2 GRANDES PARADIGMAS CATEQUÉTICOS PRESENTES NA IGREJA
2.1 Conceitos importantes
2.2.1 Paradigma catequético
A noção de paradigma não é usual na catequese. Ela entra no universo catequético pouco a pouco, mas especialmente graças à contribuição de Villepelet6. Nosso autor toma-a emprestado de dois grandes pensadores: o sociólogo e físico americano Thomas Kuhn7 e o filósofo e epistemólogo francês Edgar Morin8. O catequeta francês se vê estimulado a buscar novas compreensões das diversas formas de catequese que se apresentam nas comunidades cristãs. Para essa análise, ele se esforça, primeiramente, para compreender a sociedade pós-moderna, marcada pela complexificação e pela crise9. Essa complexificação da sociedade e seu estado de crise permanente obrigam a mudar a lógica do pensamento. Os pós- modernos rejeitam todo pensamento unívoco que poderia dar a razão das coisas de forma simplista10. “É a análise da complexificação crescente de nossas sociedades e de sua estabilidade dinâmica que nos conduziu a construir a noção de paradigma catequético e de seu funcionamento sistêmico”11. Essa análise de uma sociedade em plena mudança12 instiga Villepelet a buscar caminhos epistemológicos especialmente no mundo da filosofia das ciências. A partir daí ele formula o conceito de paradigma catequético.
6 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p.32.
7 Cf. KUHN, Tomas Samuel. La struture des révolutions scientifiques. Paris: Flamarion, 1972 (traduzido para o português sob o título: A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978). A utilização da teoria dos paradigmas na teologia já havia acontecido com o teólogo Michael Amaladoss. Cf. AMALADOSS, Michel. Diálogo y Misión, ¿Realidades en Pugna o Convergentes?. Selecciones Teológicas, n. 108, v. 27, 1988, p. 243-268. Mais recentemente, fez a mesma utilização Carmine Di Sante. Cf. DI SANTE, Carmine. Ripensare i sacramenti: dal paradigma naturalistico al paradigma dialogico. Note di Pastorale Giovanile, n. 26, 1992, p. 27- 35.
8 Cf. VILLEPELET, Dennis. Pratique et action. In: ROUTHIER, Gilles; VIAU, Marcel (orgs.). Précis de théologie pratique. Paris: L’Atelier, 2007. p. 121-136. E ainda: MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
9 As análises de Paul Ricouer vão servir de ponto de partida para os estudos de Villepelet. Cf. RICOEUR, Paul.
Philosophie de la volonté. Paris: Montaigne, 1960. v. 2. Pt. 1; De l’interprétation, essai sur Freud. Paris: Seuil, 1965; Le conflit des interprétations, essai d’herméneutique. Paris: Seuil, 1969. Além desse filósofo, como já dissemos, nosso catequeta se apoia no pensamento de Georges Balandier, Cornelius Castoriadis, Edgar Morin, Gianni Vattimo, Jean-Marc Lévy-Leblond, Roger Lewin e outros.
10 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission. p. 178.
11 VILLEPELET, Les défis de la transmission. p. 178.
12 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p.183.
O termo “paradigma” vem do grego e significa exemplo, modelo. Atualmente, porém, o termo “modelo”, segundo Villepelet, já não exprime mais o sentido original de paradigma; a expressão ganhou conotação cada vez menos científica e mais tecnológica, tomando o significado de protótipo13, o primeiro exemplar construído a partir do qual será reproduzida uma série do mesmo instrumento por meio da cópia idêntica14, como é o caso de um carro, por exemplo. Lembra o catequeta francês que, uma vez aprovado, o protótipo se torna o número zero de uma série de outros exemplares que virão a ser fabricados por meio da cópia idêntica do modelo produzido.
O paradigma não é um modelo nesse sentido: ele não é concebido para ser copiado nem imitado, mas para identificar ou compreender, para resolver problemas. O paradigma não define imperativos estratégicos ou programáticos que dispensariam a ação de toda responsabilidade reflexiva15. Dos dois pensadores que toma como base para elaborar o conceito de paradigma catequético, Villepelet retém algumas noções fundamentais:
Paradigma é uma experiência ou prática única, ímpar, exemplar, que apresenta uma solução pertinente e fecunda para um problema16.
Dessa experiência origina-se uma tradição de pesquisa, um núcleo de pensamento e estudo que abre portas para novas investidas científicas. Assim acontece com a cosmovisão de Galileu Galilei, a lei da gravidade de Newton, a teoria da relatividade de Einstein, a descoberta do inconsciente de Freud, e outros. Essas figuras tornaram-se paradigmáticas para a ciência por causa do mundo de possibilidades que se descortina após suas pesquisas e conquistas17.
Uma mudança de paradigma acarreta uma mudança epistemológica, pois possibilita novas formas de racionalidade. A partir de um novo paradigma, são recriados conceitos, categorias e articulações dinâmicas entre esses conceitos e categorias18. O paradigma diz “o modo de organização e de estruturação do pensamento, articula de forma racional as regras de leitura teórica da experiência”19.
13 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 298.
14 Cf. VILLEPELET, L’avenir de la catéchèse, p. 92.
15 VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 298.
16 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 304.
17 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 299 ; VILLEPELET, L’avenir, p. 92.
18 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 304.
19 VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 303.
Os paradigmas não nascem do nada, como num passe de mágica. Não são criação ex nihilo. Eles só podem ser tematizados apoiando-se nos paradigmas herdados, utilizando suas categorias e seus conceitos20. Pensa-se um novo paradigma a partir de um paradigma anterior, de dentro dele e com ele21.
Villepelet transfere “analogicamente o conceito de paradigma para o campo catequético na tentativa de compreender – sem reduzir – a riqueza e a diversidade das práticas catequéticas contemporâneas”22. Ele elabora teoricamente três paradigmas, cada qual relacionado com um tipo de sociedade que prevaleceu ou prevalece na história: a sociedade tradicional da cristandade, a sociedade evolutiva da modernidade e a sociedade complexa da pós-modernidade23: o primeiro, que está diretamente relacionado com a cristandade24 e seu modelo de sociedade tradicional; o segundo, que tem suas bases na modernidade25 e seu
20 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 301.
21 Cf. VILLEPELET, Les défis de la transmission, p. 304.
22 VILLEPELET, Denis. Propos sur les paradigmes catéchètiques. Catéchése, n. 165, 2001, p. 23.
23 Villepelet não se preocupa em definir cristandade, modernidade ou pós-modernidade. E, se ele o faz, é em função da catequese e não da sociologia, da filosofia ou da história. Em linhas gerais afirma que “tradição, modernidade e contemporaneidade são os conjuntos específicos de significações econômicas, políticas e culturais e suas interpretações por meio de formas filosóficas que pertencem ao próprio ‘plano de imanência do pensamento’. Esse plano de imanência é o sol a partir do qual a filosofia cria seus conceitos e o saber dá à luz a verdade. Para dar exemplos, podemos dizer que Platão ou Aristóteles, Tomás de Aquino ou Suarez estão sobre um mesmo plano de imanência, o pensamento da substância que tem por corolário o horizonte de sentido da tradição. Pode-se da mesma forma falar de Descartes, Leibniz, Hobbes ou Locke, Kant, Rousseau e Hegel, invocando o pensamento do sujeito e o horizonte de sentido da modernidade. Citemos enfim filósofos tão diferentes como Nietzsche, Heidegger, Levinas, Derrida, Deleuze ou Habermas para os quais o plano da imanência é o da crise contemporânea” (Les défis de la transmission, p. 362-363). Assim como Villepelet, também não teremos grandes preocupações com as definições desses termos, pois nosso trabalho fica circunscrito nos limites da catequética. Daremos apenas breves esclarecimentos que vão mostrar nossa compreensão desses períodos em consonância com Villepelet e outros autores afins.
24 Por cristandade, entendemos “a forma histórica que o cristianismo viveu durante os séculos em que ele pautou o comportamento religioso, moral e social das pessoas, das comunidades e dos povos” (LIBANIO, João Batista.
Os carismas na Igreja do terceiro milênio: discernimento, desafios e práxis. São Paulo: Loyola, 2007. p. 245).
25 A maioria dos autores chama de modernidade o período da história européia que vai dos séculos XIV/XV (Humanismo/Renascimento) até meados do século XX. Entendemos modernidade como o período que se caracteriza, sobretudo, pela crescente autonomia da razão (visão antropocêntrica) em relação ao sagrado (visão teocêntrica), que na cristandade é entendido como instância última de sentido e única fonte explicativa dos fenômenos da vida humana. Com a chegada da modernidade, a razão e o sujeito assumiram o protagonismo da história e tornaram-se centro e referência do universo, dos fenômenos e acontecimentos. Villepelet não entra em debate sobre a delimitação desse período. Como teólogo da catequese, para ele importam as características da catequese nesse período marcado pela renovação catequética, coroada com o Vaticano II.
modelo de sociedade evolutiva; e o terceiro, que se identifica com a pós-modernidade26 e sua sociedade de tipo complexa. Mas, apesar de ser uma elaboração teórica, nosso autor insiste em lembrar que o paradigma catequético não é resultado de teorização, de dedução lógica ou de especulação de gabinete onde se faz análise e síntese de determinadas práticas catequéticas. Também não é um modelo “elaborado in abstrato a partir de uma releitura da tradição catequética para criticar a diversidade de formas contemporâneas e tentar reconduzir à unidade de um modelo ideal”27. Os paradigmas emergem “reflexivamente e por indução a partir de práticas catequéticas consideradas como exemplares em razão de sua fecundidade e do dinamismo criativo que elas liberam em lugares precisos”28.
Ao observar essas diversas práticas catequéticas, o teólogo francês percebeu que elas se agrupam como estrelas, que, por mais singulares que sejam, formam constelações.
Notou que algumas práticas catequéticas se sustentam nas mesmas bases teóricas, têm os mesmos princípios articuladores, as mesmas características no ato de transmitir a fé, no modo de compreender a relação entre a fé que a Igreja transmite (fides quae) e a fé pessoal, tal qual ela é assumida pelo sujeito (fides qua), conceitos que tornaremos a aprofundar. Villepelet encontrou nas práticas catequéticas a mesma pertinência teológica, pois elas nascem da mesma teologia. Delas depreendeu paradigmas catequéticos, que não são protótipos aplicáveis ao pé da letra; são eixos orientadores do pensamento que servem de ponto de partida para novas reflexões que mobilizam, orientam e avaliam a pesquisa, a criatividade e a atividade catequética29.
Com as contribuições de Kuhn e Morin, Villepelet afirma que paradigmas catequéticos são experiências ou práticas catequéticas exemplares em torno das quais nasceu
26 Alguns preferem chamar a contemporaneidade de modernidade tardia (cf. MARDONES, José María. La Transformación de la religión: cambio en lo sagrado y cristianismo. Madri: PPC, 2005), modernidade superada (cf. SANNA, Ignazio. L´Antropologia cristiana tra modernità e postmodernità. Brescia: Queriniana, 2001.
Biblioteca di Teologia Contemporanea, 116) ou modernidade líquida (cf. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001) ou ainda outros nomes. Apesar de não haver pleno consenso entre os autores acerca da pós-modernidade (desde o nome até suas delimitações), há relativo acordo sobre as características do tempo contemporâneo: as ideologias do progresso e da mudança entram em crise; a imagem do homem e seu modo de projetar-se na história são transformados, a estética ganha força em contraposição à ética;
a pequena narrativa – baseada na subjetividade – substitui a grande narrativa etc. Denis Villepelet não se dá ao trabalho de procurar um nome mais apropriado para o tempo atual. Usa a expressão pós-modernidade, adotada por autores como Vattimo (cf. VATTIMO, Gianni. En torno a la posmodernidad. Barcelona: Anthropos, 2003.
p. 9-19) e Lyotard. (cf. LYOTARD, Jean François. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998). Assim também faremos ao longo de todo este trabalho.
Nosso interesse catequético, e não sociológico ou filosófico, não nos permite tal investigação.
27 VILLEPELET, Les défis de la transmisison, p. 316.
28 VILLEPELET, L’avenir, p. 93.
29 Cf. VILLEPELET, Propos sur les paradigmes, p. 23.
uma tradição que possibilitou a organização de categorias e conceitos que se dão em torno dessa tradição e do que dela advém30. É o caso, por exemplo, dos catecismos de perguntas e respostas posteriores a Trento31, que se difundiram pelo mundo inteiro e ainda perduram em algumas comunidades cristãs32. É o caso também da catequese renovada no Brasil ou catequese de fé e vida, oriunda da renovação catequética, que é hoje o carro-chefe da catequese paroquial na maioria das Igrejas Particulares do Brasil. Para Villepelet,
um paradigma catequético reúne um conjunto de experiências fecundas (o despertar da fé, as catequeses dominicais ou abertas a todas as idades, os grandes ajuntamentos litúrgicos...), de atitudes catequéticas requisitadas por essas experiências, de orientações amplamente partilhadas numa comunidade catequética para daí elaborar sua coerência33.
No seu entender, essas experiências, atitudes e orientações catequéticas dão visibilidade a práticas catequéticas exemplares que se tornam paradigmáticas e possibilitam formular paradigmas epistemológicos que são chaves de leitura dessas mesmas práticas catequéticas: um círculo hermenêutico que se completa e se complementa sem fechar nunca suas possibilidades devido à dinâmica criadora da práxis. “Um paradigma catequético não determina a prática, mas permite refletir sobre ela e orientá-la”34. Para nosso autor, o paradigma não exime a catequese de sua responsabilidade de recriação contínua, como seria o caso de um protótipo.