes de qualquer dos crimes antecedentes referidos neste artigo;

II - participa de grupo, associação ou escritório tendo conhecimento de que sua atividade principal ou secundária é dirigida à prática de crimes previstos nesta Lei.

Sobre as condutas do parágrafo segundo, Roberto Delmanto, Roberto Delmanto Júnior e Fábio M. de Almeida, asseveram que:

Os incisos I e II do § 2º do art. 1º da lei de Lavagem tratam de hipóteses bem diferenciadas, abrangendo uma gama maior de condutas que, a par de não se confundirem com a lavagem propriamente dita, prevista no caput e no § 1º, encontram-se, podemos dizer, ‘nos seus arredores’, antes e durante (inciso II), ou depois (inciso I), de lavado o produto do crime antecedente. 122

Nota-se que o inciso I, do § 2º, do artigo 1º, descreve algumas ações situadas em fases mais adiantadas do procedimento de lavagem, pois possuem ligação com a eficaz fruição dos valores ilegais adquiridos nas atividades ilícitas, previstas no caput do artigo.

Rodolfo Tigre Maia ainda comenta sobre o mesmo inciso:

Destacamos reiteradamente ao longo deste estudo que dentre os efeitos mais gravosos da ‘lavagem’ de dinheiro encontra-se a infiltração de dinheiro sujo (e, a fortiori, ganho de controle) na atividade econômica legítima. Para proteger o sistema financeiro e a ordem econômica, criou-se o presente inciso com intuito de coibir a etapa da integração e concomitantemente obstaculizar quaisquer outras variantes de

120 Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 335.

121 Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 335.

122 DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 562.

utilização (aproveitamento, aplicação, emprego etc.) de produtos (bens, direitos ou valores) resultantes dos ilícitos penais elencados no caput deste artigo, quer na esfera de produção, distribuição e circulação de bens (atividade econômica), quer no âmbito da captação, intermediação ou aplicação de valores (atividade financeira), não previstas nas variantes anteriormente enunciadas. 123

William Terra de Oliveira conclui que dada a especial consciência da ilicitude (taxativamente prevista no inciso), o tipo é o dolo direto em decorrência da expressão: “de que sabe serem provenientes de qualquer dos crimes antecedentes previstos neste artigo”.

Percebe-se que é necessário que o agente demonstre ter ciência da origem ilícita dos produtos e, ainda assim, introduza-os no sistema econômico.124

Tocante ao inciso II, o mesmo doutrinador em sua obra explica que “a última figura típica desenhada pela lei é derivada de uma forma especial de participação, ou, por assim dizer, da ampliação do conceito de autoria”.125

Observa-se que no inciso em questão o legislador procurou ir além da co-autoria, ou da mera participação. Acredita-se que tal inciso foi inserido para ampliar ao máximo o alcance da punição criminal, de forma a incluir todos aqueles que dificilmente seriam condenados como partícipes ou co-autores da lavagem.126

2.3.1 A tentativa e o aumento de pena

Explicita o § 3º, do artigo primeiro, da Lei: “§ 3º A tentativa é punida nos termos do parágrafo único do art. 14 do Código Penal”.

Acerca da inclusão do parágrafo terceiro, William Terra de Oliveira evidencia que:

“O dispositivo é redundante e desnecessário, uma vez que as regras da Parte Geral do Código Penal incidirem sobre a legislação penal especial, salvo disposição expressa em contrário [...]”.127

Damásio de Jesus concorda, aduzindo que tal disposição é prescindível, pois já se encontra no artigo 14, II, do Código Penal.128

123 MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 99-100.

124 Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 336-337.

125 CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 337.

126 Cf. DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 563.

127 CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 338-339.

128 JESUS, Damásio de. Ali-babá e o crime de lavagem de dinheiro, p. 28.

Mister concluir que a legislação de lavagem de dinheiro não deveria proceder tal menção, já que as regras da Parte Geral do Código Penal são aplicadas às leis especiais.

O § 4º, do artigo 1º, traz o seguinte aumento de pena: “§ 4º A pena será aumentada de um a dois terços, nos casos previstos nos incisos I a VI do caput deste artigo, se o crime for cometido de forma habitual ou por intermédio de organização criminosa”.

Na ocorrência dos incisos I a VI, se o crime ocorrer de maneira habitual (a habitualidade criminosa é diferente do crime habitual129) ou por intermédio de organização criminosa, a pena deve ser aumentada de um a 2/3 (dois terços).

Observa-se, que houve a exclusão os incisos VII e VIII. Sobre a incidência do § 4º e a exclusão dos 2 (dois) incisos, Roberto Delmanto e outros doutrinadores que compõe sua obra esclarecem que:

Quanto ao inciso VII, que já prevê a prática das condutas do caput do art. 1º ‘por organização criminosa’, o aumento de pena constituiria inadmissível bis in idem.

Ressalta-se, ainda, que inexiste definição legal do que seja organização criminosa, como já referido nos comentários àquele inciso; daí por que entendemos ser inaplicável nessa parte, enquanto não suprida a lacuna legal, o aumento deste § 4º.

No que tange ao inciso VIII (crimes contra a administração pública estrangeira), houve aparentemente lapso da Lei 10.467/02, que acrescentou este inciso ao caput do art. 1º, sem, contudo, alterar seu § 4º. Para que o aumento incida deverá haver prova segura da habitualidade da prática delituosa.130

A respeito da aplicação do § 4º, não destoa a jurisprudência:

Se o acusado investia na prática delituosa de lavagem de dinheiro de forma reiterada e freqüente, não há que se falar em constrangimento ilegal decorrente do aumento da reprimenda em razão da majorante da habitualidade.131

É de se esclarecer que o parágrafo em questão introduz a figura da reiteração criminosa, que é caracterizada pela atuação do criminoso habitual. Dessa forma, conclui que não se está diante do crime continuado, previsto no art. 71, do CP, mas sim a situações em que o agente, reiteradamente, de maneira habitual, encontra-se em dedicação ao delito, fazendo jus ao aumento de pena do parágrafo em apreço.132

129 Crime habitual é a reiteração da mesma conduta de forma a constituir um estilo de vida reprovável.

Exemplos: são o curandeirismo (art. 294 do CP) e o rufianismo. Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais: comentários à Lei 9.613/98, p. 339.

130 DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 565.

131 BRASIL. 5a Turma do Superior Tribunal de Justiça. Habeas Corpus 19.902, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Relator Ministro Gilson Dipp. Data de Julgamento: 17 de dez. de 2002. Data de Publicação: 10 de março de 2003. p. 256 apud DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 565.

132 Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 339-340.

2.3.2 A Colaboração Espontânea

Assim como a Lei dos Crimes Hediondos e a Lei do Crime Organizado, a Lei n.º 9.613/98 trouxe a colaboração espontânea como ferramenta do combate à lavagem de capitais. O artigo 1º, § 5º, estabelece que:

[...]

§ 5º A pena será reduzida de um a dois terços e começará a ser cumprida em regime aberto, podendo o juízo deixar de aplicá-la ou substituí-la por pena restritiva de direitos, se o autor, co-autor ou partícipe colaborar espontaneamente com as autoridades, prestando ao esclarecimento que conduzam à apuração das infrações penais e de sua autoria ou à localização dos bens, direitos ou valores objeto do crime.

Marcelo Batlouni Mendroni avalia a colaboração espontânea como um instituto que viabiliza a identificação dos principais agenciadores da lavagem de dinheiro, dos chefes das organizações criminosas, ou seja, dos responsáveis pela criminalidade. O mesmo autor salienta que tal dispositivo é merecedor de aplausos, por contemplar uma redução da reprimenda para quem colaborar de forma espontânea com as autoridades, prestando esclarecimentos que conduzam a uma efetiva apuração dos crimes.133

No que tange aos crimes de lavagem de valores, Marco Antônio de Barros salienta que, para que o agente do crime ou co-autor ou partícipe, possam desfrutar das benesses trazidas pela Lei, esses deverão prestar esclarecimentos que sejam realmente úteis à apuração e a autoria dos crimes. O mesmo autor destaca que a jurisprudência tem exigido que para conceder os benefícios da delação, tal colaboração seja espontânea e efetivamente produtiva para o sucesso a persecução criminal.134

A respeito do ‘prêmio’ da delação, Roberto Delmanto, Roberto Delmanto Júnior e Fábio M. de Almeida lembram:

Para os crimes de lavagem de dinheiro, possibilita-se ao juiz evitar que o delator ingresse nas prisões do falido sistema penitenciário brasileiro, concedendo-lhe o cumprimento da pena em regime aberto, a substituição por pena restritiva de direitos e, até mesmo, isenção de pena, diminuindo as chances de represália. O perdão judicial (isenção de pena), aliás, já era previsto pelo art. 13 da Lei nº 9.807/99 – Lei de Proteção às Vítimas, Testemunhas, Acusados e Condenados, embora de forma mais restrita, ou seja, limitando ao acusado primário, devendo ainda o juiz levar em consideração a sua personalidade, a natureza, circunstância, gravidade e repercussão social do fato criminoso, o que não é exigido, de forma inovadora, pelo § 5º do art.

1o da Lei de Lavagem de Dinheiro, ora comentada.135

133 Cf. MENDRONI, Marcelo Batlouni. Tópicos essenciais da lavagem de dinheiro, p. 486.

134 Cf. BARROS, Marco Antônio de. Lavagem de Capitais e Obrigações Civis Correlatas: com comentários, artigo por artigo, à Lei 9.613/98, p. 203.

135 DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 566.

Tocante essa possibilidade de prêmio à colaboração, Luiz Flávio Gomes manifesta-se contrário, aduzindo que trazer em lei que o delator merece recompensa é difundir uma cultura antivalorativa, mesmo que o valor perseguido seja o de combater crimes tão graves e de gigantescas conseqüências.136

Importante ressaltar o comentário de Denise Frossard a respeito do instituto em apreço. A autora leciona que com a intenção de pegar o ‘peixe maior’, o legislador pátrio concedeu ao agente, ao co-autor ou ao partícipe, que aquele que colaborar prontamente com a autoridade na apuração da autoria de materialidade dos crimes originários ou na localização dos bens, direitos e valores fruto da ação criminosa, elucidando as questões relativas ao crime, alguns benefícios consideráveis podem ser aplicados, como por exemplo, isenção da pena, substituição por pena restritiva de direitos, regime inicialmente aberto ou redução em até 2/3 (dois terços) da reprimenda.137

Conclui-se que a colaboração espontânea mostra-se como um interessante meio para ampliar a aplicação da Lei n.º 9.613/98, já que há uma enorme dificuldade na obtenção de provas para esse tipo penal. No entanto, acredita-se que as benesses concedidas aos colaboradores, como a isenção de pena e a redução de 2/3 (dois terços) da reprimenda, seriam recompensadoras demais, podendo ser utilizada, inclusive, como uma forma de saída para o criminoso sair impune.

2.3.3 Disposições processuais especiais

Sobre as disposições processuais especiais da Lei n.º 9.613/98, Rodolfo Tigre Maia observa:

A Lei de regência, aos moldes da legislação penal mais recente, contém um capítulo com preceptivos especiais de cunho processual penal. Reflexo da ingente necessidade de reforma de nosso vetusto Código de Processo Penal, tal opção tem conseqüência ao nível de eficácia temporal de seus preceptivos, assim como na órbita dos limites concedidos à sua exegese.138

Relativamente ao mesmo assunto Luiz Flávio Gomes salienta que o legislador precisa compreender a evolução do Estado de Direito para o Estado Constitucional de Direito, devendo, toda vez que for legislar, principalmente na esfera criminal, observar estritamente o

136 Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 348.

137 Cf. FROSSARD, Denise. A Lavagem de dinheiro e a lei brasileira, p. 26.

138 MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 108-109.

que já está constitucionalizado, seja direta ou indiretamente (tanto na Constituição, quanto em Tratados Internacionais), e completa:

Urge perceber que já existe um devido processo penal preestabelecido, consolidado.

E, no que se relaciona com sua parte rígida, nada pode fazer o legislador ordinário a não ser ampliá-la para facilitar melhor a fruição dos direitos fundamentais. Na elaboração da Lei 9613/98, lamentavelmente, uma vez mais e em vários dispositivos revelou o legislador ordinário, tal como veremos em seguida, sua pouca afeição com o proclamado Estado de Direito Constitucional.139

Da mesma forma, é relevante a crítica trazida por Marco Antônio de Barros, no qual explica que ao trazer as Disposições Processuais Especiais da Lei, o legislador admitiu que as normas estabelecidas no Código de Processo Penal não atendem mais as exigências das novas leis penais materiais.140

2.3.4 Ação Penal e Procedimento

O art. 2º, inciso I, da Lei n.º 9.613/98 preceitua que: “O processo e julgamento dos crimes previstos nesta Lei: I – obedecem às disposições relativas ao procedimento comum dos crimes punidos com reclusão, da competência do juiz singular”.

Diante disso, o procedimento a ser adotado é o ordinário, seguindo os artigos do Código de Processo Penal.

A ação penal, portanto, é sempre pública incondicionada, sendo privativa do Ministério Público, no entanto, cabível a ação privada se a pública não restar intentada no prazo legal (cinco dias se o réu estiver preso e quinze dias se estiver solto, contados da data do recebimento do inquérito por parte do MP).141

Rodolfo Tigre Maia assevera que:

O chamado rito ordinário dos crimes apenados com reclusão observa as etapas fixadas nos arts. 394 a 405 e 498 a 502, todos do Código de Processo Penal. A jurisprudência iterativa de nossas Cortes estabeleceu que no caso desse rito processual o prazo de conclusão da instrução será de 81 dias. De se ver, todavia, que este prazo não é rígido e imutável, podendo ser mitigado pelos influxos do princípio da razoabilidade.142

139 CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 353-354.

140 Cf. BARROS, Marco Antônio de. Lavagem de Capitais e Obrigações Civis Correlatas: com comentários, artigo por artigo, à Lei 9.613/98, p. 207.

141 Cf. BARROS, Marco Antônio de. . Lavagem de Capitais e Obrigações Civis Correlatas: com comentários, artigo por artigo, à Lei 9.613/98, p. 208.

142 MAIA, Rodolfo Tigre. Lavagem de dinheiro: Lavagem de ativos provenientes de crime – Anotações às disposições criminais da Lei n. 9613/98, p. 110.

Luis Flávio Gomes ainda lamenta a não previsão da chamada defesa preliminar, ou seja, a defesa anterior ao recebimento da denúncia, seguindo a regra dos crimes de competência originária, crimes contra funcionário público e outros.143

2.3.5 Autonomia do Processo

Está disposto no inciso II: “[...] independem do processo e julgamento dos crimes antecedentes referidos no artigo anterior, ainda que praticados em outro país”.

Sobre o inciso, Roberto Delmanto e outros justificam:

Dispõe este inciso II que o processo e julgamento dos crimes de lavagem de dinheiro (subseqüentes) independem do processo e julgamento dos crimes antecedentes previstos no art. 1º, ainda que praticados em outro país. Duas são as situações previstas: uma o processo por crime de lavagem, outra, o seu julgamento. Quanto ao primeiro (processo por crime de lavagem), embora não seja indispensável que haja prova conclusiva da existência do crime antecedente. Deverá o Ministério Público, portanto, indicar na denúncia pelo crime de lavagem às provas relativas ao delito antecedente, já que integrante do próprio tipo do art. 1º da Lei 9613/98, as quais hão de ser objeto da fundamentação do ato decisório de recebimento da denúncia, constitucionalmente determinada (art. 93, IX). Quanto ao segundo (julgamento do crime de lavagem), existindo processo penal autônomo em relação ao crime antecedente, deverá o juiz do processo por crime de lavagem aguardar o julgamento daquele, evitando-se o risco de proferimento de decisões contraditórias e até prejulgamento do delito antecedente, com prejuízo à defesa do acusado em relação a este último.144

O mesmo autor salienta que havendo absolvição do réu, (pelo crime antecedente) por sentença fundamentada no artigo 386, I, II, III e V145, do Código de Processo Penal ou se ocorrer abolitio criminis ou anistia do réu, não poderá haver a condenação por lavagem de dinheiro.146

Marco Antônio de Barros esclarece, por fim, que é precioso reconhecer que o inciso em questão proporciona um proveitoso efeito prático, ocorre quando o processo e julgamento do crime antecedente estiver sujeito à jurisdição de outro país, concluindo que a punição correspondente ao crime de lavagem de capitais não depende da condenação obrigatória dos sujeitos que perpetraram o crime antecedente.147

143 Cf. CERVINI, Raul; OLIVEIRA, William Terra de; GOMES, Luiz Flávio. Lei de lavagem de capitais:

comentários à Lei 9.613/98, p. 354.

144 DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 566-567.

145 Art. 386, CPP: “I – estar provada a inexistência do fato; II – não haver prova da existência do fato; III – não constituir o fato infração penal”; V (primeira parte) – “existir circunstância que exclua o crime [...]”.

146 Cf. DELMANTO, Roberto; DELMANTO JÚNIOR, Roberto; DELMANTO, Fábio M. de Almeida. Leis Penais Especiais Comentadas, p. 567.

147 Cf. BARROS, Marco Antônio de. Lavagem de Capitais e Obrigações Civis Correlatas: com comentários, artigo por artigo, à Lei 9.613/98, p. 211.

No documento LAVAGEM DE DINHEIRO - Univali (páginas 46-62)

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