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Nos estudos realizados de forma virtual, é preciso considerar que os vínculos estabelecidos online e na web em geral, não são automáticos e, tampouco, inconscientes. De acordo com D´Andrea (2020, p. 14), “artefatos tecnológicos e práticas sociais se coproduzem”. É necessário levar em conta que os mecanismos da internet como algoritmos, termos de uso etc. podem moldar as condutas e percepções dos usuários, assim como as tomadas de decisão, tanto individuais quanto coletivas.

Tais escolhas, por sua vez, reinventam diariamente as plataformas online.

O objetivo deste estudo nunca foi pesquisar as plataformas online em si, no entanto, com as mudanças necessárias que aconteceram no processo de geração de

dados, não pude desconsiderar como as aulas de forma online influenciaram os processos de ensino aprendizagem nos cursos superiores que acompanhei. Foi necessário levar em conta que a atividade universitária, as conexões sociais e a vida coletiva, mais do que nunca, estavam profundamente mediadas pela tecnologia. Já com relação às plataformas escolhidas para a realização das aulas, não podia me ater somente à dimensão relacional que estas apresentavam, mas, deveria também levar em conta que aqueles espaços virtuais específicos eram marcados por “aspectos materiais, econômicos, políticos etc. da conectividade online.” (D´ANDREA, 2020, p.18).   

Consciente da importância em atrelar esta tese aos fenômenos do mundo virtual, busquei entender o lugar e o contexto no qual esta pesquisa necessitou ser inserida devido às circunstâncias que a pandemia de Covid-19 impôs às instituições de ensino. Para investigar os processos de ensino aprendizagem que aconteceram de forma online, busquei aporte teórico nos Estudos de Plataforma que tem como base metodológica e conceitual os chamados Estudos de Ciência e Tecnologia, Science and Technology Studies (STS) sua sigla na língua inglesa. Tais estudos apresentam caráter interdisciplinar e problematizam as particularidades dos sistemas online e mídias sociais. Busquei articular os estudos de plataforma ao modelo de trabalho etnográfico online e para isso foi importante, também, abordar as noções de plataforma e plataformização descritas por Van Dijck, Poell & Wall (2018).

De acordo com Van Dijck et.al (2018, p. 4), “uma plataforma online é uma arquitetura projetada para organizar interações entre usuários – não apenas usuários finais, mas também entidades corporativas e órgãos públicos”. São ambientes digitais criados a fim de conectar pessoas e são capazes de moldar escolhas e práticas sociais. Há plataformas que centralizam uma série de atividades do nosso dia a dia como, por exemplo, plataformas para ouvir músicas e podcasts, para assistir filmes, para deslocamento urbano e no caso desta pesquisa, plataformas para assistir e ministrar aulas. As práticas cotidianas são mediadas por diversas plataformas e aplicativos que acabam estabelecendo novos vínculos na web.

Com o advento da web 2.0 as dimensões da vida pública e privada aparecem cada vez mais mescladas, há uma linha muito tênue que separa tais esferas no mundo das conexões online (D´ANDREA, 2020). Um exemplo que ilustra tal afirmação é o fato de que, com as aulas online, várias pessoas fora de nosso convívio familiar, que geralmente só veríamos na instituição de ensino, passaram a frequentar de forma

virtual as casas uns dos outros, na esfera íntima. No momento em que se abriam as câmeras, podíamos ver a disposição dos móveis, outras pessoas que também viviam nas casas e que eventualmente apareciam na tela, ouvir os sons daqueles lugares. A plataforma educacional que estava sendo utilizada permitia essa dinâmica, esses rearranjos. Estávamos ao mesmo tempo em nossas casas e nas casas de todas as colegas e professoras durante as aulas online.

Já o termo plataformização é um desdobramento conceitual da própria noção de plataforma. Segundo D´Andrea (2020, p.56), “as lógicas de plataformização reconfiguram, de modos variados, as práticas de conversação, a mobilidade urbana, o jornalismo, a saúde ou a educação”.

A vida em sociedade é atravessada direta e indiretamente pelos fenômenos da plataformização, o que é chamado por Van Dijck et al. (2018) de “Sociedade da plataforma”. Por isso, é tão importante levar em conta que estas estruturas estão presentes e atuam em diferentes esferas e níveis da vida coletiva, moderam rotinas online e concentram uma parte das atividades do nosso cotidiano. A plataformização de várias esferas de nossa vida reorganiza práticas do cotidiano em diferentes níveis, desta forma, o dia a dia é transpassado direta e indiretamente por estas estruturas digitais. Várias esferas de nossa vida social são rearranjadas em diferentes níveis através da plataformização.

As plataformas escolhidas para as aulas online não eram somente instrumentos intermediários entre as docentes e os grupos de alunas, obviamente havia uma dimensão relacional, entretanto, outros aspectos permeavam aqueles espaços. Na contemporaneidade, as plataformas influenciam na maneira como entendemos e conduzimos nossos vínculos interpessoais. As relações estabelecidas nas aulas online apresentam também uma lógica de sociabilidade proposta pela própria plataforma escolhida (D’ ANDREA, 2020). Por exemplo, o nível de interação que a sala virtual permite como fazer uso de sua câmera, do microfone, visualizar colegas, a possibilidade de enviar imagens e links para pesquisa, de escrita no chat etc. Segundo Tom Boellstorff et al. (2012, p. 74): 21Em geral, então, a realização de pesquisas em mundos virtuais requer a aquisição de conhecimentos consideráveis, não apenas na cultura que está sendo estudada, mas na mecânica do próprio

21 Overall, then, conducting research in virtual worlds requires acquiring considerable expertise, not only in the culture being studied but in the mechanics of the software itself.

software.” Por isso, foi tão importante compreender o funcionamento das ferramentas utilizadas pela comunidade acadêmica na execução desta pesquisa. A título de exemplo, as alunas passaram a identificar que quando desligavam suas câmeras a conexão de internet tendia a melhorar, quem estava falando ou apresentando um trabalho não tinha sua voz travada ou entrecortada. Como no exemplo que retirei de uma das aulas online que assisti:

Aluna 122: - Mi experiencia personal, sobretodo con el tema, (trava) Aluna 2: - Humm, creo que se está cortando ¿verdad?

Professora: - Betânia, se te está travando, tá travando o áudio, a gente não consegue te ouvir.

Aluna 1: (trava, trava, trava)

Professora: - Tenta desligar a câmera pra ver se a...

Aluna 1: (trava, trava, trava).

Professora: - Betânia?

Aluna 3: - Desativa la cámera para escucharte mejor, gracias.

Aluna 1: - Oi, tão me ouvindo?

Aluna 2: Ahora sí, mejor.

Durante o período de Ensino Remoto Emergencial (ERE), a instituição de ensino pesquisada indicou quatro plataformas com recursos de gravação que poderiam ser utilizadas pelas docentes e alunas, sendo elas o Google Meet, a WebConf, o Jitsi Meet e o Zoom. A Universidade criou um manual que explicava o funcionamento e as particularidades de cada ferramenta e que pode ser baixado de forma online no site da própria instituição. Além dos manuais que podem ser consultados, há também tutoriais que tinham como objetivo auxiliar as discentes com relação ao acesso e navegação nos ambientes virtuais institucionais. Toda esta gama de informações sobre as ferramentas de apoio à aprendizagem precisou ser levada em consideração no decorrer da escrita desta tese.

A seguir, descrevo como se deu minha inserção nas aulas online e grupos de WhatsApp das disciplinas que citei no quadro 2.

22 Chamei a aluna 1 pelo nome de Betânia, a fim de manter a confidencialidade das participantes da pesquisa.