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Planejamento curricular, uma abordagem na ótica de Danilo Gandin

Um plano é bom quando contém em si a força que o faz entrar em execução.

Ele deve ser tal que seja mais fácil executá-lo do que deixá-lo na gaveta. (GANDIN, 2007)

A princípio faz-se necessário trazer à discussão uma questão que, muitas vezes, surge nos centros de formação de Língua Portuguesa, que parece ser de concordância geral: ―por que não gostamos de planos?‖

Em sua obra ―Planejamento como Prática Educativa‖, Danilo Gandin (2007) traz à discussão a aplicabilidade do planejamento, discorre que sua ineficácia se dá, algumas vezes, por conta de alguns fatores, dentre eles da existência do que chama de ―planejadores‖, e que tal existência bloqueia a execução do plano, visto que a existência de ―planejadores‖ supõe a existência de ―executores‖ e ―avaliadores‖, ou seja, já há uma secção nas funções que se encontram subdividas por responsabilidades, o que provoca um descrédito pela falta de participação de todos em todo o trajeto de produção, sobre o que o autor se pronuncia:

Em primeiro lugar, a própria existência do ―planejador‖ bloqueia a execução do plano. Parece claro que, se há ―planejadores‖, há

―executores‖ e depois, ―avaliadores‖. Em geral, os ―planejadores‖ são poucos e os ―executores‖, uma porção. Como resultado, temos uma pessoa, ou algumas, apontando a direção para todo um grupo que, se tiver consciência crítica, não aceita tal situação e que se tiver consciência ingênua ou mítica, pode ser levado pela força ou pelo engodo. Em qualquer desses casos, desprestigia-se o planejamento, que tem a difícil função de organizar a ação sem ferir a liberdade e a riqueza dos participantes de um grupo. (GANDIN, 2007, p. 25, 26) O propósito do planejamento deveria atender a todas as etapas – planejar, executar e avaliar –, entretanto, consoante o autor, o que se percebe é o planejamento sendo produzido por poucos, a execução sendo contestada por outros; ou a não execução, por muitos. Isso deixa a avaliação, que deveria ser o momento de repensar estratégias para um novo planejamento, esquecida, o que faz com que o planejamento permaneça inalterado e engavetado por um tempo maior do que deveria, sem ser repensado.

O autor levanta a discussão sobre a elaboração do planejamento conduzida pelo que chama de experts de forma burocrática, com o preencher de formulários ou fichas que não servirão para nada. Exclui-se, abandona-se um planejamento elaborado de forma democrática e usual, o que acarreta o desconhecimento do que poderia ser atingido.

Gandin (2007) sugere que haja falta de capacitação técnica das pessoas responsáveis pelo planejamento ou as que acompanham o processo de produção deste, conduzindo ao fracasso sua execução. Conclui que as causas para o

fracasso do planejamento apresentadas atendem ao interesse de uma parcela, a qual denomina por ―donos‖ os quais não querem que mudanças ou transformações ocorram na sociedade, coadunando com a ideia de poder ser envolvida também no processo de planejar, da mesma forma que há na produção do currículo. (SILVA, 2017)

Quando discutimos planejamento educacional, indiretamente, ou diretamente, estamos falando de currículo, posto que, segundo Tomaz Tadeu Silva (2017), mesmo desconhecendo uma palavra que nomeasse tais atividades, os professores sempre estiveram envolvidos em planejamentos curriculares, consciente ou inconscientemente com a atividade que ora praticavam.

Na mesma obra, Gandin (2007) trata sobre a eficiência e a eficácia do planejamento, e destaca que não é suficiente que o planejamento seja eficiente.

Apresenta o exemplo do homem que picava papel em minúsculos quadradinhos com extrema eficiência, entretanto, seu trabalho, que era executado com tamanha eficiência, não tinha nenhuma eficácia, visto que, ao término da atividade, jogava-os fora. Logo, para ser completo, deve apresentar não só eficiência, mas também eficácia na sua aplicabilidade.

Ao compreender o processo de planejamento como um processo educativo, com participação democrática, visando à libertação, conjugando ―vida e técnica para o bem-estar do homem e da sociedade‖ (GANDIN, 2007, p.18), o autor vai diretamente ao encontro dos objetivos das teorias críticas do currículo aqui pesquisadas.

Para dar início ao processo, o autor apresenta algumas definições de planejamento:

a) Planejar é transformar a realidade numa direção escolhida.

b) Planejar é organizar a própria ação (de grupo, sobretudo).

c) Planejar é implantar ―um processo de intervenção na realidade.

(ELAP)

d) Planejar é agir racionalmente.

e) Planejar é dar certeza e precisão à própria ação (de grupo, sobretudo).

f) Planejar é explicar os fundamentos da ação do grupo.

g) Planejar é pôr em ação um conjunto de técnicas para racionalizar a ação.

h) Planejar é realizar um conjunto orgânico de ações, proposto para aproximar uma realidade a um ideal.

i) Planejar é realizar o que é importante (essencial) e, além disso, sobreviver...se isso for essencial (importante). (GANDIN, 2007, p.19,20)

Importante ressaltar o fim a que se destina o ato de planejar, quando o autor critica o ato sem reflexão, que se dá de forma automática sem antes atentar à pergunta ―para que‖ das ações planejadas. Ele dá como exemplo o indivíduo a quem atribuíram a tarefa de trocar de lugar as cadeiras de uma sala, de forma que as dispusessem de maneira diferente, no que se dedicava continuamente, tornando-se um expert, sem se questionar o ―para que‖ de suas ações.

Gandin (2007) sinaliza as formas diferentes do planejar, de acordo com as esferas de interesse, como para a indústria, o comércio, o governo ou as tarefas sociais, e apresenta uma dualidade na educação, em que se busca um posicionamento sempre pronto e sempre provisório. Divide esse posicionamento em duas partes, uma política – ―no sentido de uma visão do ideal de sociedade e de homem‖ – e outra pedagógica – ―no sentido de uma definição sobre a ação educativa e sobre as características que deve ter a instituição em que se planeja, uma escola, por exemplo‖. (GANDIN, 2007, p.22)

A respeito da pergunta: ―a que distância estamos daquilo que queremos alcançar?‖, Gandin apresenta a necessidade de diagnóstico para, a princípio, responder à questão. Afirma:

Sabendo aonde queremos chegar (em termos de estrutura e funcionamento da instituição em planejamento, a fim de que ela contribua para determinado tipo de homem e de sociedade), deveremos perguntar se estamos longe ou perto disto, se a distância é de um tipo ou de outro, se há tendências de melhoria ou de degeneração...

A resposta a esta questão não é, essencialmente, uma descrição da realidade, mas um juízo sobre ela. Poderíamos apresentar a pergunta de outra forma: o que estamos fazendo contribui (até que ponto?) para a existência daquilo que queremos alcançar? (GANDIN, 2007, p.22)

A última questão que Gandin considera fundamental no planejamento: ―o que é necessário e possível concretamente para diminuir a distância entre o que se faz e o que se deveria estar fazendo". A isso o autor chama de programação, em que inclui os objetivos e as políticas de ação.

Deve-se estabelecer, segundo o autor, quais ações deverão ser praticadas, para atingir os fins estabelecidos dentro de um determinado período, e os princípios que controlarão as ações dentro do período em que estiver validado o plano. Conclui com a seguinte definição sobre planejamento de educação:

Planejar é:

elaborar – decidir que tipo de sociedade e de homem se quer e que tipo de ação educacional é necessária para isso; verificar a que distância se está deste tipo de ação e até que ponto se está contribuindo para o resultado final que se pretende; propor uma série orgânica de ações para diminuir essa distância e para contribuir mais para o resultado final estabelecido;

executar – agir em conformidade com o que foi proposto; e

avaliar – revisar sempre cada um desses momentos e cada uma das ações, bem como cada um dos documentos deles derivados.

(GANDIN, 2007, p.23):

Segundo o autor, precisamos atuar diretamente sobre aquilo que estabelecemos como objetivo, a partir das evidências que surgirem, durante o processo, sobre o que se está realizando.