TEMPOS PÓS-MODERNOS E NIILISMO
2.1. PÓS-MODERNIDADE E NIILISMO RADICAL
2.1.1. Pós-modernidade radical
276 Cf. id. “Dios es inútil”, Cf. id 15-52.
277 Id., “El colapso de sujeto”, p. 104.
278 Cf. MENDOZA ÁLVAREZ, “Teología y razón”, p.137.
279 Cf. id., De forma geral, Carlos Mendoza afirma tratar-se do “reino do equívoco” e, como qualquer outro contexto, ambíguo, pois sob o pretexto do pluralismo aparecem as mais diferentes reivindicações sociais em fórum público. E, sob o mote da diversidade se justificam tanto os sistemas autoritários quanto o direito das minorias.
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“La modernidad nacida de la Ilustración llego por fin a la conciencia de sus propios límites”280, eis aqui o limiar da pós-modernidade do qual emerge uma racionalidade crítica em relação à modernidade ilustrada. Essa crítica se dirige, sobretudo, à versão técnico-científica que desencadeou o caos planetário e ecológico, um caos que coloca em risco o futuro da humanidade e do planeta. Faz-se necessária uma consciência – ou melhor, autoconsciência – de suas potências de experiência e de seus limites. Longe de renunciar às conquistas da modernidade, o que se busca é uma consciência voltada para o seu próprio ultrapassamento, capaz de suscitar uma nova maneira de ser-no-mundo281.
Essa nova racionalidade se inscreve na vertente teórica da secularização, que assume uma “aproximação negativa à trascendencia” como consequência da crítica à ontoteologia e, também, sublinha o aspecto apofático e mistérico da liberdade e da inteligência humana.
Diferente da modernidade técnico-científica presa em sua imanentização, o pensamento pós- moderno se abre, assim, à possibilidade de um horizonte último do real282.
Isso significa que a pós-modernidade aceita a ideia de uma transcendência como o
“fondo inasible de lo real”, por onde se vislumbra a eternidade. Sob essa racionalidade, a
“religação com a transcendência” acontece a partir de outra ordem de existência, ligada à fonte do ser. Nesse sentido, conclui o teólogo mexicano:
La trascendencia deviene así el correlato filosófico de la vida divina que las religiones y sabidurías espirituales de la humanidad celebraron como presente y actuante en lo secreto de la subjetividad y en el corazón de la historia, para llevarla a su plenitud como redención283.
Para essa pós-modernidade não é possível compreender a crise de sentido renunciando a sua origem fundadora – o cristianismo. Por isso, serão fundamentais a assunção deste transfundo cristão da civilização ocidental e a radicalização extrema da lógica da secularização284. Essa radicalização conduzirá a uma interpretação da secularização do Ocidente como a realização do próprio cristianismo. Nesse sentido, autores como J. Derrida, G. Vattimo, J-L Nancy, M. Corbí, R. Girard e G. Agamben serão as maiores referências do teólogo mexicano. Assim, a pós-modernidade se apresenta como uma:
280 Id., El Dios escondido, p.165.
281 Cf. MENDOZA ÁLVAREZ, El Dios escondido, p.165-166.
282 Cf. id., “Entre el nihilismo”, p. 21.
283 Id., Deus ineffabilis, p. 482 (Glossário).
284 Cf. id., “La crisis de la religión”, p. 15-16.
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Corriente de pensamiento y acción de corte más existencialista, no renuncia al trasfondo cristiano de la sociedad occidental, sino que lleva a su último reducto la autonomía de la creación deseada por el Creador, rechazando todo intervencionismo divino en la historia y afirmando el reino de la libertad humana como el destino manifiesto de la humanidad inscrito en el designio libérrimo del Dios creador285.
Importa tomar ciência de que, nascida da desconstrução de Jacques Derrida286, essa pós-modernidade radical não pode ser entendida como apelo a “ininteligibilidade do discurso”; antes postula o seu horizonte provisório e agônico com o objetivo de justificar o sem-sentido que caracteriza toda representação. Ela busca enfatizar o vislumbre do sentido não cumprido, como o non-sens de Jean-Luc Nancy. Portanto, essa nova racionalidade implica a “desmontagem das estruturas linguísticas e pragmáticas” e a desconstrução dos
“sistemas de referências”287, visto que a linguagem e a ação são as portadoras por excelência dos sistemas de referência. De modo que:
Este método deconstructivo se aplica, en primer lugar, al lenguaje, pero también a la acción y, al fin y al cabo, a los símbolos mismos, que son portadores de una dimensión metarracional que incluye la emoción, el sentimiento y la intuición. En este sentido, la religión también está en la mira de la deconstrucción nihilista, en tanto que representa la expresión extrema del sistema de totalidad288.
Nesta perspectiva, Carlos Mendoza salienta que todos os sistemas fechados deverão passar pela desconstrução, inclusive a religião. E, de modo radical, a desconstrução aparece para o cristianismo como um imperativo “ético”, “ontológico” e “epistemológico”289. A respeito dessa desconstrução do cristianismo, retornar-se no próximo capítulo. Importa ressaltar a crítica da racionalidade pós-moderna dirigida a todo sistema de totalidade.
Agindo assim, essa racionalidade põe em questão a “pretensão de absoluto”, a
“intencionalidade de sentido” e o “desejo de onipotência” que subjaz a toda estrutura de significação290, e ao mesmo tempo conclama a permanente vigília para não cair nessas
285 Ibid., p. 15-16.
286 Id., El Dios escondido, p.81.
287 MENDOZA ÁLVAREZ, El Dios escondido, p. 301-302.
288 Ibid., p. 177.
289 Id., “Sobre el rebasamiento”, Cf. id 41-55 .
290 Cf. id., El Dios escondido, Cf. id176-177.
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mesmas armadilhas da racionalidade ilustrada. Por isso, não “por capricho o azar el pathos posmoderno es nihilista”291.
Se trata, en efecto, de renunciar al fundamento, al sentido, al significado, en un cierto nihilismo originario que nos hace tomar distancia de toda idolatria del concepto, de la máquina o de la religión. No por el placer del relativismo [...] sino por mor de reconocimiento de la finitude del lenguaje y de los símbolos, de las doctrinas y de las instituciones292.
Esse niilismo permite à subjetividade permanecer no “umbral prediscursivo del acontecer originario mismo”, contra a “idolatria do conceito”293. Será essa nova racionalidade que o teólogo mexicano assume como ponto de partida para interpretar o “sentido salvífico do real”294. A sua acepção ao termo “pós-moderno” está condensada em quatro características principais: a crítica aos sistemas de totalidade295, que implica a sua desconstrução; a consciência da superação da religião sacrificial; a gramática da gratuidade, capaz de instaurar outra ordem de existência; e o despertar da subjetividade extrema como possibilidade de esperança para toda a humanidade296.
Para o teólogo mexicano, todas essas características da pós-modernidade representam as principais problemáticas para a teologia fundamental pós-moderna, disciplina esta responsável pelas “fundações da fides, preâmbulo e metadiscurso” da incorporação a Cristo e, concomitantemente, de toda a experiência de vulnerabilidade assumida297. Desta maneira, a pós-modernidade se tornará o terreno fecundo para o frei dominicano pensar a relevância e a pertinência da fé cristã em tempos de fragmentos. E assim, de maneira inédita no Continente Latino Americano, o niilismo pós-moderno será assumido como locus theologicus.
Enfim, todo o percurso que será descrito aqui não é outra coisa senão uma hermenêutica da subjetividade vulnerável pós-moderna. Uma hermenêutica que viabilize os processos de superação da rivalidade e, desta forma, coloque em evidência a heurística da graça de Cristo como “gratuidade que capacita para a reconciliação”298. Importa, porém, recordar que a reconciliação é o horizonte que possibilita pensar a construção do espaço
291 Id., Deus ineffabilis, p. 46 (versão oficial).
292 Cf. id., “De la subjetividad moderna”, p..
293 Ibid., p.
294 Id., “Teología de reconciliación”, p. 199-212.
295 Cf. MENDOZA ÁLVAREZ, El Dios escondido, p. 90. A racionalidade pós-moderna se pronuncia contra todo tipo de sociedades de exclusão, seja o Estado, o exército, as igrejas, as escolas, etc.
296 Cf. ibid., p.300.
297 Cf. ibid., p. 300 (grifo autor).
298 Id., “Teología de la reconciliación”, p. 199-212..
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intersubjetivo como lugar do mútuo reconhecimento na diferença, lugar da transcendência divina. Horizonte sempre diferido na história, mas imaginado pelos justos e vítimas perdoadoras, porque são essas pessoas que apostam numa existência niilista de “frente para o nada”299, sem objetivação e coisificação do real.