• Nenhum resultado encontrado

Em 1960, no prefácio da primeira edição em inglês deste volume de ensaios, Mises escreveu: "Eles representam ... o estudo preliminar neces- sário para o escrutínio completo dos problemas envolvidos, como tentei fornecer em meu livro Ação Humana: Um Tratado de Economia”.

Esta breve indicação da posição que esses ensaios ocupam na evo- lução do pensamento de Mises é certamente útil. É fácil ver, por exemplo, que o primeiro ensaio "A TAREFA E O ESCOPO DA CIÊNCIA DA AÇÃO HUMANA"

— que não havia sido publicado antes de 1933, data da edição alemã do volume — é na verdade um extenso esboço das ideias principais metodo- lógicas da Parte Um do Ação Humana.

A maioria dos outros ensaios apareceu originalmente em periódi- cos alemães dedicados às ciências sociais no final dos anos 1920. Neles, o teor crítico é evidente. Em uma série de incursões dirigidas contra posi- ções metodológicas rivais, Mises tenta salvaguardar seu próprio edifício, ainda em construção. Como ele disse em 1960:

A fim de examinar a legitimidade de todas essas objeções, parecia-me imperativo não apenas demonstrar positiva- mente o caráter lógico das proposições da economia e da sociologia, mas também avaliar criticamente os ensina- mentos de alguns representantes do historicismo, empi- rismo e irracionalismo. Isso, necessariamente, determi- nou a forma externa de meu trabalho. Está dividido em vários ensaios independentes que, com exceção do pri- meiro e mais abrangente, foram publicados anterior- mente. Desde o início, porém, foram concebidos e plane- jados como partes de um todo.

Quase meio século se passou desde que esses ensaios viram a luz do dia. Para apreciá-los, devemos lembrar não apenas as circunstâncias

da época em que foram escritos, mas também a própria posição e tempe- ramento de Mises como um homem de ideias.

Os ensaios foram escritos nos últimos anos da República de Wei- mar e foram endereçados para um público acadêmico alemão em que o apoio e a compreensão da economia de mercado, nunca muito forte nes- ses círculos, quase desapareceram. Não era um bom momento para suti- lezas. Nem podemos esperar que as nuances do pensamento esclarecido encontrem um entendimento imediato. Temos ainda mais razões para ad- mirar o alto nível em que Mises conduz seu argumento, seu esforço para demonstrar que os problemas de epistemologia estão por trás das dispu- tas sobre as questões mundanas de política econômica.

Quando Mises escreveu esses ensaios, é claro que ele já era bem co- nhecido (para seus leitores alemães) como um teórico monetário; e, no início da década de 1920, ele havia estabelecido sua reputação como o principal crítico do socialismo em todas as suas formas. Nestes ensaios, entretanto, ele está lançando uma nova reivindicação a ser ouvido — a saber, como um metodólogo.

Para a maioria dos economistas austríacos e alemães da década de 1920, o Methodenstreit era uma disputa do passado, um caso infeliz que deveria ser esquecido. Como pessoas sensatas poderiam duvidar de que teoria e história fossem formas igualmente legítimas de busca de conhe- cimento? Como os dois protagonistas da disputa, Menger e Schmoller, pa- reciam aceitar isso, era difícil ver do que se tratava a violenta briga.

Mises tinha uma visão totalmente diferente. Para ele, o Methodens- treit não tinha acabado. Em sua opinião, o que estava em jogo não era a teoria como tal, a saber, generalizações empíricas; mas o tipo particular de teoria que Menger havia defendido, baseado no conhecimento neces- sário, não no contingente. Menger considerava que a tarefa da economia era estabelecer o que ele chamava de "leis exatas", leis que não requerem experiência para confirmá-las ou desmenti-las. Ele admitiu, é claro, a exis- tência de generalizações empíricas, mas pouco se interessou por elas. Sua posição era aristotélica. Nosso conhecimento das essências nos permite

chegar a "leis exatas" por meio da dedução. Ele considerava a lei do valor como uma instância dessa lei. No que diz respeito à busca por tais leis, ele não viu nenhuma diferença entre as ciências naturais e as sociais.

Mas, por volta da virada do século, ocorreu uma mudança na filoso- fia da ciência associada aos nomes de Mach e Poincaré, que enfatizou a natureza provisória e hipotética de todo o conhecimento científico e a consequente necessidade de confirmação empírica de todas as teorias.

Mises se considerava o verdadeiro herdeiro de Menger, certamente no campo da metodologia. Devido à mudança de clima de opinião menci- onada, a posição de Menger nesse campo tinha, na década de 1920, se tornado difícil de defender. Mas Mises não hesitou em sua tarefa. Ele dis- tinguiu entre nosso conhecimento abstrato da ação e nosso conhecimento das situações concretas nas quais a ação deve ser realizada. Ele admite que "se perseguirmos planos definidos, só a experiência pode nos ensinar como devemos agir em relação ao mundo externo em situações concre- tas". Ele continua,

No entanto, o que sabemos sobre nossa ação sob deter- minadas condições não deriva da experiência, mas da ra- zão. O que sabemos sobre as categorias fundamentais da ação — ação, economia, preferência, a relação entre meios e fins e tudo o mais que, junto com eles, constitui o sistema da ação humana — não deriva da experiên- cia. Tudo isso concebemos de dentro para fora, assim como concebemos verdades lógicas e matemáticas, a pri- ori, sem nos referirmos a nenhuma experiência. Nem po- deria a experiência levar ninguém ao conhecimento des- sas coisas se ele não as compreendesse de dentro de si mesmo.

Portanto, é preciso coragem para nadar contra a maré, uma quali- dade que em Mises nunca faltou. Também significava que em seu esforço ele tinha muitos inimigos e poucos amigos, mesmo em sua amada Vi- ena. Pois ele foi um desafio para os positivistas e empiristas de quase to- das as escolas, não apenas para os remanescentes um tanto atentos do que em 1930 havia sobrado da Escola Histórica Alemã. Devemos lembrar

que, precisamente nessa época, Viena havia se tornado a sede do positi- vismo lógico, do Círculo de Viena de Carnap e Schlick. Com isso em mente, é possível sentir que seu ardor crítico foi distribuído de forma um tanto desigual entre seus inimigos, muito dele dedicado aos historiadores ale- mães e muito pouco ao positivismo lógico — para não mencionar a escola nascente do existencialismo.

O que, então, ele realizou nesses ensaios? No primeiro deles, ele re- alizou duas coisas. Primeiro, ele separou a teoria do valor subjetivo de sua antiga dependência de uma teoria dos desejos. Para Menger, os desejos eram quase fatos fisiológicos, portanto, fomos capazes de distinguir entre os "reais" e os "imaginários". Mises estabeleceu as preferências humanas como as fontes últimas de ação e mostrou que elas encontram um lugar dentro da estrutura de uma lógica de meios e fins que deve formar a base de qualquer teoria de ação que deva satisfazer as demandas de nossa ra- zão. Escolhemos livremente nossos fins dentro das restrições que a natu- reza nos impõe. É a escassez universal de meios que limita o alcance de nossa ação.

Em segundo lugar, Mises abriu o caminho para que outros usassem a lógica dos meios e fins como a base da ciência econômica. O primeiro passo neste caminho foi dado com sucesso por Lord Robbins em 1932 com sua famosa definição do assunto da economia em termos de fins e meios. Essa definição logo ganhou aclamação quase universal. O que o professor Hayek em Economia e Conhecimento (1937) descreveu como "a pura logica da escolha" é, obviamente, idêntico à noção de Mises. Infeliz- mente, na década de 1940, caiu no esquecimento. O que hoje é conhecido como economia neoclássica repousa sobre uma teoria da escolha em que os fins não são escolhidos livremente pelos agentes econômicos, mas "da- dos" a eles na forma de curvas de indiferença: uma teoria da escolha mal nomeada, forçada ao leito de Procusto do determinismo.

O segundo ensaio, SOCIOLOGIA E HISTÓRIA, despertou muito interesse quando foi publicado pela primeira vez em 1929. Lá, Mises tenta chegar a um acordo com o trabalho de Max Weber. Era um empreendimento am- bicioso e Mises enfrentou uma tarefa formidável. Seria impossível para

nós descrever todas as nuances deste encontro nestas poucas páginas. O leitor deve ter em mente que quando Mises publicou o ensaio pela pri- meira vez, nove anos após a morte de Weber, a literatura sobre Weber era escassa, mesmo em alemão. Portanto, Mises tinha pouca orientação.

Em certo sentido, os dois pensadores foram aliados na tentativa de estabelecer uma ciência da ação, uma disciplina generalizante preocu- pada com questões de cultura. Nesse sentido, os dois são "sociólogos", embora Mises mais tarde tenha vindo a preferir o termo "praxeologia", ele nos diz. Ambos eram filosoficamente neokantianos, embora de marcas diferentes. Ambos concordaram que a economia deve ser considerada parte de uma disciplina mais ampla relacionada à ação humana.

Mas eles estavam em desacordo na maneira como concebiam a nova ciência. Mises, seguindo Menger, traçou uma distinção nítida entre teoria e história e atribuiu grande importância a ela. Por outro lado, para Weber, como para toda a Escola Histórica Alemã, essa diferença era intei- ramente uma questão de grau, e não de tipo. Mises reconhece e deplora isso por Weber

a diferença entre sociologia e história é considerada ape- nas de grau. Em ambos, o objeto de cognição é idên- tico. Ambos fazem uso do mesmo método lógico de for- mação de conceitos. Eles são diferentes apenas na exten- são de sua proximidade com a realidade, sua plenitude de conteúdo e a pureza de suas construções de tipos ide- ais. Assim, Max Weber respondeu implicitamente à ques- tão que outrora constituiu a substância do Methodens- treit inteiramente no sentido daqueles que negavam a le- gitimidade lógica de uma ciência teórica dos fenômenos sociais. Segundo ele, a ciência social é logicamente conce- bível apenas como um tipo especial e qualificado de in- vestigação histórica.

Em sua crítica da metodologia de Weber, Mises apresenta dois pon- tos importantes. Primeiro, ele critica a distinção de Weber entre ação "ra- cional com propósito" (zweckrational) e ação "racional com valor" (wer- tracional).

Isso nos leva a um exame dos tipos de comportamento que Weber contrasta com o comportamento racional (zweckracional). Para começar, é bastante claro que o que Weber chama de comportamento "valorativo" (wer- tracional) não pode ser fundamentalmente distinguido do comportamento "racional". Os resultados que a con- duta racional visa também são valores e, como tais, estão além da racionalidade ... O que Weber chama de conduta

"valorativa" difere da conduta racional apenas porque considera um modo de comportamento definido também como um valor e, portanto, o organiza na ordem de clas- sificação dos valores.

Esse parece um argumento bastante conclusivo.

Em segundo lugar, Mises é altamente crítico em relação ao “Tipo Ideal”, o conceito fundamental de Weber a ser empregado nos estudos sociais. Aqui, ele não estava sozinho. Uma feroz controvérsia se desenvol- veu sobre o significado e os méritos dessa noção elusiva, uma controvér- sia durante a qual alguns dos admiradores de Weber se tornaram seus críticos mais severos. No final, todos pareceram concordar que o Tipo Ideal é um conceito muito amplo para ser útil e que teria de ser reduzido, mas parecia impossível chegar a um acordo sobre a direção em que isso deveria ser feito.

Em The Legacy of Max Weber (Berkeley, Califórnia: Glendessary Press, 1971), sugeri que tornássemos “o Plano”, e não o Tipo Ideal, o ponto de partida e o conceito fundamental de uma teoria da ação so- cial. Como meios e fins, as duas noções às quais Mises atribuiu o caráter de conceitos fundamentais da teoria da ação, são combinadas e dadas forma concreta em planos, pareceria que dessa forma a objeção de Mises pode ser atendida.

O último ensaio, "CAPITAL INCONVERTÍVEL", foi originalmente a con- tribuição de Mises à um Festschrift para o economista holandês C. M. Ver- rijn Stuart.

Lá, ao lidar com "a influência do passado na produção" e "o malin- vestiment do capital", Mises indicou alguns problemas aos quais a teoria austríaca do capital mais tarde dedicou atenção. Seu argumento tem im- plicações importantes.

O estoque de capital em qualquer ponto do tempo nunca é o que seria se o presente tivesse sido corretamente previsto naqueles momen- tos do passado em que as decisões de investimento relevantes foram to- madas, quando o presente ainda era o futuro. Consequentemente, o esto- que de capital nunca tem sua "composição de equilíbrio", e o modelo de equilíbrio geral não pode ser aplicado a problemas relativos ao capital.

No ensaio, Mises na verdade não aponta essa implicação, embora o professor Hayek no capítulo II de sua Teoria Pura do Capital (1941) o fi- zesse. Como costuma acontecer com os pioneiros do pensamento, Mises não compreendeu imediatamente todas as implicações dos fatos cuja im- portância geral ele havia descoberto.

Durante a maior parte de sua vida, Mises, como vimos, teve de na- dar contra a maré. Destemido, ele pode muito bem ter obtido alguma sa- tisfação em sua luta solitária. Com a exceção bastante grotesca dos socia- listas de mercado, que às vezes lhe prestavam homenagens, o mundo aca- dêmico o ignorava. Seus poucos amigos admiravam sua coragem e tena- cidade, embora em seus corações muitas vezes desejassem que houvesse menos ocasiões para exibir essas qualidades.

Ultimamente, no entanto, a maré alta do positivismo lógico parece estar recuando, mesmo no mundo anglo-saxão. Em certos círculos, nota- mos, tornou-se até moda dizer que diferentes disciplinas podem ter que usar diferentes linguagens. Talvez não seja demais esperar que no clima de opinião que agora toma forma várias nuances de discurso esclarecido, até então negligenciado, encontrem uma compreensão mais rápida e que a "linguagem" dos meios e fins venha a ser reconhecida como um meio legítimo no qual expressar o pensamento humano sobre a ação.

Ludwig M. Lachmann

Johannesburg março/abril de 1978