No segundo semestre iniciamos as atividades em outra turma, que tinha um perfil diferente da primeira, por incluir alunos mais velhos (de até 15 anos) e dois alunos com deficiência intelectual e um com deficiência motora. Quanto aos alunos mais velhos, percebemos que demonstravam pouco interesse nas aulas de música e nos perguntávamos o que poderíamos fazer para desper- tar seu interesse pelo trabalho. Para tanto, procuramos nos aproximar deles, observando suas particularidades, interesses pessoais e potencialidades que poderiam ser destacadas no decorrer do trabalho.
Nas primeiras aulas, apenas acompanhamos o trabalho da professora Gabriela, observando as reações da turma, e alguns conflitos típicos dessa faixa etária ficaram bem evidentes, como agressões verbais ou mesmo físicas, principalmente entre meninos e meninas, sendo necessária a intervenção da professora. Nessa turma, a professora vinha realizando uma proposta de com- posição, em que os alunos primeiramente criaram uma nova letra para a canção tradicional Se essa rua fosse minha e depois musicalizaram a letra que eles haviam elaborado, substituindo a melodia da canção original.
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Dando continuidade à ideia desenvolvida no semestre anterior, com esta turma também planejamos uma atividade de musicalização de textos, selecio- nando vários poemas do livro Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, de Ricardo Silvestrin (2004). Neste livro, cada poema descreve, de maneira divertida, alguns planetas imaginários, como o Planeta Sujs, onde nin- guém toma banho, o Planeta Sim, onde a resposta para tudo é sim, ou o Planeta Gugus, onde as crianças nascem velhas e morrem bebês. Para a realização da atividade a turma foi dividida em cinco grupos e cada grupo escolheu um poema diferente. O critério para escolha dos grupos ficou a cargo dos próprios alunos, ocorrendo algumas trocas de grupo no decorrer do trabalho, além de um aluno que participou de mais de um grupo. Após a formação dos grupos, distribuímos cópias dos poemas para que o trabalho fosse iniciado.
Escolhidos os poemas, os alunos primeiramente falavam o poema segu- rando um pulso que soasse musical, mas sem contornos melódicos. Também foi dada a liberdade aos alunos de mexer na estrutura dos poemas, repetindo algumas frases, invertendo a ordem das frases dos poemas e algumas vezes trocando algumas palavras quando os alunos achavam que outras palavras po- deriam soar melhor musicalmente. Durante esta etapa, começavam a surgir as primeiras ideias melódicas.
Em relação aos ritmos usados com os instrumentos de percussão pelos alunos nos ensaios e nas apresentações, percebemos que as experiências de aulas anteriores foram importantes para o a realização do trabalho. A maioria dos ritmos usados pelos alunos nas composições já tinham sido abordados em aulas anteriores e os alunos já estavam mais familiarizados com o manuseio dos instrumentos de percussão. Percebemos também que na maioria dos grupos, um ou dois dos alunos tinham as ideias principais, mas a contribuição de todos se fazia importante no processo de criação das musicas, ou seja, todos se sentiam compositores daquela música e todos participaram das apresentações em sala.
Como esta atividade já tinha sido realizada algumas vezes e os alunos já estavam familiarizados com este tipo de proposta, nossa função, junto com pro- fessora Gabriela foi de intermediar e ajudar os alunos a organizar suas ideias de arranjos e contornos melódicos das músicas que estavam sendo compostas e algumas vezes as brigas entre eles. Todos os grupos tiveram a intervenção dos professores, que não ficavam fixos em nenhum grupo, passando de grupo em grupo, observando e opinando sobre as músicas, tocando com os alunos nos ensaios e nas apresentações em sala.
No decorrer da atividade, percebemos que este tipo de proposta des- perta um grande interesse nos alunos, em especial nos alunos mais velhos, que estavam muito empolgados na produção e arranjo das próprias músicas.
111 Percebemos também um aumento no senso crítico de alguns alunos, que ha-
viam realizado um excelente trabalho na primeira atividade e que não ficaram satisfeitos com suas músicas desta vez.
Desta vez nem todos os grupos puderam apresentar seus trabalhos no final da aula, então decidimos dar continuidade à atividade na aula seguinte, solicitando que os alunos se reunissem novamente nos grupos, possibilitando uma melhoria nas suas músicas. Nesse processo, alguns alunos mudaram de grupo, mas a maior parte se manteve igual à aula anterior. No final da aula todos apresentaram suas composições, inclusive aqueles que já haviam apresentado na aula anterior. Essas apresentações, bem como trechos do processo de com- posição de cada grupo foram filmadas, com o objetivo de registrar as composi- ções para posterior análise.
Assim como nas atividades desenvolvidas anteriormente, os alunos se en- volveram muito no processo de composição em pequenos grupos, mostrando engajamento e compromisso com o trabalho. Nesta turma, de maneira ainda mais acentuada, percebemos que os resultados positivos das atividades esta- vam motivando aqueles alunos que, a princípio, pouco pareciam se interessar pela aula de música. No decorrer da atividade, foi visível o avanço das crian- ças no sentido de dar contorno melódico e uma intenção harmônica às suas composições. Além disso, muitas situações nos indicavam o real interesse dos alunos no trabalho. Destacamos, por exemplo, o fato de que muitas vezes o trabalho nos pequenos grupos era realizado no pátio da escola, espaço em que a presença de outras crianças era constante, o que poderia facilmente desviar a atenção das crianças, mas quase nunca isso se deu. Os alunos com defici- ência motora e intelectual também participaram ativamente, especialmente no momento das apresentações das composições.
Depois do trabalho com as músicas dos planetas, sugerimos que a turma compusesse sobre poemas de autoria dos próprios alunos. O resultado mais uma vez foi muito interessante, envolvendo os alunos inclusive em horários fora da aula, pois alguns produziram poesias em casa e as trouxeram a aula para mostrar aos colegas, sugerindo que fossem musicadas pelo seu grupo. O tema predominante foram poemas de amor, sugeridos pelas meninas, que foram mais ativas nessa atividade. Como muitos alunos haviam faltado aula nesse dia, somente um grupo foi composto só de meninos. Um grupo era só de meninas, um só de meninos e um grupo de meninos e meninas, além disso, uma aluna da turma fez e apresentou uma musica sua sozinha e participou de outro grupo.
O grupo misto compôs uma canção sobre samba muito alegre, com melodia e forma bem definidas. O grupo das meninas fez uma música que lembrava um pagode, com letra romântica e com um belo contorno melódico e o grupo que era só de meninos compôs um baião parecido com um repente.
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