Falar do trabalho que sustenta uma outra perspectiva de clínica no CAPS é trazer para a realidade deste campo complexo a reinvenção de saberes, práticas e relações que permeiam o campo da saúde mental. Somente pela disponibilidade afetiva/criativa do encontro com a diferença que é possível vislumbrar a construção/reconstrução de um caminho, de uma trajetória, de uma história. Deste modo, se a loucura é uma construção sócio-histórica é somente por meio da vida social e na vida social que ela poderá ser legitimada como outro modo de ser/estar no mundo.
É possível pensar que os espaços de desinstitucionalização da loucura funcionam neste agenciamento entre múltiplas linhas. Com as linhas de sobrecodificação do Estado, que colocam as normas operacionais dos serviços de saúde; com linhas biomédicas que codificam segmentos identitários e binários (normal e patológico); e com linhas de fuga que produzem desvios e micropolíticas, dando passagem a linhas de experimentação no campo social que constroem outros/novos modos de potencializar a diversidade.
O campo de forças que constituem o corpo social nos convoca a um questionamento permanente sobre os efeitos de nossas ações, sobre nossa relação com a alteridade e sobre os variados impasses que a vida nos coloca. Nesse sentido, a necessidade de ampliação da clínica, operada pelo desvio e pelo movimento, está
45 atrelada a um deslocamento da concepção tradicional sustentada pelo discurso biomédico de controle e assujeitamento. A ampliação da clínica “se apresenta como uma experiência do entre-dois que não pode realizar-se senão neste plano em que os domínios do eu e do outro, de si e do mundo, do clínico e do não-clínico se transversalizam”. (BENEVIDES DE BARROS & PASSOS, p.279, 2004).
Cabe ressaltar ainda que o processo de formação acadêmica é atravessado por inúmeras forças e fluxos, porem ele deve ser potencializado por experiências que viabilizem uma prática mais comprometida com os sujeitos. É importante pensar que os espaços acadêmicos não podem se transformar em meros depósitos de informações, como lugar instituído do saber, mas sim possibilitar aberturas para a formação de sujeitos criativos, inventivos, questionadores, colocados enquanto agentes que problematizam os regimes de verdade vigentes. Sujeitos que se deixem afetar sem subserviência a determinados saberes, possibilitando assim, reconstruírem cotidianamente a si e o mundo.
Longe de esgotar esta problemática, busco nesta escrita lançar os desafios e possibilidades da clínica num serviço público de saúde mental, na tentativa de provocar no leitor curtos-circuitos, entradas/saídas, movimentos de (des) territorialização e estranheza. Nas afecções/afetações que o percurso da graduação me propiciou, procurei escrever como quem é atravessado pelo mundo, mergulhando na experiência e descobrindo linhas e fluxos que se escondiam da superfície.
“ Os mais próximos não dizem senão o que lhes foi próximo, mas não dizem o longínquo que se afirmou nessa proximidade.
E o longínquo cessa assim que cessa a presença... A amizade, esta relação sem dependência, sem contingencias e onde entra toda a simplicidade da vida, passa pelo reconhecimento da estranheza comum que não nos permite falar de nossos amigos, mas somente falar a eles.... Falando a nós , eles reservam mesmo na maior familiaridade, a distancia infinita, esta separação fundamental a partir da qual o que separa torna-se relação”... (BLANCHOT, 1971)
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