Como dito anteriormente, a presente pesquisa nasceu a partir da inquietação e das discussões constantes com outros profissionais da área, bem como da análise dos resultados dos meus estudos anteriores já referidos (FONSECA, 2015). A escolha de docentes como foco da coleta de dados parte do pressuposto do que Freire (2016) já anunciava ao afirmar que todo docente já foi e continua sendo aluno: “É interessante observar que a minha experiência discente é fundamental para a prática docente que terei amanhã ou que estou tendo agora simultaneamente com aquela” (FREIRE, 2016, p.87). Pode-se dizer que todo docente de uma LA também já vivenciou o processo de aquisição da competência oral, adquirindo esta LA mínima e satisfatoriamente
A escolha de instituições privadas de ensino deve-se ao fato de grande parte dos alunos de Língua Francesa concentrarem-se nesses estabelecimentos. Além disso, esse recorte no corpus de análise decorre da escolha de docentes que lecionam para um público que escolheu aprender uma LA; não sendo, assim, exposto a ela por obrigação de um sistema de
ensino, caso dos estudantes menores de 18 anos inscritos em colégios que possuem a Língua Francesa em seus currículos, os quais seguem as especificações do MEC.
Atendo-se aos objetivos de identificar e mapear os principais obstáculos encontrados pelos docentes no momento da aquisição da oralidade, bem como conduzi-los a uma reflexão sobre sua prática, optou-se por utilizar como abordagem norteadora a pesquisa qualitativa, em contraposição à abordagem quantitativa, posto que aquela atende às inquietações de ordem mais subjetiva, a linguagem e o processo de ensino-aprendizagem na relação com o indivíduo.
Assim, a abordagem qualitativa
considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicos no processo de pesquisa qualitativa. Não requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta de coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. É descritiva. Os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos principais de abordagem (KAUARK et al., 2010, p. 26).
Para os interpretacionistas, os estudos que possuem a atividade humana, intimamente ligada ao contexto social e à interação, têm de ser tratados de forma interativa e interpretativa, uma vez que ao interagir e interpretar o mundo e suas relações, o homem constrói sentidos para sua existência. Conforme Chizzote (2003, p. 230),
a posição social do autor da pesquisa, a onipotência descritiva do texto científico, a transição objetiva da realidade são postas em questão: o pesquisador está marcado pela realidade social, toda observação está possuída de uma teoria, o texto não escapa a uma posição no contexto político e a objetividade está delimitada pelo comprometimento do sujeito com sua realidade circundante.
Assim, a investigação qualitativa pretende evidenciar a polivocalidade dos participantes. No caso deste estudo, pretende-se dar voz aos professores de FLA, como dito anteriormente, por também assumirem o papel de aluno. A partir do relato dos docentes, conscientes do processo de ensino-aprendizagem do qual são duplamente participantes, ao ensinarem e ao aprenderem, pretende-se analisar quais estratégias de aprendizagem, em especial às ligadas à PO, são utilizadas, para assim, entender como este processo ocorre, bem como ajudar os docentes a refletir sobre sua formação e construção.
A pesquisa aqui desenvolvida está intimamente ligada à realidade desta pesquisadora, visto que, por também ser professora, compartilha da realidade dos participantes, colegas professores, tendo uma maior familiaridade com o problema a ser investigado. Deste modo,
em concordância com os procedimentos técnicos, a metodologia orientadora escolhida trata-se da pesquisa-ação, dado que
A pesquisa-ação estaria presente como metodologia de investigação que permitiria ao futuro professor compreender melhor o contexto em que atua e sistematizar esses conflitos para que eles não sejam apenas um fator angustiante, mas sim um avanço em sua formação como professor-pesquisador (LEFFA, 2008, p. 305).
Segundo Moita Lopes (1996, p. 89), somente a pesquisa-ação nos permitiria tamanha participação, uma vez que tanto esta pesquisadora quanto os participantes estão envolvidos no contexto da sala de aula, lidando com a árdua tarefa de aprender e ensinar uma LA. Por isso, todos estão dispostos a participar e cooperar para encontrar a solução, ou soluções, às suas inquietações.
É mister salientar que o objetivo desse estudo não é apresentar verdades absolutas, por ser uma pesquisadora em um contexto aplicado, no qual “a validade da investigação humana recorre à possibilidade de se traduzir a experiência humana em um texto” (SMITH, 1993;
TIERNEY e LINCOLN, 1997 apud CHIZZOTTI, 2003, p. 231). Pretende-se demonstrar a interpretação de dados a partir da fundamentação teórica escolhida. Ademais, o resultado desse estudo é um recorte interpretativo, devido à subjetividade que também caracteriza a pesquisa qualitativa.
Ainda consoante aos objetivos deste estudo, Thiollent (1986, p. 16) afirma que há uma demanda por
pesquisas nas quais as pessoas implicadas tenham algo a “dizer” e a “fazer”. Não se trata de simples levantamento de dados ou de relatórios a serem arquivados. Com a pesquisa-ação os pesquisadores pretendem desempenhar um papel ativo na própria realidade dos fatos observados.
Leffa ainda complementa que a pesquisa-ação,
quando implementada ainda na fase de formação do professor, permite a ele refletir sistematicamente sobre os conflitos inerentes a uma posição complexa como a que ocupa, uma vez que o licenciando caminha no campo limítrofe entre a docência e a discência (LEFFA, 2008, p. 305).
Com isso, esta pesquisa tem o intuito de fomentar a reflexão naqueles que a lerão, posto que ao analisar o processo de aquisição da oralidade nos docentes, pretende-se possibilitar um panorama deste processo, para que, com a identificação e a posterior reflexão,
possam estar mais conscientes do papel de ensinar e de aprender uma LA, das dificuldades e certezas, fomentando em si mesmo, por meio da troca de experiência e informações, caminhos para alcançar uma competência de produção oral satisfatória para aquele que escuta, mas muito mais para aquele que produz.