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Parceria intersetorial

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 86-89)

6 TERCEIRO SETOR

O Terceiro Setor são os agentes privados voltados para fins públicos. É a sociedade civil organizada, representada por ONGs, fundações, associações e cooperativas. O tema é pouco retratado pela imprensa e, quando abordado, freqüentemente refere-se à parceria intersetorial.

aos administradores é esse tipo de instrumento, o sucesso e os acertos são uma conseqüência quase certa. (Veja, 14/08/2002, p. 74)

Começa segunda-feira o desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas nem adianta correr para o Sambódromo: a escola da Zona Oeste vai entrar em cena, sim, mas em Brasília. O carnavalesco Chico Spinosa será o representante da agremiação no lançamento da Campanha Nacional de Doação de Órgãos, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso e do ministro da Saúde, Barjas Negri. Ano que vem, a Mocidade apresentará, na Marquês de Sapucaí, o enredo Para Sempre no seu Coração – Carnaval da Doação, contando a história do transplante de órgãos. (O Dia, 22/09/2002, p. 4)

Essa função fica clara mesmo quando não se cita o Estado na matéria, pois as ONGs destacadas quase sempre são as de assessoria. É o caso do Lions Clube e do Sonhar Acordado:

Os associados estão espalhados por 70 clubes, que vão da Baixada ao Vale do Paraíba, passando por cidades da Região Serrana. Uma célula importante no universo de 1,4 milhão de leões que atuam em 180 países. O programa Saúde ao Alcance de Todos acontece no terceiro sábado de cada mês na Praça do Poeta, ao lado do Museu da República. Qualquer pessoa tem direito a exames de sangue, medição audiométrica e visual, dos níveis de estresse e de auto-estima, pressão arterial, preventivo de mama e até corte de cabelo grátis. (Jornal do Brasil, 15/09/2002, p. C2)

Sonho que se junta junto é realidade. Pelo menos para os voluntários do projeto Sonhar Acordado, que há dois anos contribuem para a formação e educação de crianças carentes, recolhendo presentes e promovendo festas em creches e ONGs. (O Dia, 06/10/2002, p. 26)

Normalmente se destaca a possibilidade de ajuda financeira por parte do Estado:

De um lado, a rua que foi cenário do filme Cidade de Deus, recentemente lançado e que narra a ascensão do tráfico de drogas no Rio, só que com a fachada da casa pintada após as filmagens. Dentro, 1.200 crianças e adolescentes dividindo-se em aulas de dança, pintura, reciclagem de papel, musicoterapia, português, inglês, teatro, artes marciais e capoeira. Num mar de violência e pobreza, a sede da ONG Ação Comunitária – no número 153 da Rua Brejo Novo, na Favela da Cidade Alta, Cordovil – é uma ilha. (...) Depois do encaminhamento de pedido pelo Bird ao Ministério da Justiça, a coordenadora-adjunta da ONG, Rogéria Estrada, tem esperança de conseguir um financiamento do governo federal para investir na ampliação das atividades, principalmente aquelas relacionadas à qualificação profissional na área de informática. (Jornal do Brasil, 08/09/2002, p. C3)

A maioria dos motoclubes que faz trabalho social na Baixada tem pouca tradição. O que não impede bons resultados: apenas três clubes de motociclistas de Duque de Caxias conseguiram arrecadar, desde 2000, quase 16 toneladas de alimentos. (...) Mesmo reclamando da falta de apoio do governo nos seus eventos, eles colocam o pé na estrada e correm para ajudar a quem precisa. (Extra, 15/09/2002, p. 3)

O mesmo ocorre em uma matéria sobre a Associação de Skate e Bike da Rocinha,

mostrada como um meio de os jovens se distanciarem das drogas:

Conquistado o espaço no Ciep Ayrton Senna – graças ao projeto Escolas da Paz, do governo estadual – a Associação de Skate e Bike pretende agora criar uma escolinha na Rocinha. Entretanto, falta patrocínio.

– O pessoal tem talento e há quem leve o skate até como meio de vida, disputando campeonatos. Foi uma batalha para arranjar este espaço. Isto aqui é um incentivo para ninguém ficar à toa e é seguro também. Agora, queremos fazer cursos e criar uma escolinha aqui dentro, mas precisamos de ajuda financeira para manter professores e comprar material. A prefeitura bem que podia dar uma força – diz Adonis Cícero. (Extra, 11/08/2002, p. 3)

A matéria cita ainda que o material para construir os obstáculos de madeira necessários para a prática do esporte foi obtido com a ajuda de comerciantes, o que também pode ser caracterizado como parceria intersetorial. As atitudes individuais também são destacadas, como a doação de 20 skates realizada pelo skatista brasileiro Bob Burnkist. O mesmo ocorre com a biblioteca comunitária montada pelo pedreiro Evandro dos Santos:

Em breve, a biblioteca simples, que nasceu do sonho do pedreiro que aprendeu a ler com a Bíblia, se mudará para um novo endereço, num projeto financiado pelo Ministério da Cultura e assinado por Oscar Niemeyer. (Extra, 15/09/2002, p. 3)

Os veículos noticiam a parceria de empresas e ONGs com algo interessante para ambos os setores:

As duas fornecedoras de energia elétrica do estado – a Light e a Cerj – cada vez mais estão contratando mão-de-obra nas próprias comunidades, para driblar a violência imposta pelo tráfico. Os resultados têm sido positivos: áreas controladas pelo crime organizado, nas quais prestadores de serviços dessas empresas nunca conseguiram entrar, hoje contam com atendimento direto das companhias. (...) A iniciativa da Light foi planejada em parceria com a organização não-governamental Rocinha 21 e, hoje, 15 moradores realizam trabalhos de campo para a empresa.

(Extra, 01/09/2002, p. 14)

Com medo de perder turistas no município de Angra dos Reis, os empresários da Costa Verde estão criando uma associação para não deixar a principal atividade da região perder força. Na parceria com a ONG Ser Consciente, do biólogo Mário Moscatelli, 300 empresários se comprometeram a ajudar financeiramente a ajudar nos projetos que serão aplicados para a recuperação do meio ambiente. (Jornal do Brasil, 15/09/2002, p. C1)

Época noticiou que o presidente Fernando Henrique Cardoso pretendia instalar uma ONG ao deixar o governo, com a ajuda de empresários (30/09/2002, p. 44 e 46). Sobre a organização propriamente dita, a revista só informa que seu nome seria Sociedade de Direitos Constitucionais. A função parece ser uma informação irrelevante. O destaque é dado para as

palestras que Fernando Henrique pretende fazer em instituições estrangeiras e para o prédio histórico em que a ONG seria instalada com a ajuda de empresários.

Foi constatado que a parceria intersetorial é constantemente ressaltada quando a imprensa aborda temas relacionados a ONGs. São destacadas as parcerias do Terceiro Setor tanto com o Estado quanto com o mercado. Baseado apenas no que a imprensa informa, pode- se questionar até que ponto o Terceiro Setor se constitui em algo à parte dos outros dois setores, ou com poder autônomo para promover mudanças sociais.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 86-89)