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Outros componentes da crise de governabilidade

consideradas como elemento interpretativo da realidade dos fatos, a ponto de justificar a atitude de algumas das partes envolvidas no debate em torno da mudança climática.

2.3.5 Outros componentes da crise de governabilidade

Os interesses, culturais e econômicos, que unem determinados países hegemônicos e, por outro lado, afastam outros tantos, são indicativos da crise paradigmática por que passa a sociedade contemporânea, orientada por valores individualistas.

A representação dessa crise se aproxima das ciências sociais e humanas como variável explicativa e determina a necessária reflexão em termos de comportamento.

Para Marcelo Luiz Pelizzoli (1999, p. 64), “a supressão da noção do ambiente orgânico, [...], supressão da noção sociocultural aí imbricada, e diante dos processos de produção de conhecimento e transmissão do saber na base do chamado ‘conhecimento objetivo e científico’” agrava a crise paradigmática existente, especialmente porque o “comportamento competitivo e a auto-afirmação individual são entronizadas como mérito e sucesso na sociedade contemporânea, enquanto que a criatividade, o questionamento crítico, a defesa dos excluídos ou a cooperação, não causam alarde”.

Essa crise paradigmática foi reproduzida no I Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, realizado no Convento de Arrábia, Portugal, de 2 a 6 de novembro de 1994, cujas conclusões foram resumidas na Carta da Transdisciplinaridade, citadas por Moacir Gadotti (2000, p. 49) e indicam que a “vida está fortemente ameaçada por uma tecno-ciência triunfante que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia pela eficácia”.

As dificuldades relacionadas ao enfrentamento dos problemas advindos da mudança do clima, atualmente verificadas e amplamente noticiadas, são o reflexo da crise de governabilidade, haja vista as grandes divergências e os interesses nada solidários manifestados pelas partes.

Uma agenda de ações efetivas voltadas para o bem comum, ou a análise, sob este enfoque, dos entendimentos já havidos, é condição indispensável para que não ocorra o declínio isolado de nações soberanas.

Para Eduardo Viola (2002, p. 04):

Se até a década de 1970 todos os Estados importantes, agindo em interesse próprio, eram capazes de solucionar, seja pela conciliação, seja pela imposição, a maioria de suas disputas com outros Estados, sem prejuízo de sua soberania, a partir da década de 1980 ocorreu uma perda diferenciada de autonomia de quase todos eles (com a única exceção dos Estados Unidos) e uma necessidade cada vez maior de cooperação internacional, o que exige muita flexibilidade nas negociações. O benefício coletivo exige cada vez mais ações que contrariam os interesses de cada Estado individual. A formação de regimes internacionais econômicos, de segurança e ambientais passa a impor algumas restrições à soberania da grande maioria dos Estados.

Em resumo, a forma como os efeitos da globalização, no seu enfoque mais amplo, relacionados à comunicação, produção, consumo, transferência de tecnologias, riscos ambientais, econômicos e sociais, atingem as nações, assim como a reação a estes efeitos, constituem os ingredientes da crise de governabilidade que se pretende demonstrar.

Da análise de Jurgen Habermas (1995, p. 03) resulta que:

A globalização do trânsito e da comunicação, da produção econômica e de seu financiamento, da transferência de tecnologia e poderio bélico, em especial dos riscos militares e ecológicos, tudo isso nos coloca em face de problemas que não se podem mais resolver no âmbito dos Estados Nacionais, nem pela via habitual do acordo entre Estados soberanos.

O processo de mudança climática, na linha da evolução histórica apresentada no primeiro capítulo do presente trabalho, foi fator determinante do processo de reconhecimento da crise de governabilidade, pautada

pela defesa de interesses nacionais quando os problemas que atingem a humanidade não reconhecem fronteiras territoriais.

Importante relato sobre a crise de governabilidade é apresentado por Gilberto Montibeller Filho (2001, p. 15), ao referir-se sobre os problemas ambientais mundiais, o avanço da doutrina econômica do capitalismo e a defesa de interesses nacionais. Na análise do autor:

A Eco-92, com o seu concomitante Fórum Global, foi, até hoje, o maior dos rituais de integração das elites transnacionais que, naquele momento pós- muro de Berlim e fim da União Soviética, procuravam situar-se em um mundo pós-Guerra Fria, em que um capitalismo triunfante anunciava a força avassaladora da ‘globalização’ (em vários sentidos um novo metarrelato imperialista) e o fim das utopias socialistas. A Eco-92 representou o auge da força do ambientalismo mundial e do impacto da noção de desenvolvimento sustentável. Porém, a eficácia da ideologia/utopia do desenvolvimento sustentável, como motor de alianças heterodoxas, parece estar minguando em face, sobretudo, da extrema normatização, institucionalização e rotinização burocrática de suas proposições e -poderíamos aduzir - da sua transformação em um campo específico de poder em que vários interesses políticos e econômicos são definidos, inclusive com a participação, em alguns casos cooptação, de várias ONG’s e suas lideranças.

O avanço da ciência, a velocidade das transformações sociais, econômicas, culturais e políticas do pós-Segunda Guerra não determinaram, com a mesma rapidez, o correspondente e necessário aprimoramento-fortalecimento das instituições, especialmente em nível supra-nacional. Regra geral, os Estados estabelecem suas prioridades e, em razão do poder econômico, obtêm em nível internacional posição de liderança na formatação de quaisquer diplomas tendentes à resolução de questões globais.

A despeito da intenção manifestada por diversas nações no plano político dos acordos e debates internacionais relacionados à questão do meio ambiente, da qual é exemplo o problema da mudança climática, na linha da cooperação e da busca pelo “desenvolvimento sustentável”, a prática demonstra que outros Estados, sob o manto da soberania, buscam assegurar politicamente o máximo de vantagens em todos os aspectos, notadamente em termos de exploração de recursos naturais (MONTIBELLER FILHO, 2001, p. 39).

Vê-se, portanto, evidências a indicar que o princípio ambientalista fundamental da cooperação entre países, em questões que prejudiquem interesses de um, não é a tônica. Pelo contrário, o mais freqüentemente observado é o país com força política procurar posicionar-se estrategicamente para continuar usufruindo (sem a devida compensação) dos bens e serviços ambientais oferecidos pelos mais fracos e para desfrutar das oportunidades econômicas potenciais abertas pelo ambientalismo. O primeiro caso pode ser ilustrado com o comportamento reticente dos Estados Unidos em relação aos tratados da biodiversidade; o segundo com a política alemã de desenvolvimento de ecotecnologias e de fechamento de suas fronteiras através de leis ambientalistas de importações (ecoprotecionismo) (MONTIBELLER FILHO, 2001, p. 41).

A política norte-americana relativa a questões climáticas, no que respeita a sua adesão ao Protocolo de Quioto, é também exemplo doutrinário dessa tendência de dominação que espelha de certa forma a crise de governabilidade em comento. Nesse ambiente de crise, entretanto, não é só a posição norte-americana que está a evidenciar a intransigência na defesa de interesses nacionais, eis que tal consideração também pode ser extraída da posição brasileira, como anteriormente analisada. Em rigor, o Brasil preocupa-se com sua condição de país hospedeiro da Floresta Amazônica e de economia em estágio intermediário de desenvolvimento.

Roberto Guimarães (1992, p. 21), fazendo alusão ao modelo de desenvolvimento adotado como padrão global e tido como prioridade das diversas nações, dentro de seus limites territoriais, “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”, sobre a questão da crise de governabilidade arremata:

A manifestação mais evidente da crise atual é, sem dúvida, o fato de vivermos numa era de ‘escassez’ de recursos, de dificuldades de expansão da base econômica das sociedades nacionais, de saturação dos depósitos para armazenar ou eliminar os rejeitos da sociedade industrial e, sobretudo, de fragilidade das instituições locais, regionais e mundiais para enfrentar os desafios colocados por essa crise. Uma crise que é, na verdade, ecológica (esgotamento progressivo da base de recursos naturais) e ambiental (reeducação da capacidade de recuperação dos ecossistemas). Mas uma crise que é também político-institucional, diretamente relacionada com os sistemas de poder para posse, distribuição e uso dos recursos das sociedades, a qual, em última instância, determina a situação de escassez absoluta (esgotamento do estoque de recursos) ou relativa (padrões insustentáveis de consumo ou iniqüidade no acesso a eles).

Alguns autores, como os citados a seguir, atribuem ao capitalismo a causa principal da crise mundial do meio ambiente, na exata proporção de sua despreocupação com a variável ambiental.

Solange S. Silva-Sánchez (2000, p. 32) aduz que a desigualdade, gerada pelo capitalismo, é o maior problema enfrentado pela humanidade, uma vez que da “cultura” de exploração desmedida dos recursos do meio ambiente natural, vital ao crescimento das economias de mercado, derivam os riscos ecológicos relacionados à poluição dos mares, ao efeito estufa e à destruição de florestas.

Gilberto Montibeller Filho (2001, p. 278), por sua vez, é taxativo em afirmar que o desenvolvimento sustentável, transformado em objetivo maior da humanidade, não pode ser alcançado sem a mudança do paradigma capitalista dominante na economia. Para o autor, o aumento da produção e do consumo, típicos do capitalismo, impõem a degradação ambiental e a exaustão dos recursos naturais, especialmente nos países ricos dominados pelo consumismo individualista.

Em relação à crise ambiental como fator integrante da própria estrutura do modelo capitalista, por representar ingrediente importante na minimização dos custos, Gilberto Montibeller Filho (2001, p. 279) preleciona:

Constata-se, com efeito, que os custos sociais representam fontes de acumulação do capital, no sentido de que sua não internalização pela empresa livra-a da redução, por este ângulo, da taxa de lucro. Deste modo, os custos ambientais são essenciais ao capitalismo, do mesmo modo que o é o custo social representado pela parcela de trabalho não pago da força de trabalho. Por isso o capital resiste a assumi-los.

Carlos Gabaglia Penna (1999, p. 45), seguindo na mesma temática de sedimentação da crise ambiental, aponta como características da sociedade capitalista moderna - esta afastada de princípios éticos e dos valores humanos, com reflexos na exploração de recursos naturais - a explosão do consumo após a Revolução Industrial e, na mesma esteira, o desperdício, a ideologia do conforto, o culto das necessidades, a obsessão pela riqueza, o egoísmo, a frivolidade, entre outros.

Com outro enfoque, José Rubens Morato Leite (2004, p. 101), refere-se à sociedade de risco como representação do modelo contemporâneo de organização social e que a ciência não consegue legitimar o processo de tomada de decisão política para a solução da crise ambiental, em face das dificuldades de compreensão dos problemas ambientais enfrentados e até mesmo do desconhecimento desses problemas (risco abstrato). Nas palavras do próprio autor:

Nota-se que o dano ambiental tem condições de projetar seus efeitos no tempo sem haver uma certeza e um controle de seu grau de periculosidade.

Pode-se citar como exemplos: Os danos anônimos (impossibilidade de conhecimento atual), cumulativos, invisíveis, efeito estufa, chuva ácida, entre muitos outros. Toda essa proliferação das situações de risco acaba por vitimizar não só a geração presente, como também as futuras (LEITE, 2004, p. 103).

Essa abordagem da crise, patrocinada por José Rubens Morato Leite (2003, p. 23), que agrega ainda críticas profundas ao industrialismo e ao modelo clássico de desenvolvimento, pautado pelo consumo, acúmulo de capital e produção de riquezas, é importante para a compreensão da necessidade de inclusão da variável ambiental no processo de produção do conhecimento multidisciplinar. Ao mesmo tempo, ajuda a compreender o caráter democrático e representativo do MDL nesse cenário.

A sociedade de riscos globais não é uma sociedade tipicamente definida e gerida por cientistas e especialistas, os quais perderam seu espaço privilegiado de participação e administração dos conflitos ante a emergência do conjunto de conflitos diferenciados oriundos do desenvolvimento da crise ecológica, especialmente agravada pela acentuada exploração tecnológica da biodiversidade (LEITE; AYALA, 2004, p. 122).

James Gustave Speth (2005, p. 30), abordando as características da crise global, em comparação com as crises nacionais, de mais fácil solução, afirma que os problemas globais são de difícil compreensão pela opinião pública. Em razão de sua fluidez e distanciamento do cotidiano, as soluções são estabelecidas pela ciência e por acordos e decisões de cima para baixo e, não raro, são obstadas pelo manto da soberania de países hegemônicos, resultado de resistências e oposições “poderosas” de “corporações” com interesses ameaçados.

Enfim, estabelece-se a ambigüidade como a marca dessa crise global.

Por fim, o sentimento de impotência em face da resistência demonstrada por importantes nações quanto ao esforço de mudança climática determina a lentidão na obtenção dos resultados decorrentes dos acordos internacionais pactuados, acentuando o ambiente de crise.

Daniel C. Esty e Maria H. Ivanova (2005, p. 209) definem a crise ambiental global a partir dos seguintes aspectos: ausência de jurisdição, falta de informação e inexistência de instrumentos de atuação prática. Afirmam os autores que os desafios ambientais exigem ação coletiva em nível global, mas não há fórum de debates apropriado, eficiente e permanente, com o objetivo de idealizar planos de ações concretas. Regra geral, predomina o interesse econômico de curto prazo em meio a um “histórico de imperfeições administrativas e embaraços burocráticos”.

Não obstante a caracterização da crise ambiental, sob várias formas e por um prisma muitas vezes pessimista, impera ainda o entusiasmo e a esperança. É latente a potencialidade dos instrumentos já à disposição das pessoas, instituições governamentais e não-governamentais capazes de, mesmo não resolvendo todos os males, assegurar uma melhor qualidade de vida às gerações atuais e futuras.