CAPÍTULO 2: AS GRANDES GUERRAS E SUAS TRANSFORMAÇÕES NA
2.2 A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
2.2.1 A geopolítica da “Grande Guerra”
O que chama a atenção de qualquer estudioso sobre os conflitos mundiais, em especial o caso da Primeira Grande Guerra, é a configuração geopolítica européia da época. Marcada como nunca antes por uma “balança” entre as potências mundiais em torno do poderio industrial e do imperialismo colonial, convertidos em questões de soberania entre os estados, conduzindo-os a formação de alianças militares. Em nenhum outro conflito, as cartas haviam sido postas de maneira peculiar e de forma tão explícita. A Europa, não só nos gabinetes dos chefes de estado, mas no seio da própria opinião pública, parecia rogar pela guerra.
A interpretação hegemônica desse fato atribui as causas da Primeira Guerra Mundial, principalmente, ao denominado “equilíbrio de poder”. Utilizado, segundo Joseph Nye Jr.
(2002) para descrever situações históricas multipolares, como a ocorrida na Europa no século XIX e início do XX.
A estrutura do equilíbrio de poder europeu do século XIX mudou perto do final do século. De 1815 a 1870, cinco grandes potências alteraram frequentemente as alianças para impedir qualquer uma delas de dominar o Continente. De 1870 a 1907 existiram seis potências, após a unificação da Alemanha e da Itália, mas o crescente poder da Alemanha conduziu eventualmente a problemas que provocaram o fim do sistema. Ao longo dos sete anos seguintes, os dois sistemas de alianças, a Tripla Entente (Grã- Bretanha, França e Rússia) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália), polarizaram-se em blocos rígidos cuja perda de flexibilidade contribuiu para o início da Primeira Guerra Mundial. (NYE JR., 2002, p. 79)
Ainda, segundo o autor, entre 1870 e 1890, a Europa viveu sobre o “equilíbrio de poder bismarckiano”. Quando a Alemanha, liderada pela Prússia, com a figura carismática de Bismarck, variou nas parcerias e alianças, desviando as atenções francesas sobre a província perdida da Alsacia-Lorena para disputas imperialistas de ultramar. Porém, com a inflexibilidade de seus sucessores, que não renovaram o tratado com a Rússia, e com a radicalização do imperialismo ultramarino, a ponto de desafiar a hegemonia naval britânica.
Além da incapacidade de frear pretensões da Áustria em suas escaramurças com a Rússia em torno do domínio nos Bálcãs, teriam conduzido a Europa a um nível de polarização que a conduziu a guerra. “O que tinha sido anteriormente um sistema de alianças fluido e multipolar evoluiu gradualmente para dois blocos de alianças, com pretensões perigosas para a paz européia.” (NYE JR., 2002, p. 81)
Tais alianças são definidas como “arranjos formais ou informais que os estados soberanos celebram uns com os outros de modo a assegurar a sua segurança mútua.” (NYE JR., 2002, p. 80)
Segundo Araripe (2006), os acordos birmarckianos se iniciaram com a aliança defensiva com a Áustria-Hungria em 1889, que contou com a adesão italiana três anos depois, formando a Tríplice Aliança. E com a Rússia, assinou o Tratado de Ressegurança em 1887, que estabelecia a promessa de neutralidade entre os países em caso de envolvimento de um deles com um terceiro. Exceto no caso de ataque alemão à França, ou russo à Áustria, tratado esse não renovado posteriormente por Guilherme II. E em contrapartida:
[...] a França lançou-se a intenso trabalho diplomático, e em 1892-93, assinou o Tratado de Aliança Franco-Russo. Em seguida, acertou suas pendências coloniais com a Grã-Bretanha na África, e em 1894 os dois países celebram a chamada Entente Cordiale. Em 1907, Grã-Bretanha e Rússia uniram-se por um tratado. Estava constituída a Tríplice Entente.
(ARARIPE, 2006, p. 320)
O próximo mapa apresenta a divisão da Europa segundo as políticas de aliança entre as potências e os territórios coloniais que a Alemanha possuía na África, às vésperas da Eclosão do conflito.
Mapa 09
Fonte: VICENTINO, Cláudio. História para o ensino médio: história geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2005. p. 384.
Fazendo jus à definição há pouco apresentada das alianças como sendo “formais ou informais”, segundo Araripe (2006), tal processo ainda contou com acordos até mesmo duvidosos, bilaterais e secretos entre membros de alianças opostas, como a que envolvia a Itália e a França, tratando de promessas de concessões territoriais futuras, colocando os italianos numa posição um tanto volúvel no conflito que se desenhava.
Além desses, cabe ressaltar a presença do Império Turco-Otomano, que segundo Araripe (2006), já sofria desde o século XIX com um processo de perdas territoriais, relacionadas a movimentos de independência. Tais movimentos, em grande medida, apoiados pela Rússia, líder do chamado “pan-eslavismo”, interessada ainda no controle do estreito de Dardanelos, em mãos otomanas, e consequentemente o acesso ao Mediterrâneo. Portanto, mais um ator com seus interesses no conflito, ao qual ingressaria ao lado das Potências Centrais.
Buscando explicitar melhor a situação do equilíbrio de poder europeu, Joseph Nye Jr.(2002) aponta que o nível estrutural que desencadeou o conflito, contava com dois elementos determinantes. O primeiro teria sido o crescimento do poder alemão, tendo a sua indústria pesada superado a britânica em 1890, e um PNB, que no início do século XX já
chegava ao dobro da Grã-Bretanha. E, principalmente, o que teria deixado os britânicos mais temerosos, a capacidade alemã de converter a sua força industrial em poderio militar. Com destaque para indústria naval, chegando a possuir a segunda marinha de guerra do mundo.
Onde, segundo Araripe (2006) tais investimentos teriam sido excitados pelo pensamento geopolítico da época, influenciado pela obra The Influence of Sea Power upon History (A Influência do Poder Naval na História), de autoria do almirante americano Alfred Thayer Mahan (1840-1914), apontando o caráter estratégico do domínio dos mares, incluindo suas rotas comerciais, para as nações hegemônicas.
Nye Jr. (2002) demonstra que devido às conseqüências desse primeiro elemento, que teria sido a resposta britânica aliando-se à França, e à Rússia, abdicando de certo isolamento.
Teria desencadeado no segundo elemento estrutural, que é o sistema de alianças, com a sua rigidez, perdendo-se a flexibilidade diplomática.
Somado a isso, o autor aponta o papel desempenhado pelo crescente nacionalismo.
“Na Europa de Leste existia um movimento apelando à união de todos os povos eslavos. O pan-eslavismo ameaçava tanto o Império Otomano como o Austro-Hungaro, que possuíam vastas populações eslavas.”(NYE JR., 2002, p. 85)
E foi justamente imerso em sentimentos nacionalistas que “Em 28 de julho de 1914, em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegóvina, o estudante bósnio Gavrilo Princip matou a tiros o sucessor do trono da monarquia Austro-Húngara e sua mulher.”(ARARIPE, 2006, p. 319) Por vezes, erroneamente atribuído como a causa da guerra, na verdade somente seu estopim.
Quando os desdobramentos das retaliações ao atentado desencadearam um conflito que arrastara ao embate as nações européias, conforme o sistema de alianças estabelecido.
Dessa forma Nye Jr. defende a idéia que:
Na Primeira Guerra Mundial, as causas profundas foram as mudanças na estrutura do equilíbrio de poder e determinados aspectos dos sistemas políticos internos. Razões especialmente importantes foram o crescimento do poder alemão, o desenvolvimento de um sistema de alianças bipolar, a ascensão do nacionalismo, e a resultante destruição de dois impérios em declínio, e a política alemã. As causas intermédias foram a diplomacia alemã, o crescimento da complacência em relação à paz e as idiossincracias pessoais dos líderes. A causa precipitante foi o assassinato de Francisco Ferdinando em Sarajevo por um terrorista sérvio. (NYE JR., 2002, p. 91)
John Mearsheimer (2007) ainda aponta desdobramentos de outros conflitos envolvendo potências européias no início do século XX e o conseqüente desequilíbrio
ocasionado por eles, como tendo sido fundamentais para a configuração das alianças como se formaram. Tais conflitos são elevados até mesmo à condição de determinantes centrais do processo. Ao invés da consolidação dessas alianças terem sido puramente algum risco potencial que algum comportamento belicoso alemão causara. Como salienta Mearsheimer.
[...] o elemento central na base da decisão do Reino Unido de formar essa aliança tripartida foi a derrota esmagadora da Rússia na guerra entre a Rússia e o Japão (1904-1905), o que teve pouco haver com o comportamento alemão. A Rússia foi, de facto, eliminada do equilíbrio de poder europeu com essa derrota, o que representava uma súbita e dramática melhoria na posição de poder da Alemanha no continente. Os dirigentes britânicos reconheceram que a França, por si só, provavelmente não sairia bem numa guerra com a Alemanha, pelo que se aliaram à França e à Rússia de modo a rectificarem o equilíbrio e a conterem a Alemanha. Em suma, a razão principal da Tripla Entente não foi o comportamento alemão, mas as alterações na arquitectura do sistema europeu. (MEARSHEIMER, 2007, p.
211)
Por fim, em relação à entrada dos Estados Unidos, que contribui para pender a balança para o lado da Entente, Nye Jr. (2002) aponta dois erros estratégicos alemães, como tendo sido precipitantes: um teria sido a investida de submarinos alemães contra a marinha mercante Aliada e americana, prejudicando as relações comerciais entre estes países; e a outro foi o telegrama Zimmerman, que se baseava numa instrução à embaixada alemã no México, para buscar atiçar problemas neste país contra os Estados Unidos, levando os norte-americanos a considerarem tal atitude como hostil.
O resultado desses erros estratégicos acabou sendo decisivo para o final da Grande Guerra que hoje conhecemos, pois:
[...] a Alemanha quase venceu a subseqüente guerra de desgaste entre 1915 e 1918. Os exércitos do Kaiser eliminaram a Rússia da guerra no Outono de 1917 e tinham os exércitos britânicos e especialmente o francês à beira da derrota na Primavera de 1918. Se não tivesse sido a intervenção americana no último momento, a Alemanha poderia ter ganho a Primeira Guerra Mundial. (MEARSHEIMER, 2007, p. 211)
Contudo, diante de um contexto em que o arranjo geopolítico de equilíbrio de poder na Europa não dava mais conta de garantir a paz no continente, num momento em que as potências imperialistas européias projetavam seus interesses de ultramar, e quando surgem novos atores no cenário mundial, na posição de entes hegemônicos, estoura-se a “Grande Guerra”, e com ela a lição deixada de que mesmo permanecendo anárquico, o sistema internacional, precisaria de mecanismos institucionais, capazes de assegurar um
relacionamento mais harmônico entre as nações e de diminuir a propensão a conflitos tão drásticos, embora tal tentativa tenha também fracassado.